O Datafolha é feio e malvado

Uma parte da esquerda brasileira é bem divertida. O esporte preferido do pessoal é o maniqueísmo chinfrim. Decidiram que um dos grandes vilões da eleição é o Datafolha, o pior instituto de pesquisas do mundo. Segundo a versão dessa galerinha, o Datafolha tentou durante um bom tempo impulsionar a candidatura de José Serra com números falsos. Como a estratégia não colou, teve de ceder à Verdade.

Desde que acompanho eleições, a minha impressão é que o Datafolha é o instituto com maior índice de acerto e, portanto, o de maior credibilidade. Os resultados de algumas pesquisas neste ano realmente pareceram estranhos, por destoarem muito dos outros institutos. Uma possibilidade bastante razoável é que isso deva a diferenças de metodologia. A do Datafolha talvez tenha algumas fragilidades, como não ir a casa dos entrevistados, o que pode ter levado o instituto a não captar bem o quadro eleitoral num determinado momento.  O instituto também não faz perguntas no começo da entrevista que possam estimular nomes de candidatos. Isso pode ter tido alguma influência nos resultados.

Mas essas explicações são aborrecidas. Para parte da esquerda brasileira, os números divergentes foram parte da tentativa da Folha de eleger Serra. Um instituto de pesquisas vive de sua credibilidade, como diria o conselheiro Acácio. Tentar mudar a realidade à força, manipulando enquetes, é pouco inteligente – e ruim para a própria imagem da instituição. Quem é esperto, porém, não cai nessa. Sabe que o Datafolha queria mesmo era derrotar Dilma.

Uma coisa interessante é que ninguém de esquerda reclama do resultado do Datafolha em Minas Gerais, que mostra Hélio Costa, esse progressista, com 43%, ainda bastante à frente de Antonio Anastasia, que aparece com 29%. O Ibope já traz Anastasia com 35% e Hélio Costa com 33%. Mas provavelmente em Minas Gerais o Datafolha é que está certo, não é mesmo, amigos da blogosfera progressista?

16 comentários para “O Datafolha é feio e malvado”

  1. Frank disse:

    Marcos, seu problema é q vc não entende nada da dialética dos caras… :)

  2. D'oh disse:

    Ih, rapá, esquerda não. Essa galera do PT & Amigo$ não dá pra chamar de esquerda não – não mais do que dá pra chamar o PSDB ou PMDB, pelo menos – é sim uma parte do “centrão” político brasileiro que tem delírios de ainda estar à esquerda…

  3. Dawran disse:

    Só dá para comentar: é impressionante. São Jorge já foi atingido por fogo amigo e está, agora, lutando contra o seu próprio cavalo. Quem está olhando tudo, com a lança na mão, é o dragão. Já ouvi até que Serra controlava o New York Times. Que coisa!!!

  4. Marcos Nowosad disse:

    O outro lado da moeda.

    Quando o pessoal da blogosfera anti-petista chamava o Vox Populi e o CNT-Sensus de “feios e malvados”, porque estes apontavam um crescimento da Dilma que nao correspondia com o esperado, sera’ que eles estavam certos ou estavam bancando um papel maniqueista e ridiculo tambem?

  5. João Paulo Rodrigues disse:

    É, pode ser um absurdo apresentar essa teoria conspiratória, mas, honestamente, o que vale para a credibilidade de um instituto é cravar o resultado final. Portanto, não é um absurdo imaginar a manipulação das pesquisas antes para alavancar um candidato, na esperança de que o resultado final fosse um e não outro.
    Como é nítido que a Folha apóia o Serra (nada demais, é direito dela), a suspeita é válida. Ao menos os caras parecem ter se deixado levar pelo desejo. Ou seja, os erros metodológicos (que, curiosamente, eles não costumavam fazer) parecem ter derivado do desejo de ver as teorias sobre o teto da Dilma “poste” provadas pela realidade.
    Ainda mais quando o DataFolha publicou uma análise totalmente descolada da realidade quando da passagem de Dilma por Serra – o de que a taxa de crescimento tenderia a diminuir pois haveria menor eleitorado pró-Lula a ser conquistado. Deu o inverso. Dilma disparou.
    O Datafolha vai ter que cravar muitos resultados para recobrar a credibilidade.

  6. NRA disse:

    Sobre a questão das metodologias, especificamente sobre a ida à casa dos entrevistados, feita pelo Vox e pelo Sensus, isso foi alardeado pelos blogs progressistas como o mais preciso dos métodos, superior ao do Datafolha e Ibope. O que ninguém explicou é…. COMO os pesquisadores acham os entrevistados em casa? Eu e minha mulher, por exemplo, saímos de casa de manhã para trabalhar e voltamos no começo da noite. A maioria da população brasileira idem. Quem mora mais longe dos centros urbanos, seguramente sai pelas 5-6 hs da manhã e retorna lá pelas 7-8 hs da noite.

    Como então os pesquisadores encontram os entrevistados nas casas? Fazem a pesquisa à noite? De madrugada bem cedinho? Somente no final de semana?

  7. O Datafolha é a extensão natural da “Mídia Má, Feia e Bobona” (MMFB), remédio de todos os males quando precisamos vitimizar nossos candidatos e nosso governo. “Cibi condimentum est fames”, diria Cícero, “o melhor condimento para a comida é a fome”.

    Coronel Pantaleão, após contar a enésima mentira do dia:
    – É mentira, Terta?
    – Verdade, respondia a esposa, com medo de contrariar o homem, sob os olhares crédulos de Pedro Bó, “um tipo meio bobo-alegre que acreditava piamente nas lorotas do patrão”.

    Chico Anysio é superior a Cícero, sem dúvida.

  8. paulo araújo disse:

    “Sempre que você quiser confirmar verdades ou mentiras – tanto faz – é só contratar uma pesquisa” (Paulo Francis)

    JPR

    Então eu concordo com você que,“portanto, não é um absurdo imaginar a manipulação das pesquisas antes para alavancar um candidato, na esperança de que o resultado final fosse um e não outro”, pois sou conduzido pela lógica do seu texto a entender que você estabeleceu o fato de que não é absurdo imaginar que pesquisas são manipuláveis (na língua portuguesa “portanto” é notoriamente um indicativo de conclusão).

    Seguindo a lógica do seu raciocínio, é obrigatório concluir também pelo fato de uma verdade de valor universal no seu enunciado, a qual, consequentemente, se aplicaria a todos os institutos de pesquisa. Isto é, o desejo de manipular os dados a favor de quem paga as pesquisas eleitorais é comum a todos os institutos. Como se dizia no tempo das sardinhadas (fui a muitas com meu pai português, nos bons tempos em que sardinha pequena media um palmo), a esperteza é saber como puxar a brasa para a minha sardinha sem despertar suspeitas.

    Concordo com seu argumento de crítica porque ele pode ser dirigido também para os institutos de pesquisa que em outros momentos apontaram números em direção oposta ao do datafolha, pois “não é um absurdo imaginar a manipulação das pesquisas antes para alavancar um candidato, na esperança de que o resultado final fosse um e não outro”.

    Mas isso tudo é perfumaria que não disfarça o odor fétido que emana desse episódio da receita federal.

    Alon escreveu ontem um bom post sobre reforma política perguntando qual teria sido “o grande escândalo da política brasileira que tenha tido no foco um partido dos pequenos, ou micros”. Ele conclui que, por parte dos pequenos, rigorosamente nenhum.

    Mas, continua Alon, “o partido grande, ou com projeto de ser grande, desencadeia as trapalhadas, para incontinenti seus líderes virem a público debitar a conta nas alegadas deformações da moldura político-institucional. E que solução apresentam? Mais poder para eles mesmos”.

    http://www.blogdoalon.com.br/2010/09/grandes-e-espertos-0308.html

    Se a tese de que os pequenos partidos rigorosamente não são protagonistas de escândalos na política brasileira é verdadeira, então somos levados pela lógica a concluir que por de trás dessa “trapalhada” na receita federal envolvendo políticos da oposição estão os partidos grandes ou, se preferirem, os grandes interesses que gravitam na órbita dos grande partidos. Por óbvio, descartamos o PSDB, a não ser que levemos a sério a hipótese aventada por petistas de que Aécio Neves comandava o bando desde a época em que disputava com Serra a indicação pelo partido. Não vou concluir mas afirmar as fortes evidências de co-autoria no crime (receptação de produto de crime) apontando diretamente para sabemos quem, isto é, para os grandes interesses que gravitam na órbita dos grandes partidos.

    Abs.

  9. João Paulo Rodrigues disse:

    Paulo,
    Sim, pode-se imaginar o inverso. Mas eu tratei de probabilidades. E, a isso tudo você tem que agregar outros elementos: a) o DataFolha fincou pé na não transferência de votos do Lula, mesmo quando isso era papo furado (ou seja, até mesmo antes da virada); b) O Montenegro fincou também, mas seu instituto não, instituto que fornece as pesquisas para O Globo e Estadão, organizações também notoriamente anti-PT (de novo, com todo o direito). Só no mundo da carochinha para imaginar o IBOPE manipulando dados para alavancar a Dilma.
    Um abraço.

  10. NRA disse:

    Pô cara, você ainda não liberou meu comentário?

  11. Cosme Rondó disse:

    As teorias conspiratórias são, bem, teorias conspiratórias. Eleição tem disso, o pensamento maniqueísta contamina tantas cabeças que fica difícil respirar.

    Mas, olha, por mais que muita gente bata sem muita razão, o Datafolha sabe por que está apanhando. Quando começaram as discrepâncias com outros institutos (notoriamente o Vox Populi e o Sensus), o Datafolha foi de uma arrogância incrível: preferiu insinuar partidarismo nos concorrentes do que questionar a sua metodologia. As últimas declarações do Mauro Paulino, com aquela patetice de “certos institutos querem prever o futuro” mostra que o povo por lá ainda está in denial.

    Há alguma justiça nesse bumerangue se voltando contra eles, ora.

  12. Frank disse:

    JP, é meio moeda corrente no meio político q institutos de pesquisa podem fazer ajustes, em geral dentro da margem de erro, p/ agradar a A, B ou C.
    Isso ocorre de modo mais descarado em eleições locais q gozem de menor (ou nenhuma) exposição nacional.
    Sendo objetivo agora: não descarto as hipóteses q vc levanta em seu 1o comentário.
    Mas a turminha q vocifera isso é bem sem-vergonha: PHA, Azenha e blogosfera progressista – é como naquela anedota do menino q grita “lobo”.

  13. João Paulo Rodrigues disse:

    Frank,
    Eu não acho que eles fizeram por sacanagem pura e simples, mas porque acreditaram em suas próprias fábulas. Eles relaxaram e só foram rever seus métodos e projeções quando tinha ficado evidente demais que estavam operando mal a avaliação do quadro eleitoral.

  14. Quando vejo os comentários do JPR eu lembro logo da Campanha do Desarmamento. Lembro logo que nas últimas eleições todos os institutos de pesquisa falharam miseravelmente. Uns mais que os outros.

    Agora, onde estão essas evidências do “claro” anti-petismo da Folha, do Globo, do Estadão…

    Poderia mostrar?

  15. João Paulo Rodrigues disse:

    Pablo,
    Eu imagino, pela sua honesta surpresa, que você compartilhe da perspectiva geral de Folha e Globo (que possuem gradação diferente de ati-lulismo ou anti-petismo). Sugiro a você que experimente a exotopia. A resposta poderá surgir daí.

  16. JPR – Obrigado por confirmar a tese de que não há nenhum fato para comprovar seu argumento.

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