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"Aê, mongol"*
Manifestações de burrice ou ignorância me irritam bastante, mas há casos em que a estupidez é tamanha que chega a ser poética. Nos últimos dias, inspirado pelo clima de indigência mental do país, eu me lembrei de quatro histórias em que a falta de inteligência ou de informação atingiu um nível admirável. Para que não me acusem de egoísmo, decidi compartilhá-las com vocês:
A primeira ocorreu na Fefeleche, a veneranda Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Um dos poucos bons professores da faculdade entra na sala mal humorado, resmungando e repetindo imprecações em voz baixa. O emputecimento do mestre, sempre tão afável, leva os alunos a perguntarem o motivo da ira. Com o lábio trêmulo e o olho rútilo, o professor conta que, na aula anterior, para outra turma, uma aluna o interrompeu com um pergunta muito perspicaz, enquanto ele discutia a formação da literatura brasileira:
- Professor, quando foi o século 17?
A segunda também ocorreu na USP, numa aula de história da fotografia do curso de Artes Plásticas. Algumas velhinhas assistiam as aulas como ouvintes, por conta de um convênio da USP com não sei qual entidade de apoio à terceira idade. Uma das mais empolgadas era uma senhora de uns 70 anos, que anotava tudo no seu caderninho. Nas três primeiras aulas, ela ouve calada. Na quarta, não resiste:
- Professor, o senhor fala bastante da fotografia no século 19, no começo do século 20. Por que nunca menciona a fotografia da época do descobrimento do Brasil, por exemplo?
Informada de que a fotografia era bem mais recente, a velhinha, incrédula, pergunta:
- Ué, mas e a fotografia de Cristo?
A terceira história me atrai por combinar burrice e ignorância. Numa aula de história no colegial (para os nossos leitores teens, o atual ensino médio, se é que ainda não mudou de nome), o professor diz que tal rei foi decapitado. A aluna, conhecida por seus comentários percucientes, pergunta:
- O que que é isso?
Os próprios coleguinhas se encarregam de explicar que o rei teve a cabeça cortada, o que provocou nova dúvida:
- Mas ele morreu?
A última ocorreu num curso de mercado de capitais para jornalistas. Numa aula sobre fundos de investimento, o diretor de um banco discorre sobre os fundos de 30 dias, hoje extintos. Uma das alunas, que certamente acreditava na balela de que jornalista não deve ter vergonha de perguntar, levanta a mão e dispara:
- Qual é o prazo do fundo de 30 dias?
A pergunta é difícil, mas o professor não hesita:
- 30 dias
Depois não digam que este blog não serve para nada
PS: Eu devo as três primeiras histórias aos relatos de três amigas sempre atentas a qualquer manifestação de estupidez. A elas, o meu mais sincero e profundo agradecimento
* Expressão usada na minha escola quando alguém dizia uma grande bobagem. Hoje, falar algo semelhante provavelmente leva à expulsão


