17 de agosto de 2011

Nigel Andrews on Melancholia

O meu crítico de cinema preferido, Nigel Andrews, do FT, sobre Melancholia. Rolam uns semi-spoilers:

So perhaps we need the “larger than life†after all. Lars Von Trier supplied it in Melancholia, and in reality. The director’s outrageous public remarks at a news conference on Wednesday have made him persona non grata at the festival but his film is still in contention – and if I were lord of the awards at Cannes, I would give it the top one and a few more. Here is a work of crazed and insolent ambition, its grasp equalling its reach. A weekend wedding party in a country home by the sea; a bride tormented by post-nuptial depression or worse (Kirsten Dunst); a sense of gathering social doom (worthy of the film’s Danish-directed stablemate Festen); and, to top it all, a planet called Melancholia moving towards Earth on collision course.

On the soundtrack the film begins with Wagner’s Tristan chord, that three-second revolution in music foreseen by Shakespeare: “That strain again, it had a dying fall,†the bard said; and we get the strain again, and again, first over the film’s own prelude – a series of extraordinary tableau-still images prefiguring apocalypse – then over a story that begins as caustic comedy, with strong cameos from John Hurt and Charlotte Rampling, before becoming a combination of sci-fi disaster film and Wagnerian twilight-of-the-world. There is a touch too of Shaw’s Heartbreak House. Near the close, the characters sit on the terrace exchanging resonant verities as the end of civilisation draws near.

With every reel Trier plants a new twist or adds a fresh insight. The horses in the stable whinny and then more ominously go still. The last character expected to commit suicide does just that. A moment of quiet horror takes, literally, the characters’ breath away: “It’s stealing some of our atmosphere,†explains Dunst’s science-boffin brother-in-law (Kiefer Sutherland). At the catastrophic end an unexpected story touch – small but utterly inspired – teaches us the lesson of all art and possibly all existence: that the only thing larger than life, and more long-lasting, is the power of human thought and imagination.

E Andrews comparando Ãrvore da Vida e Melancolia:

Though The Tree of Life was named best film – for much the same reason people are said to climb Everest (it was big and it was there) – Malick’s inflated pantheism, poetic one moment, portentous the next, has nothing on Trier’s flickering cinematic fire and bold, outrageous story-making.

The Tree of Life, delineating how life evolved on earth over millennia from the Big Bang to Brad Pitt, is a Stanley Kubrick film in religious raiment. There are soaring wonders next to crushing pieties. By contrast, Melancholia begins by taking the audience’s breath away – with its preludial tableaux of apocalypse – and ends up taking away the characters’ breath. An astonishing collision is engineered between the microcosmic, the nuances of social and psychological breakdown, and the macrocosmic, namely an earth-headed planet. Losing to Malick’s mysticism, Melancholia was consoled with a Best Actress prize for Kirsten Dunst, excellent in the film but also rewarded, we suspect, for tut-tutting demonstratively at the press conference during her director’s quasi-Nazi ramblings.

10 de agosto de 2011

Um liberal brasileiro

Rodrigo Constantino conseguiu:  o artigo do sujeito sobre o Tea Party, publicado ontem por O Globo, me tirou da letargia. Alertado pelo Arranhaponte no Twitter, decidi  escrever um post a respeito. É por textos como esse que o liberalismo no Brasil não é e provavelmente nunca será levado a sério.

No artigo em que se propõe a desmistificar o Tea Party, Constantino consegue apenas mostrar uma visão totalmente equivocada do que se passa na economia americana. Comecemos pelo trecho abaixo:

“O Tea Party carrega em seu DNA um viés libertário, que desconfia do governo ‘altruísta’. O discurso messiânico que elegeu Obama incomoda, e com razão: foram ‘messias salvadores’ os que mais atrocidades praticaram em nome do ‘bem’. As medidas de Obama mostram sua visão ideológica. É clara a sua intenção de socializar setores importantes da economia e concentrar no governo mais poder ainda. O Tea Party veio dizer ‘basta’â€.

Dá até preguiça de comentar um artigo que defende a ideia de que Obama pretende “socializar setores importantes da economiaâ€*. O Estado aumentou sua participação na economia depois da crise de 2008 para evitar uma catástrofe ainda maior.

Sem a intervenção do governo no sistema financeiro e sem o estímulo fiscal, o PIB americano poderia ter mergulhado grotescamente. A taxa de desemprego, em vez de atingir 10%, poderia ter sido muito maior. Seria interessante, como experimento, se algum país tivesse seguido à risca as recomendações de alguns economistas ultraliberais, deixando bancos quebrarem e recusando-se a aumentar gastos. Mas quem se arriscaria a deixar o PIB cair 6% e o desemprego bater em 20%? Talvez economistas como Constantino deixassem. Ainda bem que nunca estarão em posições de comando, em que tenham que tomar esse tipo de decisão.

Outro ponto grotesco é que foram os republicanos que escangalharam as contas públicas do país. No fim do governo Clinton, havia superávit fiscal. George W. Bush, em seus dois mandatos, jogou a responsabilidade fiscal no lixo. A crise de 2008 exigiu aumento de gastos, que elevaram o déficit público a partir de um nível já elevado. Constantino não diz nada sobre esses fatos. 

O artigo é cheio de grandes momentos. Outro trecho bonito:

“O embate sobre o aumento do teto do endividamento expôs a polaridade: de um lado, aqueles que desejam um cheque em branco para o governo gastar à vontade; do outro, os que cansaram de viver uma ilusão e rejeitam o modelo europeu de sociedade. Não resta dúvida de que houve oportunismo político de ambos os lados. Mas erra quem acusa o Tea Party de irresponsável. O ápice da falta de responsabilidade é gastar mais do que arrecada indefinidamente.â€

Como disse o Arranhaponte no Twitter, a discussão sobre o teto da dívida não tem nada a ver com a disputa entre o modelo americano e o europeu. Obama não queria um cheque em branco para gastar à vontade. Os EUA estão numa situação  complicadíssima. Reduzir os gastos com força num cenário de crescimento anêmico é receita para abater a atividade econômica. Os republicanos transformaram a discussão sobre algo corriqueiro numa arapuca para chantagear Obama e esticar a corda até criar uma crise desnecessária, num momento em que os EUA enfrentam dificuldades para retomar um ritmo minimamente razoável de crescimento.

A situação fiscal dos EUA é delicada, mas o país não está à beira de um calote. A dívida de US$ 14,3 trilhões, que equivale a quase 100% do PIB, não é insustentável. É óbvio que a situação requer um plano de ajuste de médio e longo prazo, mas exigir cortes dramáticos no curto prazo servirá apenas para minar ainda mais a capacidade de crescimento, o que afeta a própria situação fiscal do país.

Outro trecho genial é o último parágrafo:

“Uma ala minoritária, mesmo dentro dos republicanos, foi capaz de colocar em pauta o debate inadiável sobre a trajetória explosiva dos gastos públicos. Sua força obrigou o presidente Obama a recuar e abandonar parte de sua agenda socializante. É um começo, uma brisa que sopra na direção certa. Mérito do Tea Party, cujas qualidades deveriam servir de exemplo para a sonolenta oposição brasileira.â€

Constantino volta a falar da agenda socializante de Obama, e cita a trajetória explosiva dos gastos públicos, como se o aumento das despesas fosse um capricho dos democratas, e não algo relacionado a uma economia anêmica.

Ele termina o artigo com chave de ouro, ao dizer que as qualidades do Tea Party “deveriam servir de exemplo para a sonolenta oposição brasileiraâ€. Tudo o que a oposição e o Brasil não precisam é de algo remotamente parecido com a estridência, o primitivismo e o radicalismo do Tea Party. A miopia de Constantino, um sujeito bem intencionado, mostra que o liberalismo parece destinado a jamais ser levado a sério no Brasil. Se ele se pretende um expoente da nova geração de liberais brasileiros, a causa está condenada. Não é por acaso que a popularidade das ideias liberais no país é muito baixa. Não me espanta que gente de bom senso com afinidade com o liberalismo se diga de centro-esquerda, como já fez Arminio Fraga. Grande parte dos liberais brasileiros não resiste a afrontar o bom senso

 *E não, a reforma do sistema de saúde não é um sinal da sanha estatizante de Obama. Estender a cobertura de saúde a um número maior de pessoas não é exatamente socialismo

11 de junho de 2011

Ponto singular sobre o caso Battisti

Para falar do caso Battisti com consistência, seria preciso, segundo meus cálculos, 13.452 horas de trabalho intelectual intenso, vasculhando todo o processo, e tudo que saiu na imprensa, e tudo o que sobre ele foi escrito, ao longo de muitos e muitos anos. Vejo com grande satisfação que o que não falta no Brasil são intelectuais com essa capacidade de mergulho em assuntos complexos e, de certa forma, remotos, e que o fazem, diga-se de passagem, sem abandonarem por um segundo a pletora de outros assuntos que exploram sistematicamente e sobre os quais nos brindam regularmente com suas opiniões.

Eu, infelizmente, estou muito aquém desse padrão em termos de motores intelectuais. Assim, o que tenho a dizer sobre o caso Battisti não é uma análise que desça aos detalhes, e consiga rebater cada miúdo argumento sobre ele já realizado, mas sim uma visão por cima, de quem sobrevoou de asa-delta e acha que viu algo digno de nota, mas que certamente não pode ter a pretensão de uma posição definitiva.

Bem, o caso simplificado me parece ser o de um cidadão italiano que participou de um movimento de luta armada contra o governo democrático de então. Foi acusado de ter participado direta e/ou indiretamente de execuções. Foi condenado. Os que o defendem dizem que o processo foi corrompido por 1) leis de exceção do governo italiano na época para combate ao terrorismo;2) vícios do processo em si.

Eu achei que um dos artigos mais esclarecedores sobre a lógica da libertação do Battisti no Brasil está aqui:

http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2011/06/09/battisti-ficou/

Basicamente, trata-se de dizer que a lei brasileira considera que os crimes que Battisti porventura cometeu na Itália são crimes políticos, e portanto abrangidos pela Lei de Anistia brasileira, independentemente de serem tratados como crimes comuns na Itália.

E é aí que eu tenho o meu solitário ponto. O que faz com que um crime comum seja considerado crime político? O simples fato de eu ter uma motivação política? Suponha que eu funde um movimento guerrilheiro separatista, o PLAA (Playboys do Leblon Armados pela Autonomia), e cometa roubos e assassinatos. Seriam crimes políticos? Não me parece. A única circunstância em que me parece legítimo argumentar que crimes comuns são crimes políticos é quando estes crimes partem de um movimento de resistência a um poder ilegítimo, isto é, ditatorial. Se Battisti estivesse lutando contra uma ditadura, seria razoável assumir que seus supostos crimes foram políticos. Mas como era um movimento armado contra uma democracia, os crimes são comuns, e não podem ser encaixados na Lei de Anistia brasileira. E é óbvio que não estou fazendo um argumento jurídico aqui, porque não sou jurista. Estou fazendo um argumento de bom-senso do ponto de vista de um cidadão comum.

Bem, os outros argumentos são mais fracos para justificar que o Brasil não entregue Battisti. Se houve leis de exceção na Itália para combater movimentos que faziam luta armada contra a democracia, pela esquerda e pela direita, isso é um problema italiano. Claramente, não houve uma ruptura ditatorial lá, mas sim um teste da democracia no limite das suas costuras, em que provavelmente houve ao mesmo tempo excessos e acusações excessivas de excessos – com os lados opostos que sempre estão envolvidos em qualquer questão política puxando a brasa da sardinha pra lá e prá cá. Que as instituições de um terceiro país venham a estipular que um processo judicial se invalida por causa disso é injustificável. O mesmo se pode dizer dos vícios que supostamente corromperam a lisura do processo de Battisti. Por mais que alguém tenha de fato essa opinião, não compete ao Brasil julgar a legitimidade de processos judiciais de outros países democráticos.

Seria como se a Itália se recusasse a deportar o Caciolla (ou foi Mônaco que deportou?) alegando que o processo no Brasil foi viciado. Não faz sentido.

O Battisti provavelmente nunca mais vai matar ninguém nem cometer nenhum crime (se é que de fato cometeu), deve ser um papo divertido em torno de um bom vinho, é escritor, etc. Dá para entender que muita gente ache que ele deveria viver em paz, solto. O problema é que sistemas judiciais são coisas sérias e, por mais que desagrade a alguém a ideia do Battisti ser devolvido à Itália para passar o resto da vida na cadeia, isso faz parte de uma engrenagem institucional democrática, que fica ferida por essa exceção não justificada.

Por tudo isso, a defesa que a esquerda brasileira faz da liberdade de Battisti me parece de fato uma proteção a aliado, que atropela o zelo democrático. E isso só reforça a minha desconfiança e de muito mais gente (em tons muito mais radicais e apocalípticos que os meus) de que boa parte da esquerda latino-americana (e bem menor parte da europeia) ainda vê a democracia como o resultado de uma correlação de forças, isto é, “somos democráticos porque admitimos que há adversários suficientemente fortes do outro lado que ainda nos impedem de agir mais discricionariamente em prol do bem da Humanidadeâ€. Mas, a todo momento, essas mesmas forças de esquerda mostram que desprezam um pouco essa impessoalidade da democracia e que não perdem uma oportunidade de sinalizar que, no fundo, a luta sempre deve ser, como tão bem diz o Lula, em prol dos companheiros.

10 de abril de 2011

Poupança chinesa

The coolies lounged, talked, smoked, or stared over the rail; some, drawing water over the side, sluiced each other; a few slept on hatches, while several small parties of six sat on their heels surrounding iron trays with plates of rice and tiny teacups; and every single Celestial of them was carrying with him all he had in the world – a wooden chest with a ringing lock and brass on the corners, containing the savings of his labours: some clothes of ceremony, sticks of incense, a little opium maybe, bits of nameless rubbish of conventional value, and a small hoard of silver dollars, toiled for in coal lighters, won in gambling-houses or in petty trading, grubbed out of earth, sweated out in mines, on railway lines, in deadly jungle, under heavy burdens – amassed patiently, guarded with care, cherished fiercely.

Thyphoon, Joseph Conrad

28 de fevereiro de 2011

Shakespeare, Mirren e Schama

Bem, já que não tenho mais saco de postar, vai aqui uma propaganda do Financial Times. Assinem o site. É caro, mas é feio ser muquirana

By Simon Schama

Published: February 25 2011 17:03 | Last updated: February 25 2011 17:03

There’s a moment in Julie Taymor’s gender-bent film of The Tempest when Helen Mirren seems to come down hard on “actorsâ€. Briskly dismissing the masque summoned for the entertainment of the betrothed Ferdinand and her virginal daughter Miranda, “Prosperaâ€, the enchantress, gently but firmly disenchants. “Our revels now are ended. These our actors,/ As I foretold you, were all spirits and/ Are melted into air, into thin air …†It’s a famous speech, often read as a valediction in Shakespeare’s last play; the Bard, as it were, flicking the house lights on and off to boot out the late-night groundlings.

Mirren delivers the lines in a tone of benevolent clarity, as if breaking it to her innocent daughter that Santa isn’t actually up there with the elves. In the London hotel drawing room where we’re talking, her mother’s mink collar wound round her neck, a slash of scarlet lipstick on her mouth, Mirren is warming up the bone-slicing cold with the sparks of her merry, articulate intelligence. I tell her, in case she hadn’t done it consciously, that she lingeringly enunciates “actors†with a curl of the lip. She breaks into one of her salty, estuary-girl laughs and says, “Oh, really? I didn’t mean to insult actors. I love actors and the whole process of acting.â€

You believe her because she’s a performer who reflects nonstop about what she’s doing, on stage, film or television, yet without ever burdening her delivery with over-considered attitude. When I saw Gielgud do Prospero at the Old Vic in the 1970s, the great man wandered about the stage in a state of vague irritability, vocalising the “cloud-capp’d towers, the gorgeous palaces,†as an inward, sombre meditation on the illusion-chamber of the theatre itself. But Mirren’s delivery is blade-sharp steel to Gielgud’s tarnished silver. The she-wizard is undeluded about her conjuring because in the last resort she knows it is all nonsense, even though, as Mirren concedes, “nonsense is seductiveâ€. The nonsense-masters she had in mind, she says, are the wizards of Wall Street and their like who kid themselves that they can make castles in the air. “The solemn temples,†she says, are “Goldman Sachs; the City … They seem so solid, don’t they?†But, in fact, they’re just an “insubstantial pageant†that can be “melted into air, into thin air.â€

In the gender flip (which works so perfectly you don’t give it a moment’s thought after Mirren’s first appearance mantled in raven-dark scales and plumes) this resolutely unbewitched tone seems right for a motherly admonition to her dewy-eyed teenage daughter. It’s all very nice, the airy-fairy stuff, Prospera seems to be saying, but, look kid, we’ll be out of here before you know it and if you know what’s good for you you’ll wise up in short order. So when Miranda, confronted with a throng of tights and capes, gasps “O brave new world,/ That has such people in’t!†Prospera’s sidelong comment – “’Tis new to thee†– has the force of a different knowledge: the worldly kind.

Which isn’t to say this is a prosaic film version of The Tempest, and that Mirren’s version of the spell-conjurer is flatly matter-of-fact; womanly practicality, rather than magic monomania. It’s just that she inhabits a mind-set in keeping with Jacobean culture, finely balanced between visionary apparition and clear-eyed pragmatism. It’s easy, amidst the spells and spirits, to forget that this is a drama about power of various kinds – the kind of power that needs the play of illusion as well as the impact of blunt force to make itself felt. Mirren does both, but her blonde witch of revenge certainly relishes the “rough magicâ€.

I ask her, since she is seriously well-read, whether she was thinking of Renaissance women who gave no quarter – such as Catherine de Medici? “No Simon,†she says, smiling, “you would be thinking of that. I just thought of the human situation – who had betrayed you, had tried to murder you? Of someone who had lived with ­bitterness and anger and a desire for revenge.†She mentions as an inspiration Euripides’ Medea, consumed with murderous rage channelled into bloody havoc. But her motherly Prospera is a mix of tough and tender, pretty much like the actress. “Now, [the end of the play with the plotters caught in the island trap] when you could exact the most horrible revenge …â€, she says, letting the sentence run out thoughtfully. It’s not just the fact of the torturing cramps and stings the sorcerer visits on the captive Caliban, she says, it’s the enjoyment of listing them – “side-stitches that shall pen thy breath up†– that’s so fierce.

It’s this taste for physical and mental cruelty that the actress who played the Duchess of Malfi and guns down bad guys in Red recognises as an authentic side of the Bard as much as his complicated interior ruminations: “Shakespeare opens fissures you don’t want to look into.†Some of those openings, she says, are frankly sexual. Prospera inflicts torments on Caliban because of his attempt to rape the child/girl Miranda. “All he wants to do is f*** her, really f*** her.†The mother pays him back the way a threatened mother would.

Prospera was Mirren’s idea. Watching Derek Jacobi’s Prospero in 2002, it struck her that “a woman could do this and it wouldn’t change a word†of meaning. She then went home and read through the text to make sure it wouldn’t just be some sort of reflex feminist gesture. And she saw what might be gained: a different kind of protectiveness bestowed by a mother on her daughter; a different reason to make Ferdinand’s road to nuptial bliss a thorny trial. “She knows what 16-year-old girls are like, swoony and dreamy, because she’s been one. She needs to make sure Miranda isn’t cheaply won.†All thy vexations/ Were but my trials of thy love, indeed.

Then there is the male terror, in the late Renaissance, of the book-learned woman; always close in contemporary minds (not least in that of King James himself) to the sorceress; privy to dark learning locked inside a hungry mind and a potent body. And there, too, is the unconscious ruthlessness with which the dethroned Duchess of Milan obsessively imprints on her adolescent child the sinister story of her displacement. “Dost thou hear?†“Oh alright Mum,†– a daughterly eye-roll – “go on, tell me again …†Mirren, who is happily childless, chuckles.

Meeting Taymor at a party, Mirren tried her idea out on her. “I want to do Shakespeare and there aren’t many parts. I’m not interested in Volumnia or Gertrude.†(Pity, since she would be a spellbinding Gertrude, trapped by erotic bonds to the murdering usurper.) Gert is a bit of a victim and Mirren doesn’t really do victims. She does Lady Macbeth; the turn-on of blood. Taymor, who had already produced The Tempest twice, loved the idea but it took a year before there was the phone call telling Mirren it was going to happen. She assumed that the excited Taymor was talking about a staging, and the exhilaration of discovering it was going to be a film was tempered by a realisation of what she would now be taking on; a text of fiendish complexity and eccentric word order, even by the standards of very late Shakespeare. “He’s just riffing,†she says, of the whole coils of serpentine lines eating themselves: “It’s like late Miles Davis.â€

Even though the chopped-up nature of filming didn’t require it, Mirren decided to commit the whole play to heart before going near the shoot (on the lava-encrusted Hawaiian island of Lana’i). “There was no way I could play the part and risk reaching for the lines.†Even then, she was worried enough about memorisation that she considered using an autocue. She didn’t in the end but, she insists, “I’m always terrified of forgetting lines.†Has she ever dried? “Only once. In a modern play. David Hare’s Teeth ’n’ Smiles.†It was Dave King, “the classic washed-up, f*****-up comedianâ€, playing the rock and roll band’s road manager, “who saved my arse that night, so unlike the sweating panicky actorâ€.

But there is another kind of internalising that Mirren goes through, whatever role she plays. In this case she knew that Prospero’s complicated relationship to Ariel and Caliban lies at the heart of the play, and Mirren’s scenes with them (especially perhaps Ben Whishaw’s nude teenage sprite) are poetically intense; charged with subtle erotic voltage. The two island creatures are, she says, the poles of human character: Ariel the embodiment of creativity, soul, spirit, imagination, “things that take flightâ€. Caliban’s world is sex and violence – “equally part of our valid human experienceâ€. But what Mirren needed to get the role right was “a sense of what the other characters mean to you personally … what Ariel is to me, Helen, or what Caliban means to me, Helen. What the audience thinks, what Shakespeare thinks doesn’t really matter.â€

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In case we hadn’t noticed: Helen Mirren is a robustly thinking actress who, whether Queen Elizabeth II or Sofia, Countess Tolstoy (in the wonderful The Last Station), translates that care of thought into finely calibrated expression of voice and body language. So much steaming drool has been written about her undeniably permanent gorgeousness; the wide Russian eyes, the sonata of curves, the come-and-try-your-luck-sunshine Essex voice, honey on coal-tar, the voice I know from growing up almost down the road from her in Westcliff and Leigh-on-Sea (how the hell did I manage to miss her on the Southend mud or at the back of the Leigh cockle sheds?), that Mirren’s exacting thoughtfulness gets short-changed.

She is, in the most unpretentious sense, creative. Very occasionally, she gets a script that “reads like literatureâ€. One of them was Barrie Keeffe’s script for The Long Good Friday, a classical Greek drama of bloody disintegration set in late 1970s London gangsterland. Mirren was cast as Bob Hoskins’ girl, and played it hard and tight, like a cosh wrapped in satin, until the inexorably baffling terror gets to her too. Mirren loved the script but saw “there was one huge hole†– her own part, two-dimensional gangster’s moll. When the revised version came back it was “exactly the sameâ€. So “I became a real pain. I’d rewrite the scenes,†turning the woman, crucially, into an upper-middle-class manager, the svelte polisher of Hoskins’ rough diamond; in it for the arousing buzz of bad money and a real love of her pet thug. How did the rest of the crew feel about the rewrites? Oh, she says, Bob Hoskins is “a great guy, supportive – other actors would have taken offence. Poor John [Mackenzie, the director]. I did feel sorry for him. But only I could do it.â€

She comes by the tough-tender thing honestly. Her father, Vasily-turned-Basil, the son of a Russian army officer (“we had the Tsar and Tsarina on the wall in a wooden frameâ€), was, she says, like Tolstoy: “thoughtful and gentle, a humanistâ€; while her mother, West Ham, butcher’s daughter, was “noisy and passionateâ€. You can feel that Essex home of the Mirinoffs: happy uproar and pensive wistfulness for the loss of homeland culture; carriers of old philosophy having to drive cabs for a living; mastering an unfamiliar kind of Knowledge. The distance from buttoned-up Englishness takes the form in Mirren of an expansive generosity about the human comedy, the observant openness to all sorts that gives her an unparalleled range. She argued with her father over his conviction that “all cultures and races should become oneâ€. “Not a bad idea,†I say. “No, not bad, but if all skins are the same colour it just becomes so much human porridge. Cultural difference is what’s wonderful.â€

Which makes her think again, of the episode in her acting life that bit very deep: the year with Peter Brook. She’d been clocked as a phenomenon early, lifted straight out of the National Youth Theatre to the RSC. I’d seen her sinuous Cressida; the only version of the part that made entirely credible her betrayal of moaning Troilus to the hard man Diomed. As an understudy she watched in spellbound amazement what Brook famously did with A Midsummer Night’s Dream: sweeping the stage of all the distracting impedimenta – pasteboard glades and tussocks – liberating the bounding physicality of the action; letting the roaring poetry have its head in a wide open chamber of space and sound.

§§§

Mirren would later write a letter about the clutter of over-designed staging getting in the way of the drama that was very Brookian. In 1972, wanting a way to “learnâ€, to do something braver and broader than “conveyor-belt kultcha†she went to Paris to join Brook’s experimental group, which was already in the throes of his exacting improvisation routines that were meant to culminate in a dramatisation of the Persian garland of poems: The Conference of the Birds. The experience did not get off to a good start. “I was a latecomer there. In my naiveté I thought, right let’s have a party, get drunk, do what we do in the pub, moan, gossip, complain. But the actors just stood around; no one spoke to anyone! It was a nightmare. Put me off giving parties forever!â€

Chastened but inspired, Mirren went to north and west Africa with the Brook company, throwing down a carpet and improvising to unpredictable audiences. On one occasion “two thousand Tuareg on camels showed up. We’d heard there was a festival. Oh, let’s all go and perform, we said! And there they were on their camels.†“How did they react?†I asked. “Oh, with gracious bemusement … Once in a blue moon we hit on a moment that did make for the common humanity Brook was after.†A Malian actor, Malik Bagayogo, had the inspired idea of taking off a shoe; stringing a line of shoes behind him and then we all just responded to that. The shoe show made a connection.†But it was hard. Unlike a script, “there was nothing to hold on to except yourself and I didn’t have that to hold on to either as Brook was constantly undermining, criticising … well no,†– she corrects – “challenging.â€

“I failed as an esoteric actress. I wasn’t of that ilk; ultimately I’m not part of any group, not the Stanislavski group, the Grotowski group, the Brook group. I couldn’t do the self-effacement. Brook thought stardom was wicked, self-deluding and tasteless. Oh f*** it, I said, I want my name up there.†Shakespeare the actor doubtless felt the same way, I say. “Yes, but you know, I still do believe Brook is the great genius of the theatre of our time, so far ahead of everyone; doing what was unthinkable… He truly believes in common humanity.â€

She pauses for a second, then adds, “I believe in common humanity too: it’s sex, violence and money.†Then, hastening to explain, that by the “money†bit she just means our material cares and pleasures, she gives up on the qualification, throws up her hands, and lets the Essex chuckle roll round the panelled room. “Have another cup of tea,†she says. “Have a bickie.†I do.

17 de janeiro de 2011

Explicação aos leitores

Que esta bodega está meio abandonada, ça va sans dire. Razão pela qual peço aos leitores desculpas pelos comentários que ficam retidos aqui um tempão. É que nem eu (nem muito menos o Matamoros – atenção, Matamoros! Nem muito menos VOCÊ, Matamoros) passamos aqui frequentemente para ver se há comentários retidos. É por preguiça mesmo. E por que não liberar os comentários direto, sem mediação? Bem, da minha parte, é porque eu não sei como faz. Acredito que o Matamoros também não saiba. E talvez seja pior, se a gente só vem aqui muito de vez em quando, deixar liberado. Vai que um cara faz comentários que enquadrem o blog em leis de difamação, racismo, etc, e a gente nem fica sabendo. Portanto, sorry, moçada. Mas prometo que, da minha parte, tentarei vir mais amiúde liberar comentários que porventura houver.

Abraços gerais

4 de dezembro de 2010

É muito mais difícil do que parece

A legalização das drogas é uma ideia charmosa. Há vários argumentos que a tornam atraente:

1. Como a demanda por drogas sempre existiu e sempre existirá, alguém vai se encarregar de atendê-la. Se o consumo é proibido pelo Estado, os traficantes o farão. A repressão do governo e as disputas entre as quadrilhas provocam um imenso custo financeiro e em termos de violência. Se o consumo for legalizado, o tráfico acaba, dizem alguns.

2. O exemplo da Lei Seca nos EUA é eloquente. Não acabou com a demanda por bebidas alcoólicas e alimentou barbaramente o crime organizado.

3. Há uma questão de princípios em jogo aí. O Estado não deve ter o poder para definir o que o indivíduo deve ou não consumir. Não se deve impedir ninguém de fazer mal a si mesmo, desde que isso não cause mal a terceiros. É um princípio proposto por John Stuart Mill, como diz este texto da The Economist. ”Over himself, over his own body and mind, the individual is sovereignâ€, se você quiser citá-lo no original. Para quem preza a liberdade individual, um argumento poderoso.

4.   Economistas liberais de peso, como Milton Friedman, defenderam a legalização das drogas. Ou seja, uma proposta que agrada muita gente de esquerda conta com a aprovação de economistas ultraliberais.

5. Por fim, o motivo provavelmente mais importante – Reinaldo Azevedo é radicalmente contra a proposta.

Muito bem. Eu sou simpático à ideia de legalização total das drogas. A proposta é de fato atraente. Mas muita gente que a defende não parece pensar nas dificuldades de implementação. Um primeiro ponto é definir quais drogas serão legalizadas. Num texto bastante interessante e nada simplista, Hélio Schwartsman diz que,  ”em primeiro lugar, é preciso que seja uma política ampla, que abranja todas as drogas e não apenas as preferidas pelos filhos da classe média influente. O ’statu quo’ não muda se liberarmos a maconha, mas mantivermos a cocaína e a heroína proibidas.”

Aí já começam os problemas. Nenhum país, até hoje, legalizou todas as drogas. Até onde sei, a Holanda, um país rico, avançado e com alto nível de educação, libera o consumo de drogas mais leves, como maconha e haxixe, permitindo a venda de pequenas quantidades. Ou seja, não há um país cobaia que tenha ido a fundo na experiência. Parece um consenso entre os analistas de que o consumo tende a aumentar com a legalização, por facilitar o acesso às drogas. Em que medida isso ocorreria? Haveria um boom de consumidores de heroína, uma droga com poder devastador?  São questões complicadíssimas, para as quais não há resposta, já que não há um histórico internacional que ajude a medir os prós e os contras da legalização. O Brasil seria o pioneiro?

É claro que quem pensa na legalização de drogas como a cocaína e a heroína não defende a venda no bar da esquina. A ideia é que o comércio dessas substâncias seja submetido a regras rigorosas. Haveria controle de qualidade da droga e da quantidade vendida.  Mas continua a ser uma questão delicada se o Estado deve autorizar o comércio de algo tão potencialmente danoso como a heroína.

Outro ponto é que o tráfico tende a diminuir, mas não a desaparecer totalmente. O editorial da Economist que eu citei diz que os preços de drogas como a heroína cairiam com a legalização; eu acreditava no contrário. Mesmo assim, é bastante provável que uma parcela não desprezível de potenciais consumidores não tenha dinheiro para comprar as drogas nos postos legalizados. No Brasil, elas teriam impostos altíssimos – até porque, num país com uma carga tributária nas alturas, não há como conceber cocaína tax free. Uma parte dos dependentes compraria então drogas mais baratas no mercado negro, provavelmente o crack. Ou haveria a legalização do crack, uma droga que destrói indivíduos e famílias numa velocidade assustadora? Ela seria vendida em locais reconhecidos pelo Estado, a preços camaradas?

Enfim, legalizar as drogas parece uma grande solução, possivelmente a menos pior de todas, mas que esbarra em 20 mil dificuldades práticas. Além da provável oposição feroz de grande parte da sociedade num país como o Brasil, a implementação é muito complicada. Se a legalização por aqui um dia ocorrer, será um processo muito lento, que começará por drogas leves, como a maconha. O ideal seria que algum país fizesse a experiência da legalização total. Depois de alguns anos, seria possível ter uma ideia das consequências da decisão, ainda que tendo em mente que o resultado em outros lugares não seria necessariamente o mesmo. O meu palpite? Legalização total das drogas é algo que nem os netos dos netos dos meus netos verão – no Brasil e talvez no mundo.

26 de outubro de 2010

Cassandra numa hora dessa?

A gente sempre deve desconfiar quando a esquerda diz que o mercado não funciona e quando a direita diz que o mercado resolve. O mercado funciona sim, mas nem sempre resolve. Quando o mercado traz uma situação de desequilíbrio de volta para o equilíbrio, este movimento algumas vezes envolve três terremotos e dois tsunamis – quer dizer, resolve, mas no processo te transforma em papinha.

O Brasil adentra um quadro algo preocupante, tendo em mente os pressupostos acima. Um governo de esquerda produziu um momento econômico exuberante, com alguns sintomas de bolha em estágio inicial de formação, e acompanhado de câmbio valorizado e déficit externo crescente. É algo que deveria preocupar economistas de esquerda de cepa tradicional. Por outro lado, se você leva para um economista liberal, ele diz que o “mercado resolveâ€, isto é, o câmbio flutuante (que flutua ao sabor do mercado) resolve.

 O problema é que os economistas de esquerda, que deveriam estar gritando histéricos (e alguns poucos e velhinhos estão, mas sem que ninguém dê bola – já são considerados café-com-leite), foram em grande parte cooptados. É chato enfiar a porrada na exuberante economia de um governo de esquerda.

Os economistas de direita acham que o mercado resolve, mas pelo sim, pelo não, recomendam austeridade fiscal. No que são violentamente rechaçados – isto aqui é um governo de esquerda, viram, vendilhões?!

E o resultado é que vamos surfando a onda despreocupados, confiando na sabedoria do mercado que resolve, mas sem sequer seguir os procedimentos mínimos de prudência recomendados pela mesma turma que diz que o mercado resolve. As propostas dos poucos velhinhos de esquerda realmente preocupados são desconsideradas, por muito malucas, e porque basicamente arruínam os fundamentos da popularidade de 82%. Num quadro totalmente elanavevá, a única medicação politicamente disponível são controles de capital, de difícil regulagem – não queremos US$ 100 bi de capital externo, mas não podemos passar sem US$ 50 bi.

 Espero que dê certo

14 de outubro de 2010

Frankenstein saiu do controle

Acho que poucas pessoas poderiam negar que, apesar de tremendas resvaladas em baixaria – de que o “matar criancinha†de Mrs. Serra talvez seja a pior -, PSDB e PT detêm os principais quadros políticos do que se poderia chamar um Brasil moderno. O modelo político desde a redemocratização, em que esses dois partidos se engalfinham como feras famintas em combate no Coliseu, e o vencedor arrasta consigo as hostes do Brasil profundo e retrógrado sempre pressupôs, como na história de Frankenstein (já faz tempo que li, mas o que se segue, se bem me lembro, não é bobagem), que o monstro era controlável.

Agora, nesta eleição, Frankenstein começa a botar os parafusos de fora, e homofobia e histeria religiosa na discussão do aborto são os primeiros sinais. Haverá, tenho certeza, a leitura petista de que toda a culpa é do PSDB, que teria atiçado pulsões autonomistas no monstro, só para lucrar eleitoralmente. Mas o fato é que, dado que o jogo é de combate mortal tendo em vista a extirpação do oponente, a tentação do cientista sem monstro de jogar o monstro contra o cientista com monstro será sempre muito grande. Vamos ter de conviver com um Frankenstein progressivamente soltinho

9 de outubro de 2010

Nunca antes o do meu pai foi tão maior que o do teu

Eu devo ser um eleitor precioso para os marqueteiros. Segundo minhas estimativas, cada vez que um candidato perde o meu voto, ele provavelmente ganha o voto de algo entre 86,3 e 103,5 brasileiros. Sendo assim, perder o voto arranhapôntico deveria ser um dos objetivos principais de todo marqueteiro.

Neste momento, num segundo turno em que o tucanismo já perdeu, perdendo a razão de ser ao fazer promessas de campanha de uma irresponsabilidade populista de que nem o Garotinho seria capaz, só resta a eleitores como eu votar na Dilma ou anular.

Quando penso nas boas coisas que o Lula fez, e que são muitas, fico inclinado a votar na Dilma. Mas quando vejo essas comparações entre o governo FHC e o governo Lula, perco a vontade. Porque as comparações me fazem mover o foco das boas coisas que o Lula fez no seu governo para as merdas que o PT fazia no passado, antes de chegar ao poder.

Perguntar-me-ão: mas as comparações não mostram justamente as coisas boas que o Lula fez? A minha resposta é de que não exatamente. As comparações tendem a mostrar mais resultados que, como tentei indicar neste post aqui, não dizem grandes coisas por si só (o que não quer dizer que necessariamente não digam grandes coisas jamais).

O problema é que as ações que levaram aos bons resultados do governo Lula são parcialmente escamoteadas, pois muitas delas derivam da era Palocci, na qual preponderou um salto evolutivo em relação a FH. Em certos aspectos, o paloccismo foi superior ao que prevaleceu no segundo mandato do FH. Mas o problema do paloccismo é que não dá para fingir que não houve continuidade, ainda que melhorada. Elogiar Palocci é, inevitavelmente, homenagear FH.

Então, por razões de marquetagem política, o espírito das comparações está centrado na era pós-Palocci, na qual se colheram muito mais frutos, mas cujas políticas são sementes recém-plantadas, cuja medida de sucesso (ou de fracasso) só se revelará alguns anos à frente.

Resumindo, as comparações, na parte do governo Lula, contam uma história de sucesso que é muito diferente da minha história de sucesso do governo Lula, que faria (ou talvez fará) com que eu vote na Dilma.

Bem, e aí, na parte das comparações referentes ao governo FH, é sempre aquele velho ódio destilado contra um presidente que pegou um país que era um cacareco inviável (ok, isso foi ainda no governo Itamar, com FH como ministro da Fazenda), e, em meio a tremendas atribulações (das quais o PT foi, nem de longe a maior, mas uma não-desprezível parte), muitos erros e alguns acertos históricos e fundamentais, lançou algumas das mais profundas bases do que estamos vivendo hoje.

E, naquela época, o papel do PT era horrível. Não dá para deixar de pensar no que o PT fazia e representava no governo FH quando o PT fala mal do governo FH.

As comparações, portanto, me atrapalham a votar na Dilma e sim, podem dizer, sou um velho tucano enrustido e ressentido (se colocarem um ex antes de tucano eu quase assino).

E, certamente, vale a pena perder meu voto para conquistar outros 86,3 a 103,5

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