« Desisti de entender | Main | Duas ou três coisas que eu sei sobre a eleição »

Informam-me os jornais que o soldado da Polícia Militar Carlos Jorge Carvalho foi condenado a 543 anos de prisão por participação em uma chacina na Baixada Fluminense. Leio avidamente as matérias sobre o caso em dois dos grandes jornais do país, e não encontro nenhuma menção a dúvidas que só devem ter ocorrido a mim entre 183 milhões de brasileiros: mas quanto tempo o cara deve ficar preso? É prisão perpétua? (não, é claro, porque ela não existe no Brasil) Há um limite de aprisionamento depois do qual o sujeito é solto? Que limite é este? O tamanho da pena influi neste limite? E por aí vai.
Oh, coisa tão nossa! Eu imagino um estrangeiro lendo a matéria, e, entre divertido e perplexo, perguntando-se se não acordou num mau romance de realismo fantástico. Ou quem sabe até bom, e a prisão multicentenária é alguma peça num jogo intricado de aparências e paradoxos, um toque de Carroll ou de Borges. Pena de 543 anos - mas que coisa pragmática!
O que espanta mais, contudo, não é o formalismo rocambolesco e paroxístico do nosso sistema judiciário, que condena pessoas a penas que ultrapassam em diversas vezes o período máximo de vida que um humano pode atingir.
O que é estarrecedor - e diz muito sobre porque tateamos no escuro em meio a soluções, e só encontramos problemas insolúveis - é que os jornais que noticiam aquele fato não se preocupem em informar ao leitor o que, no nível rasteiro e comezinho da realidade, vai acontecer com o tempo de prisão do condenado


