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Duas ou três coisas que eu sei sobre a eleição

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Ele vai ficar mais quatro anos no poder, podem se preparar

Muita gente ainda se espanta com a liderança folgada de Lula nas pesquisas. Eu me espanto com esse espanto. Eu não gosto do Guia Genial e considero seu governo ruim para o Brasil em muitos pontos, mas não vejo dificuldades em entender sua popularidade. A economia explica tudo, ou quase tudo. A situação melhorou bastante de 2004 para cá, principalmente para os mais pobres. Isso não é novidade, mas muita gente inconformada com a quase certa reeleição de Lula não tem uma idéia exata da amplitude do que está em curso. Muita coisa não é sustentável e é francamente eleitoreira, mas a questão é simples: com a economia indo razoavelmente bem – e melhor do que no segundo governo Fernando Henrique –, quem está no poder tem toda a chance de se reeleger.

Alguns números importantes:
- No fim de 2002, o salário mínimo era de R$ 200, valor que, em São Paulo, comprava 1,3 cesta básica. Hoje, o salário mínimo está em R$ 350, o suficiente para comprar 2,05 cestas. Aumentar fortemente o salário mínimo não é a melhor maneira de reduzir a desigualdade, como sempre diz o economista Ricardo Paes de Barros, do Ipea, mas a medida tem um impacto eleitoral líquido e certo, uma vez que dois terços dos 24 milhões de aposentados recebem o piso salarial. O ideal seria aumentar os gastos com crianças extremamente pobres, mas criança extremamente pobre não vota. É eleitoreiro? Acho que é, mas a vida do sujeito que ganha um salário mínimo está melhor do que em 2002
- No primeiro semestre deste ano, o rendimento médio cresceu 4,4% acima da inflação em relação ao mesmo período do ano passado. Se for analisado apenas o segundo trimestre, o ganho é ainda maior, de 6,4%
- De 271 negociações salariais acompanhadas pelo Dieese no primeiro semestre deste ano, 95,6% terminaram com reajustes iguais ou superiores à inflação
- A inflação está bastante baixa para padrões brasileiros, principalmente para os mais pobres. O INPC, que mede o custo de vida em nove capitais para quem ganha até oito salários mínimos, acumula alta de apenas 2,87% nos 12 meses terminados em julho
- De janeiro a julho, foram criados 1,078 milhão de empregos com carteira de trabalho assinada. É verdade que parte desses números não se refere à criação de empregos novos, mas à formalização de postos de trabalho que já existiam. A questão é que mesmo nesses casos há uma melhora em relação à situação anterior. O emprego formal é de melhor qualidade e paga mais
- O Bolsa Família já atende 11,120 milhões de famílias, que recebem em média R$ 61,43 por mês. O programa tem problemas estruturais, porque não é desenhado para tirar os beneficiados da miséria, mas o impacto desse dinheiro é grande na vida de quem é extremamente pobre
· O crescimento do país é medíocre, mas está melhor do que no segundo mandato de Fernando Henrique, quando o PIB cresceu a uma média de 2,1%. Se a expansão da economia atingir 3,5% neste ano, a média do governo Lula terá sido de 2,8%, puxada para baixo pelo 0,5% de 2003. Se excluído o resultado de 2003, a média aumenta para 3,5%. É pouco em relação a outros países emergentes, como gosta de lembrar Geraldo Alckmin, mas é bem melhor que a média recente brasileira. Dizer que o Brasil não cresce como a China e que só foi melhor do que o Haiti em termos de crescimento em 2005 faz pouco sentido para o sujeito que ganha um salário mínimo e viu seu poder de compra melhorar bastante. Como ele não mora na China, acha que crescimento de 3,5% com aumento de salário e inflação baixa, principalmente de alimentos, está mais do que bom
· O dólar está barato, o que ajuda a controlar a inflação e permite que muita gente viaje ao exterior

Com esses números, não quero dizer que tudo está maravilhoso. Os juros continuam muito altos, os gastos públicos não param de crescer, o câmbio se valorizou demais e o investimento em infra-estrutura é muito baixo. Além disso, a política externa do governo é atrasada e não há a ênfase na educação e em ciência e tecnologia que seriam necessárias para melhorar a produtividade da economia. O que esperar de um presidente que se orgulha de não ter estudado?
Não voto no Guia Genial nem amarrado, mas insisto: há uma série de indicadores que mostram uma situação econômica melhor do país – e eu nem citei o ajuste das contas externas. Boa parte dessa evolução ocorreu porque foram mantidas ou ampliadas políticas começadas no governo anterior. Além disso, o cenário externo muito favorável de 2003 para cá também é fundamental para explicar o desempenho razoável da economia. Mas isso não muda o essencial do que estou dizendo: a situação da economia melhorou e a população vê parte dessa melhora como reflexo das ações do governo. Por que você acha que 52% dos entrevistados pelo Datafolha consideram o governo Lula ótimo ou bom?
O que causa perplexidade, obviamente, é o fato de a crise política e todos os escândalos do último ano não terem abalado a popularidade de Lula. Dois de seus ministros mais próximos foram afastados, a empresa de seu filho recebeu uma injeção de capital milionária da Telemar e o procurador-geral da República descreveu o PT como uma quadrilha. É chocante saber que a maior parte das pessoas não deixa de votar num candidato cuja linha de defesa para todos os escândalos é dizer que não sabia de nada. Mas, como há um clima de lassidão moral no país, a estratégia de Lula de tirar o seu da reta foi bem sucedida. Além disso, há uma impressão generalizada de que também houve corrupção no governo Fernando Henrique. Acho que não foi nada que se compare com o mensalão, mas não importa o que eu acho; é nisso que as pessoas acreditam. Além disso, o PSDB e o PFL contribuíram para o clima de que o PT fez o que todo mundo faz ao não expulsarem Eduardo Azeredo e Roberto Brant quando seus nomes apareceram nas investigações da CPI. Ah, e a estratégia do PFL de usar homens probos como ACM para chamar Lula de ladrão é ridícula. É o mesmo que o Fernandinho Beira Mar chamar o Marcola de bandido.
Enfim, espero não tê-los aborrecido. Escrevi o post para dizer que não considero nada complicado entender por que Lula lidera as pesquisas. No post Desisti de entender, o Arranhaponte escreve que, “para entender o povão é preciso ser, ainda que temporariamente, povão”. A frase de efeito, assim como o post todo, revela, na verdade, o fraco do Arranhaponte pelo paradoxo fácil. Como disse alguém que o conhece profundamente, é um vício intelectual ao qual ele deveria ficar atento

PS: Usei neste post alguns números e argumentos que utilizei numa discussão no FYI, em maio, sobre os motivos que explicam a liderança de Lula



Marcos Matamoros at 04:48 PM | Comentários (11)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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