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setembro 30, 2006

A peculiar moral petista

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É de cabeça para baixo mesmo


A cagada nos fins 'desjustifica' os meios.

Do blog do Josias de Souza:

Em reserva, Lula destila irritação. Diz que Berzoini, a pretexto de obter informações capazes de mudar o quadro eleitoral paulista, beneficiando a candidatura petista de Aloizio Mercadante, acabou submetendo o projeto nacional do partido a riscos desnecessários.



setembro 29, 2006

Homo erectus em Sampa

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Hamlet eu já disse que não faço, porra!

Depois dizem que a vida cultural no Brasil não é interessante. Paulo César Pereio vai estrear em São Paulo o monólogo Homo erectus, um texto de Fernando Bonassi com direção de Neville D’almeida. Em que outro país seria possível reunir tantos talentos num só espetáculo? Neville D’almeida, homem multimídia, vai aproveitar para supervisionar “a montagem da obra "Cosmococa CC4 Nocagions", parceria sua com Hélio Oiticica", segundo a Folha.
Cosmococa é realmente um marco na cultura do país. A obra juntou o pior cineasta brasileiro de todos os tempos e uma das maiores farsas das artes plásticas do Brasil. A melhor definição sobre o homem que criou os parangolés é de Iberê Camargo, o maior pintor brasileiro: “Hélio Oiticica vivia meio drogado, fez aqueles bichos e achou que deixou uma obra". É uma síntese perfeita, não?




setembro 28, 2006

Que a Hungria seja aqui

O Brasil não é a Hungria, mas os políticos brasileiros também não param de mentir sobre a questão fiscal. Os candidatos à presidência fingem que a situação das contas da Previdência não é grave. É indispensável, por exemplo, aumentar a idade mínima para aposentadorias do INSS. Para que o país não seja rebaixado de Grande Paraguai para Pequeno Paraguai, é fundamental fazer isso o quanto antes. Ok, eu sei que ninguém vai falar nada sobre um assunto tão popular como esse antes das eleições de domingo, mas o melhor que pode acontecer ao país é o próximo governo enfrentar o tema, ainda que não tenha dito uma palavra sobre ele na campanha.
A situação das contas públicas vai mal. Os gastos do governo federal estão crescendo e a um ritmo superior ao da arrecadação, numa trajetória insustentável. Todos os especialistas em contas públicas dizem que será necessário controlar as despesas com mão de ferro em 2007. E, se o governo quiser que o país cresça com força nos próximos anos, é imprescindível uma reforma da Previdência de verdade. Em resumo, o melhor cenário para o Brasil no ano que vem inclui algum estelionato eleitoral do tipo húngaro. Mentir na campanha é feio, mas não fazer nada sobre a questão fiscal será pior ainda. O mais provável é que seja feita uma meia-sola que não resolva o problema de fato nem permita uma catástrofe completa - a velha mediocridade grão-paraguaia de sempre



setembro 26, 2006

Das desonestidades

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Não dá para discutir com um cara desses

O que me impressionava no PT, desde lá o comecinho, era a desonestidade intelectual. Nos tempos da alta inflação, ainda antes do descontrole total, a luta petista e cutista era para indexar em prazos cada vez mais curtos os salários, e, por conseguinte, a economia - de anual para mensal para semanal para diário para horário etc -, quando era evidente que este era o caminho para a hiperinflação. Todo mundo que conseguia somar dois e dois sabia que era. Mas o PT estava lá, na vanguarda da berraria pela indexação, infernizando e inviabilizando as débeis tentativas de sucessivos ministros da Fazenda de tomar um mínimo pé da situação. E havia também a questão fiscal, o PT fechando questão raivosamente contra toda e qualquer tentativa de reformar a Constituição de 1988 que, caso tivesse sido implementada na sua debililidade mental primeva, já nos teria levado a níveis de desenvolvimento sub-saharianos há algum tempo. E havia a pregação pelo calote da dívida externa, a tentativa de impugnar a Lei de Responsabilidade Fiscal, a sabotagem sistemática de toda e qualquer tentativa de botar a casa em ordem. Bem, quando o PT chegou ao poder, todo mundo sabe o que aconteceu. Vinte anos de defesa de receitas de caos foram jogados no lixo no espaço de alguns meses, e o governo, sob o ponto-de-vista macroeconômico, praticamente replicou o que os odiados "neoliberais" vinham tentanto fazer há mais de uma década (e nunca conseguiram fazer direito, pela oposição ferrenha do PT aliada aos políticos fisiológicos do lixão partidário do Congresso).
Mesmo antes do PT chegar ao poder, já estava claro para mim que eles não fariam as loucuras que desde sempre haviam defendido. Já estava claro a enormidade da desonestidade intelectual petista. O que não estava claro era até que ponto a desonestidade intelectual estava ligada à outra, à desonestidade material. O petista era aquele tipinho self-righteous que chegava na roda de conversa e ficava falando emocionadamente sobre o quanto o seu partido era honesto neste mundo tão torpe e vil, etc e tal. Este papo sempre me deu ânsias de vômito mas, vá lá, os caras repisavam tanto que eu até dava algum crédito de confiança e pensava - "vai ver eles são de fato um pouco menos ladrões que a média". Mas antes mesmo do Lula chegar lá, minhas ilusões desvaneceram-se quando escândalos vários começaram a pipocar na rede de coleta das prefeituras paulistas - Santo André, Ribeirão Preto e outras.
Lula tomou posse, e eu já achava que o PT estava pelo menos na média de ladroagem dos partidos menos corrompidos (o que não quer dizer que o sejam pouco), como um PSDB ou um PPS. E aí os escândalos foram aparecendo, crescentes, chocantes, as cenas degradantes multiplicando-se, cuecas, carecas, surubas, a gentalha dos sindicatos, a gentalha das estatais, granodutos para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, alianças entusiásticas e afetuosas com a latrina da política nacional. E os figurões caindo feito jacas podres e fedorentas, o Dirceu enroscado lubricamente com o Jefferson, o Palocci privilegiando-se do posto na sala de comando da economia nacional para bisbilhotar a vida bancária de um bagrinho incômodo, o Genoíno assinando a papelada calhorda do Valério, o Gushiken já nem me lembro o quê.
Bem, não vou nem falar do dossiê, mas a esta altura já ficou clara a total falta de limite e compostura do jeito PT de se corromper no pudê. E eu me pergunto de novo, e ainda não consigo lavrar uma resposta definitiva, se a cavalar desonestidade intelectual do PT na oposição está ligada à elefantina desonestidade material do PT no governo. Aceito palpites dos nossos parcos leitores sobre esta palpitante e palpitável indagação

P.S: Aí, Matamoros. Se leitor nenhum se interessar pela questão, você também serve



setembro 25, 2006

Perdoai-o, senhor, ele não sabe o que faz

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"Cadê o Paulo Betti?" "Ele está no banheiro, lavando as mãos"

Lula é realmente um homem modesto. Ontem, o Guia Genial se comparou a Jesus Cristo e a Tiradentes. Ele lembrou que, entre os 12 apóstolos, havia um traidor. A comparação me levou a pensar como teria sido a história do cristianismo se Jesus e os discípulos fossem adeptos da béttica petista. Para começar, é provável que uns oito ou nove apóstolos brigassem a tapas para trair Jesus por 30 dinheiros - acho que alguns se venderiam por três.
As histórias bíblicas teriam outros desfechos, como as bodas de Canaã. Eu tenho certeza de que não haveria multiplicação dos peixes – antes do milagre, alguns apóstolos gatunos já teriam roubado os poucos peixes restantes. A expulsão dos vendilhões do templo também não teria a menor possibilidade de ocorrer. Quando chegasse lá, Jesus teria uma surpresa: encontraria três discípulos numa barraquinha, fazendo um bico para faturar algum trocado. Jesus, naturalmente, se diria traído e acrescentaria, indignado: “Ainda está para nascer na Galiléia alguém que possa discutir ética comigo”.
O cristianismo seria certamente uma religião ainda mais influente. Imagine a força que a crença teria se o seu fundador tivesse como frase-símbolo não “Amai-vos uns aos outros” mas a singela “Eu não sabia”?



setembro 22, 2006

O profeta do novo milênio

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Madame Betti é vidente e atende
o público no Projac


"E metereis seguidas vezes as mãos na merda, antes ainda do despertar da Primavera"



Marcola não merece

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O Dioniso da terceira idade

Zé Celso está sempre em evidência no mundinho cultural brasileiro. O Valor acaba de escolhê-lo como um dos 20 empreendedores que mais se destacam na área da cultura do Grande Paraguai. Em entrevista ao jornal, o homem que faz peças de cinco horas de duração falou de seus projetos sociais, realizados em parceria com a Fundação Gol de Letra. Segundo a reportagem, meninos de rua têm aulas de capoeira no Teatro Oficina. Alguns estão no elenco de Os sertões. “Se o governo aplicasse na Febem os métodos que eu aplico no Bexigão, um método absolutamente libertário, de muito amor pelas crianças, tenho certeza que a gente acabaria com o problema da violência em São Paulo”, diz ele. O gênio dionisíaco vai além, acreditando que "o mesmo vale para os presídios. Está lançada a campanha ‘Leve o Marcola ao teatro’.”
Eu sou obrigado a me solidarizar com Marcola. Sou favorável ao endurecimento das penas para líderes do crime organizado, mas acho que tudo tem limite. Obrigar alguém a ver uma peça do Zé Celso é algo que nem o mais sádico dos torturadores teria coragem de fazer.
E eu tenho uma dúvida. O que é melhor para os meninos de rua: entrar no mundo do crime ou virar ator do Oficina?



setembro 21, 2006

Desastre na segurança? II

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O inimigo número um dos celulares pré-pagos

A redução do número de homicídios em São Paulo é realmente impressionante. Geraldo Alckmin esqueceu apenas de tentar impedir o crescimento do PCC. Mas o meu bode em relação ao picolé de chuchu é muito anterior à atual crise de segurança. Em 2002, no auge de uma onda de seqüestros, Alckmin teve uma das idéias mais estúpidas de todos os tempos: proibir a venda de celulares pré-pagos, porque era mais difícil rastrear as chamadas feitas a partir desses telefones. É uma proposta de estadista, não? Se bem que não dá para esperar muito de quem tem Gabriel Chalita como guru intelectual



Desastre na segurança?

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O exterminador de homicídios

Eu sei que números são coisas odiosas que só servem para atrapalhar o desenvolvimento da humanidade. Ainda assim, é difícil resistir. Comparemos, pois, a evolução da taxa de homicídios do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo entre 2001 e 2005. Vamos tomar o conceito amplo de "crimes letais intencionais", utilizado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça. Isto inclui homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, morte suspeita e roubo seguido de morte.

Aos números:

TAXA DE HOMICÍDIOS POR 100 MIL HABITANTES
(variação entre 2001 e 2005)
RJ ­- aumento de 27%
MG - aumento de 52%
SP - queda de 45%

As taxas em 2005 eram:
RJ - 61,5
MG - 18,5
SP - 18,9



A imprensa é menas culpada

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Jornalistas, esses demônios

A ferocidade de petistas e antipetistas em relação à atuação da imprensa é uma das coisas mais divertidas da campanha eleitoral. A maior parte dos que apóiam Lula não tem dúvidas de que os grandes jornais e redes de televisão estão a serviço dos tucanos. Quem não suporta o Guia Genial tem certeza de que boa parte do jornalismo é lulista. Eu tenho visto o mesmo jornalista ser acusado de petista por tucanos e de tucano por petistas. Uma façanha, não? A esquerda raivosa adora propagar a tese do golpe das elites, com ampla participação da mídia, contra o governo popular. A direita histérica está convencida de que quase todos os repórteres e colunistas são petistas. O clima é futebolístico.
Não quero e não pretendo fazer a defesa da imprensa, mas o partidarismo da mídia é bem menor do que os petistas e antipetistas imaginam. Não faltam problemas à cobertura da mídia – as investigações de escândalos como o do mensalão deveriam ser mais aprofundadas, muitos casos não são acompanhados até o fim, há julgamentos precipitados que podem destruir reputações.
Mesmo com todos essas ressalvas, uma crise como a do mensalão não foi invenção da mídia, como quer boa parte da esquerda, e nem o caso foi abafado e pouco explorado, como acredita parte considerável da direita. Eu sei que dizer essas coisas dá pouco ibope, mas o clima de Fla-Flu que eu vejo à esquerda e à direita é tão delirante que chega a ser engraçado. Boa parte da imprensa está interessada em informar, ainda que muitas vezes o faça com rara incompetência. Na verdade, a má fé é menos freqüente do que as pessoas gostam de acreditar




setembro 20, 2006

"São uns orrrrrrdinários"

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Tia Violeta é que era uma mulher paulistana de verdade. Solteirona, católica fervorosa, ultra-reacionária, enérgica, ela percorria as ruas da metrópole no seu fusquinha até a idade avançada de 70 e não sei quantos anos, administrava um sopão só para moças no Centro, e ocupava-se com as mil e uma coisas com as quais uma velhinha cheia de gás costuma se ocupar. Morava numa casa no Pacaembu, onde algumas das atrações eram a enorme tartaruga no quintal e o acervo de fotografias da família que, remotando talvez há duas ou três gerações anteriores à dela, com bigodudos enfatiotados do século XIX sentados ao lado de suas digníssimas esposas (em pé, oh tempos), ia até o último retrato do pimpolho ou pimpolha nascidos da profusão de sobrinhos-netos. A exibição permanente desenrolava-se a partir do hall de entrada, onde ficavam os ancestrais remotos, e, esticando-se sinuosamente pelas paredes, subia a escada, atravessava os corredores, percorria os dormitórios e ia morrer (cronologicamente, nos pimpolhos) no quarto da tia Violeta.
A sua comida, minuciosamente caseira e tradicional, era o nirvana gastronômico da parentada (a maioria paulistanos, com uma diáspora carioca, da qual faço parte). Dizem que a comida do sopão, administrado com mão de ferro pela Tia Violeta, era tão boa que atraía um número não desprezível de moças muito acima da categoria social de secretariazinhas e lojistas à qual era direcionado. Aliás, foi em torno do sopão um dos momentos antológicos da tia Violeta. Numa homenagem a mulheres benemerentes, dedicadas a obras sociais, o então cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns ia de senhora em senhora alinhadas num palco, transmitindo suas efusivas congratulações. Matreira e rancorosa, tia Violeta trocou de lugar durante o trajeto de cumprimentos do Cardeal Arns, só para não apertar a mão do padre esquerdista que combatia a "Revolução".

É, a tia Violeta não era nenhuma velhinha inofensiva não. Me lembro que sua popularidade entre os sobrinhos-netos adolescentes era bem maior do que junto às sobrinhas-netas. Para nós meninos, ela era apenas aquela tia-avó reacionária e inteligente, com a qual curtíamos ter discussões acaloradíssimas (nesta faixa etária, naqueles tempos, todo mundo era ao menos vagamente de esquerda - coisas dos anos 60 e 70). Para as meninas, ainda às voltas com a nascente e problemática tarefa de se liberar sexualmente, o puritanismo feroz e beligerante da tia Violeta era um forte incômodo.
Tia Violeta era uma reacionária paulistana de boa cepa, que, se por um lado apoiava a ditadura incondicionalmente e não estava nem aí para relatos de torturas e assassinatos ("guerra é guerra", "isto é mentira dos comunistas", etc), por outro abominava corruptos vulgares como Maluf e Quércia. Ela tinha um bordão para se referir a esta escumalha política: "É um orrrrrrrdinário", dizia tia Violeta, com um vibrato deliciosamente depreciativo no erre prolongado. É verdade, devo admitir, que tia Violeta incluía até figuras honradas como o Dr. Ulysses na categoria dos orrrrrrrdinários. Mas, tirando os exageros, e fazendo todas as ressalvas sobre a minha total e absoluta discordância em relação aos métodos e méritos da ditadura, ela tinha um ponto. Acho que o bordão da tia Violeta era e ainda é a mais perfeita tradução da quintessência de 90% da política brasileira.
Eu me pego olhando fascinado para estes tipos lombrosianos, que sempre abundaram nos PMDBs, PFLs, PPs, e PTBs da vida, e que agora, na versão lumpen-sindical, afloram como minhocas em pânico de todos os cantos e escaninhos do palácio do Planalto - ali mesmo, bem juntinho, quase encostados no Lula - e tudo o que eu penso e tenho a dizer é: "São uns orrrrrrrdinários".
E eu também me pego lendo os colunistas políticos prestigiados da imprensa - e não vou aqui fazer uma catilinária contra o suposto esquerdismo gramsciano que domina a nossa mídia não; estou falando de profissionais razoavelmente competentes, que respeito -, com suas referências freqüentes à "bobagem monumental", à "trapalhada", ao amadorismo dos vendedores e compradores de dossiê em plena campanha eleitoral, e aí eu penso: cacete, quer dizer então que o erro resume-se à incapacidade de traficar os dossiês com eficiência, e não ao fato de que o ato em si de traficar dossiês é proibido e imoral. E, nessas horas, quando assisto ao espetáculo desta canaille horrenda, com barba por fazer, pega com as calças na mão e balbuciando justificativas grotescas, e noto, simultaneamente, o beneplácito concedido pelos bens pensantes às atividades daquela "raça", eu sinto saudades do moralismo rígido da tia Violeta. Eu sei, eu sei, deixem-me ser o primeiro a tacar as pedras, jogo verticalmente para cima e elas voltam direto para o meu cocuruto. O moralismo seletivo da tia Violeta condenava o submundo da política mas não os porões da ditadura. Eu sei, eu sei. Não há aqui nenhuma tentativa de amarração lógica para demonstrar que, no final das contas, tia Violeta era quem tinha razão.
A minha nostalgia da tia Violeta neste momento deve-se apenas ao fato de que não consigo achar uma síntese melhor, não só para este políticos horrorosos e seus capangas hediondos, mas também para o estado geral da Nação, seu povo, elites, intelectuais, periquito e papagaio, do que o velho bordão ­- "Somos todos uns orrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrdinários"



setembro 19, 2006

Nome aos bois

Li por aí que o presidente Lula está ameaçado de sofrer um golpe antes do fim dos seus oito anos de mandato. Já se organizam manifestações maciças dos movimentos sociais para defender a permanência do Guia Genial no posto de Grande Timoneiro. Eu imagino as cenas da titânica batalha final na Praça dos Três Poderes: de um lado, os movimentos sociais, de outros as leis. No final, o terreno coberto de cadáveres e livros de Direito ensangüentados.
Falando sério, eu não entendo esta história de golpe. O país tem procedimentos legais diversos. Um deles chama-se impeachment. Outro, impugnação de candidatura. Deve haver influência política em ambos, mas é assim que o jogo institucional foi montado (e vale para todo mundo). Pessoalmente, não creio que o presidente Lula venha a sofrer nem um nem outro.
Tem uma certa direita excitada com aquela possibilidade, e é mais do que natural que seja assim. Numa democracia, os políticos torcem para que seus adversários sejam massacrados, pulverizados, esfarinhados, etc. A diferença em relação às ditaduras é que os políticos têm que se conformar em torcer para que a dizimação, trituração e esmigalhação dos seus adversários se dê por meios legais. Há vários deles. Um são as urnas. Outros são impeachment, cassação, impugnação, etc.
Se as regras do país e a forma como elas são aplicadas (ou não aplicadas) não levarem à impugnação nem ao impeachment do Lula - e não vão - o PT vai poder gozar da cara da direita que torceu pelo impeachment ou impugnação: "Ha ha ha, seus manés, perderam de novo. Eu eu eu, a direita se fodeu!". Tudo isto faz parte da festa da democracia, que é de um mau gosto atroz, mas, como disse mais ou menos o Churchill, "é o pior regime fora todos os outros" (arghhh, doeu este lugar-comum).
Golpe é derrubar um presidente descumprindo as regras do jogo. Chamar uma tentativa de impeachment ou de impugnação (patética, porque fadada ao fracasso) de "golpismo" é apenas a velha má-fé intelectual duma certa esquerda

PS: É claro que moer e estraçalhar o adversário político por meio de impeachment ou impugnação é algo que só ocorre raramente, quando o adversário dá razões para tanto. Para usar um exemplo futebolístico, ao modo do Guia Genial, jogadores de futebol normalmente tentam vencer a partida fazendo gols e evitando levá-los. Porém, quando o Zidane dá uma cabeçada no Materazzi, não há nada de golpista em o capitão da Itália cagüetar o francês para o juiz e ficar pedindo expulsão



setembro 16, 2006

Três idéias publicitárias cretinas para tempos idiotas

- Há pouco tempo foi lançado um lubrificante vaginal chamado Vagisil. O nome é bom, mas tem pouco apelo popular. Para as classes D e E, o negócio é lançar o Bucetol

- Na mesma linha, a Louis Vuitton deveria investir numa linha mais popular no Brasil: a Luiz Vitão, com bolsas e alpercatas de couro de cangaceiro. Os produtos infantis, é claro, sairiam pela Luiz Vitinho

- Idéia para um novo salgadinho: Balofeetos, para o gordo sem culpa. Mais colesterol, mais gordura, mais calorias para você



Canseira de cidadão

Porra, tá demorando pra passar esse negócio de eleição. Estou louco para voltar a discutir os problemas do País

PS: Eu sei que se preocupar com os problemas do Brasil é mal visto nos nossos círculos de dandismo intelectual, mas confesso que é meu vício solitário. Freqüento, inclusive, o PA (Preocupólatras Anônimos)

PS2: Ei, eu admito que os problemas brasileiros são muuuuuuuiiiiito chatos. Não me acusem de pensar o contrário. Prefiro ser tachado de masoquista



setembro 14, 2006

Carajo! El mosquito ataca a la piedra, de nuevo II

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A outra - e verdadeira - face de Evo Morales

A Bolívia realmente não tem importância. Não dá para dizer que um país que tem um PIB de US$ 9,657 bilhões e exportações de US$ 2,3 bilhões por ano não seja irrelevante. Isso não quer dizer, porém, que o Brasil não deva retaliar agressivamente o país comandado, como alguém já notou, pelo sósia do Zacarias. Mais de um terço das exportações da Bolívia vem para cá, o que deve dar algum poder de barganha para o Brasil, não?
Em maio, quando os bolivianos nacionalizaram as reservas de petróleo e gás, o governo Lula não fez nada. Vamos ver se agora que eles decidiram assumir o controle das refinarias da Petrobrás sem pagar o Guia Genial vai fazer alguma coisa. O episódio mostra a verdadeira dimensão da liderança de Lula no cenário internacional. Ele é tão bunda que não consegue ser imperialista nem com a Bolívia



Carajo! El mosquito ataca a la piedra, de nuevo

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Evo Morales, presidente da Bolívia

Começou de novo, saco! A Bolívia fica fazendo umas coisas lá quaisquer com a Petrobrás, e o Brasil inteiro entra em frenesi. É preciso enfiar na cabeça de uma vez por todas que, por definição geopolítica, nada do que a Bolívia faça jamais terá qualquer importância. O plantio de coca é obviamente uma exceção, mas a regra antes enunciada também é uma exceção, no sentido de que, no caso dela, de fato há apenas uma exceção para confirmar a regra. Portanto, cidadão, antes de pegar o seu jornal da manhã, repita vinte vezes o mantra: "A Bolívia não tem importância". Aí pule seja quantas forem as páginas dedicadas ao último pum factótico daquela espécie de Mercedes Sosa que chegou à presidência daquilo, e vá direto para a parte de esportes. Concentre-se em coisas importantes, como o debate sobre se o Michael Schumacher foi ou não o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. E quanto à Bolívia, se você não for polícia, viciado, ou traficante, esqueça. Ali não tem nada para você



Ditador estadista? II

Sabe aquele tipo de esquerdinha bem emotivo brega, na linha "la Vomitaria" da Heloísa Helena? Pois eu imagino que, levando em conta a robusta ocorrência estatística do dito cujo tipo na classe média do Rio de Janeiro, deve ter acontecido há cerca de dois anos que um sujeito ou sujeita tenha saído aos prantos da missa/culto/celebração/sei lá o quê em homenagem ao qüinquagésimo aniversário do suicídio do Getúlio, e emendado(a), trôpego(a) de emoção, numa sessão do filme Olga - tudo num só trem de lágrimas e esperança de construir um mundo mais justo e solidário



setembro 13, 2006

Ditador estadista?

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O governo dele torturou e matou, mas ele é considerado estadista

É verdade que o Brasil é um deserto de grandes homens, mas sempre achei grotesco Getúlio Vargas ser idolatrado. Sempre que o apontam como o maior estadista da história do país, eu fico me perguntando: mas e o Estado Novo? Como é que um sujeito que foi ditador pode ser considerado o maior estadista brasileiro? Eu lembrei disso porque o Reinaldo Azevedo abordou o assunto ontem, dizendo que apenas num país como o Brasil “um ditador que torturou e matou é considerado herói”. Está certo que a concorrência é fraca, mas me parece repulsivo considerar um estadista alguém que comandou uma ditadura.
A Época acabou de fazer uma eleição para ver quem seria o maior brasileiro de todos os tempos, e o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira escolheu quem? Getúlio, é claro, por acreditar que ele “mudou a face do Brasil com a implantação da siderurgia nacional, permitindo que o país se tornasse uma potência industrial. Também deve-se a ele a Vale do Rio Doce e a Petrobras" Nenhuma palavra sobre o que ocorreu no Estado Novo. Mas para que mostrar apreço por bobagens como democracia, respeito aos direitos humanos e liberdade de expressão, não é mesmo?



setembro 12, 2006

Arbeit macht frei II

Bem, citarei a frase de um amigo meu, economista, adepto da "dismal profession", o que obviamente não tem o charme de um comentário do Faulkner:

"Trabalho é tudo aquilo que a gente não faria se não fosse pago"



setembro 11, 2006

Arbeit macht frei

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Ai, que preguiça

Depois de quatro dias de ócio no Rio, a segunda-feira se impõe de modo implacável. E ainda tem gente que acredita que o trabalho enobrece o homem. De minha parte, fico com as sábias palavras de William Faulkner sobre o assunto:

“(...) é uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer oito horas por dia, dia após dia, é trabalhar. Não se pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor oito horas – tudo o que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. É esse o motivo pelo qual o homem torna, a si e a todos os demais, infelizes e miseráveis”



setembro 10, 2006

Repressão é vida II

A ditadura continua a causar problemas para o país. Além de ter matado, torturado e censurado, a Gloriosa fez com que todo brasileiro de esquerda ou mesmo vagamente progressista seja contra qualquer coisa que cheire a repressão. Pode ser repressão ao crime organizado, ao tráfico, ao assassinato ou a dirigir bêbado. Nessa visão debilóide, reprimir é sempre ruim. É o primeiro passo para o autoritarismo, escrevem os suspeitos de sempre. No debate sobre a crise de segurança em São Paulo, por exemplo, pouco se fala da necessidade de realmente se reprimir e condenar de verdade a liderança do crime organizado, com penas duras, longas e sem o benefício da progressão continuada. Em geral, a saída proposta é educar e conscientizar. Prisão, por exemplo, serve apenas para ressocializar, como se assassinos não merecessem ser castigados. O poder dissuasivo de sentenças rigorosas não é levado em conta. O resultado é uma sociedade de palermas que se acham humanistas, quando na verdade são apenas palermas



setembro 08, 2006

Deitados em berço esplêndido

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Meninos chineses provocam operários do ABC: "Vamos tocar o terror!"


Samuel Pessôa, economista da FGV-Rio, sintetizou em recente debate porque estes países viados da Ásia crescem muito mais do que a gente:

"Nesses países que crescem muito, as pessoas trabalham muito, poupam muito, estudam muito."

No Brasil, explica Samuel, a educação básica é uma porcaria, uma montanha de impostos desincentiva as pessoas a trabalhar muito e um sistema de previdência bem mais generoso do que o de qualquer outro país emergente (eu sei que um parentinho qualquer teu ganha uma miséria de aposentadoria, mas, acredite, nos outros países em desenvolvimento, os parentinhos aposentados quaisquer ganham em média muito menos do que aqui, se é que ganham alguma coisa) desestimula a poupança.

Comparativamente, trabalhamos menos, poupamos menos, estudamos menos. Então vamos curtir a vida e parar de se preocupar com estas besteiras



setembro 06, 2006

Repressão é vida

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If you drink, don't drive

Morreram cinco adolescentes num horrendo acidente de carro na Lagoa aqui na Zona Sul do Rio há poucos dias. O Globo dedicou muitas páginas ao assunto por dias seguidos. Anteontem, havia umas 20 cartas de leitores (ocuparam toda a seção, na verdade) com comentários diversos sobre o tema. Apenas um falava do óbvio: morrem adolescentes em acidentes de carro como moscas porque o Brasil não faz a coisa certa e facílima, que é combater de fato a direção alcoolizada. Bastam bafômetros e leis com multas altíssimas, longas suspensões e cassações de habilitação, como em qualquer país civilizado com índice de mortes em trânsito de 1/10 do brasileiro.
E botar a poliça pra reprimir.
E não me venham falar de corrupção, porque, afinal, não existe uma “indústria de multas”? Há corrupção sim, mas quando o poder público decide baixar o pau na repressão a uma conduta específica, ele consegue, com propina e tudo – vide cinto de segurança.
No fundo, é o velho problema, abordado em posts anteriores: os juristas da USP conseguiram a façanha de desprogramar o povo brasileiro do reconhecimento ancestral, mamífero, quiçá reptiliano, da associação entre punição e diminuição do comportamento punido. Nossas crianças entendem isto, mas quando chegam à adolescência, e começam a “pensar”, entrando em contato com a vulgata liberalóide-esquerdista que domina a burritzia nacional, passam a achar que repressão não adianta nada, que só educando e conscientizando (arrrghhh) as pessoas é que as condutas civilizar-se-ão.
Como coroa que dirige devagarzinho depois de umas biritas, o que eu defendi acima tem tudo para me prejudicar. Mas vale a pena. Agora, uma coisa eu garanto: só paro de dirigir ligeiramente bebum se houver ameaça de multa astronômica, suspensão ou cassação da minha carteira (carta, para os paulistas). Campanhas de conscientização (duplo arrghhh) não adiantam picas comigo. Tem mais é que reprimir, senão eu esculacho!

PS: O Nemerson fez ótimo post sobre o mesmo acidente com - eu diria - a mesma reflexão

PS2: Faltou dizer: para os drunk drivers que já provocaram acidentes com vítimas, cana dura e longa



O melhor II

Since about three it had been squalling steadily, but abruptly the wind-driven downpour stopped and the sun came blazing out as though the clocks had been turned ahead and, over in the west, tomorrow morning was now set to begin at six P.M. today. How could a street as modest as ours induce such rapture just because it glittered with rain? How could the sidewalk’s impassable leaf-strewn lagoons and the grassy little yards oozing from flood of the downspouts exude a smell that roused my delight as if I’d been born in a tropical rain forest? Tinged with the bright after-storm light, Summit Avenue was agleam with life as a pet, my own silky, pulsating pet, washed clean by sheets of falling water and now stretched its full length to bask in the bliss.
Nothing would ever get me to leave here.


Roth é isso aí. Seria preciso um McNasty para uma tradução à altura deste trecho de The Plot Against America. Eu não me atrevo

PS: Sugiro que os comentários, se houver, sobre o Roth continuem no post 'O melhor' abaixo, para simplificar



Merda, ou muito mais do mesmo II

Sei não. Acho que fomos injustos* com o Paulo Betti. Ele escreveu um artigo na Folha dizendo que é vítima de linchamento moral. Eis aí um primeiro desdobramento positivo do “affaire Betti/Tiso/Barretão/alguém mais?” Se físico, não resta dúvida, o linchamento seria mais completo como tendência alvissareira. É possível até pensar na abolição da novela das oito ao fim de uma longa caminhada. Mas moral também serve. E Betti trouxe-nos a síntese genial de uma época (não vou falar em zeitgeist para não parecer pedante). É simples. O Brasil de Lula é uma merda. E, pensando bem, não há quem, nem o quê, tenha sofrido mais duramente a maldição do preconceito do que a merda. Suja, mal cheirosa, portadora de doenças, nojenta – a lista de ofensas é longa. Mas Lula é um cara do povo, veio do Nordeste, sua mãe nasceu analfabeta. Ele encara com simplicidade as coisas da vida. Enquanto os tucanos empinam os narizinhos e fazem cara de nojo, o Guia Genial abraçou a merda pátria. Deu-lhe dignidade. Alçou-a à visibilidade internacional. Coprolálico, como mostra o livro dos repórteres de Brasília, ele fundou nossa coprocracia. Merda procês!

* Pra quem leu a versão anterior, desisti de enriquecer a língua com o neologismo "injustiçamos", embora (teimoso que sou) continue achando que tem lá sua eufonia

PS: Leiam o que já li no Reinaldo Azevedo nesta manhãzinha fria. A coprocracia avança!



setembro 05, 2006

Merda, ou muito mais do mesmo

AryToledo_1.jpg
Ary Toledo, gênio da raça

A efervescência cultural brasileira é surpreendente. Depois que Paulo Betti disse que não é possível fazer política sem colocar as mãos na merda e Wagner Tiso afirmou que não está preocupado com a ética do PT ou qualquer outro tipo de ética, intelectuais e artistas do país não param de refletir e criar a partir dessas declarações tão ricas quanto polêmicas. Num esforço de reportagem, o Torre de Marfim descobriu o que a intelligentsia brasileira está produzindo, estimulada pela visão eticamente revolucionária da dupla Betti e Tiso:

- Marilena Chauí acaba de escrever Exame do excremento em Espinosa – uma exegese estética do estrume. No ensaio, a intelectual tenta mostrar as pontes – "inesperadas mas inequívocas", como ela mesmo diz no prefácio – entre o modo petista de governar e o papel do excremento na visão panteísta de mundo do filósofo, que aparece em alguns textos de Espinosa tidos como apócrifos por alguns estudiosos, mas não por Marilena. A musa da esquerda, aliás, nega a interlocutores próximos ter dito que "quando Lula fala, o mundo se ilumina". Sua frase original era um pouco diferente: "quando Lula caga, o mundo se ilumina". Marilena pensou em escrever um artigo para a Folha para corrigir o erro, mas desistiu depois de perceber que o sentido da frase é o mesmo nas duas versões. A Caros Amigos deve publicar o ensaio em sua edição de setembro
- José Celso Martinez Corrêa também decidiu pegar carona no tema. Ele vai montar Merda!, texto pouco conhecido de Antonin Artaud. "O espetáculo mostra a importância do excremento como meio eficaz de contestar a ordem da sociedade conservadora e machista, por meio de uma desconstrução dionisíaca", diz Zé Celso no texto sobre a peça, que tem cinco horas de duração. Mantendo o caráter interativo do Teatro do Oficina, quem levar um quilo de merda não perecível não precisa pagar o ingresso
- Ary Toledo é outro que entrou na onda. O humorista está fazendo shows pelo interior do país contando piadas sobre o quadro político brasileiro. Segundo Toledo, a piada que faz mais sucesso é a seguinte: "O que acontece quando um petista escorrega na merda? Aumenta o monte."
- O próprio Paulo Betti decidiu aproveitar o momento de popularidade para encenar o monólogo Metendo as mãos na merda – memórias da militância, um texto de sua autoria. Ele mesmo não nega que se trata de uma autobiografia mal disfarçada. "Quem fez filmes como Lamarca ou Mauá pode falar de merda com autoridade", disse ele ao Torre de Marfim. A trilha sonora, como não poderia deixar de ser, é de Wagner Tiso. O patrocínio é da Manah

Não é bonita a criatividade dos intelectuais e artistas brasileiros?



setembro 03, 2006

O melhor

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Philip Roth, herói intelectual do blog

O homem parece um relógio. A cada um ou dois anos, Philip Roth lança um livro que oscila entre o muito bom, como The dying animal e Everyman, e a obra-prima, como Operation Shylock, Sabbath's theater, American Pastoral e The human stain. Eu li Everyman (o mais recente) nas férias. É um romance curto, sobre a aproximação da morte e o peso da velhice.
Eu já estava com vontade de ler o livro, mas o que me fez correr para comprar foi um debate que eu vi na televisão quando estava em Amsterdã. Era um programa da BBC em que três jornalistas - duas mulheres e um homem - discutiam literatura. A primeira a comentar Everyman foi uma loira bonita. Disse que tinha adorado o livro e que Philip Roth é o maior escritor americano vivo. Os dois outros jornalistas discordaram. O repórter, fazendo cara de nojo, anunciou que “odiava Philip Roth”, e disse que tinha “odiado” Everyman por ser um livro misógino, citando uma passagem em que o personagem principal se refere a uma certa parte da anatomia – adivinhe qual - de uma de suas mulheres. “O livro é misógino”, definiu ele, com um ar de repulsa. A outra repórter, muito feia, concordou e foi mais longe: “Todos os romances dele são misóginos”. Eu já tinha lido vários livros de Philip Roth, e nenhum deles me pareceu misógino. Comprei o livro e li em três dias. Maravilhoso, como de costume, e sem nenhum traço de misoginia. Uma frase que resume, de algum modo, o espírito de Everyman: “Old age is not a battle; old age is a massacre”. Como disse um amigo meu, comentando o livro e a seqüência de romances de Philip Roth nos últimos anos: “Tenho a impressão de que não é possível ir muito além disso”.
Depois que eu li o livro, ficou claro por que o repórter com cara de nojo e a jornalista feia tinham dito que o romance é misógino. A questão é que ninguém escreve sobre sexo e sobre a importância do sexo como ele. Tem gente que se assusta com isso, principalmente porque ele pode tratar do assunto com crueza e ironia ao mesmo tempo. “No matter how much you know, no matter how much you think, no matter how much you plot and you connive and you plan, you're not superior to sex”, diz ele em The dying animal. Outra passagem deliciosa: “The decades since the sixties have done a remarkable job of completing the sexual revolution. This is a generation of astonishing fellators”. E o trecho de Everyman que causou repulsa ao repórter da BBC: “For the first two days he was always diddling around her ass with his fingers while she went down on him, until finally she looked up and said, 'If you like that little hole, why don't you use it?'”
E sexo é apenas um dos assuntos dos quais ele trata em Everyman. O foco do livro, como eu já disse, é o peso da velhice e a proximidade da morte. Nada que é humano é estranho a Philip Roth – o maior escritor vivo, na minha opinião. Por tudo isso, largue aquele romance metido a inteligente do Paul Auster e saia correndo para comprar o primeiro livro do Philip Roth que encontrar. Qualquer um. Você não vai se arrepender



Happy birthday

Nem parece, mas o Torre de Marfim completou ontem um ano de vida. Obrigado a todos os que já leram e, principalmente, aos que continuam a ler o blog. Espero que vocês se divirtam tanto quanto eu e o Arranhaponte



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

* Alexandre Soares Silva
* Chá das Cinco
* Diacrônico
* Filthy McNasty
* FYI
* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
* Roma Dewey


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