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Bem, o meu problema não é tanto o que não ler, mas sim dar um jeito de viver de renda e ter tempo para ler. Ou arrumar um ganha-pão que não seja o 'dreary work' ao qual me dedico atualmente, e que envolva leitura. Mas também vejo valor em ler o que não é para ler. Por exemplo, nunca li Paul Auster, e agora, depois do teu post, me deu vontade de ler, para detestar, e escrever um post irado demolindo a 'anta do Brooklin' (ele é do Brooklin mesmo?). Mas acho que não vou ler Paul Auster. O meu temor é que eu goste um pouquinho, que não seja tão ruim assim - não tem nada a ver perder tempo com algo que seja apenas um pouco ruim, ou, digamos, que não seja emblematicamente horrível. Detestar um autor, especialmente se for uma vaca sacrada qualquer, é bom, dá contorno à nossa personalidade literária, valoriza por contraste o ato de gostar (de outros). Veja o caso do Rubem Fonseca. Li uns dois livros deles, vagamente não achei grande coisa, e ficou por isto mesmo. Recentemente, quando uma autoridade literária como Lord Ass decidiu dedicar-se a demolir o mito do 'gênio carioca recluso' (ver "Mãos de Cavalo", 03/05, lá embaixo), senti uma imediata glamourização do meu não-gostar do Fonseca. O negócio cresceu, subiu à minha cabeça, tive até vontade de reler os livros sublinhando as minhas não-gostadas mais espertas. Cheguei a compor frases para exprimir o meu desprazer. Por exemplo, "a escrita do Rubem Fonseca é meio como uma máquina mal lubrificada, que range e estala, e com peças que não encaixam direito e sacodem de forma desagradável quando o maquinista insiste, levado por um machismo algo primitivo, em fazer a geringonça rodar energicamente, a despeito de tudo que ela tem de errado". Talvez até, num último raciocínio sob o tema, em se tendo muito pouco tempo para ler, ler o que não presta ajude mais a formatar uma persona literária do que enfrentar Ulysses, Os Sertões e Guerra e Paz para apenas concluir no final que "eu também gostei destas obras-primas"


