maio 16, 2008

Impressões descuidadas do Chile

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Que Suíça, que Inglaterra. O país mais circunspecto do mundo é o Chile. Santiago, pelo menos. Passei lá uns dias e me senti verdadeiramente oprimido pela sisudez dos santiaguinos. No metrô, na rua, nos restaurantes, tons sempre de cinza, preto, marrom, fisionomias contraídas, vozes baixas, uma sensação sufocante de tudo certinho e no seu devido lugar. Me deu vontade de estapear uns jovens universitários, aos gritos de "seja extravagante, porra". Nunca antes tinha me ocorrido, aliás, que a extravagância está relacionada à oxigenação. Retire-a completamente de um recinto, e a respiração fica difícil (embora não tenha visto nenhum chileno se contorcendo arroxeado no chão - eles se acostumaram a atmosferas de extravagância rarefeita, assim como os andinos em geral se dão bem com a escassez do oxigênio real). E os chilenos me pareceram incrivelmente disciplinados, uma sociedade castrense, que não ladra mas morde, e ruim de encarar num conflito militar. Em frente ao Palacio de La Moneda, havia umas tendas com uma exposição sobre não-sei-quantos-anos da criação dos carabineros, a polícia militar deles, se bem entendi. Um taxista que gostava do Pinochet me disse que os carabineros são a instituição mais respeitada do Chile. Apesar do handicap de isenção, acho que ele pode ter falado a verdade (citou pesquisas e coisa e tal). Na tal exposição, havia diversos deles, impecavelmente uniformizados (fiquei pensando nos nossos PMs gordões e amarrotados). Acho que os carabineros passaram o cerol nos tempos da ditadura, não foi? A indumentária mais antiga, mostrada em fotos na exposição, me pareceu muito inspirada nos uniformes nazistas, se bem que em uma certa época os uniformes em geral tinham mais ou menos aquele estilo. O taxista me disse que os carabineros são incorruptíveis, e que uma das idéias mais infelizes no Chile é a de tentar molhar a mão de algum (ou alguma). De novo, não tenho como comprovar, mas me pareceu factível. E não, não apóio forças policiais, corruptíveis ou não, que matam e torturam durante ditaduras, se este é o caso. De qualquer forma, na tal exposição havia fotos de carabineros devidamente paramentados em motos, skis, mergulho submarino, acompanhadas de mostras dos respectivos uniformes, dando a impressão daquelas tropas de elite modernosas e arrojadas, que despertam o entusiasmo varonil da população. E havia também este menininho aí fantasiado de carabinero, e arrastado com muito orgulho pela mão da mamãe. Conclusão: sei lá



maio 14, 2008

Barraco no matagal II

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Carlos Minc vai substituir Marina Silva. Como o Arranhaponte, eu não entendo nada do assunto. Não sei avaliar se Marina foi uma boa ministra. Ela pelo menos tinha credibilidade, principalmente por causa da pele verde malária, resultado das 357 vezes em que teve a doença. Mas Minc não dá. Como confiar num sujeito que tem cabelinho príncipe valente e usa coletinhos de quem passa férias em São Tomé das Letras, mesmo com mais de 50 anos? Eu não contrataria alguém com esse visual nem para servir cafezinho



Barraco no matagal

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A Marina saiu. Eu não sei se gostei ou não dela (como ministra). Provavelmente não. Mas se ela brigou com o Mangabeira Unger, alguma qualidade deve ter. Um amigo meu me deu uma definição do titular da Sealopra que, segundo ele, é piada antiga, mas que eu não conhecia: um sujeito cuja ausência preenche uma importante lacuna. É isso aí. Não dá para confiar em quem pensa fazendo beicinho




maio 12, 2008

A miséria do ludopédio, ou de Raí a Richarlyson

Nas últimas semanas, eu acompanhei de perto a reação de vários flamenguistas ao desempenho do time no campeonato carioca e na Libertadores. O entusiasmo dos fãs de Obina me espantou e me divertiu, mas também me deixou com uma ponta de inveja. Com a indigência do futebol brasileiro atual, não tenho mais a mesma empolgação com o esporte que eu tinha até há alguns anos. Como sou são-paulino, não é por falta de títulos, pelo contrário. A questão é que os torneios por aqui viraram, com boa vontade, uma segundona do futebol global. O São Paulo campeão brasileiro de 2007, por exemplo, era um time bem meia boca – e foi de fato o melhor time do campeonato, o que mostra o nível grotesco do Brasileirão.

Eu vi dois grandes times do São Paulo em ação: o de meados dos anos 80, com Dario Pereira, Pita, Silas, Careca e Müller, e o do começo dos anos 90, com Zetti (melhor que Rogério Ceni, e bem menos presunçoso), Raí, Müller, Palhinha, Cerezo e Leonardo, comandados por Telê Santana, o melhor treinador brasileiro de todos os tempos. Eu comemorei bastante o bicampeonato brasileiro em 2006 e 2007 e vibrei muito com a conquista da Libertadores e do Mundial de 2005 – especialmente porque o time de Paulo Autuori era razoável. Mas, perto das seleções tricolores de Telê, as equipes de Paulo Autuori e Muricy Ramalho dão até vergonha. Haja suspension of disbelief para acreditar que são grandes times.

Na maior parte das partidas disputadas neste ano, o São Paulo foi basicamente o time inglês da anedota. A única estratégia eficiente para fazer gols eram – e ainda são - os cruzamentos de Jorge Wagner para Adriano. O time começou a variar um pouco mais as jogadas nas últimas partidas, mas o número de passes errados, a presença de jogadores como Fábio Santos e Richarlyson e a falta de um padrão de jogo exasperam até o mais fanático dos tricolores. Eu vi dois jogos do São Paulo da Libertadores deste ano no Morumbi, contra o Audax Italiano e o Sportivo Luqueño. Foram duas vitórias magras – 2 a 1 e 1 a 0 -, em partidas totalmente grotescas. Eu fiquei feliz com a vitória – contra o Sportivo Luqueño, Adriano fez um gol aos 48 minutos do segundo tempo -, mas eu já vi muito casados e solteiros disputados depois de churrasco com maior qualidade técnica.

O flamenguista e o corintiano certamente lerão esse post com um ar de superioridade, dizendo para si mesmos: “É coisa de são-paulino. A paixão de um flamenguista (ou de um corintiano) é bem diferente”. Talvez seja mesmo. Mas, além de paixão, tem que ter uma boa dose de masoquismo para continuar acompanhando o futebol brasileiro com a mesma atenção de alguns anos.

Vejam o caso do Flamengo. O time foi campeão de um dos torneios mais decadentes do país, comandado por um técnico folclórico, na melhor das hipóteses. Os meus amigos flamenguistas, porém, pintaram com cores épicas a vitória sobre o Botafogo, outro time vagabundo. A imprensa carioca transformou Joel Santana num herói, lamentando a despedida do sujeito num tom laudatório e melancólico. Apenas a necessidade desesperada de acreditar que o time e o técnico eram mais do que medíocres explica tanta empolgação irrealista. A derrota para o América do México, numa das maiores amareladas de que se tem notícia, fez a torcida cair na real. E eu me pergunto: quem viu a era Zico não fica um pouco desconfortável em vibrar com a era Obina?

Que fique claro: não acho o futebol atual uma lástima. O que é uma lástima é o futebol jogado no Brasil. Na Europa, os campeonatos da Inglaterra, da Itália e da Espanha são muito interessantes, contando com os maiores craques do mundo – que os há, e em número bastante razoável. A Champions League costuma ter grandes jogos, e dá gosto ver um time como o Manchester United, que está longe de se valer apenas do small shower style para fazer gols. O Barcelona de 2006, o Milan de 2007 e o Manchester de 2008 são grandes times, sem nenhuma dúvida. Pode ser que no fim do ano o campeão europeu perca o Mundial Interclubes para o clube sul-americano, como fez o Liverpool diante do São Paulo em 2005 e o Barcelona diante do Internacional em 2006, mas é necessário um otimismo panglossiano para acreditar que o futebol jogado atualmente no Brasil pode ser comparado ao que se disputa na Europa. Por tudo isso, eu passei a ver o ludopédio em doses cada vez mais homeopáticas



maio 10, 2008

Um projeto patriótico

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Do Brasil para o mundo

Parece que o governo vai mesmo lançar um fundo soberano. O objetivo principal é permitir que o BNDES financie empresas brasileiras no exterior. Acho uma péssima idéia. Será mais um subsídio para empresas privadas. Mas, já que o negócio deve sair mesmo, eu vou pleitear uma graninha desse fundo para um projeto que amadureci na semana que passei em Buenos Aires: a Biscateria, uma cadeia de puteiros que funcionará no exterior com mão-de-obra exclusivamente brasileira.

Será o primeiro projeto do Torre fora do país. Nós vamos começar pela América Latina e depois invadir a Europa e o Japão. A idéia é simples: aproveitar as nossas vantagens comparativas nesse terreno e ampliar ainda mais esse fluxo de dólares para o país, num momento em que as contas externas se deterioram rapidamente.

Um argumento de peso para convencer o comitê de crédito do BNDES é que, ao contrário do que fazem os importadores de prostitutas brasileiras no exterior, a Biscateria se comprometerá a respeitar todos os direitos de suas funcionárias. A questão é que é bem possível que um projeto ousado como esse não receba recursos do fundo soberano. Tudo indica que a grana irá para as mãos mãos de empresas que já contam com acesso a dinheiro barato no exterior. Mesmo assim, não desistirei tão facilmente da Biscateria. Se o BNDES não apoiar, vou tentar uma parceria com Oscar Maroni. Pelo menos no fornecimento da mão-de-obra ele pode ajudar



maio 08, 2008

Pra calar a boca dos detratores

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Os anos 70 tinham lá a sua elegância, sim. Taí a prova



maio 06, 2008

É a política fiscal, estúpido

A discussão econômica no Brasil é realmente cansativa. Boa parte dos economistas heterodoxos não pára de gritar contra o nível dos juros e do câmbio, mas raramente diz alguma palavra sobre a política fiscal. O Banco Central é visto por esses economistas como uma instituição comandada por um bando de tarados obcecados por juros altos, que fazem o país crescer pouco e o câmbio valorizar muito. O fato de os gastos públicos crescerem a um ritmo superior a 10% acima da inflação é convenientemente esquecido - se bem que o negócio está tão grave que até alguns desenvolvimentistas começaram a recomendar moderação para o governo.

É claro que é lícito discutir se o mais recente aumento dos juros era necessário. Vários economistas, inclusive alguns ortodoxos, diziam que não era. Talvez o BC seja excessivamente conservador? Talvez, mas todo o trabalho de tentar controlar a inflação fica com o BC*.

A política fiscal tem sido obscenamente expansionista, e assim vai continuar por muito tempo, no que depender de Lula. A liberdade do BC para conduzir a política monetária, aliás, deixa claro que Lula prefere aumento de juros a controle de gastos. Sugerir contenção de despesas é uma ofensa para o Guia Genial, que julga já ter feito todo o sacrifício fiscal em 2003, quando as despesas não financeiras caíram em termos reais. De lá para cá, começou a farra fiscal, quase toda concentrada em gastos correntes. O investimento cresceu um pouco, mas ainda é uma parcela ridícula do total das despesas do governo.

A política fiscal é rígida demais, claro, mas Lula não tem nenhum interesse e disposição para mudar esse quadro. Prefere continuar com reajustes expressivos para o salário mínimo, mesmo depois dos aumentos generosos do primeiro mandato, o que afeta as contas da Previdência e da assistência social. Além disso, continua a abrir o saco de bondades para os funcionários públicos. Cláudia Safatle, do Valor, mostra nesta coluna que, em quatro meses, Lula aumentou as despesas com os servidores em R$ 15 bilhões, mesmo depois de perder a CPMF.

Com essa política fiscal, há dificuldades para reduções mais fortes dos juros, o que contribui para a valorização do câmbio. Como não quer parar de gastar e está preocupado com o nível do dólar, o governo começa a criar distorções, como a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o investimento em renda fixa. Há rumores de que a idéia discutida pela equipe econômica é aumentar ainda mais a alíquota, para tentar frear a valorização do câmbio. Em vez de inventar moda, o governo deveria enfrentar a questão fiscal, mas é claro que isso não vai ocorrer

* Um dos argumentos mais capengas é de que o BC aumenta os juros porque foi capturado pelos interesses do sistema financeiro, e não porque está preocupado com a inflação. Por essa tese brilhante, os economistas de bancos começaram a defender a necessidade de elevar a Selic há alguns meses para preservar os ganhos de seus patrões. Afinal, coitados, os bancos ganharam pouco nos últimos anos. De setembro de 2005 a setembro de 2007, a Selic caiu de 19,75% para 11,25% ao ano, período em que o lucro dos bancos não parou de aumentar, em grande parte devido às operações de crédito. Mas isso não basta. Em alguma reunião da Febraban, os presidentes de Itaú, Bradesco, Unibanco, Real e HSBC certamente decidiram que estava na hora de agir: "Vamos mandar nossos economistas dizerem que está na hora de aumentar os juros, porque não dá para se contentar com essa rentabilidade merreca". O BC, obediente como um cachorrinho, aquiesceu



abril 30, 2008

Brasil iu iu!

Somos invesment grade! Da Standard & Poor's. Considere-se risco não especulativo a partir de hoje. E prepare-se para paroximos de "nunca antes na história desse país"



Tema para debate

"O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria"
Antonio Dantas, baiano sim sinhô


Na Folha de hoje:

Na Bahia, coordenador atribui resultado a 'baixo QI dos baianos'
Renata Baptista

Para o coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Antônio Dantas, 69, o baixo rendimento dos alunos da faculdade no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) se deve ao "baixo QI dos baianos".
Os alunos de medicina da UFBA obtiveram conceito dois no exame. "Se não houve boicote dos estudantes, o que não acredito, o resultado mostra a baixa inteligência dos alunos".
(...) O coordenador disse que o suposto baixo QI dos baianos é hereditário e verificado "por quem convive (com pessoas nascidas na Bahia)".

Meu comentário: Odioso. E mais odiosa ainda é a corrente que sustenta que o problema é preguiça

PS: Tenho sangue baiano
PS2: Será que esse cara é parente do Daniel Dantas?



O enigma Argentina

No meu post sobre a Argentina, o Na prática a teoria é outra expressou uma perplexidade que também me angustia: como os argentinos, com o nível educacional que têm, podem votar em quem votam? Carlos Menem? Cristina Kirchner? Os sujeitos ainda não superaram o peronismo!

Outra coisa incompreensível: como a Argentina, com os indicadores educacionais que tem, pode fazer tanta bobagem na economia? Do começo dos anos 90 até 2001, foi a burrada do câmbio fixo. Além de insistir na âncora cambial por muito mais tempo que o Brasil, eles usaram uma modalidade mais radical – o currency board. Nos anos Kirchner, há o descaso com a inflação, os tabelamentos, os impostos sobre exportações, a manipulação dos índices de preços – veja bem, os sujeitos estão roubando a inflação em plena democracia. É coisa de país africano. É claro que a economia brasileira ainda está cheia de problemas, mas o simples fato de nós não roubarmos a inflação dá um sinal claro de quanto estamos à frente do país vizinho. E ainda há no Brasil quem veja a Argentina como modelo econômico.

Mas há algo ainda mais desconcertante: como os argentinos, com o nível educacional que têm, usam aqueles cabelos? Buenos Aires é a capital mundial do mullet. Todo argentino tem, teve ou terá cabelo comprido, independentemente de idade, cor e classe social. Como uma cobra que periodicamente troca de pele, o argentino periodicamente deixa o cabelo crescer, quase sempre com o uso de mullets. Em Puerto Madero, eu vi vários molequinhos com menos de cinco anos com cabelos compridos, andando com seus pais portadores de mullets. No hotel em que eu fiquei, o gerente, de uns 65 anos, tinha mullets discretos, na medida em que um mullet pode ser discreto. Foi a terceira vez que eu fui a Buenos Aires, e em todas elas eu vi a mesma tragédia capilar



Dream team

Você já leu os outros blogs do nosso portal, o Apostos? Não? Então vai lá, meu filho. Você não sabe o que está perdendo. É um blog melhor que o outro. Ah, um segredo: o negócio vai ficar ainda melhor nos próximos dias



abril 28, 2008

Em favor das formigas

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Simpáticas, apetitosas, trabalhadeiras


Declaração peremptória: eu não tenho nojo de formiga. Vi recentemente aquele filme, Estômago, que é bastante nojento, mas não me enojei especificamente com a cena em que os prisioneiros comem formigas fritas. E tem algo mais irritante do que novas teorias jornalístico-científicas que tentam jogar por terra nossas crenças mais aferradas e queridas da infância? Pois não é que eu não li outro dia que formigas são sujas sim, que freqüentam ambientes de higiene pouco recomendável (ok, eu admito que sim, mas em toda uma vida de observação da natureza nunca notei que formigas fossem particularmente apegadas – e está bem empregado aqui – a cocô), e que, portanto, você deve ter nojo sim daquelas formiguinhas passeando no açucareiro, quase tanto quanto o que você sentiria se houvesse uma barata lá dentro. Bull shit! Recuso-me a ter nojo de formiga – com as camadas mais profundas e constitutivas do nosso ser não se mexe.

E subitamente me pus a pensar em como tratamos de forma abjeta as formigas. Existe até uma palavra, formicida, que obviamente é apenas um pulo até ‘formicídio’, para designar um dos agentes dos massacres constantes a que submetemos esta inocente (uma picadinha de formiga, sempre em legítima defesa, não é o fim do mundo, convenhamos) e simpática espécie. A humanidade não está nem aí. Falamos em formicídio como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem um pingo de remorso, sem a mais leve sensação de culpa coletiva. Agora, ai de quem jogar um hamster pela janela do quarto andar (tenho um amigo que fez isto, juro). Vira na mesma hora um monstro, um assassino, um destruidor, estuprador da mãe natureza.

Estou meio sem inspiração para terminar este post. Acho que vou interromper por aqui e dar um pulo na cozinha para colocar o açucareiro na geladeira. Está juntando um monte de formiga



abril 27, 2008

A invasão brasileira

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Livraria Ateneo, em Buenos Aires: Brazilian free

Não tem aquela história de que São Paulo é a cidade mais nordestina do Brasil? Pois bem, Buenos Aires é hoje a cidade mais brasileira da América Latina. Eu estive lá na semana passada e lhes garanto: tinha mais brasileiro do que em São Paulo. Com o câmbio valorizado por aqui e desvalorizado por lá, eu quase me senti rico. Eu ia comprar umas três empresas com o dinheiro das férias, mas, como não confio em país em que o governo rouba a inflação, decidi continuar a financiar a dívida pública brasileira. Afinal, o governo daqui paga bem.

O brasileiro que vai ao exterior é sabidamente sacoleiro. Eu mesmo, que não sou muito consumista, tive que comprar, além de alguns livros, umas roupinhas. A senhora Matamoros viu uma brasileira comprando cinco botas iguais numa loja, sob o olhar desconsolado do marido. “Mas onde é que você vai usar isso no Rio?”, perguntou o coitado. E a dondoca estava longe de ser exceção. Em todos os lugares de Buenos Aires, os brasileiros estavam lá, comprando alucinadamente, como se não houvesse amanhã.

Em todos os lugares, menos em um. Se o argentino não quiser ouvir português, tem um lugar seguro: é só ir a uma livraria. Eu fiquei uma semana em Buenos Aires, e devo ter ido umas 12 vezes a livrarias. Só vi brasileiro no último dia. Os patrícios gostam mesmo é de comprar cuero

PS: Foi a minha terceira ida a Buenos Aires, e mais uma vez pude verificar que o argentino da piada só existe em anedota. Eu fui muito bem tratado em todos os lugares, e não apenas por quem estava tentando me vender alguma coisa. Argentino só é intragável em jogo da seleção – não há nada mais desleal do que jogador argentino em partidas contra o Brasil. Eu lembro de duas agressões grotescas em dois jogos diferentes das eliminatórias na Argentina, se eu não me engano as duas contra Cafu, uma do Simeone e outra do Kili González. Faltas para quebrar a perna. O juiz, claro, não expulsou nenhum dos dois



abril 25, 2008

Yes, nós temos fascistas

Eu fiquei uma semana fora do país, teve até terremoto nesse período, mas o assunto do momento continua a ser o assassinato de Isabella Nardoni. É insuportável. Eu não agüento a cobertura em tempo integral de um assunto que não merece esse acompanhamento maciço e sensacionalista - e aqui vou discordar de parte do que a Nariz Gelado e o Filthy McNasty, nossos bravos companheiros no Apostos, escreveram nestes dois posts.

O crime é bárbaro e chocante, como diria o conselheiro Acácio, e não há quem não fique indignado com o assassinato de uma criança indefesa. A questão é que, por mais evidências que existam nesse caso, o pai e a madrasta ainda não foram julgados e condenados. Foram indiciados e são os principais suspeitos, é certo, mas a atitude asquerosa da polícia e do promotor, vazando informações e dando entrevistas a todo momento, já os mostra como culpados.

Grandes redes de televisão e revistas, que em tese fazem jornalismo sério, recorrem a expedientes típicos de programas como o Aqui Agora. Isso fica evidente quando a Globo interrompe a programação normal e fica três horas sem exibir comerciais para acompanhar o caso. O discurso de que o assunto é relevante e merece essa cobertura full time não convence, pelo menos não a mim. O que há é desespero por audiência. Os pudores de fazer uma cobertura como a do jornalismo mais sensacionalista já foram para o vinagre. Junte isso ao oportunismo da polícia e do promotor e fica esse circo em cima de um assunto que, por mais hediondo que seja, não deveria monopolizar a atenção.

Para completar o quadro de horrores, aparecem aqueles cães hidrófobos que ficam gritando mata! lincha! quando o pai, a madrasta e os familiares da criança vão depor. Por mais chocante que seja o crime, eu fico chocado com esse comportamento fascista de gente disposta a linchar suspeitos - por enquanto, é isso o que eles são. Aliás, eles merecem ser tratados com dignidade, antes, durante e depois do julgamento, mesmo que sejam culpados. Se eles forem julgados e condenados, que fiquem muito tempo na cadeia, mas só depois do julgamento e da condenação. A não ser que haja quem prefira o linchamento público antecipado, o que não me parece uma boa idéia



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