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"E possuí então a morena de pernas bem torneadas"
Nos meus pouco mais de 35 anos, eu não tive nenhuma profissão esdrúxula. Não fui caixeiro viajante, cafetão ou camelô. A narrativa de minha vida profissional só não é totalmente monótona porque, durante alguns meses de 1995, fiz a revisão dos relatos de experiências sexuais verídicas dos leitores da Big Man Internacional (era internacional mesmo, e não international, mas não me pergunte o motivo).
Sim, meus amigos, há gente que envia histórias de suas aventuras sexuais para o fórum de leitores de revistas pornográficas como a respeitada e extinta Big Man Internacional. Como a maior parte das pessoas, eu acreditava que elas eram criadas por algum funcionário da revista. "Quem é que vai ter o trabalho de escrever e enviar essas bobagens?", pensava então um ingênuo Matamoros.
Mas eu estava enganado, como descobri no dia em que um colega de trabalho perguntou se eu não queria ganhar um dinheirinho extra, copidescando uns “textos diferentes”. Eu fiquei interessado e perguntei o que eram os “textos diferentes”. Ele tirou da mala um exemplar da Big Man Internacional, abriu na página de um relato e disse: "É revisar as cartas que os leitores mandam", explicou. Achei que ele estava me sacaneando, mas logo percebi que o meu amigo falava sério. Atrasado com o fechamento, ele me passou umas cinco cartas e um exemplar, para ter uma idéia de que "tom" eu deveria dar aos relatos.
A maior parte das cartas era escrita à mão, em português péssimo. Além de mal escritas, algumas não conseguiam nem ao menos ter uma história razoavelmente coerente. Como a Big Man Internacional não era espaço para experimentos lingüísticos e narrativos, eu tinha de colocar alguma ordem nos relatos. "Mas respeite o espírito do original, se não os caras reclamam que a gente deturpa", recomendava o meu amigo.
Havia algumas exceções. Lembro até hoje de um relato muito bem escrito, intitulado Nossa nudez foi premiada. O sujeito, que gostava de ver sua mulher transando com outros, podia ser corno, mas sabia escrever.
É claro que alguns leitores mentiam bastante. Acho que uns 40% inventavam a história inteira. Nesses casos, a estrutura da carta era quase sempre a mesma. O sujeito estava em sua oficina mecânica, por exemplo, à espera de algum cliente. De repente, uma mulher com rosto lindo e corpo escultural chegava, reclamava dos problemas do seu carro e, sem mais nem menos, pedia para ser possuída em cima do capô. Também era muito comum o leitor que se via constrangido a transar com a cunhada ou com a sogra, ou a leitora que era seduzida pelo cunhado ou pelo sogro – em uma das histórias, uma leitora cedia ao assédio do avô do marido, que preferia pescar com os amigos de infância a cumprir suas obrigações conjugais – como ela escreveu.
Mas muitos relatos pareciam verdadeiros, ou pelo menos eram bastante verossímeis, ainda que nunca aparecesse mulher feia nas histórias. Aliás, em 99% dos relatos, as mulheres tinham pernas bem torneadas, e os homens eram sempre bem dotados.
Apesar das freqüentes menções a pernas bem torneadas, a linguagem era a mais chula possível. Algumas histórias fariam enrubescer até o mais desbocado dos borracheiros.
O código de ética da Big Man Internacional era rígido para uma revista pornográfica. Era proibido aparecer menor de idade. Se a carta citava alguém com 14, 15 ou 16 anos, nós mudávamos para 18. Incesto também não podia de jeito nenhum. Um veto curioso era à menção de marcas comerciais. Ninguém transava num Gol ou num Palio, por exemplo; o sexo ocorria "em um carro". “É melhor tomar cuidado. Uma vez um shopping center quase processou a revista porque apareceu numa história”, explicava o meu amigo.
Muitos leitores usavam os relatos para conhecer parceiras, enviando o número de uma caixa postal para receber cartas. Para evitar fraudes, era obrigatório mandar a cópia do recibo de pagamento da caixa postal e um xerox da carteira de identidade. Era bastante divertido ver que sujeitos feios como o diabo conquistavam mulheres lindas, com corpos esculturais e, claro, pernas bem torneadas.
Depois de uns seis meses, o meu salário aumentou, passei a trabalhar mais e tive de abrir mão da revisão das cartas. O meu amigo insistiu por algum tempo para que eu continuasse, mas tive de desistir. A grana não era muita, mas era um trabalho divertido. Bons tempos!


