A gente sempre deve desconfiar quando a esquerda diz que o mercado não funciona e quando a direita diz que o mercado resolve. O mercado funciona sim, mas nem sempre resolve. Quando o mercado traz uma situação de desequilíbrio de volta para o equilíbrio, este movimento algumas vezes envolve três terremotos e dois tsunamis – quer dizer, resolve, mas no processo te transforma em papinha.
O Brasil adentra um quadro algo preocupante, tendo em mente os pressupostos acima. Um governo de esquerda produziu um momento econômico exuberante, com alguns sintomas de bolha em estágio inicial de formação, e acompanhado de câmbio valorizado e déficit externo crescente. É algo que deveria preocupar economistas de esquerda de cepa tradicional. Por outro lado, se você leva para um economista liberal, ele diz que o “mercado resolve”, isto é, o câmbio flutuante (que flutua ao sabor do mercado) resolve.
O problema é que os economistas de esquerda, que deveriam estar gritando histéricos (e alguns poucos e velhinhos estão, mas sem que ninguém dê bola – já são considerados café-com-leite), foram em grande parte cooptados. É chato enfiar a porrada na exuberante economia de um governo de esquerda.
Os economistas de direita acham que o mercado resolve, mas pelo sim, pelo não, recomendam austeridade fiscal. No que são violentamente rechaçados – isto aqui é um governo de esquerda, viram, vendilhões?!
E o resultado é que vamos surfando a onda despreocupados, confiando na sabedoria do mercado que resolve, mas sem sequer seguir os procedimentos mínimos de prudência recomendados pela mesma turma que diz que o mercado resolve. As propostas dos poucos velhinhos de esquerda realmente preocupados são desconsideradas, por muito malucas, e porque basicamente arruínam os fundamentos da popularidade de 82%. Num quadro totalmente elanavevá, a única medicação politicamente disponível são controles de capital, de difícil regulagem – não queremos US$ 100 bi de capital externo, mas não podemos passar sem US$ 50 bi.
Espero que dê certo


[...] This post was mentioned on Twitter by Arthur Ferreira Jr. and Lucas Jerzy Portela, Torre de Marfim. Torre de Marfim said: A gente sempre deve desconfiar qdo esquerda diz q mercado ñ funciona e qdo direita diz q mercado resolve.No Torre: http://tiny.cc/l20vl (FA) [...]
Pois é, Arranhaponte.
Se fosse brincadeira, daria para chamar tal processo de “exuberância irracional do neo-liberalismo de esquerda”. Daria uma tese. Ou renderia um paredão. Ou teria de passar por algum “conselho de controle de teses”.
De todo modo, algum ajuste poderá ser necessário devido o efeito carregamento. Ou seja, acaba um governo e algum entulho ele deixa para o próximo. Só falta acabarem as eleições para começar a saber-se o tamanho do enrosco.
pois.
acho que os últimos anos têm sido anos de alegria pra todos os brasileiros, mas alegria demais. a nossa própria história deveria nos ter imprimido uma intuição de que quando tudo está muito bom a preocupação deve redobrar.
botamos na cabeça que temos bons fundamentos e por isso passamos quase incólumes pela crise que quase matou todo mundo, mas vamos lá, no milagre foi a mesma coisa. bons fundamentos não dizem a respeito a bolhas e nem a problemas cambiais.
o tombo, quando vier, espero que seja só um tropeço.
Bruno,
Concordo com você. Na realidade foi uma queda de um ritmo de crescimento do PIB, previsto entre 5% a 6%, para negativo em 2009. Uma queda e tanto para ser marolinha, como disseram as autoridades.
E ainda a economia continua dependente da exportação de commodities.
O real problema é que ainda olhamos só para o nosso umbigo. Nos acostumamos nos tempos de inflação e mercado fechado a acreditar que o rumo econômico do país depende apenas de nossas vitórias ou derrotas. Esse tempo acabou. Houve um período de festa? Houve, mas não só no Brasil. No mundo inteiro.
Discordo quando diz que a turma liberal acredita que o mercado resolve. Quem afirma isso em relação aos liberais é a turma de esquerda. Pelo menos os liberais que eu conheço afirmam que o mercado nada mais é que o melhor definidor de preço e alocador de recursos. Nada mais. Mercado não é uma entidade sobre humana que define alguma coisa. Acontece que os governos possuem capacidade de mudar essa definição de preços e é aí que a porca torce o rabo (subprime por exemplo).
O déficit externo não me preocupa. O que me preocupa é a dívida interna, cada vez mais mascarada por manobras contábeis. Essa conta virá para os nossos filhos e netos.
A austeridade fiscal dos liberais é nada mais nada menos do que não se gastar o que não se arrecada. Receita simples, ignorada por vários e que a sua não execução já trouxe vários problemas para o Brasil.
No mais concordo contigo quando digo que se deixarem o mercado funcionar, haverá terremotos e tsunamis. O problema é que nos acostumamos a ter ilusões de riquesa, o dinheiro fácil corrompe ao nível de mais de 80% de popularidade.
A sua ideia de “mercado” eh um pouco fantasiosa. O “mercado” nao eh um ente que funciona ou deixa de funcionar. Ele eh apenas a consequencia dos atos de agentes economicos.
Dizer
“Quando o mercado traz uma situação de desequilíbrio de volta para o equilíbrio, este movimento algumas vezes envolve três terremotos e dois tsunamis – quer dizer, resolve, mas no processo te transforma em papinha”
seria equivalente a culpar as leis da fisica pelos terremotos ou terremotos (“ah, essas leis sao injustas”, diria um esquerdista). Como se o mercado fosse o agente ativo, e nao o meio, onde as transacoes economicas sao feitas.
Ora, se um sujeito (ou varios) compra ovos de avestruzes (como aconteceu ha um tempo atras em varios estados brasileiros) esperando retorno de 20% ao mes e ao final de algum tempo perde o seu dinheiro porque a empresa faliu, nao faz sentido algum culpar “o mercado”…
Se um governo gasta o que nao tem, financia emprestimos milionarios emitindo titulos do tesouro (criando dinheiro) jah gasta no presente dinheiro do pre-sal que virah (virah?) em 10 ou 20 anos, capta investimentos externos que se aproveitam da liquidez internacional (ou quantitative easing, meu eufemismo predileto no momento) e de juros dentre os mais altos do mundo numa economia relativamente estavel…. o cambio flutuante certamente refletirah o desbalanco, mas o mercado nao tem nada a ver com isso. Os “atores” (e culpados pelo desbalanco) sao bem claros, soh nao ve quem nao quer (ou quem quer confundir…).
No mais, o que “produziu um momento econômico exuberante” foram as reformas neo-liberais tao combatidas, mas mantidas, pelos esquerdistas. A verdadeira heranca do governo atual serah (jah estah sendo, alias) sentida no governo de sua sucessora. Por isso, nada mais justo do que ela ganhar a eleicao.
O Serra virou candidato a Papa???!
Me tira o tubo…
Serra exibe Santa em Minas Gerais
http://eleicoes.uol.com.br/2010/album/101028_album.jhtm?abrefoto=7
Paulo, eu não disse que um mercado é um ente, e nem culpei o mercado por nada. Eu apenas descrevi o que o mercado às vezes faz. A consequência dos atos de agentes econômicos às vezes pode ser desastrosa para países. Ninguém fez por mal porque é sádico. É, como você disse, uma resultante, não um ente com comando centralizado. Não muda nada o que eu escrevi, me parece. Quanto a “produziu um momento econômico exuberante”, a mesma coisa. Não quis dizer que tudo de bom só ocorre por causa desse governo, mas sim que ele pegou uma conjuntura boa e ainda turbinou com impulsos à demanda que podem até produzir uma bolha. Quer dizer, foi até meio crítico o que eu disse.
Abs
Mas, Arranhaponte,
Ficou realmente um certo açodamento anti-liberal, se é que posso dizer assim. Mas o liberalismo, pode ser até ocioso dizer, pressupõe regras. Dentro do regramento, pode-se competir à vontade. Se sair das regras é penalizado.
Não é a “mão invisível” ou o tal de “Estado mínimo” que muita gente coloca de forma errada para distorcer e demonizar posições contrárias. Como se fosse um liberou geral.
Como disse o comentarista acima, o mercado como melhor definidor de preços e alocador de recursos. Não pressupõe a anulação do Estado. Exatamente por ser este, o ente regulador.
Só por curiosidade, vi a foto de uma tabuleta de preços em mercado estatal da Venezuela. Anunciava o “preço capitalista”, “o preço socialista” e “o desconto ou o valor que beneficiava o comprador”. Não peguei o link, mas deve estar ainda na Net. Um colega que tinha ido recentemente lá relatou ser verdade.
Mas o Serra sempre foi católico de ir à missa etc.
De repente, não pode nem acender o fogão a gás que é acusado de estar acendendo uma fogueira.
Se for o caso, que a adversária ande com o Capital debaixo do braço.
Prezado Senhor Arraponte:
Meu nome é Gabriel Maia de Needell. Eu estou fazendo meu Mestrado em Estudos da America Latina na Universidade do Georgetown em Washinton D.C.. Eu estou fazendo pesquisas para um ensaio sobre o Plano Cruzado e o Plano Real. Eu quero comparar as diferenças entre os dois planos e entender porque o Plano Real foi muito mais bem-sucedido do que o Plano Cruzado. Eu gostaria de saber se o senhor poderia compartilhar suas idéias sobre este assunto. Se o senhor puder me ajudar, eu ficarei extremamente grato.
Atenciosamente,
Gabriel
Infelizmente, estou sem tempo, abs.
“Concordo com você. Na realidade foi uma queda de um ritmo de crescimento do PIB, previsto entre 5% a 6%, para negativo em 2009. Uma queda e tanto para ser marolinha, como disseram as autoridades.
E ainda a economia continua dependente da exportação de commodities.”
Dawran, discordo firmemente da posição de dizer que a crise atingiu o Brasil com força. Um país produzir em ano de crise internacional quase o mesmo que produziu no ano anterior, é sim apenas uma marolinha, principalmente contando que o crescimento no ano seguinte foi de 7%. As pessoas tiveram uma perda mínima de renda e no ano seguinte tiveram uma reposição. O PIB per capita do Brasil continuou crescendo, é isso que importa.