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agosto 31, 2006

O que há em um nome? II

Sinto, Matamoros, mas discrepo.
Moringa, Tiriça, Geleião.
Quanta verossimilhança, quanto humor matreiro, quanta poesia moleque nestes nomes.
Os bandidos são bem superiores aos escritores em inventar apelidos para bandidos

PS: Eis aí uma polêmica que deve incendiar os círculos intelectuais da Nação. Temos nomes à altura dos nossos facínoras? Al Capone teria chegado onde chegou se fosse conhecido como 'Big Jelly'?



O que há em um nome?

São Paulo é refém do PCC. Os criminosos fazem o que querem, quando querem e onde querem, e o poder público não mostra o menor poder de reação. Isso já é bastante humilhante, mas há um ponto ainda pior e que pouca gente nota: o PCC é liderado por sujeitos com alcunhas ridículas. Marcola é ruim, mas não é um apelido dos piores perto de jóias como Julinho Carambola, Macarrão, Betinho Tiriça, Geleião, Paulinho Neblina, Moringa e Baianinho do Vietnã. São nomes razoáveis para batedor de carteira de periferia ou para traficante pé-de-chinelo, mas para líderes de uma facção criminosa que aterroriza a maior cidade do país? O Brasil avacalha até nome de líder do crime organizado



agosto 24, 2006

Duas ou três coisas que eu sei sobre a eleição

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Ele vai ficar mais quatro anos no poder, podem se preparar

Muita gente ainda se espanta com a liderança folgada de Lula nas pesquisas. Eu me espanto com esse espanto. Eu não gosto do Guia Genial e considero seu governo ruim para o Brasil em muitos pontos, mas não vejo dificuldades em entender sua popularidade. A economia explica tudo, ou quase tudo. A situação melhorou bastante de 2004 para cá, principalmente para os mais pobres. Isso não é novidade, mas muita gente inconformada com a quase certa reeleição de Lula não tem uma idéia exata da amplitude do que está em curso. Muita coisa não é sustentável e é francamente eleitoreira, mas a questão é simples: com a economia indo razoavelmente bem – e melhor do que no segundo governo Fernando Henrique –, quem está no poder tem toda a chance de se reeleger.

Alguns números importantes:
- No fim de 2002, o salário mínimo era de R$ 200, valor que, em São Paulo, comprava 1,3 cesta básica. Hoje, o salário mínimo está em R$ 350, o suficiente para comprar 2,05 cestas. Aumentar fortemente o salário mínimo não é a melhor maneira de reduzir a desigualdade, como sempre diz o economista Ricardo Paes de Barros, do Ipea, mas a medida tem um impacto eleitoral líquido e certo, uma vez que dois terços dos 24 milhões de aposentados recebem o piso salarial. O ideal seria aumentar os gastos com crianças extremamente pobres, mas criança extremamente pobre não vota. É eleitoreiro? Acho que é, mas a vida do sujeito que ganha um salário mínimo está melhor do que em 2002
- No primeiro semestre deste ano, o rendimento médio cresceu 4,4% acima da inflação em relação ao mesmo período do ano passado. Se for analisado apenas o segundo trimestre, o ganho é ainda maior, de 6,4%
- De 271 negociações salariais acompanhadas pelo Dieese no primeiro semestre deste ano, 95,6% terminaram com reajustes iguais ou superiores à inflação
- A inflação está bastante baixa para padrões brasileiros, principalmente para os mais pobres. O INPC, que mede o custo de vida em nove capitais para quem ganha até oito salários mínimos, acumula alta de apenas 2,87% nos 12 meses terminados em julho
- De janeiro a julho, foram criados 1,078 milhão de empregos com carteira de trabalho assinada. É verdade que parte desses números não se refere à criação de empregos novos, mas à formalização de postos de trabalho que já existiam. A questão é que mesmo nesses casos há uma melhora em relação à situação anterior. O emprego formal é de melhor qualidade e paga mais
- O Bolsa Família já atende 11,120 milhões de famílias, que recebem em média R$ 61,43 por mês. O programa tem problemas estruturais, porque não é desenhado para tirar os beneficiados da miséria, mas o impacto desse dinheiro é grande na vida de quem é extremamente pobre
· O crescimento do país é medíocre, mas está melhor do que no segundo mandato de Fernando Henrique, quando o PIB cresceu a uma média de 2,1%. Se a expansão da economia atingir 3,5% neste ano, a média do governo Lula terá sido de 2,8%, puxada para baixo pelo 0,5% de 2003. Se excluído o resultado de 2003, a média aumenta para 3,5%. É pouco em relação a outros países emergentes, como gosta de lembrar Geraldo Alckmin, mas é bem melhor que a média recente brasileira. Dizer que o Brasil não cresce como a China e que só foi melhor do que o Haiti em termos de crescimento em 2005 faz pouco sentido para o sujeito que ganha um salário mínimo e viu seu poder de compra melhorar bastante. Como ele não mora na China, acha que crescimento de 3,5% com aumento de salário e inflação baixa, principalmente de alimentos, está mais do que bom
· O dólar está barato, o que ajuda a controlar a inflação e permite que muita gente viaje ao exterior

Com esses números, não quero dizer que tudo está maravilhoso. Os juros continuam muito altos, os gastos públicos não param de crescer, o câmbio se valorizou demais e o investimento em infra-estrutura é muito baixo. Além disso, a política externa do governo é atrasada e não há a ênfase na educação e em ciência e tecnologia que seriam necessárias para melhorar a produtividade da economia. O que esperar de um presidente que se orgulha de não ter estudado?
Não voto no Guia Genial nem amarrado, mas insisto: há uma série de indicadores que mostram uma situação econômica melhor do país – e eu nem citei o ajuste das contas externas. Boa parte dessa evolução ocorreu porque foram mantidas ou ampliadas políticas começadas no governo anterior. Além disso, o cenário externo muito favorável de 2003 para cá também é fundamental para explicar o desempenho razoável da economia. Mas isso não muda o essencial do que estou dizendo: a situação da economia melhorou e a população vê parte dessa melhora como reflexo das ações do governo. Por que você acha que 52% dos entrevistados pelo Datafolha consideram o governo Lula ótimo ou bom?
O que causa perplexidade, obviamente, é o fato de a crise política e todos os escândalos do último ano não terem abalado a popularidade de Lula. Dois de seus ministros mais próximos foram afastados, a empresa de seu filho recebeu uma injeção de capital milionária da Telemar e o procurador-geral da República descreveu o PT como uma quadrilha. É chocante saber que a maior parte das pessoas não deixa de votar num candidato cuja linha de defesa para todos os escândalos é dizer que não sabia de nada. Mas, como há um clima de lassidão moral no país, a estratégia de Lula de tirar o seu da reta foi bem sucedida. Além disso, há uma impressão generalizada de que também houve corrupção no governo Fernando Henrique. Acho que não foi nada que se compare com o mensalão, mas não importa o que eu acho; é nisso que as pessoas acreditam. Além disso, o PSDB e o PFL contribuíram para o clima de que o PT fez o que todo mundo faz ao não expulsarem Eduardo Azeredo e Roberto Brant quando seus nomes apareceram nas investigações da CPI. Ah, e a estratégia do PFL de usar homens probos como ACM para chamar Lula de ladrão é ridícula. É o mesmo que o Fernandinho Beira Mar chamar o Marcola de bandido.
Enfim, espero não tê-los aborrecido. Escrevi o post para dizer que não considero nada complicado entender por que Lula lidera as pesquisas. No post Desisti de entender, o Arranhaponte escreve que, “para entender o povão é preciso ser, ainda que temporariamente, povão”. A frase de efeito, assim como o post todo, revela, na verdade, o fraco do Arranhaponte pelo paradoxo fácil. Como disse alguém que o conhece profundamente, é um vício intelectual ao qual ele deveria ficar atento

PS: Usei neste post alguns números e argumentos que utilizei numa discussão no FYI, em maio, sobre os motivos que explicam a liderança de Lula



Pérolas da Grande Lusitânia

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Informam-me os jornais que o soldado da Polícia Militar Carlos Jorge Carvalho foi condenado a 543 anos de prisão por participação em uma chacina na Baixada Fluminense. Leio avidamente as matérias sobre o caso em dois dos grandes jornais do país, e não encontro nenhuma menção a dúvidas que só devem ter ocorrido a mim entre 183 milhões de brasileiros: mas quanto tempo o cara deve ficar preso? É prisão perpétua? (não, é claro, porque ela não existe no Brasil) Há um limite de aprisionamento depois do qual o sujeito é solto? Que limite é este? O tamanho da pena influi neste limite? E por aí vai.
Oh, coisa tão nossa! Eu imagino um estrangeiro lendo a matéria, e, entre divertido e perplexo, perguntando-se se não acordou num mau romance de realismo fantástico. Ou quem sabe até bom, e a prisão multicentenária é alguma peça num jogo intricado de aparências e paradoxos, um toque de Carroll ou de Borges. Pena de 543 anos - mas que coisa pragmática!
O que espanta mais, contudo, não é o formalismo rocambolesco e paroxístico do nosso sistema judiciário, que condena pessoas a penas que ultrapassam em diversas vezes o período máximo de vida que um humano pode atingir.
O que é estarrecedor - e diz muito sobre porque tateamos no escuro em meio a soluções, e só encontramos problemas insolúveis - é que os jornais que noticiam aquele fato não se preocupem em informar ao leitor o que, no nível rasteiro e comezinho da realidade, vai acontecer com o tempo de prisão do condenado



agosto 23, 2006

Desisti de entender

Um dos paradoxos da existência é que o cachorro entende melhor o dono do que o dono entende o cachorro. Estou cada vez mais convencido disto (como costuma dizer o Guia Genial). É possível que um brasileiro mediano tenha insights razoáveis sobre a forma de agir e pensar de um brasileiro intelectualmente sofisticado. Mas é absolutamente impossível que um brasileiro do segunto tipo entenda a forma de agir e pensar de um brasileiro mediano. É por isto que é inútil discutir sobre as tendências eleitorais, sobre porque o Lula está disparado na frente, a Heloísa Helena capturou 10% do eleitorado e o Alckmin patina nos 25%. É tão improvável que eu e a maioria das pessoas com quem eventualmente discuto este tipo de assunto saibamos do que estamos falando quanto o Lula saiba qual é o seu projeto para o Brasil. Alguém pode alegar que há pessoas intelectualmente equipadas entre marqueteiros ou autores de novela, que entendem a alma do povo. É possível. Se encontrar um destes, vou perguntar o que ele ou ela acha das tendências eleitorais. Mas a minha explicação para este fenômeno (uma mente sofisticada entender a mente mediana) é que publicitários ou autores de novela intelectualmente evoluídos (supondo que de fato existam) são, na verdade, seres esquizofrênicos: convivem neles, simultaneamente, o sujeito culto e o brasileiro médio. Para entender o povão é preciso ser, ainda que temporariamente, povão

PS: Post traiçoeiro este. O Matamoros está justamente preparando um post sobre o porquê do sucesso do Lula. He he he



agosto 21, 2006

Plutão é planeta? II

Isto é um absurdo! A Folha, como sempre, defendendo a irresponsabilidade fiscal. Os novos planetas vão montar suas Câmaras de Vereadores, entupir cada gabinete parlamentar de ETs aspones, exigir repasses dos planetas ricos, e, como Rondônia, vai tudo acabar na mais grossa corrupção.
Acho que Plutão tem que voltar a condição de mero planetório, e estas outras titicas nem deveriam ser consideradas unidades independentes. É preciso aproveitar o cenário galáctico benigno para enxugar a máquina do Sistema Solar. O populismo é o caminho certo para um desastre de proporções astronômicas



Plutão é planeta?

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Plutão, planeta de contrastes

Plutão deve ou não deve manter o status de planeta? Se você não é astrônomo, provavelmente não tem opinião sobre o assunto. A Folha, porém, já decidiu: Plutão deve, sim, continuar a ser considerado um planeta. Em editorial publicado no domingo, o jornal diz que “a sabedoria recomenda que se reconheçam os ‘direitos adquiridos’ de Plutão”. Eu fiquei contente em saber a opinião do jornal que assino sobre um tema tão relevante.
O editorial foi motivado pela reunião da União Astronômica Internacional (UAI), que ocorre em Praga. Uma das coisas que se discutem por lá é a definição de planeta. Se aprovada a proposta de um dos comitês da instituição, serão considerados planetas, como informa o próprio texto da Folha, “todos os corpos celestes que descrevam órbita ao redor de uma estrela, mas que não sejam uma estrela, e que tenham massa suficiente para que a sua própria gravidade os torne esféricos”. Com isso, estariam assegurados o que o editorial da Folha chama de “direitos planetários” de Plutão – estou falando sério. Alguns astrônomos acham que Plutão não deveria ter o status de planeta, por ser “pequeno e exótico demais”, sempre segundo a Folha.
Eu gostei da ênfase do editorialista em defender Plutão, usando argumentos de peso a favor do planeta: “Descoberto em 1930, Plutão já se consolidou culturalmente como o ‘mais distante dos planetas’. É nessa condição que ele figura em todos os modelos do Sistema Solar. É como planeta que ele aparece em referências científicas e literárias. É de planeta que as crianças aprendem desde cedo a chamá-lo na escola.”
Acho que o último argumento é o que tem mais chance de sensibilizar os cientistas. Imagine o que acontecerá com as esperanças de milhões – bilhões? – de crianças se Plutão perder o status de planeta? Antes de fazer uma besteira, os astrônomos deveriam pensar nessa questão.
Como jornal combativo que é, a Folha não se furta a analisar a questão em profundidade. Se a proposta vingar, outros objetos “ganhariam estatuto de planeta”, como Ceres, Caronte e Xena. “Além disso, ficam na fila para tornar-se planetas mais uma dúzia de grandes asteróides, a maioria no cinturão de Kuiper, nos confins do Sistema Solar”, diz o texto.A Folha garante que não há motivos para se opor a essa “proliferação” de planetas: “Se é em princípio infinito o número de estrelas e de planetas no Universo, não há razão para temer contabilizar mais algumas dezenas destes astros em nosso sistema”.
O texto da Folha me emocionou. Eu me tornei um homem pró-Plutão. Aliás, vou ver se encontro alguma ONG que defenda os interesses de um planeta tão discriminado



agosto 17, 2006

Conselho aos meus concidadãos

Uma das minhas técnicas para votar de forma consciente é jamais ver/ouvir a propaganda eleitoral, incluindo os debates. Nada é mais desorientador do que um discurso montado para a comunicação com um público 40 a 50 pontos de QI abaixo do seu. Não há cabeça organizada que consiga manter a capacidade de refletir coerentemente sobre os fatos do mundo diante do bombardeio dos dudas e nizanes. Isole-se, cidadão, e sufrague com discernimento.
Um exemplo: tanto o Lula como o Alckmin sabem que terão que fazer uma reforma da Previdência no próximo mandato, para reduzir o rombo de gigantescamente grande para apenas muitíssimo grande. Todas as informações e o body language dos assessores de ambos que sabem somar dois e dois indicam que Lula e Alckmin fariam a tal reforma no início do mandato. É uma boa medida, do tipo que me faria votar num candidato a presidente do Brasil: é exatamente aquilo de que precisamos para continuarmos um país medíocre, evitando virar um país desastroso.
Pois bem, os marqueteiros já avisaram que reforma da Previdência é anátema para o eleitorado (é claro que eles não empregaram esta palavra). Então tanto o Alckmin quanto o Lula empenham-se em convencer o populacho de que não farão a reforma da Previdência. Se eu vir os programas, e todas as juras contra a reforma, vou começar a duvidar do que me diz o meu instinto e experiência, ou seja, de que farão a reforma. A propaganda eleitoral, portanto, só confunde e atrapalha o eleitor consciente



agosto 16, 2006

O eixo da burrice II

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O Tariq Ali é o cara que acha que se os dez aviões tivessem explodido sobre o Atlântico na semana passada, a culpa seria do Tony Blair, que apoiou a invasão do Iraque, e não, como sempre, dos caras que explodiram os aviões. Como escritor paquistanês radicado em Londres, ele tem toda a bagagem cultural e existencial para pontificar sobre a América Latina no seu próximo livro. O cara manja horrores do assunto. Ele foi recebido triunfalmente em Paraty pela intelectualidade brasileira, assim como o Christopher Hitchens, que pensa tudo ao contrário do Tariq. Qualquer coisa que escreva e seja estrangeira é recebida triunfalmente em Paraty pela intelectualidade brasileira, independentemente dos méritos mentais e artísticos. Neste sentido, deve ser o único festival literário verdadeiramente democrático. Eu imagino um trote pelo qual um teórico racialista do sul dos Estados Unidos é levado a Paraty, e recebido triunfalmente pela nossa intelectualidade. A cidade é bonitinha, estive lá e me mandei um dia antes da Flip começar, graças a Deus



agosto 14, 2006

O eixo da burrice

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Tariq Ali não é brasileiro, mas também não desiste nunca. Está sempre disposto a apoiar a causa errada. Uma de suas paixões é a América Latina. Ele é fã de Hugo Chávez.
Vejam acima como ficou bonita a capa do seu novo livro, que será lançado em outubro. Eu juro que não é montagem. Está no site dele. Notem o bom gosto da auréola de titio Fidel. Não ficou fofo? O livro parece imperdível, pelo que sugere um pequeno texto no site do paquistanês vermelho: "A revolution is moving across Latin America. Since 1998, the Bolivarian revolution in Venezuela has brought Hugo Chávez to world attention as the foremost challenger of the neoliberal consensus and American foreign policy. Tariq Ali shows how Chávez's views have polarized Latin America and examines the aggression directed against his administration. Pirates of the Caribbean guides us through a world divided between privilege and poverty, a continent that is once again on the march."
Diante de tamanha manifestação de inteligência, fiquei na dúvida: Tariq Ali é o Emir Sader paquistanês ou Emir Sader é o Tariq Ali brasileiro?



agosto 11, 2006

Astrologia, eu quero uma para viver

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E de repente ficou chique falar de astrologia. Ninguém mais tem vergonha de dizer que acredita no assunto, pelo contrário. No boteco, na televisão, na entrevista no jornal, virou moda se definir em função do signo. No meio de qualquer conversa, é cada vez mais freqüente alguém soltar uma frase do tipo: “Eu sou teimoso mesmo. Coisa de aquariano, você sabe.” Não, eu não sei. Não tenho a mínima idéia do que significa ser aquariano, taurino ou pisciano. Sempre achei que acreditar em astrologia é o mesmo que acreditar no Papai Noel ou no coelhinho da Páscoa, mas tenho a impressão de que meu ceticismo é compartilhado cada vez por menos gente. Até as pessoas mais insuspeitas parecem crer em horóscopo (pode dizer horóscopo, aliás? Acho que não. Se eu não me engano, quem gosta do assunto fica bravo se você usa horóscopo como sinônimo de astrologia). Nesta entrevista à Folha, o Angeli diz que, como é um “virginiano meticuloso”, fica completamente obcecado pelos detalhes. Que coisa, Angeli. Eu conheço diretor de empresa que só contrata alguém depois de fazer o mapa astral do candidato a funcionário. Juro que não estou brincando.
Quando eu era mais novo, gostava de provocar quem acredita em astrologia. O pré-requisito era a pessoa não saber o meu signo. Quando se falava no assunto, eu mentia e dizia que era de aquário, por exemplo. Era muito divertido. O rosto do interlocutor – em geral da interlocutora – se iluminava. “De aquário? Mas eu sabia. Não podia ser de outro signo.” E listava todas as características de um aquariano que, para ela, eram a minha mais perfeita tradução. Algumas ficavam tão empolgadas que eu ficava sem jeito de contar a verdade. Teve gente que deixou de falar comigo quando revelei o meu signo, mas a brincadeira valeu a pena.
Nas poucas vezes em que tentei discutir o assunto seriamente, usei o exemplo do meu pai e de um amigo, porque os dois nasceram no mesmo dia. Não há, eu posso lhes garantir, duas pessoas mais diferentes. Eu dizia isso e logo recebia aquele olhar de superioridade de quem sabe muito mais do que você: “Mas e os ascendentes deles? É claro que são diferentes.” O argumento do ascendente é considerado irrefutável por quem acredita em astrologia.
Ah, antes que alguém pergunte: eu sou de leão. “Leão? Mas eu sabia. Não podia ser outra coisa”.



Bem vindo, caro amigo

Tem gente nova no A postos: o Mauro, do Diacrônico, está entre nós. Se você não conhece o blog dele, corra lá. Eu tenho certeza de que você vai gostar



agosto 09, 2006

Liberdade, ainda que à tardinha

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Esse negócio de ficar preso não está com nada

O Brasil é realmente um país único. No meio de uma crise de segurança porcaria como a atual, 11 mil presos devem ser liberados em São Paulo para gozar do benefício da saída temporária do Dia dos Pais. Não é bonito o elemento poder visitar o filhinho ou ver o papai num dia tão querido?
No Dia dos Pais do ano passado, 11.087 presos saíram, e 808 não voltaram – 7,29% do total. Estao certos. Para que ficar em cana, não é mesmo? No Dia das Mães deste ano, 12.645 elementos foram soltos, e 965 - 7,63% - não regressaram. A saída temporária para visitar as mães coincidiu com a primeira onda de atentados do PCC. Eu já sei o que você está pensando, leitor maldoso, mas foi apenas coincidência.
A estratégia é inteligente. A cada data como o Dia das Mães, o sistema penitenciário se livra de algo como 7,5% dos presos que obtêm o benefício de saída temporária. É um modo eficaz de reduzir a superlotação dos presídios, ao mesmo tempo respeitando o direito dos condenados de decidir seu próprio destino. O percentual é baixo, na verdade, mas eu tenho certeza de que tem gente no país trabalhando duro para aumentar esse número. Espero ver o dia em que pelos menos 80% dos presos não voltem para a prisão, depois de gozar da companhia de seus entes queridos



agosto 04, 2006

A intelligentsia brasileira II

Um estranho fenômeno ocorre comigo. Durante meses, saboreei a perspectiva de, na campanha eleitoral, desancar a Heloísa Helena, que reúne praticamente tudo o que de mais estúpido existe no – na falta de outra palavra – pensamento brasileiro. E eis que chega a campanha, a gralha alagoana empina vôo e eu... nada. Nada me ocorre para falar da Heloísa Helena. A senadora do jeans fedido e da camiseta com CC simplesmente me remete ao vazio, ao não-sentido, à depressão no sentido químico. É o nada e a náusea, a repetição infinita de roteiros apodrecidos e esfarrapados que teimosa e enjoativamente se recusam a sair de cena. É o feitiço do tempo, um passeata de 1968 com uma virago histérica gritando slogans anti-capitalistas particularmente toscos, como se nada tivesse acontecido de lá até hoje. É a velha defesa do funcionalismo corporativo, e o que se foda para todo o resto, incluindo os pobres (mas as bestas acham que ela gosta de pobre, só porque é brega). Que o Guilherme Arantes apóie a Heloísa Helena é, de fato, justiça poética. Política e estética de mãos dadas. 20% dos universitários querem votar nela. Eu me contento em vomitar

PS: Bem, acabei falando um pouco



A intelligentsia brasileira

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Guilherme Arantes, um intelectual a serviço do povo

O intelectual brasileiro, um oxímoro ambulante, é uma figura surpreendente. A maior parte da intelligentsia do Grande Paraguai apoiou por duas décadas um sujeito que se orgulha de não ter estudado, não vendo nada de errado em idolatrar um semi-analfabeto. Muitos ainda continuam fãs do Guia Genial, como Marilena Chauí. Nesta eleição, alguns decidiram inovar, e assinaram um manifesto de apoio a Heloísa Helena. Bonito. Trocaram o ignorante pela debilóide.
A lista tem gente como Aziz Ab’saber, Francisco de Oliveira, Carlos Lessa, Hélio Bicudo, Paulo Arantes, Carlos Nelson Coutinho, Roberto Romano e Maria Sylvia de Carvalho Franco (a única que de fato me decepcionou; ela deu esta entrevista interessante para a Veja, em que fez críticas pertinentes a Lula e a Alckmin. Mas, como costuma ocorrer com intelectuais brasileiros, os arroubos de inteligência duraram pouco).
O mais interessante é que, no meio da lista, meio escondido, aparece o nome de um dos grandes nomes da MPB: Guilherme Arantes. Isso mesmo. Por algum motivo obscuro, o homem que disputa com Oswaldo Montenegro o título de cantor mais chato de todos os tempos apóia Heloísa Helena.
Isso é bom para os adversários da senadora. Pouca gente sabe que o autor de Terra, planeta água apóia a gralha alagoana. Se essa informação for mais divulgada, garanto que a intenção de voto da musa da esquerda despenca rapidinho. O apoio político de um intelectual como Guilherme Arantes pode ser devastador




A imagem já era

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Comentário/pergunta da minha filha de quase oito anos:
- Papai, estou com medo, com todos estes libaneses voltando pro Brasil, será que Israel vai atacar o Brasil?
Levou um tempinho para convencê-la de que não há a menor chance de Israel atacar o Brasil.
Bem, vocês me conhecem. Não sou do tipo que faz doutrinação anti-Israel em casa. Não chegarei a dizer "muito pelo contrário", mas se bobear é mais nesta última direção.
O comentário dela é a pura impressão de uma criança pegando as coisas mais ou menos de notícias na TV e nos jornais (que ela naturalmente consome muito pouco, aos sete anos).
Poderia dizer, emocionado, que é a minha filha acordando para o mundo, mas evitemos a má poesia dos clichês.
Israel, vilã das criancinhas. Quem diria?!



agosto 03, 2006

Parem de mexer nas regras, porra!

Meu tema recorrente, obsessivo, quando se trata das “coisas nacionais”, é o fato de sermos a Grande Lusitânia, isto é, tudo aquilo que sempre atribuímos aos portugueses das nossas piadinhas. A nossa burrice tem o estilo da falta de objetividade, do gongorismo mental, da grandiloqüência enrolada, confusa, com a densidade dum traque – em resumo, uma incansável capacidade de discutir o problema errado, o grotescamente irrelevante.
Agora é o fim da reeleição, a qual acusamos de responsável pela crise política, mensalão, sem-vergonhice, etc. É, como de costume, estupidez. O mensalão foi criado pelo Zé Dirceu para passar as reformas pró-mercado necessárias ao bom desempenho econômico do governo Lula (o que se provou correto), mas que ideologicamente eram uma traição a 20 anos de pregação populista do PT. O mensalão não teve picas a ver com reeleição.

O segundo mandato presidencial pode ser melhor do que o primeiro. O melhor exemplo é o governo FHC de 1998 a 2002, que criou o tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário, responsável em boa parte por uma “cambada” histórica da economia brasileira, de eterna endividada caloteira internacional para estável e solvente – a reversão de um status quo humilhante e auto-destrutivo que veio pelo menos da Independência e dos seus pioneiros papagaios-micos do Bananão na praça global.
Pode-se odiar o Lula o quanto se quiser, mas se ele conseguir se reeleger é porque a maioria das pessoas acha que fez um bom governo. E eu acho que nada impede que faça um segundo mandato melhor.
Qual é a lógica de se permitir que todos os brasileiros concorram à presidência, com exceção daquele que acabou de incluir no seu currículo esta experiência (de presidir o País) na prática, e que, estando bem situado nas pesquisas eleitorais, tem um atestado de boa parte da população de que está à altura da tarefa? Por que qualquer idiota de qualquer partideco pode se lançar à presidência, menos aquele cara que foi considerado bem sucedido na prática do ofício? Tem uma resposta, é claro. A gente impede o cara de se candidatar para evitar uma continuidade excessiva no poder, com todos os vícios que isto pode engendrar.
Mas atenção! Quatro ou cinco anos não são excessivos, nem aqui nem na China. Peguem a média de permanência no poder dos primeiros mandatários dos países legais, isto é, dos ricos e desenvolvidos, ou daqueles que estão neste caminho. Pensem um pouco, independentemente de preconceitos ideológicos: Blair, Bush, Thatcher, Clinton, Mitterrand, Reagan, Kohl, González. Qual a média de permanência destes caras no poder? Eu aposto que é pelo menos o dobro dos quatro/cinco anos que queremos impingir como máximo para nossos presidentes.
É a síndrome da jabuticaba, a originalidade ‘caga na entrada, caga na saída’ na qual tanto gostamos de chafurdar. Um país, ainda mais medíocre como o Brasil, não produz um líder com perfil presidencial a cada quatro, cinco anos.
O problema, como sempre, é que, na politiquinha tucana, há atualmente um congestionamento de candidatáveis, então os bicudos resolveram que a melhor forma de acabar com o incômodo é remover a reeleição que eles mesmos criaram para que o FHC pudesse governar oito anos e completar um ciclo de modernização do País.
Na verdade, os tucanos querem o fim da reeleição agora porque estão putinhos com a popularidade do Lula, assim como os petistas eram contra a reeleição em 1998 porque estavam putinhos com a popularidade do FH.
Bem, tem aquela história de que o presidente usa o cargo para se reeleger. Ué, e nos Estados Unidos, não usa? É típico: por causa de um detalhe, que pode ser resolvido com regras e punição, os gênios acham melhor tomar uma medida que fará provavelmente com que um em cada dois presidentes daqui até o final dos tempos seja incompetente (repito: não se produz políticos à altura da Presidência a cada quatro/cinco anos).
Cansei de argumentar. Abaixo o fim da reeleição!



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

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* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
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