O Brasil me entristece muitas vezes. Mas sabe também, não diria exatamente me alegrar, mas me divertir. Sério. É um certo privilégio surrealista morar num país no qual, de uma hora para outra, assim sem mais nem porquê, all of a sudden, num repentino coup de théâtre, o Dunga se torna herói da esquerda… e bête noire do Reinaldo Azevedo.
Em Santa Tereza, aliás, já se veem mais camisetas do Dunga do que do Che Guevara. E a citação mudou um pouquinho: “Hay que vencer, y al carajo con la ternura!”


Surreal é alguém no Brasil levar Reinaldo Azevedo a sério.
É. O comentário acima confirma sua tese.
E depois da Final a Fifa vai engatilhar um reality show só com os técnicos. O Bial vai ser o apresentador dessa casa dos brothers.
E que gosto é esse de ficar dando close em chilique de técnico? E a greve dos jogadores da França?!
Cada vez mais é preciso o espetáculo fora do campo porque o de dentro escasseia. Não por acaso a vuvuzela é o grande hit dessa copa: muito barulho, pouco fruto.
Ah, sim! Dunga, você é um bosta. Quero que se foda. Vai tomar no cu, filho da puta!. Chupa aqui, seu corno! Enfia essa taça no cu!
Dunga é o Olavo de Carvalho que certa esquerda ama.
Ainda bem que a Seleção da Holanda concordou em tudo com a globalizada (sem trocadilhos) e antenada (com antenas mesmo) esquerda brasileira. Estão todos de parabéns e vão todos ficar bem. Obrigado. Ou “tchau e bença”.
Aliás, em aspas e sem trocadilhos essenciais. Mesmo. Dunga e a Seleção da Holanda devem estar esfuziantes com a esquerda brasileira globalizada (mesmo).
Eu creio que o problema vai mais além. Tem a ver com a complexidade de uma Copa do Mundo. Ela é um torneio futebolístico grande demais e acaba tendo implicações que extravasam o esporte bretão. Daí, você pega a imprensa esportiva brasileira que além de entender pouco de futebol – sim, no Brasil se joga bem futebol, mas se pensa muito mal ele, seja na crítica ou no gerenciamento – não entende nada de futebol – e a recíproca é verdadeiras, ainda que tenhamo melhor analistas políticos do que críticos de futebol; o que ferra é que quando chega uma Copa, você precisa de pessoas que entendam razoavelmente das duas coisas, e isso é mais difícil ainda.
Boa parte da crítica ao Dunga sempre foi ruim porque esteve na esfera da velha cornetagem. Outra parte da imprensa esportiva escreve teses prontas e seu discurso é apenas enredo dos interesses comerciais das empresas onde trabalham. Na crítica política, o jogo é em grande parte ideológico mesmo porque as pessoas no Brasil confundem o mister de um analista com o de um militante – e militam, via de regra, em lados que se opõe em fins, mas não em meios e estão pouco preocupados com a verdade factual. Daí, o que temos é essa pasmaceira mesmo.
No episódio de Dunga com a Globo, temos apenas a continuação do velho problema da referida corporação gozar, historicamente, de privilégios junto à Seleção, cortados pelo treinador – o que não influi se é melhor ou pior como técnico, mas não vejo isso como algo negativo – e que levaram a um quadro de desgaste na relação entre ambos que veio à tona no momento em que, num momento de nervosismo, um jornalista foi mal-educado e o treinador foi agressivo – e nada demais, no futebol, mas que na vida, isso é normal, só não vê isso quem na verdade pense numa sátira de ser humano em vez de uma ética. Precisou daquele caso para praticamente todos os analistas dessa corporação, ao mesmo tempo, verem defeitos que antes não viam no treinador do selecionado nacional ou criarem outros tantos.
Aí o debate passa do futebolístico-político da Copa e vira isso daí, disputa por espaços políticos que usam o desempenho da Seleção como joguete. Nada mais insensato. Como grande parte do público tem dificuldade para entender as coisas para além da emoção do jogo, vira um grande teatrinho ao som de vuvuzelas – vou ter pesadelos com isso por uns quatro anos -; o de Dunga o que é de Dunga. Ainda que à esquerda alguns petistas tenha exagerado, via de regra o apoio foi válido porque o linchamento que ele sofreu, este sim, foi alguns tons acima e, reitero, mas teve a ver com interesses comerciais do que com o jogo em si.
Sorry, Hugo, pela demora em liberar. Estamos meio devagar aqui no Torre. Abs
Só não entendo e nunca entendi, como a Globo ou qualquer outra emissora possa interferir no aspecto técnico de um jogador ou do time inteiro. Caso esteja(m) jogando bem, na Globo estará(ão) do mesmo jeito. Caso esteja(m) jogando mal, idem. Houve época em que a Globo era criticada pelo excesso de patriotismo. Agora é o contrário? A meu ver, continua a mesma coisa. Deve ter mudado a esquerda ou a direita. Na Copa2010, o que faltou foi: futebol. Tanto quanto em 2006. Pouco importaria se, em 2010, houvesse privilégios à Globo, com críticas da esquerda, como em 2006. Ou a qualquer outra empresa, aqui não sei se com ou sem apoio da esquerda. Ou se não houvesse muros, tapumes e “treinos privados” (!). Pelo que pude ver, Dunga deu entrevista ao Jornal Nacional antes de viajar para a África do Sul. Não sei se o fez para outros canais. Pelo que vi também, todas as emissoras criticaram a falta de acesso na África do Sul. Alguns comentaristas foram até mais incisivos do que, se poderia imaginar, seriam os da Globo. Em 2010, porém, tivemos lições (ou ladainhas) de como ser brasileiro, patriota, como gostar do novo Brasil. E, novidade, como culpar a imprensa. E aprendemos: até alguns palavrões, como olhar feio, ter esgares, como ranger os dentes, como ser guerreiro com colarinho de espuma. E a jogar pior que a Holanda. Voltar mais cedo, sem festas, comemorações, sem nenhum herói. Pois bem. Tudo isso para dizer que o futebol é um negócio. E como negócio, ele muito mal gerido no Brasil. Por exemplo, não conseguiu-se, ainda, que mais empresas tenham, com recursos próprios, condições de contratar a transmissão dos jogos. Como impedir o monopólio ou em realidade, um oligopólio onde, aparentemente, um ator tem mais recursos que os demais. Por que não consegue-se um pool de emissoras menores que possam adquirir também os direitos de transmissão? Ou seja, falta capitalismo, liberalismo, livre mercado num negócio que é puramente capitalista. Política ai só entra para que o negócio avance. Uma coisa também ficou meio clara: depois do Brasil, em 2014, é muito provável que Copa no terceiro mundo ou em emergentes foi para as calendas, para o brejo. Ou, como devem ter falado os holandeses, nunca mais. Tchau e bença.