Eu acho que a linha mais bocó de se combater o racismo é dizer que “raça não existe”. É a linha, me parece, das Organizações Globo e do consenso burral que informa a pseudo-intelectualidade brasileira. Quer dizer, então, que se raça existisse, então era para ser racista? Raça não existe se for definida de forma errada, como era definida no passado, quando não se conhecia a moderna genética. Se eu definir “vassoura” como “utensílio utilizado pelas bruxas para voar”, vou concluir que vassoura não existe. É mais ou menos o mesmo que fazem com raça. Como sou um argumentador desonesto, não vou dizer qual é a definição correta de raça (mesmo porque eu não sei precisamente, mas sei que existe). E só para perturbar os kamelistas, linko um texto de hoje do Estadão do sempre interessante Fernando Reinach:
A igualdade entre os homens e a hepatite C
Fernando Reinach*
Faz séculos que o problema ético da igualdade entre os homens é discutido por religiosos, cientistas políticos e filósofos. Agora é uma preocupação da indústria farmacêutica. E a culpa é dos geneticistas.
Iguais perante a lei, nós sabemos que somos diferentes. O simples fato de reconhecermos um amigo em uma foto demonstra nossa individualidade. Até muito recentemente a indústria farmacêutica assumia nossa igualdade: os mesmos remédios são receitados para todos os pacientes com o mesmo diagnóstico. Mas, desde que os geneticistas demonstraram que o genoma de cada pessoa é diferente do genoma de todas as outras pessoas do planeta, os farmacologistas imaginaram que algum dia os tratamentos seriam personalizados. Estamos longe dessa época, mas uma descoberta feita com pacientes contaminados com o vírus da hepatite C demonstra o que nos espera.
A hepatite C infecta 170 milhões de pessoas e 25% delas desenvolvem cirrose hepática, o que pode levar à morte. O único tratamento conhecido, com interferon modificado e antirretrovirais, é caro, demora 48 semanas e provoca efeitos colaterais. Mas o pior é que somente uma fração dos pacientes se livra do vírus.
Faz anos que se sabe que diferentes grupos étnicos reagem de maneira diferente. Entre as pessoas de origem africana, 25% são curadas pelo tratamento, mas esse número sobe para 80% entre os asiáticos, o que indica que existe um fator genético que influencia o sucesso do tratamento.
Recentemente, geneticistas tentaram descobrir por que algumas pessoas se curam com o tratamento e outras não. Analisando o genoma de mais de 1,6 mil pessoas, descobriram uma variação no genoma, localizada no cromossomo 19, que está intimamente ligada ao sucesso do tratamento. Pacientes que possuem o nucleotídeo C nessa posição reagem bem ao tratamento, mas o tratamento não é bem-sucedido se a pessoa tiver o nucleotídeo T .
Essa descoberta explica também a diferença entre as raças. Entre os asiáticos, 90% das pessoas possui o nucleotídeo C e somente 10% o nucleotídeo T. O oposto ocorre entre os africanos, nos quais a frequência de C é de 25%. Em ambas as raças, a taxa de sucesso nos pacientes com o nucleotídeo C é semelhante, mas estes são mais raros entre os africanos.
Em princípio, isso parece um progresso, pois permite saber de antemão quais pacientes vão se curar e quais nem sequer devem ser tratados. Infelizmente, a realidade nunca é tão simples. Uma pequena fração das pessoas com o nucleotídeo C não reage ao tratamento e um pequeno número de pessoas com o nucleotídeo T se cura.
E agora, o que fazer? Se o objetivo for minimizar o custo do tratamento e aumentar a taxa de sucesso, a recomendação seria tratar somente os pacientes C. Mas aí estaremos deixando de tratar os poucos pacientes T que reagiriam bem. Ou será que a melhor opção é ignorar essa descoberta e continuar tratando todos os pacientes?
É neste momento que a decisão sai do âmbito dos farmacólogos e médicos e volta a interessar religiosos, cientistas políticos e filósofos. Perante a farmacologia, devemos continuar a ser tratados como se fôssemos todos iguais?
*fernando@reinach.com
Biólogo


Aviso aos navegantes: dei o pontapé inicial mas fugirei covardemente de qualquer discussão que porventura pintar porraqui.
E, é claro, a melhor linha de combate ao racismo é dizer que é escroto ser racista
A primeira coisa que um racista afirma é que raças existem. Aliás, ele nem afirma isso, ele já passa para o ponto 2, que é: sua raça é uma merda, a minha é linda, portanto fique no seu lugar e não me encha o saco. Portanto, a existência da raça é um pressuposto indiscutível. Se quisermos desconstruir totalmente o discurso racista, algo para, talvez, muitas gerações à frente, a primeira coisa a fazer é, de forma lógica, demonstrar a imbecilidade que é defender que o que não existe, existe. Isso não convence o racista empedernido, mas ajuda a isolá-lo. Quer coisa melhor do que fornecer a ele o argumento que uma diferença biológica, que indica melhor preparo genético para isso ou aquilo, significa uma diferença racial? Daqui a pouco teremos a disputa para afirmar qual raça está melhor preparada para os farmacológicos das principais doenças do mundo. Eita coisa bonita de se ver…
Vassoura é uma realidade tangível que independe do nome que venhamos a dar àquele objeto que podemos desenhar com uma bruxa em cima. Raça não; é um conceito que visa traduzir diferenças inerentes e inescapáveis às quais os seres humanos deveriam se submeter. Quando o nobre biólogo matreiramente pergunta “perante a farmacologia, devemos continuar a ser tratados como se fôssemos todos iguais?”, a primeira e óbvia coisa que devemos lembrá-lo é que a famacologia, que, imagino, tem alguma ligação com a medicina, deve relevar as chances dos pacientes, pois o único ético neste e em casos semelhantes é tentar sempre a cura. Devemos, ao menos, nos esforçar para tornar o menos provável em menos custoso. A segunda, é lembrar que ele faz um truque: para defender que existe raça, ele esquece que falamos de probabilidades e estatística, e faz um truque: 25% de chances de cura não é cirrose hepática certa; e imagino que como há níveis de cirrose e diferentes sobre-vida para quem a adquire, que, no final das contas, o que determina cura ou não são fatores individuais. Pelo artigo, concluímos que 25% dos africanos não são da raça africana e 20% dos asiáticos não são da raça asiática. Portanto, se quisermos ser fiéis ao raciocínio, deveríamos lembrar que cada caso individual é um caso e que a igualdade de tratamente não se dá por sermos todos iguaizinhos em tudo – não é pretensamente a partir de uma realidade inescapável que surge nosso comportamento ético.
Eis por que a resposta à pergunta “se raça existisse, então era para ser racista?” é afirmativa. Se raça existe, significa uma desigualdade hierarquizada (grupo tal melhor preparado para lidar com condições tal), e se a hierarquia é dada pela natureza, sem que nada possamos fazer, então o melhor é cada um ficar no seu canto – o que é meio caminho andando para o desprezo ou o paternalismo condescendente com seu semelhante. Isso de dizer que raça existe, não somos iguais, não devemos ser tratados como iguais, mas isso não é racismo é que é sim uma coisa para lá de bocó.
Bem, tá meio chutado (e já descumprindo minha promessa – mas vou tentar ficar porraqui):
O que define raça não é a presença de determinados genes em determinados indivíduos (o africano que não seria africano, no exemplo do JPR), mas a presença de padrões estatísticos de ocorrência de determinados conjuntos de genes em determinadas populações
“A presença” em quem, cara pálida? Esse é o ponto: como determinar quem é da raça africana (africano deveria ser quem nasce na África, mas enfim…). Quer dizer que você é de uma raça, que vem a ser determinada por genes, independente de ter os genes e de desviar dos padrões estabelecidos a partir da distribuição de genes? Ou seja, você é de uma raça mesmo que não tenha nenhum dos elementos que definem a raça?
Raça é a vassoura de muitas bruxas. Por isso deve ser varrida do mapa.
Religião eu não discuto
Sei não. Mas parece que, dentre outras coisas que ocorrem nos rincões de hoje em dia, esse negócio de raça passou a ser meio que definido com base na corporação ou pelo credo que alguém reza ou por ele se ajoelha. Sofre quem acredita num lado ou no outro. Sofre mais ainda quem acredita nos dois lados. Ou seja, se não existe, alguém é sempre identificado como tendo alguma. Se existe, então é preciso discordar ou concordar conforme a linha que a corporação ou credo indicar. De todo modo, é mais um rolo danado girando por ai. Fica uma pergunta: algum estadista tem raça?
Nuooooossssaa, vc acabou com este reacionário metido a besta. O nosso mestre Idelber sempre soube lidar com o assunto racismo, e é verdade, vocês brancos são em maioria racistas com nós da perifa. Eu nunca vi neste site uma foto de afrodescendente sem ser em chacota.
E a gente da ONG faz assim: Afro-descendente pra gente é quem a gente escolhe! A nossa raça escolhemos nós. Raça existe ( tanto q não me misturo com os brancos racistas, dá incompatibilidade ), não duvide ou você vai ver o que é bom pra sua raça
Arranhponte
“O que define raça não é a presença de determinados genes em determinados indivíduos (o africano que não seria africano, no exemplo do JPR), mas a presença de padrões estatísticos de ocorrência de determinados conjuntos de genes em determinadas populações”.
Bom, não é assim. Fosse assim, quero saber se está provada a generalização disso para outros padrões estatísticos, como, por exemplo, ter mais ou menos colesterol do bom ou do ruim, diabetes, pernas longas etc. Os padrões estatísticos que você cita no máximo identificam grupos ou conjuntos de indivíduos. Ocasionalmente ou em algumas circunstâncias (o caso da hepatite C, por exemplo) é possível verificar que determinados conjuntos de indivíduos da espécie humana possuem algumas características comuns, tais como habitar uma mesma região do globo, possuir mais ou menos melanina, ter olhos e pele de cor clara ou escura, cabelos lisos ou crespos, nariz achatado ou afilado, lábios grossos ou finos etc., além da diferença (variação) de genoma no cromossomo 19.
Raça é um conceito datado, portanto, é um conceito histórico. Até onde sei, o conceito de raça surge no século XIX. O conceito de raça não existe, por exemplo, na Antiguidade, na Idade Média, no Renascimento e entre os iluministas. Raça tem muito mais a ver com o romantismo (Volk) e com o cientificismo do XIX, por exemplo. (Argumentei sem apresentar provas. Quem tiver as que negam as minhas assertivas, apresente-as.)
Mesmo no Brasil, o conceito de raça só vai se tornar questão a partir da segunda metade do XIX. Até então, preto era só mercadoria.
A idéia de que a mistura de indivíduos e grupos com características físicas distintas era fator de desagregação nacional, isto é, sinônimo de degeneração do puro pelo impuro e, consequentemente, a causa da impossibilidade de formação de uma verdadeira identidade nacional, surge por aqui como “fato da ciência” no século XIX.
Em editorial no ESP, os Mesquitas perguntavam o que fazer com a “toxina” definida pela “massa impura e formidável de dois milhões de negros subitamente investidos das prerrogativas constitucionais (… ) fazendo descer o nível da nacionalidade na mesma proporção da mescla operada” (O Bravo Matutino. Capellato, Mª.H., 1983)
Demétrio Magnoli acabou de lançar “Uma gota de sangue”. A novidade é o exame do racialismo como linguagem, isto é, construção ideológica ativada por indivíduos e grupos que visam posições de poder de Estado e/ou prestígio social e grana para pagar as contas do mês e viajar com despesa paga pelo Estado para Congressos, obter bolsas do estado etc. O racialismo hoje é um negócio que movimenta milhões de reais em dinheiro público.
O livro traz uma interessante discussão sobre a história do conceito de raça, que, ao contrário do que pensamos, não é um dado da natureza, mas uma construção social-histórica com origem conhecida.
O fato estabelecido desde Darwin é o da diferenciação entre as espécies. O conceito de raça vai na contramão da teoria da evolução. Conceito de raça só é utilizado por gente burra, com má intenção ou que está afim de ganhar uma grana no mole.
O discurso de que não existe raça é para o racista poder contra-argumentar “como você está me chamando de racista, se raça é uma coisa que nem existe???”
Para mim o erro está nos dois lados. Somos animais. Evoluimos como animais. Por mais que o ser humano tenha partido de um exemplar (desculpe a redundância) único, depois de milênios diversos fatores como ambiente e tipo de alimentação acaba por causar diferenças. Não sou especialista, mas acho que essas diferenças acabam sendo impressas no nosso DNA.
Um latino é fisicamente diferente de um asiático. Ora, diferenças físicas também estão impressas nos DNA.
Agora, que importância isso tem? Toda e nenhuma.
Toda porque isso é usado por aqueles que advogam pela existência do racismo. Nenhuma porque isso pouco deveria importar.
Racismo é algo pessoal. Vem do indivíduo. O que concordo com Kamel é que o racismo não pode ser impresso em leis racistas. E também discordo do uso do racismo que efetivamente existe no país em uma maneira individual, para conseguir benefícios através de leis. Isso discordo frontalmente.
Coisas como “reparação histórica” é balela de um grupo que quer utilizar o estado em benefício próprio. Qualquer um com capacidade intelectual sabe que o racismo existe em qualquer sociedade inclusive na negra. Até porque a imensa maioria dos escravos que aportavam no Brasil eram nada mais nada menos vendidos por negros que conseguiam esses mesmos escravos através do seu próprio racismo em guerras. Aliás muito antes dos malvados europeus, africanos já vendiam escravos negros aos árabes. O comércio de escravos sempre existiu na África.
Ora, as guerras entre tutsis e hutus nada mais são que a expressão do racismo entre os próprios negros.
Criar leis racistas para combater o racismo é ilógico, sem falar em cafajeste. O racismo serve apenas como discurso para um grupo de beneficiar através do Estado.
Apenas isso.
Paulo,
Não que mude muita coisa, mas “raça” é um conceito do XVIII, embora seu aparecimento se dê no final do XVII, com o médico e viajante François Bernier. Entre alguns exemplos do uso do termo raça, está Buffon (1750), Jefferson (1787), Kant (1795) e outros, embora, para a maioria raça fosse algo superficial e não determinista. Para a imensa maioria (Jefferson parece se destacar negativamente), raça não era impedimento para a melhoria. Isso sim é coisa do XIX.
Votando à vaca fria da genômica e o pote de ouro da estatística, remeto a Guido Barbujani (A invenção das raças, ed. Contexto). Pinço um trecho: “Nesses casos, para achar um rumo, procuram-se outros dados, estudam-se outros genes, possivelmente a partir de amostras maiores, e volta-se a fazer a mesma pergunta. Quais são os principais grupos humanos quando pedimos ao computador que nos classifique conforme nosso DNA? Muitos procuraram essa resposta, e todos a encontraram, só que cada uma das respostas encontradas é diferente das outras” (p. 89).
JPR
Tens razão. Retirei as citações abaixo daqui
http://www.unicamp.br/ifch/romano/artigos/neo_liberalismo.html
Vamos conferir o que diz o teórico da Critica da Razão Pura:
“Os negros da África só receberam da natureza o gosto pelas tolices… Branco e negro, essas duas raças de homens, parecem tão diferentes em sensibilidade quanto na cor. O culto dos fetiches, muito honrado entre os negros, é talvez uma espécie de idolatria tão miserável que parece contradizer a natureza humana. Uma pena de pássaro, um chifre de vaca, uma ostra ou qualquer outra coisa comum, desde que tenha sido consagrada por algumas palavras, torna-se objeto de veneração. Os negros são extremamente vadios e tão tagarelas que é preciso dispersá-los com golpes de bastão” (KANT. Observações sobre o Belo e o Sublime, Quarta Seção, “Sobre os caracteres nacionais”).
Kant continua, de modo explícito, um herdeiro direto de Locke, David Hume. No seu ensaio sobre os caracteres nacionais, diz também o liberal Hume:
Suspeito que os negros, e em geral todas as espécies de homem (porque há quatro ou cinco tipos diferentes), são naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve uma nação civilizada de outra compleição, a não ser entre os brancos, nem indivíduo algum tanto nas ações quanto nas especulações. Não existem engenhosas manufaturas entre eles, nem arte, nem ciência (HUME).
Poupo os senhores das teses “científicas” de Hume, um dos mais eminentes filósofos da Luzes, sobre os povos não brancos.
Mesmo Hegel, o poderoso criador da moderna dialética, apresenta uma visão bem definida nesse assunto:
“o negro representa o homem natural em toda a sua selvageria e petulância; é preciso abstrair todo respeito e moralidade, o que chamamos sensibilidade, se desejamos compreendê-lo; nada pode ser encontrado neste caráter que lembre o homem. Os prolixos relatos dos missionários confirmam isto plenamente” (HEGEL. Lições sobre a Filosofia da História). (fim da citação)
Mas e na Antiguidade (humanus X barbarus) Idade Média e Renascimento?
E, por último, mas não menos importante, o que dizer (ou ocultar) sobre o profuso racismo antissemita que flui até hoje nas vertentes do “socialismo científico” de Marx e Engels?
“A emancipação do judeu é a emancipação da sociedade do Judaísmo” (Marx. Questão Judaica). Não tenho dúvida de que Ahmadinejad e os seus admiradores explícitos ou envergonhados assinam embaixo.
Bem, vocês citaram aí uma coletânea impressionante de vassouras de bruxas. Ao notarem as diferenças entre tipos raciais – crianças de seis anos distinguem tipos raciais, e não me parece que estejam delirando, como seria o caso se raça não existisse – os antigos tentavam compreender que diferença era aquela, e compreendiam de forma totalmente errada, e muitas vezes escrotamente preconceituosa.
Hoje, a ciência entende que diferença é essa: não sou especialista, mas, como já citei, dado períodos de isolamento grandes em tempos pré-históricos ou mesmo históricos, determinadas populações desenvolveram padrões estatísticos de ocorrência de determinados genes que as diferenciam estatisticamente de outras populações. Bem, as raças, assim definidas, podem se misturar, e, em se misturando, desaparecem, isto é, aquele padrão estatístico se dissolve ao entrar em contato com outros padrões estatísticos difentes. There is no big deal about that.
Negar que raça exista me parece algo no estilo Lysenko, de falsear a ciência por motivos ideológicos – o motivo, no caso da raça, que é combater o racismo, é até nobre. Mas eu não acho que seja preciso negar a existência de raça para se combater o racismo. Como eu disse, fazer isso dá a impressão de que, se existisse, então seria justificado ser racista. Eu acho que ser racista é escroto porque é escroto você tratar quem quer que seja com hostilidade, ou como se fosse um inferior, apenas pelo fato daquela pessoa ter determinadas características ou pertencer a determinados grupos (salvo se for um grupo escroto, ou que mereça ser combatido, como neonazistas e fãs do Oswaldo Montenegro).
Eu não preciso achar que homossexualismo não existe para combater a homofobia. Não preciso achar que mulher não existe para combater a opressão às mulheres. Não preciso achar que o Fluminense não existe para pedir para maneirarem nas gozações aos tricolores mais depressivos. É isso
Arranhaponte: muito bom esse seu ultimo comentario. E’ por ai’ mesmo. Assino embaixo.
Arranhaponte
Sigo a sugestão e o espírito do post para uma tarde de sexta-feira.
“Negar que raça exista me parece algo no estilo Lysenko”
Né não. Alegar que existe raça é que é algo no estilo Lysenko
Foram os racistas (i.é., o cultores do racismo) que inventaram o conceito de raça e não o contrário.
Não existe raça na natureza. O que existe na natureza são indivíduos que são distintos uns dos outros. O que a ciência fez foi utilizar a classificação taxonômica dos indivíduos para efeito de estudo. A derivação disso para o conceito de raça atendeu à necessidade de se oferecer uma explicação “científica” (ideólogica) para a dominação e expropriação do excedente econônico entre indivíduos e grupos humanos. Com Hitler (e agora com os amigos explícitos ou envergonhados do Ahmadinejad) tal ideia atingiu o paroxismo, servindo para justificar o assassinato em massa de judeus, viados, ciganos, comunistas e demais inimigos da raça.
O conceito de raça é uma representação mental. Portanto, é um conceito histórico, isto é, é uma invenção humana. Esse conceito foi fabricado de modo semelhante ao que se fabrica uma rede, uma toalha ou uma máquina.
O problema nesse tipo de texto (Reinach) são as trocas de marcha da retórica para continuar seguindo adiante e ladeira acima:
“Pacientes que possuem o nucleotídeo C nessa posição reagem bem ao tratamento, mas o tratamento não é bem-sucedido se a pessoa tiver o nucleotídeo T” (Reinach).
Aí isso acima funciona como a embreagem do discurso, o que permite ao autor trocar a marcha e seguir adiante: “ESSA DESCOBERTA EXPLICA TAMBÉM A DIFERENÇA ENTRE AS RAÇAS”. Um corolário de impossível demonstração, convenhamos. No meu entendimento, e do jeito que está no texto, essa afirmação (raças) é somente questão de fé.
A “prova” apresentada pelo Reinach: “Entre os asiáticos [como o autor conceitua a generalidade "os asiáticos"?], 90% das pessoas possui o nucleotídeo C e somente 10% o nucleotídeo T. O oposto ocorre entre os africanos [como o autor conceitua a generalidade "os africanos"?], nos quais a frequência de C é de 25%. Em ambas as raças [como o autor conceitua a generalidade "as raças"], a taxa de sucesso nos pacientes com o nucleotídeo C é semelhante, mas estes são mais raros entre os africanos [africano é raça?].”
Ora, não lhe parece um tanto problemático e apressado atribuir à uma ocorrência estatística e factual, específica de uma particularidade (hepatite C), a condição de prova cabal da ocorrência de raças como subgrupos do gênero?
O que nos distingue dos outros animais é que para o gênero ao qual pertencemos a vida social foi a opção biológica estratégica para o nosso sucesso evolutivo. “Somos inteligentes porque ficamos de pé. Também por este motivo nossa mão pode segurar e transformar” (A. Leroi-Gourhan).
“O fato material mais espantoso, certamente, é a `liberação’ do instrumento [da mão], mas, na realidade, o fato fundamental é a liberação da palavra, e esta propriedade única que possui o homem de COLOCAR SUA MEMÓRIA FORA DE SI MESMO, no organismo social”. (Idem).
E o que se guarda na memória coletiva e se transmite (penso em trocas sociais)? “Cada grupo humano é animado por duas forças contrárias e, no entanto, conjugadas: uma o integra sempre mais nele mesmo, intensifica e conforta as tendências internas, força de fechamento e índice de suficiência; outra o torna permeável ao exterior, abre-o para o empréstimo, força de descompactação”. (idem)
Ou seja, a conjugação dessas duas forças (a que indvidualiza o grupo e a que permeabiliza o grupo abrindo-o para outros grupos) é o que nos distingue como um gênero bem específico no reino animal e nos coloca bem no topo da cadeia evolutiva.
PS: Quando você escreve “Como sou um argumentador desonesto, não vou dizer qual é a definição correta de raça (mesmo porque eu não sei precisamente, mas sei que existe)”, você apenas expressa um pensamento baseado na fé sobre a existência de raças. Então, eu digo que você não está sendo desonesto, mas sendo religioso e fazendo profissão de fé. Parecido com o que fazia Lysenko.
Paulo, depois da mencionada boutade do post, eu fiz um ou dos ensaios de uma definição moderna de raça aqui nos comentários. Eu mantenho meus argumentos: padrões estatísticos de incidência de determinados conjuntos de genes (não são, nem de longe, todos os genes) diferenciam determinados grupos humanos, de uma forma suficientemente clara para que haja uma evidente capacidade de se fazer essa distinção, por parte de qualquer pessoa. Isso não é uma invenção da cultura – é tão concreto quanto qualquer outro fato observável da natureza. Difícil foi entender o que era essa diferença, que é complexa e, do ponto de vista biológico, muitíssimo menos relevante do que diferenças de espécie ou de gênero sexual, por exemplo.
Se os seres humanos usaram aquela diferença para montar quimeras ideológicas que justificavam toda sorte de barbárie e escrotidão, e de fato foi o que fizeram, isso não significa que a diferença, reconhecível por uma criança de seis, sete anos, seja uma invenção da cultura.
Mas acho que esse tipo de discussão não se esgota num blog. Apresentamos argumentos de lado a lado, tem mais um montão de informações relevantes ao assunto que não serão trazidas aqui, então acho que, da minha parte, a partir daqui, o ideal é deixar cada um formar a sua opinião.
Abraço
Arranhaponte: “Eu acho que ser racista é escroto porque é escroto você tratar quem quer que seja com hostilidade, ou como se fosse um inferior, apenas pelo fato daquela pessoa ter determinadas características ou pertencer a determinados grupos (salvo se for um grupo escroto, ou que mereça ser combatido,(…). ”
Caramba, eu acho q Hitler pensava a mesma coisa. Ele achava o racismo uma tremenda sacanagem – a não ser q se direcionasse a grupos notadamente escrotos, como judeus, ciganos, etc.
(desculpe Arranha, não resisti…)
Mas entendi perfeitamente seu ponto: essa questão semântica em torno de “raça” é secundária. Chame-se do que se quiser, mas as diferenças existem, e são visual e cientificamente constatáveis.
E acho q deveriam ser objeto de estudo – como de fato o são -, e não escamoteadas sob o manto da “igualdade” presumida.
Reconhecer isso, interessar-se pelo estudo dos impactos práticos das diferenças genéticas (até com fins medicinais), eu acho perfeitamente válido e desejável.
Para fechar, e pegando um caminho tangencial (e polêmico), acho esquisita essa coisa de se decretar a “igualdade dos resultados q cada indivíduo pode alcançar” por meio de lei (q é algo diferente de se garantir condições de concorrência mais ou menos equivalentes – notem q escrevo “mais ou menos”).
Há propensões (vantagens competitivas) as mais diversas nos diferentes grupos de indivíduos. Simplificadamente, advêm de um misto de bagagem social / cultural e herança genética – e, ao q parece, não se sabe muito ao certo qual o peso de cada fator nessa miríade de variáveis caóticas. Indianos são ótimos físicos matemáticos, não acho razoável vedar-lhes as oportunidades q essa vantagem confere apenas sob a presunção de que todos são “iguais” – e do seu corolário direto: “os resultados deveriam ser iguais”.
Caro
Sem querer fazer média, acho que mais concordamos. O problema é que não consigo controlar minha prolixidade.
Todos aqui são pessoas civilizadas e que tratam os demais com o devido respeito. Isso não está em questão. Portanto, seu questionamento, Arranhaponte, sobre se houvesse raça isso justificaria o racismo não é argumento para um grupo de pessoas assim, pois a lembrança de que raça não existe visa retirar o pressuposto básico de todo racista: a raça existe, é evidente, é natural.
O outro questionamento, do Marcos, segue por via parecida. Ora, se um racista me perguntasse aquilo, eu simplesmente diria que quem tem que se virar é ele, pois ELE, não eu, sustenta que raça existe. Se raça não existe, porque ele é trata as pessoas seguindo a linha de raça? Por que ele é uma besta, poderemos argumentar, mas convenhamos que isso ele não vai admitir. Podemos intuir, todavia, que o racista acha que, antes de tudo, seu preconceito é uma simples aplicação de um princípio evidente e natural: raças existem e, por causa disso, pessoas devem ser discriminadas. O racista é racista porque ele acredita na existência de raças, não porque elas existem ou não. E aqui, retomo: embora não seja o ponto principal do anti-racismo, é bom lembrar que raças não existem não só para constranger os racistas, mas para fazer quem tá no limite refletir um pouco sobre o assunto. Seria bom um mundo em que o comportamento solidário não passasse por este tipo de argumento, mas as coisas não funcionam assim.
Voltando à questão central do post, eu sinto informar (a citação do Barbujani passou batida, pelo jeito), que nenhum estudo chegou perto de mostrar a existência das raças. Pode-se ver um resumo um pouco especializado aqui: http://www.genengnews.com/articles/chitem.aspx?aid=1210&chid=2; e outro aqui: http://www.nature.com/ng/journal/v36/n11s/full/ng1454.html). Ao contrário, os estudos genéticos de populações apontam que, a depender da característica que se escolha, tem-se um número variável de variedades populacionais que não seguem nenhuma linha lógica, e no geral entre os grupos populacionais ditos “raciais” as diferenças são maiores do que com outros grupos. Ou seja, a humanidade, ao contrário de algumas outras espécies, não possui variedades populacionais estáveis historicamente que tenham se desenvolvido de forma a legar características genéticas definidas. A história da humanidade é uma história de mistura.
Quando se fala em características “óbvias”, fatos que seriam concretos e facilmente verificáveis para além da cultura, é preciso dar uma parada para checagem. A observação a olho nu prova cabalmente que o sol gira em torno da terra. A pigmentação da pele é também empiricamente verificável. Mas a questão é que a verificação aqui varia enormemente, justamente porque não é algo estável e porque depende da cultura para ser nomeada e vista. Japoneses não acham que nisseis e sanseis são japoneses, apesar de que provavelmente a criança (brasileira) do seu exemplo, Arranhaponte, a verá como “japa”. Quando eu era bem garoto (eu vivia na França), havia um garoto negro em minha sala. Não guardo nenhuma recordação dele. Só o vi depois, nas fotos de minha turma de jardim-de-infância. Uma amiga minha, que se considera negra e já sofreu discriminação por isso, era vista na Alemanha por seus amigos africanos como tudo, menos negra. Como será que seria entre os filhos destes africanos? Há uma penca de exemplos, os melhores podendo ser o de como classificar Romário, Camila Pitanga, Obama, Chávez, Sabrina Sato e Romário em várias partes do mundo. Aposto que os infantes terão as mais variadas definições para as cores de pele e “raças” destas figuras.
Crianças de seis anos já foram “contaminadas” pela cultura, como mostra o estudo de Rita de Cássia Fazzi (O drama racial de crianças brasileiras, ed. Autêntica) em escolas de BH, no qual é extremamente variável a forma como as crianças se auto-classificam e classificam as coleguinhas.
Por fim, e lembrando sempre que não considero aqui ninguém racista, o perigo de se insistir em afirmar que as bruxas existem é o de abrir, para outros, uma trilha já viciada. Quando, você Frank, afirma que “as diferenças existem, e são visual e cientificamente constatáveis” ecoa um outro sujeito legal, mente aberta para seu tempo, um titã da democracia, que escreveu em “Notas sobre o estado da Virgínia”: “Resida o preto do crioulo na membrana reticular entre a pele e a derme, ou na própria derme; proceda da cor do sangue, da cor da bile, ou da de outra secreção, a diferença está fixada na natureza, e é tão real quanto se sua razão e causa fossem mais bem conhecidas por nós. E não é essa diferença importante? Não é o fundamento de uma maior ou menor beleza nas duas raças?” Enfim, o perigo não está em nossas atitudes, mas no que os que não se preocupam com o respeito e com o bem possam fazer com essa seqüência de erros e falsas afirmações.
Um abraço a todos e desculpem pela prolixidade.
Um único comentário: o fato de se tomar o exemplo de pessoas mestiças para dizer que raça não existe é como afirmar que o verde demonstra que o amarelo e azul não existem.
Abraços gerais
Sobre a existência de raças humanas, confio nestes experts:
http://www.gnxp.com/blog/2007/01/race-current-consensus.php
O final do post:
“A note on race being a societal construct. To some extent, of course it is–some people that would be called “black” in the US might not be called “black” in France, for example (and not because of the language difference, for all you smartasses. The word “black” in French specifically refers to racial classification). I have enough faith in human intelligence to think that the first person who called race a societal construct did not mean that it had no biological component as well–note that the Wikipedia entry on adolesence refers to it as a “cultural and social phenomenon” but also “the transitional stage of human development in which a juvenile matures into an adult”. People seem to somehow be able to keep the cultural and biological aspects of adolescence in their heads at the same time, as I imagine the first sociologists to study race were able to do (I may, of course, be wrong), yet somehow the fact that biological differences are interpreted through a cultural lens has somehow morphed into the idea that the biological differences don’t exist to begin with (see, e.g. the ASA statement on race). Weird.”
Afe, achei a maior parte das discussões mais que prolixas, pouco objetivas. Vamos lá: quando estamos falando do problema do racismo, estamos falando de um conceito de raça baseado primeiramente nas aparencias: pele negra, olhos puxados, etc, a partir das quais os racistas associam uma série de outras características não fisiologicas, que podem estar relacionadas a uma suposta origem cultural diversa, a certos comportamentos, a certa classe social, a determinadas capacidades intelectuais, etc. O problema do racismo é justamente não conseguir dissociar essas coisas, não conseguir separar alhos dos bugalhos. Daí que raça, também por causa dos racistas, é um conceito social.
O argumento “não existe raça” em si é até louvável, pois ele baseia no fato de que geneticamente as diferenças entre os individuos, mesmo quanto à sua origem (se predominantemente africana, ou euorpeia, etc), não necessariametne correspondem às aparencias. E mesmo entre individuos de mesma origem podem haver mais diferenças em comparação com individuos de outras origens. O corolario disso seria “portanto, não faz sentido em ser racista, não faz sentido em julgar as pessoas pela aparencia”, mas alguns idiotas chegam à conclusão de que isso que dizer que “racismo não existe”. Pois a raça, no nivel das aparencias, é claro que existe. E o preconceito baseado na aparencia, também. Existe o preconceito que é baseado unicamente em determinada origem cultural, mas aí já não se trata de preconceito racial. Lmbremos que não estamos no seculo 17, os negros não são um “povo que veio lá da africa”, eles são parte da nossa cultura, do nosso contexto.
Enfim, o “raça não existe” não quer dizer que somos todos iguais. Mas que não temos como aferir essas diferenças. Racistas convictos “sabem” que as diferenças existem, que elas são inexoraveis, que elas estão estampadas na cara de cada individuo, e que cada observação empirica da sociedade corrobora cada vez mais essa convicção. Mas é uma convicção que não tem embasamento cientifico, o racista não considera uma serie de ruidos de ordem cultural e circunstancial que podem iludir sua visão, entre esses ruidos está o proprio racismo, que segrega e potencializa as diferenças, alimentando ainda mais a convicção dos racistas.
Mas o racista convicto é raro aqui no Brasil (ou talvez mais envergonhado). O racismo aqui se dá de maneira que se confunde com preconceito de classe, mas é dessa confusão que exatamente constitui o nosso racismo, tão deletério quanto.
Mas deixa isso pra depois, por hoje chega.
Exatamente, Arranha, negro (ou preto) e branco são cores, não raças.
JPR foi ao ponto na questão das cores. Há diversidade (por exemplo, cor da pele) entre os espéciemes ou conjuntos de espécimes do gênero humano e isso é visível até para uma criança. No entanto, quem disse que esses conjuntos caracterizam grupos raciais no gênero não foram crianças inocentes, mas racistas interessados.
Concordando em parte com Arranhaponte, o que não é visível nem para crianças e nem para adultos, mas é visível para a ciência, é que “padrões estatísticos de incidência de determinados conjuntos de genes (não são, nem de longe, todos os genes) diferenciam determinados grupos humanos, de uma forma suficientemente clara para que haja uma evidente capacidade de se fazer essa distinção” (Arranhaponte)
Padrões genéticos não são uma invenção da cultura e podem cacaterizar “de uma forma suficientemente clara” um grupo dentro do gênero. O que discordo é que esse elemento possa ser ativado na sustentação lógica e empírica da “evidente” distinção racial no interior do gênero humano, tal qual faz o articulista Reinach. Não concordo com a pirueta “epistemológica” executada pelo autor do artigo, que termina por concluir que “ESSA DESCOBERTA EXPLICA TAMBÉM A DIFERENÇA ENTRE AS RAÇAS”.
Repare que ele não formula o enunciado como hipótese, mas sim como uma assertiva, que para mim carece de melhor prova, tanto lógica quanto empírica.
Paulo, treinando para ser suscinto, claro e preciso com a menor quantidade de palavras possíveis.
Quanta frescura. Raça existe sim, e racismo é válido. Deal with it.
“”Almost everyone unites in declaring “racism” false and detestable. Yet absolutely everyone knows it is true.”
– David Stove