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Em tempos de Copa do Mundo, só uma coisa que me irrita tanto quanto o ufanismo do Galvão Bueno: o brasileiro que torce fanaticamente contra o Brasil. O pior tipo não se contenta em secar a seleção; ele também faz questão de vibrar pela Argentina (antes que digam que eu invento, saibam que tenho mais de um amigo adepto dessa heresia).
É claro que ninguém é obrigado a torcer pela seleção. Acho normal o sujeito que não gosta de futebol não torcer para ninguém na Copa. O que me deixa chocado é o fanático pelo esporte que decide secar o Brasil. Futebol é paixão, como diria o conselheiro Acácio, e torcer é muito mais prazeroso quando há uma identificação entre o torcedor e a seleção ou o time, o que quase sempre ocorre na infância (é psicologia de botequim, eu sei, mas não deixa de ser verdade).
Quem torce contra o Brasil costuma dizer que não pode apoiar um time comandado por um retranqueiro como o Parreira (ou o Felipão, ou o Leão ou qualquer técnico que não escale o Brasil com cinco atacantes). Acho curioso. Se o time desse mesmo torcedor fica o jogo inteiro na retranca e faz um gol de mão impedido no último minuto, ele comemora alucinadamente. Mas basta a seleção não ganhar todos os jogos das eliminatórias de sete a zero para que ele decida: não dá para torcer por esse timinho.
É verdade que meu pai deu uma mãozinha importante para que eu torcesse pela seleção com o mesmo empenho com que torço pelo São Paulo. Às vésperas da Copa de 78, quando eu tinha sete anos, ele me disse uma frase inesquecível: “O Brasil é o São Paulo das Seleções, e a Argentina é o Corinthians”. Sábias palavras.
Há um outro motivo bastante simples para torcer pela seleção: futebol é uma das poucas coisas em que o brasileiro é melhor do que os outros. Comparar Pelé com Maradona, por exemplo, é um exercício que só faz sentido na Argentina. Qualquer um que entenda minimamente de futebol sabe que como jogador Pelé foi muito melhor, como também óbvio que Ronaldinho Gaúcho é dez mil vezes melhor do que Riquelme e Messi juntos. Até Maradona é fã de Ronaldinho.
O hexa é inevitável, meus amigos, apesar do Parreira e a despeito do Zagallo. A moda do momento é dizer que o excesso de favoritismo vai prejudicar o Brasil. O temor é vão. Além de a seleção contar com Ronaldinho Gaúcho, uma tradição que vigora desde a Copa de 70 garante que o caneco será brasileiro. Como percebeu um amigo meu, de 70 para cá, sempre que há alguém muito feio na zaga, a seleção é campeã. Em 70, Brito preenchia sozinho a cota dos medonhos. Em 1994, então, os titulares eram Aldair
e Márcio Santos, uma dupla capaz de assustar criancinhas. Em 2002, Lúcio, Edmílson e Roque Jr. formavam a zaga, e mais pareciam foragidos das noites de terror do Playcenter. Neste ano, Lúcio está lá mais uma vez, e ele é suficiente para garantir a Copa. Por isso, se você é um brasileiro-que-torce-pela-Argentina, prepare-se: vai ficar mais quatro anos na fila


