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O Fellini brasileiro
Caro Neville,
É com emoção que escrevo esta carta. Assisti no domingo a sua versão de Matou a família e foi ao cinema. Coisa fina. Eu tinha visto o original do Júlio Bressane. Você conseguiu o que eu achava impossível: superou o original. O seu é muito pior, e saiba que eu considerava o do Bressane imbatível. Eu já disse em muita mesa de bar que ele tinha feito o pior filme brasileiro de todos os tempos. Que nada. Você foi muito mais longe.
O seu filme tem momentos antológicos, dificilmente igualáveis:
- As seqüências em que o mendigo (?) rouba calcinhas são de um lirismo tocante, principalmente quando ele ameaça a vítima com uma garrafa quebrada
- O bêbado que mata a família depois de ser humilhado pela mulher dá um show de interpretação. É de uma sutileza incrível. Eu gostei especialmente do momento em que ele, depois de assassinar a mulher e a filha, dança ao som de uma marchinha
- Uma das minhas cenas preferidas é um diálogo entre a Cláudia Raia e a Louise Cardoso. O ponto alto é quando a Cláudia Raia diz: “Eu quero um delírio infinito. Eu quero ter uma relação cósmica com alguém”. Vai escrever bem assim no inferno
- O filme tem Alexandre Frota como o sujeito que mata a família e vai ao cinema. Não preciso dizer mais nada sobre a qualidade do elenco
- A cena do delírio (ou sonho?) da Cláudia Raia com o cavalo branco é linda. Vestida como uma pomba gira, ela acaricia lubricamente o animal e morde o dedo com uma expressão de prazer. Depois tira a saia, mostrando os pêlos pubianos. É o seu famoso bom gosto em ação, que eu já conhecia de filmes como A dama do lotação, Os sete gatinhos e Rio Babilônia (aliás, acabei de ler uma entrevista em que você, questionado sobre quais seriam as referências cinematográficas de Rio Babilônia, diz que gosta muito de A doce vida, e que sua admiração pelo filme talvez o tenha inspirado. Sabe que eu sempre achei que você fosse o Fellini brasileiro?)
- Também é delicada a cena em que a Cláudia Raia e a Louise Cardoso transam na sala, jogando leite, vinho e frutas uma na outra. Que sensualidade
- O duelo em que as duas trocam tiros é inesquecível. O sangue feito com mercurocromo é genial. Mostra que você não tem medo do ridículo, pelo contrário
- A cena em que duas adolescentes transam e são descobertas pela mãe de uma delas também é única. “Sua bruaca enrustida. Você está fodida na minha mão”, grita uma delas, que aparece com o sovaco peludo. Depois da briga, a filha mata a mãe com uma paulada na cabeça, enquanto a outra, para mostrar sua indiferença, lixa as unhas
- O grand finale é bom: você, de costas para o mar, lê um jornal cuja manchete é O povo está fudido – a inflação dispara. Que sutileza
Você escolheu um caminho difícil. Num país de cinematografia indigente, nada mais raro do que fazer um filme ruim que realmente se destaque. Com Matou a família e foi ao cinema, você superou os limites do mau gosto e da cafonice. Mas acho que você - e apenas você - pode ir além. Só Neville D'Almeida é capaz de fazer um filme pior do que os de Neville D'Almeida
Por tudo isso, aceite um cordial abraço do
Matamoros


