31 de agosto de 2010

O Datafolha é feio e malvado

Uma parte da esquerda brasileira é bem divertida. O esporte preferido do pessoal é o maniqueísmo chinfrim. Decidiram que um dos grandes vilões da eleição é o Datafolha, o pior instituto de pesquisas do mundo. Segundo a versão dessa galerinha, o Datafolha tentou durante um bom tempo impulsionar a candidatura de José Serra com números falsos. Como a estratégia não colou, teve de ceder à Verdade.

Desde que acompanho eleições, a minha impressão é que o Datafolha é o instituto com maior índice de acerto e, portanto, o de maior credibilidade. Os resultados de algumas pesquisas neste ano realmente pareceram estranhos, por destoarem muito dos outros institutos. Uma possibilidade bastante razoável é que isso deva a diferenças de metodologia. A do Datafolha talvez tenha algumas fragilidades, como não ir a casa dos entrevistados, o que pode ter levado o instituto a não captar bem o quadro eleitoral num determinado momento.  O instituto também não faz perguntas no começo da entrevista que possam estimular nomes de candidatos. Isso pode ter tido alguma influência nos resultados.

Mas essas explicações são aborrecidas. Para parte da esquerda brasileira, os números divergentes foram parte da tentativa da Folha de eleger Serra. Um instituto de pesquisas vive de sua credibilidade, como diria o conselheiro Acácio. Tentar mudar a realidade à força, manipulando enquetes, é pouco inteligente – e ruim para a própria imagem da instituição. Quem é esperto, porém, não cai nessa. Sabe que o Datafolha queria mesmo era derrotar Dilma.

Uma coisa interessante é que ninguém de esquerda reclama do resultado do Datafolha em Minas Gerais, que mostra Hélio Costa, esse progressista, com 43%, ainda bastante à frente de Antonio Anastasia, que aparece com 29%. O Ibope já traz Anastasia com 35% e Hélio Costa com 33%. Mas provavelmente em Minas Gerais o Datafolha é que está certo, não é mesmo, amigos da blogosfera progressista?

25 de agosto de 2010

A blogosfera progressista

Eu sabia que alguma coisa de interessante sairia do Encontro de Blogueiros Progressistas, mas o pessoal se superou. Por acaso, li, via A mão visível, a “redação inicial da declaração final” da reunião. Dois trechos me deixaram comovido. O primeiro é bonitinho:

“A blogosfera é produto dos esforços de pessoas independentes das corporações de mídia, os blogueiros progressistas, designação que alude a àqueles que, além de seus ideais humanistas, ousaram produzir o que já se tornou o primeiro meio de comunicação de massas autônomo. Contudo, produzir um blog independente, no Brasil, ainda é um ato de heroísmo porque não existem meios sólidos de financiamento para exercer a atividade profissionalmente, ou seja, obtendo remuneração.”

É sempre ridículo quando a palavra blogosfera é usada sem nenhum traço de ironia, mas o ridículo se torna grotesco quando se diz que “a blogosfera é produto dos esforços de pessoas independentes das corporações de mídia, os blogueiros progressistas”. Quer dizer que a blogosfera só inclui os “blogueiros progressistas”? Se o blogueiro é conservador, reacionário ou umbandista, ele não faz parte da blogosfera?

Mas o melhor é quando os blogueiros progressistas sugerem que querem é passar o pires. “Produzir um blog independente, no Brasil, ainda é um ato de heroísmo porque não existem meios sólidos de financiamento para exercer a atividade profissionalmente, ou seja, obtendo remuneração”. Fiquei com dó. Será que a TV Brasil não topa fazer o Blogueiro Esperança? É um modo de arrecadar dinheiro para esses verdadeiros heróis do Brasil, os blogueiros progressistas. Eu doaria uma grana. Afinal, é melhor pedir do que roubar.

Um trecho mais adiante, porém, deixa claro que eles não querem esmola. Os sujeitos são realmente ambiciosos:

“Reivindicamos a elaboração de políticas públicas que incentivem a veiculação de publicidade privada e oficial remuneradas nos blogs, bem como outras formas de financiamento que efetivamente viabilizem essa forma de comunicação representada pela blogosfera progressista, de maneira que possa ser produzida por qualquer cidadão que disponha de competência para explorar seu potencial econômico e comercial, exatamente como fazem os meios de comunicação de massas tradicionais com amplo apoio do Estado por meio de fartas verbas públicas que, com freqüência, são repassadas sob critérios meramente políticos e que ignoram a orientação constitucional que determina pluralidade na comunicação do país.”

É isso aí. Reúna dois ou mais progressistas brasileiros numa sala e a possibilidade de que eles aprovem um documento pedindo grana do Estado é próxima de 100%. Pode ser por meio de eufemismos, como “a elaboração de políticas públicas que incentivem a veículação de publicidade privada e oficial nos blogs”. Será que eles querem que o BNDES financie os blogs? Ou esperam pela capitalização direta do Tesouro? Quer ser blogueiro independente? Vá à luta, consiga patrocínio. Até blog tem que depender da mão amiga do Estado? Vão querer o Bolsa Blogueiro?

Talvez seja tudo inveja minha. O Torre de Marfim dificilmente pode ser enquadrado como blog progressista. Não vamos receber nenhum centavo. Mas não vou perder a esperança. Quem sabe se apoiarmos a eleição do Hélio Costa em Minas Gerais, da Rosana Sarney no Maranhão e do Netinho em São Paulo nós viramos progressistas?

24 de agosto de 2010

24 de agosto

Eu acho que existe um mérito especial no suicídio de Vargas, que é o fato de ele ter alvejado o coração, e não cabeça. A gente conhece muitas histórias de suicídio, inclusive de chefes de Estado, e o relato é sempre de tiro na cabeça, que é a forma mais rápida, fácil e garantida de se suicidar, mas é um espetáculo horripilante, em que a repulsa supera qualquer sentimento de glória trágica. Hitler, por exemplo, ao que eu saiba, deu um tiro na cabeça, embora, também ao que eu saiba, o corpo não tenha sido achado, e aquele detalhe provenha de relatos da entourage.

De qualquer forma, para se matar com um tiro no coração é preciso perícia de atirador, acho eu – e o Vargas, como gaúcho, certamente mexia bem com armas, ou não? –, e bastante macheza, já que há mais chances de erro, isto é, de não se conseguir se matar, do que com uma bala na cabeça.

A estética é sem dúvida muito superior, não há miolos salpicados pelo chão, mas sim, provavelmente, um fio de sangue escorrendo pelo tórax (só agora você percebeu que eu estou viajando?). E sem dúvida o apelo romântico de um tiro no coração é incomparavelmente maior do que o de estourar o crânio. Está dito.

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Leio artigos sobre risco de mexicanização da política brasileira, com a perspectiva de vitória esmagadora e humilhante de Dilma/Lula, e a investida do presidente em redutos tucanos, como São Paulo e Minas. O que querem? Que Lula perca de propósito, dê chances aos adversários – como eu fazia com as minhas filhas até os oito anos -, para preservar a democracia supostamente ameaçada? Qual político em qual país democrático do mundo faria isso? Bem, nem percorri os blogs hoje, mas é bem capaz que esse ponto já tenha sido feito pela esquerdalha triunfante. Se não fizeram, deveriam ter feito.

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Se eu fosse parlamentar, teria uma bandeira com tudo para bombar: a lei do dia de folga no aniversário

13 de agosto de 2010

Uma proposta importante

A história ocorreu com um amigo meu há alguns anos, num táxi em Belo Horizonte. Quando o motorista percebeu que ele era de São Paulo, não se conteve:

 - Mas São Paulo é muito cara, como é que vocês conseguem viver lá? 

Antes que o meu amigo dissesse alguma coisa, ele continuou:

- Estive lá no fim de semana. Uma chupetinha custa R$ 50. Aqui, eu pago R$ 15!

Sempre que me lembro dessa história edificante sobre as diferenças do custo de vida nas grandes metrópoles brasileiras, eu penso em como seria importante incluir nos índices de preços a cotação do boquete. Imagine as manchetes: Preço do boquete dispara e IPCA de julho é o mais alto desde 2005. Os telejornais poderiam explorar a diferença de preços nas grandes metrópoles, entrevistando clientes e fornecedoras  – e fornecedores - do serviço.

Carlos Alberto Sardenberg, na CBN, não teria nenhuma dúvida: “O BC tem que aumentar os juros. O preço da chupetinha não para de subir. É a inflação de serviços em alta, o que mostra como a demanda está forte, sancionando o aumento de preços.” Fica a sugestão para IBGE, FGV e Fipe. Seria um ganho de qualidade para as medidas de inflação incorporar um serviço tão importante para os brasileiros.

Uma pena que o boquete é non tradable – se tradable fosse, eu gostaria muito de ver um Blow Job Index, uma versão do que a The Economist faz com o Big Mac Index, um modo informal de medir a paridade do poder de compra entre várias moedas*. Ou não seria instrutivo para o viajante saber quanto custa a chupetinha em São Paulo, Nova York, Tóquio, Oslo, Xangai e Bangcoc?

* O próprio Big Mac reflete o custo de itens non tradables, como mão de obra e aluguel. O problema é que o boquete não tem nada tradable. Mas às favas com esses escrúpulos. Que alguém tenha coragem de criar o Blow Job Index

11 de agosto de 2010

O Fla x Flu eleitoral

O clima de Fla x Flu eleitoral que toma conta da internet ainda me deixa perplexo. Até gente de bom senso escreve coisas difíceis de acreditar. Há algumas semanas, o Hugo Albuquerque disse no Twitter: “Antes eu achava que um eventual governo de Serra seria como o de Collor, hoje, eu suspeito que seria pior”. Pode ser que tenha sido uma hipérbole, mas não me pareceu o caso. Não há a menor possibilidade de que um governo Serra seja igual ou pior que o de Collor.

Por menos que você goste de Serra, ele não é um escroque como Collor. Está longe disso. Além disso, a situação do país hoje é mil vezes mais tranquila do que em 1989. A economia está absurdamente melhor e o quadro político é muito mais estável. Esta é a sexta eleição presidencial desde a redemocratização, um fato que por si já mostra o avanço e o amadurecimento do país.

 A rivalidade entre tucanos e petistas, ou mesmo entre simpatizantes do candidato tucano e da candidata petista, produz caricaturas francamente constrangedoras. Para alguns dilmistas, Serra é um monstro direitista disposto a acabar com as conquistas sociais de Lula. Para muitos serristas, Dilma é uma esquerdista perigosa, pronta para limitar as liberdades individuais. Esses são os extremos, claro, mas mesmo muita gente moderada tem avaliações totalmente irrealistas sobre as duas candidaturas, como mostra essa frase do Hugo.

 Eu não vou votar nem Serra nem em Dilma. São mais intervencionistas em economia do que eu gostaria. Dilma pode continuar com a política de aumento acelerado dos gastos públicos, enquanto Serra pode querer mudar à força o nível do câmbio e dos juros. Mas nenhum dos dois será uma catástrofe – e nem a redenção. Eles não vão colocar em risco as melhoras obtidas a partir de 1994 com a estabilidade, e que, no caso do crescimento e da distribuição de renda, se acenturaram a partir de 2004. Pode ser que desperdicem a chance de o país avançar mais rápido, se não mudarem a política fiscal e não investirem mais e melhor na educação. Mas o ponto é que não vão colocar tudo a perder, como alguns dilmistas acreditam que ocorrerá com a vitória de Serra e como alguns serristas têm certeza de que ocorrerá se Dilma for eleita.

 Os dois me parecem ter entrado na política por ter espírito público, assim como Marina – que eventualmente pode levar o meu voto, já que é assessorada por bons economistas como Ricardo Paes de Barros e Eduardo Giannetti. Tudo isso é óbvio, mas o Fla x Flu impede que muita gente de bom senso veja o óbvio. Que gente como Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo e seus leitores mais debiloides acreditem em caricaturas não é motivo de surpresa. O que me espanta é que a rivalidade desta eleição é tão grande que mesmo pessoas de bom senso vejam o adversário de seu candidato como um demônio.

Eu sei que a minha visão da eleição é aborrecida. Num momento em que petistas e tucanos se comportam como torcidas organizadas, esse tipo de análise deve ter tanto ibope quanto filme iraniano com legendas em húngaro.  Mas é o que eu queria dizer há muito tempo

30 de julho de 2010

Bem que Dunga & cia mereciam

Bem, não sou nem nunca fui comunista (tá, talvez aos 14 anos e meio, quando li dois ou três livros do Sartre, tenha sido um pouquinho), mas é preciso dar o crédito quando ele é devido.

O modelo norte-coreano tem lá as suas virtudes:

aqui

22 de junho de 2010

Do meu Brasil faço uma limonada

O Brasil me entristece muitas vezes. Mas sabe também, não diria exatamente me alegrar, mas me divertir. Sério. É um certo privilégio surrealista morar num país no qual, de uma hora para outra, assim sem mais nem porquê, all of a sudden, num repentino coup de théâtre, o Dunga se torna herói da esquerda… e bête noire do Reinaldo Azevedo.

Em Santa Tereza, aliás, já se veem mais camisetas do Dunga do que do Che Guevara. E a citação mudou um pouquinho: “Hay que vencer, y al carajo con la ternura!”

11 de junho de 2010

Salve a seleção

Apenas uma coisa me irrita mais em tempos de Copa do Mundo do que o pachequismo galvãobuênico: a babaquice de quem torce contra o Brasil, mal que acomete muita gente nesta época, inclusive grandes amigos meus.  É claro que ninguém é obrigado a torcer pela seleção, como implicitamente sugere a besta do Dunga. Mas, para mim, assistir a futebol requer um mínimo de envolvimento. Se vejo um jogo de várzea, começo a torcer por um dos times. Fica mais prazeroso. Quando há alguma  identificação, é muito melhor. É o caso dos jogos do São Paulo, meu time, e também da seleção. Por menos nacionalista que eu seja, nasci aqui, e acompanho principalmente o futebol brasileiro. Por mais bobagens que faça Dunga, não vou torcer contra o Brasil. É a equipe com a qual me identifico na Copa, tanto faz se jogar bonito ou se atuar como um time do interior que enfrenta o campeão brasileiro com três jogadores a menos.

Acho engraçado, aliás, o sujeito que comemora o gol de seu time mesmo quando ele é feito de mão, impedido, com o atacante pisando na cabeça do goleiro adversário, mas que, quando vê um jogo da seleção, exige a reencarnação da equipe de 1970. O time do coração pode jogar feio, mas tem sempre a fidelidade. Já a seleção precisa jogar bonito sempre.  Se o time não reeditar a “magia do futebol brasileiro, ofensivo e moleque”, é melhor torcer para a Argentina.

Eu gosto de futebol ofensivo, mas não é preciso ser muito inteligente para saber por que os técnicos são mais cautelosos na Copa. É um torneio curto, que a partir das oitavas de final é decidido em mata-mata. Quando duas seleções de mesmo nível se enfrentam, quem toma um gol primeiro tem grandes dificuldades em virar. Neguinho sofre  uma mega pressão por quatro anos e vai dar mole para manter o “verdadeiro espírito do futebol brasileiro”? Não estou defendendo Dunga, que deveria ter convocado Ganso e Ronaldinho Gaúcho, para ter mais opções de jogo. É apenas a constatação do óbvio. Ou alguém por aí quer que a seleção jogue como o Santos de Dorival Jr., que quase todo jogo toma dois ou três gols?

Por tudo isso, raro leitor, adotarei algo como um pachequismo crítico nos jogos do Brasil, como sempre faço. E tenho certeza de que vou me divertir bem mais do que quem resolver torcer para a Argentina ou para a Holanda, em nome do futebol arte ou para protestar contra os desmandos de Ricardo Teixeira

17 de maio de 2010

A dura vida de quem odeia “o cara”

Hoje, novo recorde de popularidade, segundo o CNT/Sensus.

E lá fora, no prestigioso FT:

Brazil’s Iranian mission defies critics, brings possible results

May 17, 2010 3:50pm

by Jonathan Wheatley
 

Brazil has come in for some tough criticism of its “friends with everyone” foreign policy, including the FT which recently had a go under the headline “Brazil’s cuddly ways are barrier to seat at the top table.”

But the weekend’s news of a deal to swap Iranian nuclear fuel in Turkey could vindicate Brazilian diplomacy. The idea that Iran would abandon its alleged nuclear weapons programme in favour of a peaceful nuclear energy programme in response to amicable talks rather than under the threat of UN-backed sanctions seemed unrealistic, even naïve. But it may well have paid off. Even a US official conceded today that the latest news was “potentially a good development.”

If so, Celso Amorim, Brazil’s foreign minister, can be forgiven some self-satisfaction. “We are holding conversations in a respectful manner and with conviction… Our language is not that of pressure. Our language is that of persuasion, friendship and cooperation,” he told reporters in Tehran on Monday.

It is not the first time Mr Amorim has made thinly-disguised criticism of the US position on Iran. During a visit to Brazil by Hillary Clinton, the American secretary of state, in March, he drew parallels between the US’s failure to find weapons of mass destruction in Iraq and its assertions over an Iranian nuclear weapons programme.

Whatever Brazil may achieve, Iran is clearly grateful. Over the weekend it released Clotilde Reiss, a French teacher imprisoned for taking part in anti-government protests in June 2009 and sending photographs of the events to the French embassy. Her release, recognised by all concerned as the fruit of Brazilian diplomacy, was described by Mahmoud Ahmadi-Nejad, Iran’s president, as “a present to Brazil”.

As the FT’s David Gardner noted earlier on beyondbrics, it could all dissolve into yet another false diplomatic dawn. But Brazil’s initiative might also help avert war with Iran. It has certainly been worth trying.

1 de maio de 2010

Como se um só já não fosse complicado o bastante

Meu irmão que gosta de astronomia outro dia disparou a falar do multiverso, que pode até ser poético, mas não tem nada a ver com poesia – o bando (bandão, talvez até um número infinito, ou pelo menos muito grande) de universos que pipocaram junto com o nosso durante o Big Bang.

Como não entendo desse negócio, nem perco muito tempo com o lado superinteressante da vida, este será um post meio tronchão, em sincronia com minha capacidade de escrever sobre o tema. Texto e conhecimento tronchos combinar-se-ão num novo e revolucionário estilo.

Eu li lá a revista que ele estava lendo, e, pulando trechos e mais trechos de minúcias que não me interessavam, saquei que o grande babado do multiverso pode ser resumido numa ideia simples: o nosso universo é improvável demais para jamais ter existido a partir de uma tentativa única. É preciso que tivessem surgido do Big Bang um porrilhão de universinhos totalmente freak, em que as leis da física não levariam a existência de nada que possa propriamente ser considerado matéria e muito menos vida, para que, por probabilidade, um deles acabasse tendo as leis reguladas na medida exata para que algo assim como o que nos cerca pintasse.

Digamos que o nosso universo é muito apertado nas juntas probabilísticas (e pronto: foi só para usar essa frase que escrevi o post). Sem trilhões de universos tentando, a probabilidade de que existisse algo como o que a sra. ou o sr. vê, ouve, cheira, sente e prova à sua volta (e inclua a sra./sr. também nisso) tende ao nulo.

Bem, quando alguém se atreve a escrever sobre um assunto desses depois de ter lido em sete minutos uma matéria de oito páginas e conversado durante meia hora, mas só tendo prestado atenção durante uns três minutos, com um irmão que não sabe explicar as coisas e provavelmente não entende tanto assim delas ele mesmo – bem, nesse caso, soar como um proferidor de fulgurantes asneiras para quem de fato conhece minimamente o assunto é quase inescapável. Então, ok, desculpe aí, ô sabichão.

É que no fundo o que eu queria mesmo (me repetindo) era escrever que “o universo é muito apertado nas juntas probabilísticas”.

Outro pensamento que me ocorreu com a história do multiverso é que os crentes poderão dizer: “Pô, estão apelando. Descobriram que a combinação de leis que regem nosso Universo é tão improvável que provavelmente jamais pintaria num Big Bang – aí, em vez de darem o braço a torcer, e admitirem que um Deus entrou na parada para fazer a regulagem fina, partem para essa história de trilhões de universos para que um fosse como o nosso”.

Deve ser outra grande asneira. De qualquer forma, tentei desviar o assunto para essa questão, mas meu irmão não prestou a menor atenção no que eu precisamente falava. Ele continuou a discorrer sobre Big Bang, quasares, pulsares, teoria das cordas, etc., mas aproveitou para misturar com as habituais críticas ao obscurantismo da Igreja e dos crentes, e foi nessa toada por muitos e muitos minutos intermináveis até notar que tanto eu quanto a mulher dele emitíamos sinais nítidos de paciência esgotada. E aí a conversa girou e falamos de qualquer outro tópico restrito ao nosso singelo universinho (ou deveria escrever monoverso?)

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