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Caro Arranhaponte,
A estada em Paris foi bastante proveitosa para o livro sobre o lugar do jovem muçulmano na sociedade francesa, projeto do Torre de Marfim que voce revelou tres posts abaixo. Tudo ficou mais facil depois que, numa de minhas excursoes pela banlieue, conheci os irmaos marroquinos Ahmed e Ahmoud.
O primeiro esta perfeitamente integrado a França. Trabalha de manha no Museu D'Orsay e a tarde no mercadinho dos pais. Bem humorado e afavel, usa uma frase que mostra seu desejo de se integrar pacificamente a sociedade francesa: Eu sou muçulmano, mas sou limpinho.
Ahmoud, por sua vez, e mal encarado. Nao trabalha. Xinga o Sarkozy o tempo todo, diz que o Bush e o demonio na terra e nao para de elogiar o Bin laden. Mesmo assim, nao escondeu o sorriso quando lhe dei um par de tenis da Nike. Alias, tanto ele quanto Ahmed cobram pelas entrevistas, mas eu decidi paga-los com roupas, tenis e sanduiches do McDonald's. Se voce der dinheiro para esse pessoal, eles acabam gastando tudo em explosivos.
Eu vou centrar o livro na historia dos dois irmaos. Pensei no titulo Caim e Abel muçulmanos na cidade luz, mas pode ser que eles nao gostem. Quem esta bravo e o Sebastiao Salgado. Ahmed e Ahmoud moram na periferia, mas sao saudaveis e tem todos os dentes na boca. "Gente que come todo dia nao fotografa bem", reclamou mais de uma vez o fotografo. Ele tem tentado convencer o Ahmoud a queimar uns carros para conseguir fotos mais intensas, mas o irmao de Ahmed nao se mostra muito empolgado com a ideia.
Acho que a verba do Ministerio da Cultura sera suficiente para financiar os meus gastos na Europa e tambem para as duas duzias de Romanee Conti que voce pediu. De qualquer modo, encontrei o Walter Salles num restaurante do Quartier Latin e ele me deu o telefone de um produtor cultural que da umas dicas de como conseguir verbas publicas suplementares caso o orçamento estoure. E isso
Um abraço do seu amigo parisiense,
Matamoros


