Rodrigo Constantino conseguiu: o artigo do sujeito sobre o Tea Party, publicado ontem por O Globo, me tirou da letargia. Alertado pelo Arranhaponte no Twitter, decidi escrever um post a respeito. É por textos como esse que o liberalismo no Brasil não é e provavelmente nunca será levado a sério.
No artigo em que se propõe a desmistificar o Tea Party, Constantino consegue apenas mostrar uma visão totalmente equivocada do que se passa na economia americana. Comecemos pelo trecho abaixo:
“O Tea Party carrega em seu DNA um viés libertário, que desconfia do governo ‘altruísta’. O discurso messiânico que elegeu Obama incomoda, e com razão: foram ‘messias salvadores’ os que mais atrocidades praticaram em nome do ‘bem’. As medidas de Obama mostram sua visão ideológica. É clara a sua intenção de socializar setores importantes da economia e concentrar no governo mais poder ainda. O Tea Party veio dizer ‘basta’”.
Dá até preguiça de comentar um artigo que defende a ideia de que Obama pretende “socializar setores importantes da economia”*. O Estado aumentou sua participação na economia depois da crise de 2008 para evitar uma catástrofe ainda maior.
Sem a intervenção do governo no sistema financeiro e sem o estímulo fiscal, o PIB americano poderia ter mergulhado grotescamente. A taxa de desemprego, em vez de atingir 10%, poderia ter sido muito maior. Seria interessante, como experimento, se algum país tivesse seguido à risca as recomendações de alguns economistas ultraliberais, deixando bancos quebrarem e recusando-se a aumentar gastos. Mas quem se arriscaria a deixar o PIB cair 6% e o desemprego bater em 20%? Talvez economistas como Constantino deixassem. Ainda bem que nunca estarão em posições de comando, em que tenham que tomar esse tipo de decisão.
Outro ponto grotesco é que foram os republicanos que escangalharam as contas públicas do país. No fim do governo Clinton, havia superávit fiscal. George W. Bush, em seus dois mandatos, jogou a responsabilidade fiscal no lixo. A crise de 2008 exigiu aumento de gastos, que elevaram o déficit público a partir de um nível já elevado. Constantino não diz nada sobre esses fatos.
O artigo é cheio de grandes momentos. Outro trecho bonito:
“O embate sobre o aumento do teto do endividamento expôs a polaridade: de um lado, aqueles que desejam um cheque em branco para o governo gastar à vontade; do outro, os que cansaram de viver uma ilusão e rejeitam o modelo europeu de sociedade. Não resta dúvida de que houve oportunismo político de ambos os lados. Mas erra quem acusa o Tea Party de irresponsável. O ápice da falta de responsabilidade é gastar mais do que arrecada indefinidamente.”
Como disse o Arranhaponte no Twitter, a discussão sobre o teto da dívida não tem nada a ver com a disputa entre o modelo americano e o europeu. Obama não queria um cheque em branco para gastar à vontade. Os EUA estão numa situação complicadíssima. Reduzir os gastos com força num cenário de crescimento anêmico é receita para abater a atividade econômica. Os republicanos transformaram a discussão sobre algo corriqueiro numa arapuca para chantagear Obama e esticar a corda até criar uma crise desnecessária, num momento em que os EUA enfrentam dificuldades para retomar um ritmo minimamente razoável de crescimento.
A situação fiscal dos EUA é delicada, mas o país não está à beira de um calote. A dívida de US$ 14,3 trilhões, que equivale a quase 100% do PIB, não é insustentável. É óbvio que a situação requer um plano de ajuste de médio e longo prazo, mas exigir cortes dramáticos no curto prazo servirá apenas para minar ainda mais a capacidade de crescimento, o que afeta a própria situação fiscal do país.
Outro trecho genial é o último parágrafo:
“Uma ala minoritária, mesmo dentro dos republicanos, foi capaz de colocar em pauta o debate inadiável sobre a trajetória explosiva dos gastos públicos. Sua força obrigou o presidente Obama a recuar e abandonar parte de sua agenda socializante. É um começo, uma brisa que sopra na direção certa. Mérito do Tea Party, cujas qualidades deveriam servir de exemplo para a sonolenta oposição brasileira.”
Constantino volta a falar da agenda socializante de Obama, e cita a trajetória explosiva dos gastos públicos, como se o aumento das despesas fosse um capricho dos democratas, e não algo relacionado a uma economia anêmica.
Ele termina o artigo com chave de ouro, ao dizer que as qualidades do Tea Party “deveriam servir de exemplo para a sonolenta oposição brasileira”. Tudo o que a oposição e o Brasil não precisam é de algo remotamente parecido com a estridência, o primitivismo e o radicalismo do Tea Party. A miopia de Constantino, um sujeito bem intencionado, mostra que o liberalismo parece destinado a jamais ser levado a sério no Brasil. Se ele se pretende um expoente da nova geração de liberais brasileiros, a causa está condenada. Não é por acaso que a popularidade das ideias liberais no país é muito baixa. Não me espanta que gente de bom senso com afinidade com o liberalismo se diga de centro-esquerda, como já fez Arminio Fraga. Grande parte dos liberais brasileiros não resiste a afrontar o bom senso
*E não, a reforma do sistema de saúde não é um sinal da sanha estatizante de Obama. Estender a cobertura de saúde a um número maior de pessoas não é exatamente socialismo


Nunca entendi o que levou esse cara a ser um “formador de opinião”
A Veja publicou certa vez uma capa fazendo uma montagem entre Obama e uma gravura de Lênin, para NEGAR que Obama fosse comunista.
Eu pensei, na época: quem é esse público leitor da Veja que pensa uma coisa dessas, a ponto de a revista ter que negar isso numa matéria de capa?
Agora vejo que Rodrigo Constantino faz parte dele. Só não sei se eles existem, estatisticamente.
Bem, eu não duvido que o Constantino seja bem intencionado, mas isso só torna ainda mais enigmático o fato de uma anta desse porte escrever sistematicamente para grandes veículos de comunicação como O Globo e o Valor.
Sem bem que, pensando com calma, não é um fato assim tão enigmático, né? Sinal de que alguém, em algum lugar, diferente do Constantino, não está assim tão bem intencionado (ou será que as antas estão em todos os extratos da cadeia comunicativa?)
esse infeliz escreve no valor? putz…
sobre o tea party, a melhor explicação que vi foi essa:
http://www.ianfraser.org/the-us-debt-ceiling-farce-explained/
divirtam-se, de nada!
“Agarra al toro por los cuernos, al hombre por la palabra…”
Bem, nesse caso, eu concordo com o Constantino e os libertários, e discordo de você, do Olavo e dos olavetes (é por causa daquela surra que o Constantino tomou do Olavo que você o chama de “bem intencionado”? Perguntar não ofende).
“A situação fiscal dos EUA é delicada, mas o país não está à beira de um calote. A dívida de US$ 14,3 trilhões, que equivale a quase 100% do PIB, não é insustentável. É óbvio que a situação requer um plano de ajuste de médio e longo prazo, mas exigir cortes dramáticos no curto prazo servirá apenas para minar ainda mais a capacidade de crescimento, o que afeta a própria situação fiscal do país.” O problema é que, no que depender de Obama e dos outros, inclusive muitos republicanos, não haverá ajuste de prazo nenhum. O Obama tem a reeleição daqui há pouco mais de um ano (ele já está em campanha). Ele não pode cortar muitos nem poucos gastos porque se fizer isso ele perde sua base.
Por outro lado, eu não entendo porque cortar gastos é muito ruim para a economia e aumentar os impostos não. Aumentar os impostos e manter os gastos como estão, o que Obama queria e conseguiria sem o Tea Party, ou aumentar os dois, o que fez o desastre Roosevelt, é receita certa para uma grande depressão.
Quanto ao Tea Party ser ruim para a oposição, bem, seria ruim para quem defende o que você defende, não tenho dúvida. Os resultados das eleições nos EUA contam outra história. (eu juro que ia deixar para lá, mas não resisti).
O mais curioso da lógica tortuosa dos defensores do Tea Party é que os democratas entregaram o governo aos republicanos com o déficit zerado. A sangria começou com um corte nos impostos de pessoas que ganham mais de 600.000 dólares por ano, piorou com uma guerra aventureira no Iraque e degringolou de vez com o uso de trilhões para tapar o buraco de uma crise financeira que estourou ainda no governo dos republicanos por causa de um mercado completamente “desregulado” [eufemismo para "regido por um vale tudo em nome de lucros a curto prazo].
Fui ler agora a caixa de comentários do post do Constantino. É interessante como ele se cala sobre Reagan ter cortado impostos dos ricos sem cortar gastos, agravando o déficit.
Parece que essa idolatria de Reagan é um posicionamento estilo Fla-Flu, desconectado das idéias que ele mesmo defende.
“o que fez o desastre Roosevelt”
Acuma??? Roosevelt (metáfora para uma orientação política, já que não creio nos heróis) é o fundador dos EUA grande potência (alguém já ouviu falar nos trinta anos gloriosos?), salvou os EUA da desagregação social dos anos 30 (quem acha que a política de frentes de trabalho tinha algo que ver com mover a economia não entende a situação do país naquela época) e estimulou a volta do orgulho e da confiança dos americano em seu país, o que os preparou para os sacrifícios da 2a Guerra.
O Constantino afirma que existe uma imagem deturpada do Tea Party, mas quando se dá ao trabalho de “analisá-lo” se alinha com a mítica que o movimento quer para si, operando uma analogia estapafúrdia. O Tea Party original não foi “movimento” nenhum, mas um ato pitoresco e mais simbólico do que qualquer outra coisa. Além disso, o ato em si foi mais festivo do que rancoroso e raivoso, esta que é a característica do atual Tea Party (embora o clima político em 1773 fosse de bastante tensão e acusações contra a Coroa Britânica). E ainda que se aceite que os bostonianos de 73 incorporassem o desejo nacional americano, há que se lembrar a radical diferença daquela época para a atual: a América era uma COLÔNIA britânica, e o movimento pela independência visava criar vários governos americanos (um em cada colônia). A questão é que eles queriam ter voz nesse governo. O problema do Tea Party atual é que ele trata os democratas e os republicanos moderados como se eles fossem ingleses, isto é, inimigos, e não adversários políticos legitimamente eleitos para governá-los. Portanto, eles não toleram a divergência e a negociação – querem mais do que uma voz, mas se pretendam A voz da América.
PS: e, ah sim, o resultado da perspectiva teapartista original foi uma confederação, sem um governo central gastador, o que levou a um desastre que requereu a habilidade de uns certos Hamilton, Madison et alli. para criar o tal “Governo de Washington”.
A propósito, quem “estimula” (adoro o uso que os economistas fazem de certos verbos) o mercado financeiro americano é o Bernanke. Não é nem o congresso republicano nem o governo democrata, é o presidente do FED nomeado pelo Bush.
A crise atual tem três pais. Por ordem cronológica Bush, Bernanke e Obama. Por ordem de responsabilidade Obama, Bernanke e Bush.
E parece que nem o Matamoros, nem o João Paulo nem ninguém por aqui sabe que tanto faz o Obama chantagear o congresso mobilizando a esquerda ou o Tea Party chantagear o congresso mobilizando a direita, o Bernanke vai continuar onde está e fazendo o que vem fazendo e dando errado, “estimulando”…
Da próxima vez, Matamoros, não se esqueça do Bernanke. Ele é vaidoso, ele vai gostar da lembrança.