Este era para ser um longo post sobre o paulatino ocaso do prestígio dos pombos, essas aves que um dia simbolizaram a paz e que cobriam, felizes, turistas deslumbrados na Praça de São Marcos até o início da década de 70.
Condenados pela desumana ciência moderna como transmissores de doenças, hoje os pombos são tratados como ratos, e olhados com nojo e desprezo pela elite cosmopolita globalizante. Alimentar os pombos virou gafe, na mais benevolente das hipóteses.
Este era para ser um longo post, num tom sobriamente melancólico, condoído mesmo, uma espécie de réquiem para os dias de glória dos pombos, quando figuravam solenes, sem sombra da vergonha contemporânea, nas melhores abóbadas da Renascença.
Mas logo me dei conta de que a tarefa estava acima do meu fôlego histórico e literário. E optei por um recorte bem mais restrito do vasto tema. A minha proposta agora é investigar por que os pombos brasileiros são tão estropiados quando comparados aos exemplares roliços e saudáveis que encontro em países ricos – os pombos de Genebra, por exemplo, me vêm logo à cabeça.
Uma primeira aproximação da resposta ao enigma me ocorreu por meio do muito arguto comentário de uma amiga – “esses pombos brasileiros parecem uns favelados “ –, enquanto contemplávamos o triste espetáculo dos pombos desmilinguidos na calçada do Arpoador. As penugens eriçadas denotavam uma mistura de subnutrição, doenças várias de pena e escaramuças com ratazanas de esgoto.
E foi aí que sobreveio o estalo: mas é claro! O aspecto geral dos pombos está correlacionado ao grau de desenvolvimento sócio-econômico do país. Num país cheio de favelados, os pombos parecem uns favelados. Num país de burgueses garbosos e bem nutridos, docemente imersos no embarassment of riches, os pombos apresentam aquele porte alinhado e quase altivo que me faz esquecer por instantes o caminhão de doenças que as más-línguas dizem que carregam.
Aliás, devo reconhecer meu viés de classe: entre virar poleiro de pombos genebrinos ou arpoadorenhos, eu não pensaria mais do que meio microsegundo (aquele que vem sendo subtraído do dia a cada novo terremoto, de tal forma que em breve seremos enxotados da dimensão tempo) antes de optar pela primeira alternativa.
Agora, tem isso. Todo escriba da internet, mormente aqueles de temperamento científico, como este que ora tamborila o teclado, identifica de imediato, antes mesmo dos bits se assentarem confortavelmente na webpage, a presença daquele leitor impertinente, metido a espertinho, com as suas objeções excitadas, mal e mal contidas, prestes a voar para a caixa de comentários para supostamente, entre engasgos e vituperações precoces, fustigar o grande insight com afirmações enfadonhas e tolinhas do tipo “o que explica a diferença de aspecto entre os pombos é o clima, e não o desenvolvimento sócio-econômico do país”.
Aí o petulante sabe-tudo prossegue dizendo que, num clima tropical como o do Brasil, é natural que os pombos adquiram mais perebas de penas, e que a digna forma dos meus pombos de Genebra deve-se apenas à proteção contra microorganismos provida pelo clima temperado.
Ora, ora, meu caro sub-projeto de Darwin reencarnado, você acha que eu não pensei nisso? Que, antes de deitar definitivamente em texto mais uma teoria original e certeira, não examinei os múltiplos caminhos sugeridos pela questão primeira? (deu vontade de rimar de repente). Não me faça rolar himalaias.
Antes de pulverizar seus argumentos, e transformá-los num montinho cinzento desprendendo um fiapo de fumaça em espiral, deixe-me fazer um pequeno prólogo. Eu tinha um amigo que costumava citar uma célebre (no contexto do nosso restrito círculo intelectual) observação de Aristóteles, na qual o filósofo explicava por que as mulheres são menos inteligentes: “Basta ver que têm menos dentes”. E não me lembro se rima também em grego.
É verdade que a ciência evoluiu na direção de certo empirismo deselegante, que trouxe inegáveis contribuições e inventos que pontilham a existência moderna. O método científico dos pais da filosofia, porém, não deve ser desprezado. Àqueles que contestam a minha teoria da correlação entre nível sócio-econômico e estado geral dos pombos, com essa bobajada de clima e micróbios, tudo o que eu tenho a dizer é o seguinte: “Basta ver que Cingapura tem pombos roliços”.
E mais não escrevo
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(nada a ver com o post acima, please)
Pensando bem, fora os acidentes, tudo é repetição

