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"São uns orrrrrrdinários"

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Tia Violeta é que era uma mulher paulistana de verdade. Solteirona, católica fervorosa, ultra-reacionária, enérgica, ela percorria as ruas da metrópole no seu fusquinha até a idade avançada de 70 e não sei quantos anos, administrava um sopão só para moças no Centro, e ocupava-se com as mil e uma coisas com as quais uma velhinha cheia de gás costuma se ocupar. Morava numa casa no Pacaembu, onde algumas das atrações eram a enorme tartaruga no quintal e o acervo de fotografias da família que, remotando talvez há duas ou três gerações anteriores à dela, com bigodudos enfatiotados do século XIX sentados ao lado de suas digníssimas esposas (em pé, oh tempos), ia até o último retrato do pimpolho ou pimpolha nascidos da profusão de sobrinhos-netos. A exibição permanente desenrolava-se a partir do hall de entrada, onde ficavam os ancestrais remotos, e, esticando-se sinuosamente pelas paredes, subia a escada, atravessava os corredores, percorria os dormitórios e ia morrer (cronologicamente, nos pimpolhos) no quarto da tia Violeta.
A sua comida, minuciosamente caseira e tradicional, era o nirvana gastronômico da parentada (a maioria paulistanos, com uma diáspora carioca, da qual faço parte). Dizem que a comida do sopão, administrado com mão de ferro pela Tia Violeta, era tão boa que atraía um número não desprezível de moças muito acima da categoria social de secretariazinhas e lojistas à qual era direcionado. Aliás, foi em torno do sopão um dos momentos antológicos da tia Violeta. Numa homenagem a mulheres benemerentes, dedicadas a obras sociais, o então cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns ia de senhora em senhora alinhadas num palco, transmitindo suas efusivas congratulações. Matreira e rancorosa, tia Violeta trocou de lugar durante o trajeto de cumprimentos do Cardeal Arns, só para não apertar a mão do padre esquerdista que combatia a "Revolução".

É, a tia Violeta não era nenhuma velhinha inofensiva não. Me lembro que sua popularidade entre os sobrinhos-netos adolescentes era bem maior do que junto às sobrinhas-netas. Para nós meninos, ela era apenas aquela tia-avó reacionária e inteligente, com a qual curtíamos ter discussões acaloradíssimas (nesta faixa etária, naqueles tempos, todo mundo era ao menos vagamente de esquerda - coisas dos anos 60 e 70). Para as meninas, ainda às voltas com a nascente e problemática tarefa de se liberar sexualmente, o puritanismo feroz e beligerante da tia Violeta era um forte incômodo.
Tia Violeta era uma reacionária paulistana de boa cepa, que, se por um lado apoiava a ditadura incondicionalmente e não estava nem aí para relatos de torturas e assassinatos ("guerra é guerra", "isto é mentira dos comunistas", etc), por outro abominava corruptos vulgares como Maluf e Quércia. Ela tinha um bordão para se referir a esta escumalha política: "É um orrrrrrrdinário", dizia tia Violeta, com um vibrato deliciosamente depreciativo no erre prolongado. É verdade, devo admitir, que tia Violeta incluía até figuras honradas como o Dr. Ulysses na categoria dos orrrrrrrdinários. Mas, tirando os exageros, e fazendo todas as ressalvas sobre a minha total e absoluta discordância em relação aos métodos e méritos da ditadura, ela tinha um ponto. Acho que o bordão da tia Violeta era e ainda é a mais perfeita tradução da quintessência de 90% da política brasileira.
Eu me pego olhando fascinado para estes tipos lombrosianos, que sempre abundaram nos PMDBs, PFLs, PPs, e PTBs da vida, e que agora, na versão lumpen-sindical, afloram como minhocas em pânico de todos os cantos e escaninhos do palácio do Planalto - ali mesmo, bem juntinho, quase encostados no Lula - e tudo o que eu penso e tenho a dizer é: "São uns orrrrrrrdinários".
E eu também me pego lendo os colunistas políticos prestigiados da imprensa - e não vou aqui fazer uma catilinária contra o suposto esquerdismo gramsciano que domina a nossa mídia não; estou falando de profissionais razoavelmente competentes, que respeito -, com suas referências freqüentes à "bobagem monumental", à "trapalhada", ao amadorismo dos vendedores e compradores de dossiê em plena campanha eleitoral, e aí eu penso: cacete, quer dizer então que o erro resume-se à incapacidade de traficar os dossiês com eficiência, e não ao fato de que o ato em si de traficar dossiês é proibido e imoral. E, nessas horas, quando assisto ao espetáculo desta canaille horrenda, com barba por fazer, pega com as calças na mão e balbuciando justificativas grotescas, e noto, simultaneamente, o beneplácito concedido pelos bens pensantes às atividades daquela "raça", eu sinto saudades do moralismo rígido da tia Violeta. Eu sei, eu sei, deixem-me ser o primeiro a tacar as pedras, jogo verticalmente para cima e elas voltam direto para o meu cocuruto. O moralismo seletivo da tia Violeta condenava o submundo da política mas não os porões da ditadura. Eu sei, eu sei. Não há aqui nenhuma tentativa de amarração lógica para demonstrar que, no final das contas, tia Violeta era quem tinha razão.
A minha nostalgia da tia Violeta neste momento deve-se apenas ao fato de que não consigo achar uma síntese melhor, não só para este políticos horrorosos e seus capangas hediondos, mas também para o estado geral da Nação, seu povo, elites, intelectuais, periquito e papagaio, do que o velho bordão ­- "Somos todos uns orrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrdinários"



F. Arranhaponte at 12:08 PM | Comentários (5)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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