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Meu tema recorrente, obsessivo, quando se trata das “coisas nacionais”, é o fato de sermos a Grande Lusitânia, isto é, tudo aquilo que sempre atribuímos aos portugueses das nossas piadinhas. A nossa burrice tem o estilo da falta de objetividade, do gongorismo mental, da grandiloqüência enrolada, confusa, com a densidade dum traque – em resumo, uma incansável capacidade de discutir o problema errado, o grotescamente irrelevante.
Agora é o fim da reeleição, a qual acusamos de responsável pela crise política, mensalão, sem-vergonhice, etc. É, como de costume, estupidez. O mensalão foi criado pelo Zé Dirceu para passar as reformas pró-mercado necessárias ao bom desempenho econômico do governo Lula (o que se provou correto), mas que ideologicamente eram uma traição a 20 anos de pregação populista do PT. O mensalão não teve picas a ver com reeleição.
O segundo mandato presidencial pode ser melhor do que o primeiro. O melhor exemplo é o governo FHC de 1998 a 2002, que criou o tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário, responsável em boa parte por uma “cambada” histórica da economia brasileira, de eterna endividada caloteira internacional para estável e solvente – a reversão de um status quo humilhante e auto-destrutivo que veio pelo menos da Independência e dos seus pioneiros papagaios-micos do Bananão na praça global.
Pode-se odiar o Lula o quanto se quiser, mas se ele conseguir se reeleger é porque a maioria das pessoas acha que fez um bom governo. E eu acho que nada impede que faça um segundo mandato melhor.
Qual é a lógica de se permitir que todos os brasileiros concorram à presidência, com exceção daquele que acabou de incluir no seu currículo esta experiência (de presidir o País) na prática, e que, estando bem situado nas pesquisas eleitorais, tem um atestado de boa parte da população de que está à altura da tarefa? Por que qualquer idiota de qualquer partideco pode se lançar à presidência, menos aquele cara que foi considerado bem sucedido na prática do ofício? Tem uma resposta, é claro. A gente impede o cara de se candidatar para evitar uma continuidade excessiva no poder, com todos os vícios que isto pode engendrar.
Mas atenção! Quatro ou cinco anos não são excessivos, nem aqui nem na China. Peguem a média de permanência no poder dos primeiros mandatários dos países legais, isto é, dos ricos e desenvolvidos, ou daqueles que estão neste caminho. Pensem um pouco, independentemente de preconceitos ideológicos: Blair, Bush, Thatcher, Clinton, Mitterrand, Reagan, Kohl, González. Qual a média de permanência destes caras no poder? Eu aposto que é pelo menos o dobro dos quatro/cinco anos que queremos impingir como máximo para nossos presidentes.
É a síndrome da jabuticaba, a originalidade ‘caga na entrada, caga na saída’ na qual tanto gostamos de chafurdar. Um país, ainda mais medíocre como o Brasil, não produz um líder com perfil presidencial a cada quatro, cinco anos.
O problema, como sempre, é que, na politiquinha tucana, há atualmente um congestionamento de candidatáveis, então os bicudos resolveram que a melhor forma de acabar com o incômodo é remover a reeleição que eles mesmos criaram para que o FHC pudesse governar oito anos e completar um ciclo de modernização do País.
Na verdade, os tucanos querem o fim da reeleição agora porque estão putinhos com a popularidade do Lula, assim como os petistas eram contra a reeleição em 1998 porque estavam putinhos com a popularidade do FH.
Bem, tem aquela história de que o presidente usa o cargo para se reeleger. Ué, e nos Estados Unidos, não usa? É típico: por causa de um detalhe, que pode ser resolvido com regras e punição, os gênios acham melhor tomar uma medida que fará provavelmente com que um em cada dois presidentes daqui até o final dos tempos seja incompetente (repito: não se produz políticos à altura da Presidência a cada quatro/cinco anos).
Cansei de argumentar. Abaixo o fim da reeleição!


