Acho que poucas pessoas poderiam negar que, apesar de tremendas resvaladas em baixaria – de que o “matar criancinha” de Mrs. Serra talvez seja a pior -, PSDB e PT detêm os principais quadros políticos do que se poderia chamar um Brasil moderno. O modelo político desde a redemocratização, em que esses dois partidos se engalfinham como feras famintas em combate no Coliseu, e o vencedor arrasta consigo as hostes do Brasil profundo e retrógrado sempre pressupôs, como na história de Frankenstein (já faz tempo que li, mas o que se segue, se bem me lembro, não é bobagem), que o monstro era controlável.
Agora, nesta eleição, Frankenstein começa a botar os parafusos de fora, e homofobia e histeria religiosa na discussão do aborto são os primeiros sinais. Haverá, tenho certeza, a leitura petista de que toda a culpa é do PSDB, que teria atiçado pulsões autonomistas no monstro, só para lucrar eleitoralmente. Mas o fato é que, dado que o jogo é de combate mortal tendo em vista a extirpação do oponente, a tentação do cientista sem monstro de jogar o monstro contra o cientista com monstro será sempre muito grande. Vamos ter de conviver com um Frankenstein progressivamente soltinho


Arranhaponte
Deixei no Alon um comentário ainda não publicado. Aqui vou um pouco mais além, acrescentando novos elementos.
Em 10 de Fevereiro de 1980 estiveram reunidos no católico Colégio Sion lideranças de movimentos sindicais, religiosos e militantes comunistas ateus. Todos nessa data assinaram a ata de fundação do PT.
Vamos reafirmar o que deveria ser uma obviedade. A efetividade histórica do PT em 1980 só foi possível porque a sua fundação recebeu a benção de grande parte da Igreja Católica. E vamos relembrar que os católicos socialistas (hegelianos) são convictos na crença de que o socialismo integra a evolução cósmica e de que eles são a garantia da face humana da utopia contra a degeneração da utopia em totalitarismo ateu.
Agora, a fundamental aliada da primeira hora é tratada como uma estranha no ninho e espezinhada como se nada fosse além do que um ajuntamento de imbecis e instrumentos da causa. Pois bem, tomaram um “pra trás” que ao que tudo indica vai custar bem caro ao PT. Os valentões de antes do primeiro turno, que empunharam contra os cristãos no partido e fora dele o PNDH3, baixaram o facho e agora correm atrás do prejuízo. Mas os surtos de religiosidade tem a sinceridade de uma nota de três reais. Ao contrário do que imaginam o vaidoso Chalita e os marqueteiros de Dilma, católicos não são idiotas. São mais de 2000 anos de janela nessas paradas. E convenhamos, neste embate os prognósticos com base em retrospectivas são esmagadoramente favoráveis aos católicos.
Há um livro já um tanto antigo e que nesse momento é leitura obrigatória para entendermos melhor as razões da corrosão no limite extremo do irremediável da antiga aliança da Igreja Católica com setores laicos e ateus do PT. Trata-se da tese de doutorado defendida pelo professor Roberto Romano na École des Hautes Études en Sciences Sociales da França.
Título: Le signe et la Doctrine. Prismes du discours theologique dans le Brésil contemporain. Ano de Obtenção: 1978.
Orientador: Claude Lefort
Banca: Maria Isaura Pereira de Queiroz, Alain Touraine e François Bourricaud.
A tese foi publicada com o título “Brasil. Igreja contra Estado”. São Paulo. Kairós, 1979. 280 p.
Roberto Romano rejeitou as análises dominantes na época da Igreja Católica como um aparelho ideológico de estado e, como se não bastasse essa heresia, ainda não a pensou como uma instituição retrógrada em luta contra um mundo no qual supostamente não teria mais lugar e significação. Do livro, eu cito a pergunta do então ex-dominicano e ex-militante da AP que inspirou a tese: “A Igreja pode ser tomada como um instrumento, por assim dizer, neutro, passível de ser integrada, a despeito de si mesma e de seus fins, a outras atividades políticas, assumindo um papel de suplência e confluindo num processo libertário amplo?”
De volta ao Brasil, o jovem e herético doutor não foi, claro, bem recebido pelos doutores inquisidores da filosofia da USP em Santa Aliança com a Igreja Católica. Justiça seja feita ao único que escreveu artigo em defesa da tese: Gérard Lebrun. Isso explica bastante as passagens do professor Romano pelas Faculdades de Educação da UNESP, UNICAMP e USP até seu concurso de ingresso na Filosofia da UNICAMP em 1985.
Há um relato do professor Romano a respeito da “acolhida” que sua tese recebeu nos anos imediatamente posteriores à fundação do PT:
Para quem deseja estudar a questão laica no Brasil, segue um trecho de minhas memórias.
A visita de Sua Santidade pode ser uma ocasião para se pensar um pouco sobre o papel dos intelectuais na vida pública. Em 1980, a Teologia da Libertação e a Igreja Católica eram unanimidade nas esquerdas nacionais. Oportunistas de todos os partidos cortejavam as batinas e as sacristias, vendo nelas um caminho para chegar às massas que, dirigidas por “temas errados” (religiosos) poderiam ser aproveitadas para a revolução socialista. “Esquecendo” que a instituição eclesiástica exigira e apoiara o Golpe de 1964, e depois também jogara água benta sobre o Ato Institucional número 5, militantes e acadêmicos estranhos ao catolicismo, além de comungar para enganar os padres (eram ateus, mas a Revolução, para eles, bons seguidores de Henrique 4, valeria uma missa) eles redigiram calhamaços expondo uma suposta colusão entre teologia e marxismo. E a “teoria”, ou “mediação sócio-analítica” bateu firme nos cérebros, definindo inclusive empregos na universidade pública. Na lua de mel entre católicos e marxistas de várias seitas, pobre de quem ousasse negar as verdades estabelecidas pelas direções partidárias!
Tive a infelicidade de escrever uma tese de doutoramento, em Paris, sob o clima dogmático e ideológico mencionado. Já na elaboração do texto, meu orientador, Dr. Claude Lefort, procurou me decidir a retirar dois capítulos, um sobre a reforma agrária defendida pela Igreja e outro sobre as Comunidades Eclesiais de Base. Com a minha recusa, deixei naturalmente de ser chamado como “tu” e fui posto no tratamento reservado ao “vós”. O professor Lefort ressaltou a excelente qualidade dos demais capítulos, mas disse-me que os dois referidos eram, além de excessivos, óbvios em demasia, visto que eu desejava provar algo muito conhecido, a saber, que a Igreja não era socialista ou revolucionária. Não valeria a pena gastar tempo do leitor, e da banca, como algo assim. Minha briga com o orientador foi mantida até as vésperas da defesa. Na noite anterior da defesa, telefonei para ele tendo em vista saber o seu juízo sobre o todo do trabalho. Ouço novamente que os demais capítulos eram excelentes, mas que eu teria problemas com os dois que ela indicara para serem cortados. No dia seguinte, compareci ao exame mais tenso do que o costume. O leitor que deseja ter uma idéia da situação, faça a experiência de recusar a orientação de corte em seu trabalho de doutoramento, estando no exterior.
Para quem se interessar, continua no link abaixo. Talvez surpreenda uns e desagrade outros.
http://robertounicamp.blogspot.com/2007/04/para-quem-deseja-estudar-questao-laica_17.html
[...] This post was mentioned on Twitter by Lucas Jerzy Portela, Torre de Marfim. Torre de Marfim said: Frankenstein e o momento político no Brasil – mais uma contribuição do Torre para elevar nível do debate eleitoral (FA) http://bit.ly/cFFTLL [...]
PS: Não raro Alon bloqueia alguns comentários. A maioria passa. Alon liberou os comentários e o meu não estava lá. Se soubesse antes não o teria citado nominalmente aqui. Não é a primeira vez, e acho que nem será a última, que isso acontece. Alon tem os seus critérios e eu os respeito. Eu escrevo o que quero e na casa dele ele publica se quiser. Já me desculpei com ele pelo meu açodamento.
Se alguém ousar sequer sugerir que o Alon faz censura no blog, pode estar certo que irá receber de minha parte uma resposta bem dura.
Arranhaponte,
Uma das formas que os pais de antigamente utilizavam para fazer as crianças perderem o medo à noite, era dizer que o bicho papão só existia se a criança acreditasse nele.
O mesmo valia para lobisomens, saci, mula sem cabeça, boitatá, cobra grande, caapora etc.
Antigamente, ao andarem sozinhas à noite, as pessoas torciam e rezavam para encontrar alguém com quem pudesse completar o caminho, por medo de fantasmas.
Hoje, as pessoas preferem andar à noite com medo ou com os fantasmas do que encontrar alguém com quem tenha de completar o caminho.
O problema de hoje, é que é o próprio Frankenstein quem dissemina que tem quem não goste dele, acredite nele ou no que ele fala ou para o que ele aponta. Ninguém mandou gostar de ser criado à imagem e semelhança do seu criador.
No Primeiro Mundo, os atentados a presidentes ou candidatos a presidente tem sempre requintes cinematograficos (John Kennedy, Robert Kennedy, Ronald Reagan, etc).
No Terceiro Mundo, aquela coisa patética de sempre: sapato jogado com a mão, rolo de fita crepe, etc…
“Respeitem o líder da oposição!”
Ulysses Guimarães, na Bahia, em 1978, quando a Polícia de Choque avançou com com cães. Ulysses gritou e os soldados recuaram.(http://www.frasesfamosas.com.br/de/ulysses-guimaraes.html)
“Ninguém vai impedir o governador de entrar em uma secretaria de Estado pela porta da frente.”
Mário Covas, governador de São Paulo, segundo assessores, ao se encaminhar para o portão principal da Secretaria de Estado da Educação _onde há acampamento de professores em greve _ em vez de entrar pelos fundos.
FOLHA DE S.PAULO, 03/06/2000 (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/mario_covas-frases.shtml)
Que legal!
Estamos a uma semana da eleicao presidencial e a grande discussao politica no país e’ se um dos candidatos foi atingido por uma bolinha de papel (tese da situacao) ou por um rolo de fita crepe (tese da oposicao)…
Quem disse que as ideologias morreram???
E parodiando um metido a grande criador de metáforas ludopedianas: “rojas” deveriam ficar as caras de quem faz metáforas ludopedianas como essa”". Aliás, havia um candidato que apresentava-se com um vidro e o bordão era: “peroba neles”. Portanto, fazer piadas de péssimo gosto com violência sofrida por outros, não é metáfora que leve a bons risos.
“No Terceiro Mundo, aquela coisa patética de sempre: sapato jogado com a mão (…)”
É verdade, os EUA na Era Bush eram mesmo um Terceiro Mundo miserável…!
Em tempo:
Grato pela exposição do assunto ICAR + Socialismo e a linkagem para o prof. Romano.