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Das desonestidades

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Não dá para discutir com um cara desses

O que me impressionava no PT, desde lá o comecinho, era a desonestidade intelectual. Nos tempos da alta inflação, ainda antes do descontrole total, a luta petista e cutista era para indexar em prazos cada vez mais curtos os salários, e, por conseguinte, a economia - de anual para mensal para semanal para diário para horário etc -, quando era evidente que este era o caminho para a hiperinflação. Todo mundo que conseguia somar dois e dois sabia que era. Mas o PT estava lá, na vanguarda da berraria pela indexação, infernizando e inviabilizando as débeis tentativas de sucessivos ministros da Fazenda de tomar um mínimo pé da situação. E havia também a questão fiscal, o PT fechando questão raivosamente contra toda e qualquer tentativa de reformar a Constituição de 1988 que, caso tivesse sido implementada na sua debililidade mental primeva, já nos teria levado a níveis de desenvolvimento sub-saharianos há algum tempo. E havia a pregação pelo calote da dívida externa, a tentativa de impugnar a Lei de Responsabilidade Fiscal, a sabotagem sistemática de toda e qualquer tentativa de botar a casa em ordem. Bem, quando o PT chegou ao poder, todo mundo sabe o que aconteceu. Vinte anos de defesa de receitas de caos foram jogados no lixo no espaço de alguns meses, e o governo, sob o ponto-de-vista macroeconômico, praticamente replicou o que os odiados "neoliberais" vinham tentanto fazer há mais de uma década (e nunca conseguiram fazer direito, pela oposição ferrenha do PT aliada aos políticos fisiológicos do lixão partidário do Congresso).
Mesmo antes do PT chegar ao poder, já estava claro para mim que eles não fariam as loucuras que desde sempre haviam defendido. Já estava claro a enormidade da desonestidade intelectual petista. O que não estava claro era até que ponto a desonestidade intelectual estava ligada à outra, à desonestidade material. O petista era aquele tipinho self-righteous que chegava na roda de conversa e ficava falando emocionadamente sobre o quanto o seu partido era honesto neste mundo tão torpe e vil, etc e tal. Este papo sempre me deu ânsias de vômito mas, vá lá, os caras repisavam tanto que eu até dava algum crédito de confiança e pensava - "vai ver eles são de fato um pouco menos ladrões que a média". Mas antes mesmo do Lula chegar lá, minhas ilusões desvaneceram-se quando escândalos vários começaram a pipocar na rede de coleta das prefeituras paulistas - Santo André, Ribeirão Preto e outras.
Lula tomou posse, e eu já achava que o PT estava pelo menos na média de ladroagem dos partidos menos corrompidos (o que não quer dizer que o sejam pouco), como um PSDB ou um PPS. E aí os escândalos foram aparecendo, crescentes, chocantes, as cenas degradantes multiplicando-se, cuecas, carecas, surubas, a gentalha dos sindicatos, a gentalha das estatais, granodutos para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, alianças entusiásticas e afetuosas com a latrina da política nacional. E os figurões caindo feito jacas podres e fedorentas, o Dirceu enroscado lubricamente com o Jefferson, o Palocci privilegiando-se do posto na sala de comando da economia nacional para bisbilhotar a vida bancária de um bagrinho incômodo, o Genoíno assinando a papelada calhorda do Valério, o Gushiken já nem me lembro o quê.
Bem, não vou nem falar do dossiê, mas a esta altura já ficou clara a total falta de limite e compostura do jeito PT de se corromper no pudê. E eu me pergunto de novo, e ainda não consigo lavrar uma resposta definitiva, se a cavalar desonestidade intelectual do PT na oposição está ligada à elefantina desonestidade material do PT no governo. Aceito palpites dos nossos parcos leitores sobre esta palpitante e palpitável indagação

P.S: Aí, Matamoros. Se leitor nenhum se interessar pela questão, você também serve



F. Arranhaponte at 03:26 PM | Comentários (5)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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