Como se um só já não fosse complicado o bastante

Meu irmão que gosta de astronomia outro dia disparou a falar do multiverso, que pode até ser poético, mas não tem nada a ver com poesia – o bando (bandão, talvez até um número infinito, ou pelo menos muito grande) de universos que pipocaram junto com o nosso durante o Big Bang.

Como não entendo desse negócio, nem perco muito tempo com o lado superinteressante da vida, este será um post meio tronchão, em sincronia com minha capacidade de escrever sobre o tema. Texto e conhecimento tronchos combinar-se-ão num novo e revolucionário estilo.

Eu li lá a revista que ele estava lendo, e, pulando trechos e mais trechos de minúcias que não me interessavam, saquei que o grande babado do multiverso pode ser resumido numa ideia simples: o nosso universo é improvável demais para jamais ter existido a partir de uma tentativa única. É preciso que tivessem surgido do Big Bang um porrilhão de universinhos totalmente freak, em que as leis da física não levariam a existência de nada que possa propriamente ser considerado matéria e muito menos vida, para que, por probabilidade, um deles acabasse tendo as leis reguladas na medida exata para que algo assim como o que nos cerca pintasse.

Digamos que o nosso universo é muito apertado nas juntas probabilísticas (e pronto: foi só para usar essa frase que escrevi o post). Sem trilhões de universos tentando, a probabilidade de que existisse algo como o que a sra. ou o sr. vê, ouve, cheira, sente e prova à sua volta (e inclua a sra./sr. também nisso) tende ao nulo.

Bem, quando alguém se atreve a escrever sobre um assunto desses depois de ter lido em sete minutos uma matéria de oito páginas e conversado durante meia hora, mas só tendo prestado atenção durante uns três minutos, com um irmão que não sabe explicar as coisas e provavelmente não entende tanto assim delas ele mesmo – bem, nesse caso, soar como um proferidor de fulgurantes asneiras para quem de fato conhece minimamente o assunto é quase inescapável. Então, ok, desculpe aí, ô sabichão.

É que no fundo o que eu queria mesmo (me repetindo) era escrever que “o universo é muito apertado nas juntas probabilísticas”.

Outro pensamento que me ocorreu com a história do multiverso é que os crentes poderão dizer: “Pô, estão apelando. Descobriram que a combinação de leis que regem nosso Universo é tão improvável que provavelmente jamais pintaria num Big Bang – aí, em vez de darem o braço a torcer, e admitirem que um Deus entrou na parada para fazer a regulagem fina, partem para essa história de trilhões de universos para que um fosse como o nosso”.

Deve ser outra grande asneira. De qualquer forma, tentei desviar o assunto para essa questão, mas meu irmão não prestou a menor atenção no que eu precisamente falava. Ele continuou a discorrer sobre Big Bang, quasares, pulsares, teoria das cordas, etc., mas aproveitou para misturar com as habituais críticas ao obscurantismo da Igreja e dos crentes, e foi nessa toada por muitos e muitos minutos intermináveis até notar que tanto eu quanto a mulher dele emitíamos sinais nítidos de paciência esgotada. E aí a conversa girou e falamos de qualquer outro tópico restrito ao nosso singelo universinho (ou deveria escrever monoverso?)

6 comentários para “Como se um só já não fosse complicado o bastante”

  1. Mike-Urilorib disse:

    Mas olha só, pergunta pro seu irmão: Essa teoria envolvendo estatística e probabilidade não é exatamente a mesma que se usa dentro do nosso monoverso para ‘explicar’ porque temos vida no nosso ‘planetinha não-quadrado’ (by Lulla)?

    P*** falta de criatividade usar a mesma teoria multi-galática, mudando só a escala para multi-universal, né não?

  2. João Paulo Rodrigues disse:

    Multiverso seria um bom nome de revista de poesia moderninha.

    Ou então de certa comercializadora de ensino superior quando fosse proibida de aludir ao que não é – uma universidade.

  3. Spiros disse:

    O problema dessa teoria, que como disse o Mike-Urilorib se baseia em conceitos já usados em outras áreas da física e astronomia, é que não é possível verificar a veracidade dela, ou seja, como não podemos acessar nem interagir com outros universos nem com nada que venha de universos passados, então a teoria perde o sentido científico, que se estabelece na experimentação.

  4. paulo araújo disse:

    A frase é legal.

    Um sobrinho havia me contado sobre o multiverso da Marvel. Ele contou que tem um monte de Terra (1,2, 3, 4, ….) onde, parece, os heróis e os bandidos vivem suas vidas de lutas em paralelo. Às vezes acontece de se encontrarem, ele disse sem me explicar direito como acontecia.

    Então, como, por que, por onde eles passariam de um universo para o outro e depois retornariam? Aha! Você deu mostrou a chave: “o universo é muito apertado nas juntas probabilísticas”. Faz todo sentido.

  5. oburrocrata disse:

    A multiversidade é fascinante!

    Abraço

    Oburrocrata

  6. Adorei. Morri de rir com seu “universo é muito apertado nas juntas probabilísticas”.

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