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Droga, já está na hora do show
A avalanche de pedidos dos leitores não nos deixou opção. Abrimos mais uma vez a caixa-preta das nossas maquinações intelectuais, em um diálogo no qual, com a habitual nonchalance, percorremos os terrenos díspares mas interligados da ética, cinema, biologia, reprodução, papel do Estado, sistema prisional, conflito de classes e otras cositas más.
Apertem os cintos, porque mais uma alucinante viagem pelo vulcânico interior de duas mentes de exceção (e não só no sentido psiquiátrico) vai começar
Matamoros: Tudo bem? Como foi o fim de semana?
Arranhaponte: Foi bom, fui aos Jardins Botânico e Zoológico e assisti "O Bicho vai pegar". E fiz dever de casa também
Matamamoros: Eu também fui ao Zoológico, acredite ou não. Eu gosto de ir
Arranhaponte: ... (silêncio constrangido)
Matamoros: Algum problema pelo fato de eu ter ido zoológico sem ter filhos? Eu também vi o filme do Almodóvar, isso me ajuda?
Arranhaponte: Qual filme?
Matamoros: "Volver", muito bom, e nada infantil. Mas eu gosto do zoológico há muito tempo, que hei de fazer?
Arranhaponte: Nada. Se eu não fosse teu amigo, diria que paulista no fim-de-semana vai ao Zoológico quando o aeroporto está sem teto. Mas como sou seu amigo não farei o comentário
Matamoros: É o velho truque de fazer o comentário dizendo que não vai fazê-lo. Mas vá ver o Almodóvar. Não é tão bom quanto ver o tigre, mas chega perto
Arranhaponte: Que horas você foi ao zoológico? Estou desenvolvendo uma tese sobre horários de visitação ao zoológico
Matamoros: Das 12h às 16h, mais ou menos. Por quê?
Arranhaponte: 4 horas de zoológico? Sem comentários.
Matamoros: O zoológico de São Paulo é grande. Você não deve deixar que suas filhas vejam mais do que dois bichos, coitadas
Arranhaponte: Bem, mas os animais estavam sonolentos? A minha teoria é a seguinte: um ser humano cosmopolita dorme em média à 1 hora da manhã. Um pacato cidadão do interior às 10. Um camponês analfabeto às 7. Um ser tribal perdido no meio do nada às 4. E os animais diurnos à 1 da tarde mais ou menos. Quer dizer, você chega no zoológico e todos os animais já foram dormir. Uma teoria alternativa é que eles apenas estejam fazendo a sesta. Mas é a teoria fácil, que geralmente está errada. No zoológico do Rio, os animais dormem da forma mais despudorada o tempo todo. Exceto os macacos, que têm aquela inquietação e desperdício de energia típicos dos humanos - eu jamais botaria minhas fichas neste ramo da criação há 7 milhões de anos. E em São Paulo, o zoológico também se resume a um dormitório de animais?
Matamoros: Eles dormem bastante, especialmente os felinos, que são os meus bichos preferidos (eu já antevejo sua expressão de ironia ao saber que tenho bichos preferidos). Mas há um passeio rápido pelo antigo Simba Safári em que se vê de perto tigres e leões, que estão parados, mas não dormindo. Você acha que ir ao zoológico é a mais ultrajante experiência a que um adulto pode ser submetido?
Arranhaponte: Confesso até que foi muito menos programa de índio do que imaginei. Mas me irrita um pouco essa imobilidade de esfinge daqueles que são sustentados no bem-bom com o dinheiro dos nossos impostos para supostamente nos divertir. Acho que há algo de fundamentalmente errado em financiar parasitas que são incapazes de mover uma palha (e muito menos seus corpos) para trazer um pouco de alegria às nossas crianças. E aos adultos também, como noto com este diálogo
Matamoros: Eu sou favorável a um zoológico de resultados. Por exemplo, só alimentar os animais no horário de visitação, depois de muitas horas sem comer nada. De preferência, dando presas vivas aos carnívoros. Outra coisa: seria importante que, pelo menos no horário de visitação, os animais não pudessem ficar escondidos atrás de moitas e plantas. Deveriam ser obrigados a no mínimo ficar visíveis. Se se aproximassem de lugares escondidos, poderiam tomar uns choquinhos. Alguém poderá dizer que isso estressaria os animais, mas convenhamos: o que há de mais estressante do que viver na selva, quando a qualquer quebrada na floresta - supondo que floresta tenha quebrada - pode haver um predador interessado em comê-lo? No zoológico, o bicho não faz nada e tem quem o alimente o tempo todo
Arranhaponte: No Zoológico do Rio tem uma passarela suspensa sobre um terreno relativamente grande, meio que uma savaninha de araque, com diversos animais soltos: veados, avestruzes, capivaras, lhamas, etc. É claro que não tem carnívoro. Mas se tivesse, a carnificina seria com certeza um grande sucesso de público. A Prefeitura poderia cobrar ingressos, colocar o preço lá nas alturas, e usar o dinheiro arrecadado para uma campanha pela Pazzzzz.
Matamoros: Mas há uma coisa que de fato me irrita quando vou ao zoológico: é ver o comportamento dos sujeitos de baixa renda, que não param de alimentar os animais e ficam putos com a falta de interatividade dos bichos. É muito comum o sujeito começar a gritar: Leão, ô, leão, acorda, leão, deixa de ser vagabundo, leão!
Arranhaponte: Confesso que tive ímpetos de fazer o mesmo, mesmo sendo milionário. Dinheiro sem pedigree não serve para nada


