13 de março de 2010

Disgrace

Este era para ser um longo post sobre o paulatino ocaso do prestígio dos pombos, essas aves que um dia simbolizaram a paz e que cobriam, felizes, turistas deslumbrados na Praça de São Marcos até o início da década de 70.

Condenados pela desumana ciência moderna como transmissores de doenças, hoje os pombos são tratados como ratos, e olhados com nojo e desprezo pela elite cosmopolita globalizante. Alimentar os pombos virou gafe, na mais benevolente das hipóteses.

Este era para ser um longo post, num tom sobriamente melancólico, condoído mesmo, uma espécie de réquiem para os dias de glória dos pombos, quando figuravam solenes, sem sombra da vergonha contemporânea, nas melhores abóbadas da Renascença.

Mas logo me dei conta de que a tarefa estava acima do meu fôlego histórico e literário. E optei por um recorte bem mais restrito do vasto tema. A minha proposta agora é investigar por que os pombos brasileiros são tão estropiados quando comparados aos exemplares roliços e saudáveis que encontro em países ricos – os pombos de Genebra, por exemplo, me vêm logo à cabeça.

Uma primeira aproximação da resposta ao enigma me ocorreu por meio do muito arguto comentário de uma amiga – “esses pombos brasileiros parecem uns favelados “ –, enquanto contemplávamos o triste espetáculo dos pombos desmilinguidos na calçada do Arpoador. As penugens eriçadas denotavam uma mistura de subnutrição, doenças várias de pena e escaramuças com ratazanas de esgoto.

E foi aí que sobreveio o estalo: mas é claro! O aspecto geral dos pombos está correlacionado ao grau de desenvolvimento sócio-econômico do país. Num país cheio de favelados, os pombos parecem uns favelados. Num país de burgueses garbosos e bem nutridos, docemente imersos no embarassment of riches, os pombos apresentam aquele porte alinhado e quase altivo que me faz esquecer por instantes o caminhão de doenças que as más-línguas dizem que carregam.

Aliás, devo reconhecer meu viés de classe: entre virar poleiro de pombos genebrinos ou arpoadorenhos, eu não pensaria mais do que meio microsegundo (aquele que vem sendo subtraído do dia a cada novo terremoto, de tal forma que em breve seremos enxotados da dimensão tempo) antes de optar pela primeira alternativa.

Agora, tem isso. Todo escriba da internet, mormente aqueles de temperamento científico, como este que ora tamborila o teclado, identifica de imediato, antes mesmo dos bits se assentarem confortavelmente na webpage, a presença daquele leitor impertinente, metido a espertinho, com as suas objeções excitadas, mal e mal contidas, prestes a voar para a caixa de comentários para supostamente, entre engasgos e vituperações precoces, fustigar o grande insight com afirmações enfadonhas e tolinhas do tipo “o que explica a diferença de aspecto entre os pombos é o clima, e não o desenvolvimento sócio-econômico do país”.

Aí o petulante sabe-tudo prossegue dizendo que, num clima tropical como o do Brasil, é natural que os pombos adquiram mais perebas de penas, e que a digna forma dos meus pombos de Genebra deve-se apenas à proteção contra microorganismos provida pelo clima temperado.

Ora, ora, meu caro sub-projeto de Darwin reencarnado, você acha que eu não pensei nisso? Que, antes de deitar definitivamente em texto mais uma teoria original e certeira, não examinei os múltiplos caminhos sugeridos pela questão primeira? (deu vontade de rimar de repente).  Não me faça rolar himalaias.

Antes de pulverizar seus argumentos, e transformá-los num montinho cinzento desprendendo um fiapo de fumaça em espiral, deixe-me fazer um pequeno prólogo. Eu tinha um amigo que costumava citar uma célebre (no contexto do nosso restrito círculo intelectual) observação de Aristóteles, na qual o filósofo explicava por que as mulheres são menos inteligentes: “Basta ver que têm menos dentes”. E não me lembro se rima também em grego.

É verdade que a ciência evoluiu na direção de certo empirismo deselegante, que trouxe inegáveis contribuições e inventos que pontilham a existência moderna. O método científico dos pais da filosofia, porém, não deve ser desprezado. Àqueles que contestam a minha teoria da correlação entre nível sócio-econômico e estado geral dos pombos, com essa bobajada de clima e micróbios, tudo o que eu tenho a dizer é o seguinte: “Basta ver que Cingapura tem pombos roliços”.

E mais não escrevo

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(nada a ver com o post acima, please)

Pensando bem, fora os acidentes, tudo é repetição

2 de março de 2010

Ruminações

 

Essa noite eu tive um sonho que terminou com o seguinte diálogo:

Eu – Isso, então, é uma pedra filosofal?

Outro (não me lembro quem) – É, mas a cara não é muito inteligente.

Na sequência, crianças e bichos de histórias de criança (o sonho era meio infantil), no rasinho da praia, assistem à pedra filosofal afastar-se boiando (?!), com um estranho chapéu, olhos esbugalhados e um sorriso freak nos lábios

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Eu constatei essa manhã, indo trabalhar de carro, o quanto me irrita a profusão de SUVs (é isso?), ou, sei lá como é a forma mais correta de me referir a isso, hummers?, jipões?, mas vocês entenderam meu ponto. Num rápido exame dos meus próprios sentimentos, me parece que a razão primordial da minha irritação é que eu não tenho um carrão desses, mas, correndo logo atrás, nos cascos, vem a indignação cívica contra os monstrengos poluidores e exauridores das fontes energéticas do planeta, que ficam bloqueando a minha visão e a minha passagem nos engarrafamentos do Rio. Mais revoltante é pensar que 90% dos patetas ao volante, além da descortesia de me fazerem pensar que eu não teria dinheiro para comprar um carrão desses, nem que quisesse, jamais usaram suas jamantas para de fato encarar uma estrada de terra esburacada à altura do desafio proposto pelas ‘máquinas’, e ficam circulando de lá para cá no asfalto com os seus SUVs, pontuando a existência urbanóide com delírios masturbatórios sobre o rally Paris-Dakar. Se eu fosse prefeito cobraria um IPVA escorchante dos félasdaputa

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Eu não tenho pensado muito em política nem temo que a Dilma cubanize o Brasil, mas confesso que fiquei bastante preocupado com o episódio Paris Hilton. A proibição dos anúncios da cerveja Devassa com a moça me pareceu um claro sintoma do chavismo disseminando suas ovas de serpentes marinhas. Ok, não contribui para o meu caso o fato de que quem proibiu foi o Conar, o órgão auto-regulador de publicidade, que não tem nada a ver com o governo. Mas pensem bem. Primeiro nossos artistas e intelectuais começaram, em tons indisfarçavelmente gramscianos, a pichar a Paris Hilton, só porque ela é loura, americana, ricaça, fútil, gostosa e meio vagaba, e não dá bola para o Chico Buarque e o Paulinho da Viola (não tenho como comprovar que ela não dá bola para o Chico Buarque e o Paulinho da Viola, já que não me consta que esse tema jamais tenha sido levantado na sua presença, mas depois de muito matutar, examinando a questão pelos mais diversos ângulos, concluí ser muito provável que a Paris Hilton não dê bola para o Chico Buarque e o Paulinho da Viola). A estridência da campanha anti-Paris Hilton chegou ao clímax quando a Maria Paula declarou que a Paris Hilton “nem ao menos é gostosa”. Eu sou da firme opinião de que a Paris Hilton é mais gostosa do que a Maria Paula. A Mart’Nália, por sua vez, disse que a Paris Hilton não acrescenta nada (não sei se ela se referiu a não acrescentar nada ao Cosmos, ao Carnaval, à vida cultural brasileira ou ao camarote da Brahma; mas é indubitável que o camarote da Brahma está no centro dessa trama). Bem, a Paris Hilton é mais gostosa que a Mart’Nália, mas isso não vem ao caso. Meu ponto é que todo esse crescendo anti-Paris Hilton mostra que a intolerância atingiu níveis intoleravelmente intoleráveis. Um dia censuram a Paris Hilton, e você não diz nada. Pouco depois, censuram a loura do teu vizinho, e você também não diz nada. Até que um dia censuram a tua loura e te levam para um campo de reeducação (onde você será obrigado a aprender que a Maria Paula é mais gostosa que a Paris Hilton e que a Mart’Nália acrescenta alguma coisa à cultura brasileira ou ao camarote da Brahma), e já será tarde demais para reagir. E acrescente aí alguma coisa sobre ainda existirem juízes em Berlim, que talvez se aplique.

Mas a Paris é fueda: conseguir acrescentar ao currículo uma censura por excesso de sensualidade no país das bundas, do Carnaval e da putaria – tem que respeitar a gringa

16 de fevereiro de 2010

Recordar é viver I – Curling, o esporte das multidões

Com a cobertura intensa das Olimpíadas de inverno, eu resolvi republicar um post sobre o curling, que escrevi há exatos quatro anos. É um modo de animar um pouco as coisas por aqui, que estão meio paradas. Talvez eu republique um ou outro post de vez em quando – ou não. Há uma citação “so 2006″ no primeiro parágrafo, mas resolvi não tirá-la. O resto se mantém mais atualizado do que nunca. Divirtam-se.   

Nos últimos dias, eu vi alguns trechos das competições da Olimpíada de Inverno. Como sempre considerei futebol o único esporte de verdade, consigo, no máximo, achar engraçadinhas algumas das modalidades, e por pouco tempo. Depois de ver uns três minutos de uma corrida de patinação de velocidade, mudo de canal. Mas eu confesso que assisti a algumas coisas esquisitas. As roupinhas dos sujeitos que fazem patinação artística, por exemplo, são meio estranhas. Parece que são um grande sucesso em Brokeback Mountain.

Mas tudo se iluminou depois que eu vi uma competição de curling. É um esporte para poucos, que, mal comparando, lembra a bocha. A Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) explica que a “versão moderna do jogo originou-se de uma atividade ao ar livre praticada desde o século 16 na Escócia, jogada sobre lagos congelados, e se converteu no esporte altamente técnico atual, jogado em área coberta”.

Para quem não viu, o jogo é mais ou menos o seguinte: um sujeito, quase de quatro, lança uma pedra, que tem um cabo parecido com o de um ferro de passar roupa, sobre uma superfície de gelo. Até aí, nada muito esquisito. O melhor vem depois: munidos de vassourinhas, dois sujeitos varrem o gelo freneticamente, para diminuir o atrito e, com isso, tentar conduzir a pedra para perto do alvo. Não há, em toda a história do esporte, uma função mais ridícula do que a do varredor, eu posso lhes garantir.

Segundo a CBDG, “o objetivo do jogo é, após o lançamento de todas as 16 pedras (8 para cada equipe), colocar uma o mais próximo possível do centro da casa, ou alvo, chamado de ‘tee’”. O site da entidade também informa os participantes chamam o curling de xadrez no gelo, por ser um jogo em que a “estratégia é definitivamente a coisa mais importante”.

Eu achava que o lacrosse era o jogo mais ridículo do mundo, mas nada, nada se compara ao curling. Como é que um esporte em que dois sujeitos ficam varrendo o gelo pode valer medalha olímpica? Se o curling é esporte olímpico, acho que queimada também deveria ser

12 de fevereiro de 2010

O samba do regime de metas

A inflação baixa é um dos grandes ativos do governo Lula. De que adiantaria dar aumentos expressivos para o salário mínimo e para o Bolsa Família se a inflação estivesse em alta? O Banco Central tem um papel bastante importante aí, ainda que tenha cometido exageros num ou noutro momento. A percepção de muita gente, porém, é de que o BC só erra. Para melhorar a imagem da autoridade monetária, proponho a adoção de métodos descaradamente populistas. Por que o BC não patrocina uma escola de samba no Rio, com um samba enredo em louvor da estabilidade de preços? Imagine Henrique Meirelles num carro alegórico, como guardião do real? Para quem tem pretensões eleitorais, seria um golpe de mestre. Como membro da ala dos compositores da Acadêmicos do BC, deixo abaixo uma sugestão de letra para o samba enredo:

Em janeiro a inflação teve alta forte

Os preços no atacado sob pressão

No varejo tudo pela hora da morte 

Exigindo do Copom o combate à inflação 

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Pra impedir a alta do chuchu e do ovo 

A taxa Selic o BC vai elevar (vai elevar) 

O objetivo é nobre – é ajudar o povo 

Não é para banqueiro auxiliar 

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Preço baixo é só mérito do BC

Aplauda comigo o regime de metas 

Juro alto também é bom para você 

Inflação não presta, é coisa de patetas 

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Sobe o juro e o preço fica comportado

Não é sadismo, nem coisa de tarado

O pobre compra mais e sorri aliviado 

Até que enfim, não peço mais fiado 

8 de fevereiro de 2010

Postando só por postar

 

Assim meio no espírito de alquimista lidando com elementos arcanos, resolvi desentranhar do esquerdismo seus três componentes fundamentais: 

1 – Redistribuir a renda, tirando dos ricos para dar para os pobres

2 – Estimular o ressentimento dos pobres contra os ricos

3 – Criar uma ditadura, para fazer o que se bem entender em nome do povo

De maneira bastante esquemática, poder-se-ia dizer que os três componentes correspondem respectivamente a (1) social-democracia, (2) populismo e (3) comunismo.

Haveria talvez um quarto componente, o de defender qualquer causa aparentemente legalzinha, dos direitos dos gays e das focas ao combate à energia nuclear e ao bullying – mas é lame demais para ser incluído na minha tríade inicial que, confesso, me pareceu adequadamente solene para a minha íntima grandiloqüência.

Resta saber o que eu faço com meus três componentes. Percebo, porém, que a minha teoria aproximou-se daquele perigoso limiar da chatice, a fronteira entre a fruição autista do brilhantismo e a necessidade de que, de alguma forma, isso conduza a qualquer outra coisa. Retiro-me, portanto, aos meus aposentos mentais, e delego aos meus seguidores a tarefa de levar adiante a teoria dos três componentes fundamentais do esquerdismo

6 de janeiro de 2010

Fim de um blog?

Ainda não. Mas tampouco um post. Mais para um teste desta plataforma do Wordpress, que, por enquanto, ainda xingo de maldita, como faço com todos os sistemas que tenho de dominar, antes de dominá-los

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