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maio 30, 2006
180 milhões em ação
maio 27, 2006
O Grande Experimento
Vejo daqui o bocejo dos nossos pingados leitores – lá vem ele com este lero-lero sobre criminalidade de novo. Mas não resisto. Já sei que a minha mensagem tem muito menos impacto do que imaginei um dia. Ainda assim, é com pompa e circunstância que proclamo aos quatro ventos: o Brasil não vive nenhuma crise moral.
O que vivemos é o que chamei em um comentário, se não me engano no blog do Filthy Mcnasty, de o “grande experimento”. Acho que vou colocar com maiúsculas iniciais – o Grande Experimento. Fica mais adequadamente pretensioso.
O GE consiste em um país com altas taxas de criminalidade punir o crime de forma extremamente branda. Mais do que isto, consiste em colocar no index das idéias proibidas aos bens pensantes a ancestral crença humana de que a punição é um mecanismo de redução de comportamentos indesejados - e tanto mais reduz quanto mais intensa e disseminada for.
Até agora, o GE tem produzido as conseqüências que qualquer criança de seis anos teria previsto (mas que juristas da USP são incapazes de compreender): mais e mais crime, nas mais variadas e criativas formas, e praticado por todos os extratos de renda e educação.
Se a gente pegasse a Suécia, criasse diferenciais de renda semelhantes aos brasileiros, desse um jeito de apagar do inconsciente coletivo os laços de confiança e solidariedade criados no interior de uma população relativamente homogênea que ocupa durante dezenas de séculos um mesmo território, aplicasse duas décadas de turbulência econômica ao estilo cucaracho, e implantasse o GE, tenho certeza de que os lourinhos estariam mergulhados em uma onda de crime muito semelhante à nossa – e haveria uns idiotas falando em “crise moral”.
Eu acho até uma certa sacanagem, uma difamação do caráter nacional. É como se a gente pegasse uma criança, nunca lhe desse o menor limite, e depois que ela se transformasse num(a) sociopata, disséssemos que o seu problema é ser imoral.
Tenho dito (e vou me esforçar para mudar o disco)
Vejo daqui o bocejo dos nossos pingados leitores – lá vem ele com este lero-lero sobre criminalidade de novo. Mas não resisto. Já sei que a minha mensagem tem muito menos impacto do que imaginei um dia. Ainda assim, é com pompa e circunstância que proclamo aos quatro ventos: o Brasil não vive nenhuma crise moral.
O que vivemos é o que chamei em um comentário, se não me engano no blog do Filthy Mcnasty, de o “grande experimento”. Acho que vou colocar com maiúsculas iniciais – o Grande Experimento. Fica mais adequadamente pretensioso.
O GE consiste em um país com altas taxas de criminalidade punir o crime de forma extremamente branda. Mais do que isto, consiste em colocar no index das idéias proibidas aos bens pensantes a ancestral crença humana de que a punição é um mecanismo de redução de comportamentos indesejados - e tanto mais reduz quanto mais intensa e disseminada for.
Até agora, o GE tem produzido as conseqüências que qualquer criança de seis anos teria previsto (mas que juristas da USP são incapazes de compreender): mais e mais crime, nas mais variadas e criativas formas, e praticado por todos os extratos de renda e educação.
Se a gente pegasse a Suécia, criasse diferenciais de renda semelhantes aos brasileiros, desse um jeito de apagar do inconsciente coletivo os laços de confiança e solidariedade criados no interior de uma população relativamente homogênea que ocupa durante dezenas de séculos um mesmo território, aplicasse duas décadas de turbulência econômica ao estilo cucaracho, e implantasse o GE, tenho certeza de que os lourinhos estariam mergulhados em uma onda de crime muito semelhante à nossa – e haveria uns idiotas falando em “crise moral”.
Eu acho até uma certa sacanagem, uma difamação do caráter nacional. É como se a gente pegasse uma criança, nunca lhe desse o menor limite, e depois que ela se transformasse num(a) sociopata, disséssemos que o seu problema é ser imoral.
Tenho dito (e vou me esforçar para mudar o disco)
maio 24, 2006
O maloqueiro e o função
A onda de violência dos últimos dias me fez lembrar de duas figuras míticas de minha infância e adolescência: o maloqueiro e o função. Pode parecer ridículo em tempos de PCC, mas eles eram duas grandes preocupações de pais e crianças no começo dos anos 80.
O maloqueiro era o terror das mães, mas é bom que fique claro: o maloqueiro não se confundia com um marginal, pelo menos no meu bairro. Em geral era um adolescente de classe média que gostava de quebrar janelas, furar pneus de carros e bater em moleques menores. Os maloqueiros mais temidos de minha infância faziam parte da turma do Baraba. Eram uns oito, com idades entre 12 e 17 anos. Não roubavam, mas ficavam o dia inteiro na rua, o suficiente para que minha mãe considerasse a turma o caminho mais curto para a vagabundagem, as drogas e o crime. Temores vãos. O Baraba, por exemplo, se tornou um tranqüilo gerente do Bradesco. Há algo mais inofensivo do que um gerente do Bradesco de uma agência de subúrbio?
O função já era diferente. Adolescente marginal, praticava pequenos furtos e roubos. Eu mesmo fui vítima de um deles, aos 12 anos. Ganhei um tênis novo e, todo feliz, decidi dar uma volta no bairro. O problema é que o função também gostou. O sujeito chegou perto de mim disse: Esse tênis aí, tem jeito? Como ele era bem maior do que eu, o jeito foi abrir mão do tênis. Um roubo sem violência, quase um pedido.
Não ouço falar do maloqueiro e do função há muito tempo. Alguém tem notícia deles? Ao que tudo indica, essas figuras românticas entraram em extinção
A onda de violência dos últimos dias me fez lembrar de duas figuras míticas de minha infância e adolescência: o maloqueiro e o função. Pode parecer ridículo em tempos de PCC, mas eles eram duas grandes preocupações de pais e crianças no começo dos anos 80.
O maloqueiro era o terror das mães, mas é bom que fique claro: o maloqueiro não se confundia com um marginal, pelo menos no meu bairro. Em geral era um adolescente de classe média que gostava de quebrar janelas, furar pneus de carros e bater em moleques menores. Os maloqueiros mais temidos de minha infância faziam parte da turma do Baraba. Eram uns oito, com idades entre 12 e 17 anos. Não roubavam, mas ficavam o dia inteiro na rua, o suficiente para que minha mãe considerasse a turma o caminho mais curto para a vagabundagem, as drogas e o crime. Temores vãos. O Baraba, por exemplo, se tornou um tranqüilo gerente do Bradesco. Há algo mais inofensivo do que um gerente do Bradesco de uma agência de subúrbio?
O função já era diferente. Adolescente marginal, praticava pequenos furtos e roubos. Eu mesmo fui vítima de um deles, aos 12 anos. Ganhei um tênis novo e, todo feliz, decidi dar uma volta no bairro. O problema é que o função também gostou. O sujeito chegou perto de mim disse: Esse tênis aí, tem jeito? Como ele era bem maior do que eu, o jeito foi abrir mão do tênis. Um roubo sem violência, quase um pedido.
Não ouço falar do maloqueiro e do função há muito tempo. Alguém tem notícia deles? Ao que tudo indica, essas figuras românticas entraram em extinção
maio 19, 2006
Hermafroditas
A direita no Brasil é de esquerda. Para o Lambo, a esquerda está certa, e ele só não aderiu porque, quando era jovem, considerava os caras de esquerda muito afoitos, enquanto ele era mais bundão e achava que "as mudanças" deveriam ser feitas muito devagar para não assustar as velhinhas.
Mesmo concordando com a esquerda, Lambo defendeu ao longo da vida a preservação de alguns privilégios. Fez isto não porque seja mau, mas apenas para tentar manter um ambiente no qual velhinhas e brochinhas das boas famílias sintam-se à vontade - em nome de um vago sentimento que associa à decência.
Lambo pensa que lhe faltou ousadia para ser de esquerda, mas também nutre um secreto auto-contentamento com seu próprio recato - ele acha digno ter adotado, para agradar mamã, a postura daquele sujeito que, com um ar de reprovadora admiração, coloca limites à ação ousada e romântica dos esquerdistas.
Existem formas bem mais canalhas de políticos de direita no Brasil serem de esquerda, gênero Maluf e ACM. Isto fica claro no brilho desse olhar que acusa a esquerda de "também" roubar, de "também" ser corrupta, de "defender os pobres, mas também se locupletar".
Nós brasileiros somos estatistas. Ninguém consegue imaginar que exista vida, seja de rico ou de pobre, fora das tetas. O político de direita de esquerda, estilo canalha, pensa: "Vou pegar a teta para mim, aquele filho da puta hipócrita de esquerda diz que vai dar a teta pro pobre mas acaba pegando pra ele também". A linha light do político de direita de esquerda, tipo Lambo, pensa: "Devemos dividir as tetas gradualmente, sem movimentos abruptos, para não provocar disrupções que aflijam as almas mais sensíveis".
Talvez o único político verdadeiramente de direita até hoje no Brasil tenha sido o Roberto Campos. E ele era um político que não era político
A direita no Brasil é de esquerda. Para o Lambo, a esquerda está certa, e ele só não aderiu porque, quando era jovem, considerava os caras de esquerda muito afoitos, enquanto ele era mais bundão e achava que "as mudanças" deveriam ser feitas muito devagar para não assustar as velhinhas.
Mesmo concordando com a esquerda, Lambo defendeu ao longo da vida a preservação de alguns privilégios. Fez isto não porque seja mau, mas apenas para tentar manter um ambiente no qual velhinhas e brochinhas das boas famílias sintam-se à vontade - em nome de um vago sentimento que associa à decência.
Lambo pensa que lhe faltou ousadia para ser de esquerda, mas também nutre um secreto auto-contentamento com seu próprio recato - ele acha digno ter adotado, para agradar mamã, a postura daquele sujeito que, com um ar de reprovadora admiração, coloca limites à ação ousada e romântica dos esquerdistas.
Existem formas bem mais canalhas de políticos de direita no Brasil serem de esquerda, gênero Maluf e ACM. Isto fica claro no brilho desse olhar que acusa a esquerda de "também" roubar, de "também" ser corrupta, de "defender os pobres, mas também se locupletar".
Nós brasileiros somos estatistas. Ninguém consegue imaginar que exista vida, seja de rico ou de pobre, fora das tetas. O político de direita de esquerda, estilo canalha, pensa: "Vou pegar a teta para mim, aquele filho da puta hipócrita de esquerda diz que vai dar a teta pro pobre mas acaba pegando pra ele também". A linha light do político de direita de esquerda, tipo Lambo, pensa: "Devemos dividir as tetas gradualmente, sem movimentos abruptos, para não provocar disrupções que aflijam as almas mais sensíveis".
Talvez o único político verdadeiramente de direita até hoje no Brasil tenha sido o Roberto Campos. E ele era um político que não era político
maio 18, 2006
Sin country II
Em Roma, num cybercafe no Trastevere, decido ler sobre as noticias do Brasil. Depois de consultar o site da Folha, descubro que tenho um novo idolo: Claudio Lembo. O sujeito e bom. Nunca teve voto, nao se elegeria nem mesmo sindico de predio, mas e o governador de Sao Paulo, mesmo estando morto. Isso mesmo. Qualquer analise detalhada de uma foto sua mostra que Lembo morreu ha mais de dois seculos. E eis que o cadaver que comanda o Estado abre a boca, depois de 500 anos de carreira politica sem nunca ter dito nada de interessante. Em entrevista a Folha, ele diz que a culpa pela violencia que aterrorizou Sao Paulo nos ultimos dias e da minoria branca muito perversa (MBMP). Curioso. Eu sempre achei que casos como esse se deviam a impunidade generalizada e a incompetencia da policia e do Judiciario, mas pelo visto estou enganado. Lembo, que nao faz parte da MBMP, explicou que todos os brancos burgueses somos os responsaveis. Marcola e o PCC existem por culpa de todos os brasileiros que, como eu, nao sao de cor e conseguem pagar as contas no fim do mes. Estou me sentindo mal com isso. Vou ja para uma das 2.638 igrejas de Roma para me confessar. Eu nao sabia como eu podia causar tanto mal ao Brasil mesmo estando na Italia
PS: Descobri tambem que o Marcola e um grande leitor. Parece que ele gosta ate da Divina Comedia. Acho que Lula pode usar o fato na campanha deste ano, dizendo: Eu sou analfabeto, mas pelo menos nao sou criminoso. Fica aqui a sugestao para os marqueteiros do Guia Genial
Em Roma, num cybercafe no Trastevere, decido ler sobre as noticias do Brasil. Depois de consultar o site da Folha, descubro que tenho um novo idolo: Claudio Lembo. O sujeito e bom. Nunca teve voto, nao se elegeria nem mesmo sindico de predio, mas e o governador de Sao Paulo, mesmo estando morto. Isso mesmo. Qualquer analise detalhada de uma foto sua mostra que Lembo morreu ha mais de dois seculos. E eis que o cadaver que comanda o Estado abre a boca, depois de 500 anos de carreira politica sem nunca ter dito nada de interessante. Em entrevista a Folha, ele diz que a culpa pela violencia que aterrorizou Sao Paulo nos ultimos dias e da minoria branca muito perversa (MBMP). Curioso. Eu sempre achei que casos como esse se deviam a impunidade generalizada e a incompetencia da policia e do Judiciario, mas pelo visto estou enganado. Lembo, que nao faz parte da MBMP, explicou que todos os brancos burgueses somos os responsaveis. Marcola e o PCC existem por culpa de todos os brasileiros que, como eu, nao sao de cor e conseguem pagar as contas no fim do mes. Estou me sentindo mal com isso. Vou ja para uma das 2.638 igrejas de Roma para me confessar. Eu nao sabia como eu podia causar tanto mal ao Brasil mesmo estando na Italia
PS: Descobri tambem que o Marcola e um grande leitor. Parece que ele gosta ate da Divina Comedia. Acho que Lula pode usar o fato na campanha deste ano, dizendo: Eu sou analfabeto, mas pelo menos nao sou criminoso. Fica aqui a sugestao para os marqueteiros do Guia Genial
maio 17, 2006
Sin country
Os defensores da linha-mole pedem que o Congresso não se precipite e aprove mudanças na legislação penal de afogadilho, no calor da emoção provocada pelos eventos em São Paulo. Eles nos exortam a usar a cabeça e a tentar entender que não há nenhuma relação entre a ação de criminosos e a criminalidade. Reprimir mais duramente a primeira obviamente não tem nenhum efeito sobre a segunda. O caminho é acabar com a desigualdade, assim pá-pum, de forma que o Marcola que está nascendo hoje não se transforme num Marcola daqui a vinte anos (o fato de que o background do Marcola esteja mais ou menos na mediana educacional e de renda brasileira é um pequeno detalhe técnico que a linha-mole promete estudar assim que este surto de inquietação da sociedade com o crime for debelado). Vamos respirar fundo, acalmar, esfriar a cabeça, e repetir: reprimir o crime não diminui o crime, reprimir o crime não diminui o crime, reprimir o crime não diminui o crime
Os defensores da linha-mole pedem que o Congresso não se precipite e aprove mudanças na legislação penal de afogadilho, no calor da emoção provocada pelos eventos em São Paulo. Eles nos exortam a usar a cabeça e a tentar entender que não há nenhuma relação entre a ação de criminosos e a criminalidade. Reprimir mais duramente a primeira obviamente não tem nenhum efeito sobre a segunda. O caminho é acabar com a desigualdade, assim pá-pum, de forma que o Marcola que está nascendo hoje não se transforme num Marcola daqui a vinte anos (o fato de que o background do Marcola esteja mais ou menos na mediana educacional e de renda brasileira é um pequeno detalhe técnico que a linha-mole promete estudar assim que este surto de inquietação da sociedade com o crime for debelado). Vamos respirar fundo, acalmar, esfriar a cabeça, e repetir: reprimir o crime não diminui o crime, reprimir o crime não diminui o crime, reprimir o crime não diminui o crime
maio 15, 2006
Sublimes momentos de estilo
Um colega meu aqui disse que as antenas de telefonia celular perto dos presídios deveriam ser desativadas. E eu respondi:
- É claro que não. O edifício intelectual do direito romano, do qual somos tributários, não comporta nenhuma fórmula elegante que permita uma tal arbitrariedade.
Ele ficou impressionado. Já está por aí dizendo que não dá para desativar as antenas de celulares, que é preciso buscar outras soluções
Um colega meu aqui disse que as antenas de telefonia celular perto dos presídios deveriam ser desativadas. E eu respondi:
- É claro que não. O edifício intelectual do direito romano, do qual somos tributários, não comporta nenhuma fórmula elegante que permita uma tal arbitrariedade.
Ele ficou impressionado. Já está por aí dizendo que não dá para desativar as antenas de celulares, que é preciso buscar outras soluções
A última da Grande Lusitânia
Segundo o jornal O Globo, 12 mil presos soltos para passar o domingo junto às suas mamães, numa carinhosa profusão de indultos concedidos pelo nosso Poder Judiciário humanista, "atuaram como um verdadeiro exército de soldados do crime nas ruas para executar as ordens que vinham dos presídios, transmitidas por celulares de dentro das 109 unidades prisionais do estado".
Quá quá quá! E um monte de mané virou presunto!
Quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá quá
Segundo o jornal O Globo, 12 mil presos soltos para passar o domingo junto às suas mamães, numa carinhosa profusão de indultos concedidos pelo nosso Poder Judiciário humanista, "atuaram como um verdadeiro exército de soldados do crime nas ruas para executar as ordens que vinham dos presídios, transmitidas por celulares de dentro das 109 unidades prisionais do estado".
Quá quá quá! E um monte de mané virou presunto!
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maio 12, 2006
Caim e Abel muçulmanos na cidade luz
Caro Arranhaponte,
A estada em Paris foi bastante proveitosa para o livro sobre o lugar do jovem muçulmano na sociedade francesa, projeto do Torre de Marfim que voce revelou tres posts abaixo. Tudo ficou mais facil depois que, numa de minhas excursoes pela banlieue, conheci os irmaos marroquinos Ahmed e Ahmoud.
O primeiro esta perfeitamente integrado a França. Trabalha de manha no Museu D'Orsay e a tarde no mercadinho dos pais. Bem humorado e afavel, usa uma frase que mostra seu desejo de se integrar pacificamente a sociedade francesa: Eu sou muçulmano, mas sou limpinho.
Ahmoud, por sua vez, e mal encarado. Nao trabalha. Xinga o Sarkozy o tempo todo, diz que o Bush e o demonio na terra e nao para de elogiar o Bin laden. Mesmo assim, nao escondeu o sorriso quando lhe dei um par de tenis da Nike. Alias, tanto ele quanto Ahmed cobram pelas entrevistas, mas eu decidi paga-los com roupas, tenis e sanduiches do McDonald's. Se voce der dinheiro para esse pessoal, eles acabam gastando tudo em explosivos.
Eu vou centrar o livro na historia dos dois irmaos. Pensei no titulo Caim e Abel muçulmanos na cidade luz, mas pode ser que eles nao gostem. Quem esta bravo e o Sebastiao Salgado. Ahmed e Ahmoud moram na periferia, mas sao saudaveis e tem todos os dentes na boca. "Gente que come todo dia nao fotografa bem", reclamou mais de uma vez o fotografo. Ele tem tentado convencer o Ahmoud a queimar uns carros para conseguir fotos mais intensas, mas o irmao de Ahmed nao se mostra muito empolgado com a ideia.
Acho que a verba do Ministerio da Cultura sera suficiente para financiar os meus gastos na Europa e tambem para as duas duzias de Romanee Conti que voce pediu. De qualquer modo, encontrei o Walter Salles num restaurante do Quartier Latin e ele me deu o telefone de um produtor cultural que da umas dicas de como conseguir verbas publicas suplementares caso o orçamento estoure. E isso
Um abraço do seu amigo parisiense,
Matamoros
Caro Arranhaponte,
A estada em Paris foi bastante proveitosa para o livro sobre o lugar do jovem muçulmano na sociedade francesa, projeto do Torre de Marfim que voce revelou tres posts abaixo. Tudo ficou mais facil depois que, numa de minhas excursoes pela banlieue, conheci os irmaos marroquinos Ahmed e Ahmoud.
O primeiro esta perfeitamente integrado a França. Trabalha de manha no Museu D'Orsay e a tarde no mercadinho dos pais. Bem humorado e afavel, usa uma frase que mostra seu desejo de se integrar pacificamente a sociedade francesa: Eu sou muçulmano, mas sou limpinho.
Ahmoud, por sua vez, e mal encarado. Nao trabalha. Xinga o Sarkozy o tempo todo, diz que o Bush e o demonio na terra e nao para de elogiar o Bin laden. Mesmo assim, nao escondeu o sorriso quando lhe dei um par de tenis da Nike. Alias, tanto ele quanto Ahmed cobram pelas entrevistas, mas eu decidi paga-los com roupas, tenis e sanduiches do McDonald's. Se voce der dinheiro para esse pessoal, eles acabam gastando tudo em explosivos.
Eu vou centrar o livro na historia dos dois irmaos. Pensei no titulo Caim e Abel muçulmanos na cidade luz, mas pode ser que eles nao gostem. Quem esta bravo e o Sebastiao Salgado. Ahmed e Ahmoud moram na periferia, mas sao saudaveis e tem todos os dentes na boca. "Gente que come todo dia nao fotografa bem", reclamou mais de uma vez o fotografo. Ele tem tentado convencer o Ahmoud a queimar uns carros para conseguir fotos mais intensas, mas o irmao de Ahmed nao se mostra muito empolgado com a ideia.
Acho que a verba do Ministerio da Cultura sera suficiente para financiar os meus gastos na Europa e tambem para as duas duzias de Romanee Conti que voce pediu. De qualquer modo, encontrei o Walter Salles num restaurante do Quartier Latin e ele me deu o telefone de um produtor cultural que da umas dicas de como conseguir verbas publicas suplementares caso o orçamento estoure. E isso
Um abraço do seu amigo parisiense,
Matamoros
maio 10, 2006
Mas já que vocês insistem
Tá bom, já que, só de implicância, ninguém discordou da minha tese de que o conflito Petrobrás-Brasil-Bolívia não tem a menor importância, vou mudar de tática, me importar com o assunto, e até sugerir uma solução drástica:
Vamos botar a Rocinha para invadir a Bolívia. Muito melhor armada e treinada, a favela carioca liquida a parada em poucos dias, domina a fonte de suprimento da matéria-prima para o produto básico da economia local (refiro-me aqui à própria Rocinha), estende seu poder a toda a cadeia produtiva na qual se especializou, e abre nova frente de trabalho (a Bolívia, onde "tá tudo dominado") para seus funkeiros, pagodeiros, ongueiros, etc.
De quebra, o Traficante em Chefe da República Cocalera da Rocinha e Bolívia (RCRB), em bela iniciativa de despotismo esclarecido, pode lançar uma campanha de extermínio dos flautistas andinos, legitimando-se desta forma junto ao resto da humanidade. Rocinha, chegou a hora de vingar a honra de todos os brasileiros. Às armas!
Tá bom, já que, só de implicância, ninguém discordou da minha tese de que o conflito Petrobrás-Brasil-Bolívia não tem a menor importância, vou mudar de tática, me importar com o assunto, e até sugerir uma solução drástica:
Vamos botar a Rocinha para invadir a Bolívia. Muito melhor armada e treinada, a favela carioca liquida a parada em poucos dias, domina a fonte de suprimento da matéria-prima para o produto básico da economia local (refiro-me aqui à própria Rocinha), estende seu poder a toda a cadeia produtiva na qual se especializou, e abre nova frente de trabalho (a Bolívia, onde "tá tudo dominado") para seus funkeiros, pagodeiros, ongueiros, etc.
De quebra, o Traficante em Chefe da República Cocalera da Rocinha e Bolívia (RCRB), em bela iniciativa de despotismo esclarecido, pode lançar uma campanha de extermínio dos flautistas andinos, legitimando-se desta forma junto ao resto da humanidade. Rocinha, chegou a hora de vingar a honra de todos os brasileiros. Às armas!
maio 09, 2006
Não há motivo para alarme
Vou revelar um segredo que desnorteará grande parte dos nossos leitores. Sabe qual é a importância do imbroglio entre Petrobrás, Brasil e Bolívia? Nenhuma. Minha recomendação é a de que pulem as muitas páginas dos jornais dedicadas ao assunto. Na verdade, o preço do gás pode subir, e é chato para quem tem carro movido a este combustível. Mas o preço da panela inox também pode subir (ou o de bancos de plástico, o de aves empalhadas, o de pacotes turísticos para o Maranhão etc - em princípio, qualquer preço pode subir por um motivo qualquer), e nem por isto os jornais ficam dias a fio dedicando dezenas de páginas àqueles assuntos. Até a eleição do Evo Morales, a Bolívia merecia talvez uns dois minutos da nossa atenção por ano (de um total de 350.400 minutos de vida acordada anual), geralmente gastos matutando-se sobre o fato da coca ser plantada lá, ou sobre se as índias realmente fazem xixi e cocô no meio praça por debaixo daqueles saiões. Não há nenhuma razão para que isto seja mudado agora
Vou revelar um segredo que desnorteará grande parte dos nossos leitores. Sabe qual é a importância do imbroglio entre Petrobrás, Brasil e Bolívia? Nenhuma. Minha recomendação é a de que pulem as muitas páginas dos jornais dedicadas ao assunto. Na verdade, o preço do gás pode subir, e é chato para quem tem carro movido a este combustível. Mas o preço da panela inox também pode subir (ou o de bancos de plástico, o de aves empalhadas, o de pacotes turísticos para o Maranhão etc - em princípio, qualquer preço pode subir por um motivo qualquer), e nem por isto os jornais ficam dias a fio dedicando dezenas de páginas àqueles assuntos. Até a eleição do Evo Morales, a Bolívia merecia talvez uns dois minutos da nossa atenção por ano (de um total de 350.400 minutos de vida acordada anual), geralmente gastos matutando-se sobre o fato da coca ser plantada lá, ou sobre se as índias realmente fazem xixi e cocô no meio praça por debaixo daqueles saiões. Não há nenhuma razão para que isto seja mudado agora
maio 08, 2006
Retratos da Intolerância
Ô Matamoros, estão excelentes estes posts sobre suas deambulações parisienses, mas o pessoal do MinC está cobrando o livro-reportagem sobre o lugar do jovem muçulmano na sociedade francesa. O Salgadão tá confirmado, e ele até já arrumou locações artisticamente sórdidas e sujas na banlieue pra fazer as fotos. Não dá para gastar toda a verba entre o Marrais e a Rive Gauche, porra! Tem que ficar na média aí da turma da lei Sarney (ou será Rouanet?), torrar no máximo metade, dois terços. Mas vê se arruma alguma obra pra gente mostrar por patrocinadores na sua volta. Não vai queimar o nosso filme, tá legal?
Abração, merde pour toi!
P.S.: Não esquece de trazer meus vinhos (tá na minha cota da verba, lembra?)
Ô Matamoros, estão excelentes estes posts sobre suas deambulações parisienses, mas o pessoal do MinC está cobrando o livro-reportagem sobre o lugar do jovem muçulmano na sociedade francesa. O Salgadão tá confirmado, e ele até já arrumou locações artisticamente sórdidas e sujas na banlieue pra fazer as fotos. Não dá para gastar toda a verba entre o Marrais e a Rive Gauche, porra! Tem que ficar na média aí da turma da lei Sarney (ou será Rouanet?), torrar no máximo metade, dois terços. Mas vê se arruma alguma obra pra gente mostrar por patrocinadores na sua volta. Não vai queimar o nosso filme, tá legal?
Abração, merde pour toi!
P.S.: Não esquece de trazer meus vinhos (tá na minha cota da verba, lembra?)
Trilha sonora do inferno
O bistro em Montmartre e elegante e charmoso. O magret du canard com molho de tamaras esta perfeito. A musica nao fica atras, alternando jazz e bossa nova. Logo apos a sobremesa, porem, a trilha sonora muda radicalmente. Ouço aquele som inconfundivel de flauta andina. Mas isso nao e o pior. Depois de alguns segundos, percebo que conheco a melodia. Pergunto para a sra. Matamoros, que tem ouvido melhor do que o meu, e ela confirma: e realmente uma versao instrumental de Pra nao dizer que nao falei de flores. Alem da flauta andina, eu consigo distinguir outro instrumento atroz - o orgao de churrascaria. Nem Hermeto Paschoal acreditaria ser possivel obter um som agradavel dessa combinacao. Atordoados, pedimos a conta rapidamente, mas antes do cafe tudo volta ao normal. A musica de Geraldo Vandre e substituida por In a sentimental mood, com Duke Ellington e John Coltrane. O pior, meus amigos, e que e verdade
O bistro em Montmartre e elegante e charmoso. O magret du canard com molho de tamaras esta perfeito. A musica nao fica atras, alternando jazz e bossa nova. Logo apos a sobremesa, porem, a trilha sonora muda radicalmente. Ouço aquele som inconfundivel de flauta andina. Mas isso nao e o pior. Depois de alguns segundos, percebo que conheco a melodia. Pergunto para a sra. Matamoros, que tem ouvido melhor do que o meu, e ela confirma: e realmente uma versao instrumental de Pra nao dizer que nao falei de flores. Alem da flauta andina, eu consigo distinguir outro instrumento atroz - o orgao de churrascaria. Nem Hermeto Paschoal acreditaria ser possivel obter um som agradavel dessa combinacao. Atordoados, pedimos a conta rapidamente, mas antes do cafe tudo volta ao normal. A musica de Geraldo Vandre e substituida por In a sentimental mood, com Duke Ellington e John Coltrane. O pior, meus amigos, e que e verdade
maio 07, 2006
Infame
A mulher do pedofilo fez 40 anos e uma preocupaçao nao lhe sai da cabeça: esta com medo de ser trocada por quatro de 10
A mulher do pedofilo fez 40 anos e uma preocupaçao nao lhe sai da cabeça: esta com medo de ser trocada por quatro de 10
maio 03, 2006
Paris e uma festa
Na banheira do meu quarto preferido no Ritz, ligo para a recepçao e peço as folhas do dia. Em pouco tempo, tenho nas minhas maos o Financial Times, New Yok Times, El Pais, Le Monde e Le Figaro. Quando vejo um jornal frances, alias, eu me sinto proximo do Lula. Como nao entendo quase nada da lingua de Proust, leio apenas os titulos e olho as fotografias e ilustraçoes, o que permite uma compreensao muito parcial das noticias. Imagino que e mais ou menos o que ocorre com o Guia Genial quando ele ve jornais brasileiros. Mas estou divagando.
Ao trazer os periodicos, o camareiro mostra uma solicitude e uma boa vontade que raramente vi em funcionarios de hotel em qualquer parte do mundo, embora eu reconheça que os 50 euros de gorjeta possam ter conquistado sua simpatia. De qualquer modo, ele e mais um parisiense educado e prestativo. Pode ser dificil acreditar, mas em todas as vezes em que estive em Paris fui bem tratado. A imagem do frances grosseiro nunca se concretizou para mim, e olha que meu dominio da lingua se limita a Parlez vous anglais, C'est combien e Merci beaucoup. A mulher no metro e simpatica e nao poupa um sorriso; o garçom nao se incomoda com meus pedidos em ingles; a velhinha me mostra o melhor caminho ate o Museu D'Orsay.
Dizem que Paris e a cidade mais bonita do mundo, mas que o parisiense e o ser mais grosseiro do planeta. A primeira parte da frase e uma verdade que se confirma a cada caminhada pela Champs Elysees ou pelas margens do Sena. A segunda, pelo menos de acordo com minha experiencia, e apenas um mito que nao encontra respaldo na realidade.
E isso, senhores. Tenho de parar por aqui. Pierre, o camareiro, me avisa que o taxi esta la embaixo. O diabo e que ainda nao decidi se vou jantar no Les Ambassadeurs ou no Le Grand Vefour. Como voces podem ver, a vida tambem pode ser dura em Paris
Na banheira do meu quarto preferido no Ritz, ligo para a recepçao e peço as folhas do dia. Em pouco tempo, tenho nas minhas maos o Financial Times, New Yok Times, El Pais, Le Monde e Le Figaro. Quando vejo um jornal frances, alias, eu me sinto proximo do Lula. Como nao entendo quase nada da lingua de Proust, leio apenas os titulos e olho as fotografias e ilustraçoes, o que permite uma compreensao muito parcial das noticias. Imagino que e mais ou menos o que ocorre com o Guia Genial quando ele ve jornais brasileiros. Mas estou divagando.
Ao trazer os periodicos, o camareiro mostra uma solicitude e uma boa vontade que raramente vi em funcionarios de hotel em qualquer parte do mundo, embora eu reconheça que os 50 euros de gorjeta possam ter conquistado sua simpatia. De qualquer modo, ele e mais um parisiense educado e prestativo. Pode ser dificil acreditar, mas em todas as vezes em que estive em Paris fui bem tratado. A imagem do frances grosseiro nunca se concretizou para mim, e olha que meu dominio da lingua se limita a Parlez vous anglais, C'est combien e Merci beaucoup. A mulher no metro e simpatica e nao poupa um sorriso; o garçom nao se incomoda com meus pedidos em ingles; a velhinha me mostra o melhor caminho ate o Museu D'Orsay.
Dizem que Paris e a cidade mais bonita do mundo, mas que o parisiense e o ser mais grosseiro do planeta. A primeira parte da frase e uma verdade que se confirma a cada caminhada pela Champs Elysees ou pelas margens do Sena. A segunda, pelo menos de acordo com minha experiencia, e apenas um mito que nao encontra respaldo na realidade.
E isso, senhores. Tenho de parar por aqui. Pierre, o camareiro, me avisa que o taxi esta la embaixo. O diabo e que ainda nao decidi se vou jantar no Les Ambassadeurs ou no Le Grand Vefour. Como voces podem ver, a vida tambem pode ser dura em Paris
maio 01, 2006
A última que morre II
Ah, a pós-modernidade, este achatamento conceitual contemporâneo, a açambarcação de todas as dicotomias numa grande caçamba da Comlurb, a gelatinização da política, da cultura, das artes (até da economia, eu diria)! Oh, amálgama dos amálgamas!
Greve de fome já é quase regime para emagrecer, e vice-versa.
E é mais fácil duas camelas grávidas e um dromedário bundudo passarem por um fio de agulha dançando o chá-chá-chá do que o Garotinho morrer de greve de fome. Nem emagrecer o filho das éguas e das unhas vai - anotai o que vos digo
Ah, a pós-modernidade, este achatamento conceitual contemporâneo, a açambarcação de todas as dicotomias numa grande caçamba da Comlurb, a gelatinização da política, da cultura, das artes (até da economia, eu diria)! Oh, amálgama dos amálgamas!
Greve de fome já é quase regime para emagrecer, e vice-versa.
E é mais fácil duas camelas grávidas e um dromedário bundudo passarem por um fio de agulha dançando o chá-chá-chá do que o Garotinho morrer de greve de fome. Nem emagrecer o filho das éguas e das unhas vai - anotai o que vos digo
A ultima que morre
Num sofisticado cybercafe em Paris, leio que Anthony Garotinho comecou uma greve de fome em resposta as denuncias que abalam sua pre-candidatura a presidencia. Quem sabe eu nao terei uma boa noticia quando voltar ao Brasil? Que Garotinho tenha a coragem de levar essa sabia decisao ate as ultimas consequencias
Num sofisticado cybercafe em Paris, leio que Anthony Garotinho comecou uma greve de fome em resposta as denuncias que abalam sua pre-candidatura a presidencia. Quem sabe eu nao terei uma boa noticia quando voltar ao Brasil? Que Garotinho tenha a coragem de levar essa sabia decisao ate as ultimas consequencias
Trevas e luzes II
Como voce mencionou os auto-retratos de Rembrandt, aqui vai uma interpretacao diferente sobre eles - nao minha, claro, mas do professor Ernst van de Wetering, lider do Rembrandt Research Project. Segundo ele, Rembrandt nao os fazia com o objetivo de investigar os desvaos da alma humana, mas por um motivo mais simples: havia uma grande demanda por eles. Ao comprar um auto-retrato de Rembrandt, o apreciador de pintura matava dois coelhos com uma so cajadada - adquiria uma obra de arte que, ao mesmo tempo, estampava a figura do mestre. A tese tem menos charme, mas parece factivel
Como voce mencionou os auto-retratos de Rembrandt, aqui vai uma interpretacao diferente sobre eles - nao minha, claro, mas do professor Ernst van de Wetering, lider do Rembrandt Research Project. Segundo ele, Rembrandt nao os fazia com o objetivo de investigar os desvaos da alma humana, mas por um motivo mais simples: havia uma grande demanda por eles. Ao comprar um auto-retrato de Rembrandt, o apreciador de pintura matava dois coelhos com uma so cajadada - adquiria uma obra de arte que, ao mesmo tempo, estampava a figura do mestre. A tese tem menos charme, mas parece factivel



Em tempos de Copa do Mundo, só uma coisa que me irrita tanto quanto o ufanismo do Galvão Bueno: o brasileiro que torce fanaticamente contra o Brasil. O pior tipo não se contenta em secar a seleção; ele também faz questão de vibrar pela Argentina (antes que digam que eu invento, saibam que tenho mais de um amigo adepto dessa heresia).
É claro que ninguém é obrigado a torcer pela seleção. Acho normal o sujeito que não gosta de futebol não torcer para ninguém na Copa. O que me deixa chocado é o fanático pelo esporte que decide secar o Brasil. Futebol é paixão, como diria o conselheiro Acácio, e torcer é muito mais prazeroso quando há uma identificação entre o torcedor e a seleção ou o time, o que quase sempre ocorre na infância (é psicologia de botequim, eu sei, mas não deixa de ser verdade).
Quem torce contra o Brasil costuma dizer que não pode apoiar um time comandado por um retranqueiro como o Parreira (ou o Felipão, ou o Leão ou qualquer técnico que não escale o Brasil com cinco atacantes). Acho curioso. Se o time desse mesmo torcedor fica o jogo inteiro na retranca e faz um gol de mão impedido no último minuto, ele comemora alucinadamente. Mas basta a seleção não ganhar todos os jogos das eliminatórias de sete a zero para que ele decida: não dá para torcer por esse timinho.
É verdade que meu pai deu uma mãozinha importante para que eu torcesse pela seleção com o mesmo empenho com que torço pelo São Paulo. Às vésperas da Copa de 78, quando eu tinha sete anos, ele me disse uma frase inesquecível: “O Brasil é o São Paulo das Seleções, e a Argentina é o Corinthians”. Sábias palavras.
Há um outro motivo bastante simples para torcer pela seleção: futebol é uma das poucas coisas em que o brasileiro é melhor do que os outros. Comparar Pelé com Maradona, por exemplo, é um exercício que só faz sentido na Argentina. Qualquer um que entenda minimamente de futebol sabe que como jogador Pelé foi muito melhor, como também óbvio que Ronaldinho Gaúcho é dez mil vezes melhor do que Riquelme e Messi juntos. Até Maradona é fã de Ronaldinho.
O hexa é inevitável, meus amigos, apesar do Parreira e a despeito do Zagallo. A moda do momento é dizer que o excesso de favoritismo vai prejudicar o Brasil. O temor é vão. Além de a seleção contar com Ronaldinho Gaúcho, uma tradição que vigora desde a Copa de 70 garante que o caneco será brasileiro. Como percebeu um amigo meu, de 70 para cá, sempre que há alguém muito feio na zaga, a seleção é campeã. Em 70, Brito preenchia sozinho a cota dos medonhos. Em 1994, então, os titulares eram Aldair
e Márcio Santos, uma dupla capaz de assustar criancinhas. Em 2002, Lúcio, Edmílson e Roque Jr. formavam a zaga, e mais pareciam foragidos das noites de terror do Playcenter. Neste ano, Lúcio está lá mais uma vez, e ele é suficiente para garantir a Copa. Por isso, se você é um brasileiro-que-torce-pela-Argentina, prepare-se: vai ficar mais quatro anos na fila