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dezembro 28, 2006
O continente inviável
dezembro 24, 2006
A nanocorrupção II
Pois eu vejo valor no pequeno corrupto, este abnegado que carrega nas costas o cotidiano da desonestidade, sem pensar em grandes recompensas, glórias, apartamentos em Miami ou cachorras de luxo. Na sua humilde lida, desviando um caraminguá aqui, liberando uma merreca acolá, ele leva adiante com seu trabalho modesto e negligenciado a arte centenária da propina, esta vocação coletiva da nacionalidade, fundamento e razão de ser da civilização brasileira. O pequeno corrupto é o trampolim, o último homem do super-homem petista, abrindo caminho, com seu pertinaz empenho em sujar as mãos na pequena merda, para os píncaros da coprocracia nacional. Não pode deixar de ferir uma nota pungente nas cordas de um coração sensível este comovente desapego do pequeno corrupto, que coloca em risco a reputação, a tranqüilidade da família, o aconchego da admiração coletiva, em nome do ideal puro, cristalino, translúcido, da safadeza. Com seus dedos suarentos e trajes amarfanhados, arrostando o desprezo, a indiferença e o sarcasmo de uma sociedade que não perdoa o crime sem recompensa, o pequeno corrupto é a prova viva do espírito indômito, indestrutível, que pulsa nos recônditos do Brasil profundo. E mais não digo porque a emoção tomou conta de mim. Snif, snif. Feliz Natal para todos
Pois eu vejo valor no pequeno corrupto, este abnegado que carrega nas costas o cotidiano da desonestidade, sem pensar em grandes recompensas, glórias, apartamentos em Miami ou cachorras de luxo. Na sua humilde lida, desviando um caraminguá aqui, liberando uma merreca acolá, ele leva adiante com seu trabalho modesto e negligenciado a arte centenária da propina, esta vocação coletiva da nacionalidade, fundamento e razão de ser da civilização brasileira. O pequeno corrupto é o trampolim, o último homem do super-homem petista, abrindo caminho, com seu pertinaz empenho em sujar as mãos na pequena merda, para os píncaros da coprocracia nacional. Não pode deixar de ferir uma nota pungente nas cordas de um coração sensível este comovente desapego do pequeno corrupto, que coloca em risco a reputação, a tranqüilidade da família, o aconchego da admiração coletiva, em nome do ideal puro, cristalino, translúcido, da safadeza. Com seus dedos suarentos e trajes amarfanhados, arrostando o desprezo, a indiferença e o sarcasmo de uma sociedade que não perdoa o crime sem recompensa, o pequeno corrupto é a prova viva do espírito indômito, indestrutível, que pulsa nos recônditos do Brasil profundo. E mais não digo porque a emoção tomou conta de mim. Snif, snif. Feliz Natal para todos
dezembro 23, 2006
A nanocorrupção

Me compra aí, vai, é baratinho
O grande corrupto é uma figura banal. Não é dificil entender a motivação de um sujeito que se vende por milhões. O que me fascina é quem o faz por migalhas. Waldomiro Diniz é um deles. Foi flagrado pedindo uma comissão de 1% para o bicheiro Carlinhos Cachoeira, com quem negociava contribuições de R$ 150 mil para as candidaturas de Benedita da Silva e Rosinha Garotinho. Eu nunca tinha ouvido falar de comissão de 1%. É muito pé-de-chinelo.
Leio uma transcrição da conversa e fica claro que até Cachoeira se espanta com a exigência do amigo de José Dirceu. Deve ter pensado: por que o sujeito se arrisca por uma comissão de 1%?
Outro caso de nanocorrupção foi descoberto nesta semana. A Polícia Federal divulgou gravações de conversas do repórter José Messias Xavier, da TV Globo, com integrantes da quadrilha de Fernando Ignácio, um dos chefes da máfia dos caça-níqueis no Rio. Messias recebia R$ 1 mil por mês em troca de informações. Por menos de três salários mínimos, jogou a carreira no lixo.
O mais óbvio é recorrer ao lugar comum de que todo homem tem seu preço, e concluir que sujeitos como Waldomiro e Messias foram comprados na xepa da corrupção. Não deixa de ser verdade. A questão é que continua um mistério o que leva alguém a arriscar a reputação por tão pouco, sem nem mesmo ter a desculpa do desespero. Afinal, nenhum dos dois estava na pindaíba. A burrice de colocar em risco o pescoço por um trocado me deixa perplexo. Mas talvez eu esteja buscando uma dimensão shakespeareana onde existe apenas mediocridade.
Eu confesso que não sabia como terminar o post, até que me lembrei de algo que Machado de Assis escreveu sobre a pequena corrupção. Deixar um link para o conto Suje-se gordo! é sem dúvida o modo mais elegante de concluí-lo. Divirtam-se
PS: Os Apostos voltamos com as apostas. O tema deste mês é cambalacho

Me compra aí, vai, é baratinho
O grande corrupto é uma figura banal. Não é dificil entender a motivação de um sujeito que se vende por milhões. O que me fascina é quem o faz por migalhas. Waldomiro Diniz é um deles. Foi flagrado pedindo uma comissão de 1% para o bicheiro Carlinhos Cachoeira, com quem negociava contribuições de R$ 150 mil para as candidaturas de Benedita da Silva e Rosinha Garotinho. Eu nunca tinha ouvido falar de comissão de 1%. É muito pé-de-chinelo.
Leio uma transcrição da conversa e fica claro que até Cachoeira se espanta com a exigência do amigo de José Dirceu. Deve ter pensado: por que o sujeito se arrisca por uma comissão de 1%?
Outro caso de nanocorrupção foi descoberto nesta semana. A Polícia Federal divulgou gravações de conversas do repórter José Messias Xavier, da TV Globo, com integrantes da quadrilha de Fernando Ignácio, um dos chefes da máfia dos caça-níqueis no Rio. Messias recebia R$ 1 mil por mês em troca de informações. Por menos de três salários mínimos, jogou a carreira no lixo.
O mais óbvio é recorrer ao lugar comum de que todo homem tem seu preço, e concluir que sujeitos como Waldomiro e Messias foram comprados na xepa da corrupção. Não deixa de ser verdade. A questão é que continua um mistério o que leva alguém a arriscar a reputação por tão pouco, sem nem mesmo ter a desculpa do desespero. Afinal, nenhum dos dois estava na pindaíba. A burrice de colocar em risco o pescoço por um trocado me deixa perplexo. Mas talvez eu esteja buscando uma dimensão shakespeareana onde existe apenas mediocridade.
Eu confesso que não sabia como terminar o post, até que me lembrei de algo que Machado de Assis escreveu sobre a pequena corrupção. Deixar um link para o conto Suje-se gordo! é sem dúvida o modo mais elegante de concluí-lo. Divirtam-se
PS: Os Apostos voltamos com as apostas. O tema deste mês é cambalacho
dezembro 20, 2006
O espírito de Natal III

Os bancos brasileiros o fariam corar
Eu sei que alguns dos nossos leitores são economistas de gabarito, e é para eles que eu lanço a seguinte singela dúvida. Como se explica que a taxa de juros do cheque especial (que eu não uso nunca) do meu banco seja de 11% ao mês, ou 250% ao ano? Quando a taxa de juros básica estava em 40%, a inflação tinha surtos de recaída e eventualmente batia 30% anualizada em algum trimestre maluco, o país era mais instável do que o meu humor, etc, etc, vá lá. Vá lá não, para ser rigoroso. 250% ao ano não se justificava nem em plena turbulência de 2002. Mas façamos esta concessão: vá lá. Agora, porém, com juros básicos de 13,25%, inflação de 3%, estabilidade granítica nas contas externas, e coisa e tal, a taxa de juros do cheque especial continua em 250% ao ano por quê? Hoje eu recebi o meu extratinho pelo correio e fiquei extremamente irritado de ver lá: "Suas Taxas de Juros Contratadadas/Taxa a.m./Cheque Especial ---- 10,99%". Já não basta este 'ponto de compra' ridículo de qualquer coisa ",99", que é intragável em produtos no comércio em geral e francamente nauseabundo quando utilizado em taxas de juros extorsivas. O mais irritante, porém, é a desfaçatez com que estes caras sapecam na tua cara uma taxa de juros de 250% ao ano como se fosse a coisa mais normal do mundo. É o equivalente ao supermercado no qual eu faço compras me enviar um folheto pelo correio no qual esteja escrito "Seu preço para comprar bananas - R$ 500 a dúzia". Ok, eu não tenho a menor obrigação de comprar bananas por R$ 500 nem de usar o cheque especial com taxa de 250% ao ano. Mas a simples publicação de preços tão absurdos, ainda mais em uma correspondência enviada para a minha casa, já é ofensa grave. Estou com vontade de entrar na agência e tacar uma pedra na cabeça do gerente, coitado, que não deveria ser objeto da fúria que mais acertadamente dirigir-se-ia ao acionista. Tá bom, fico quieto no meu lugar. Mas vai segurar este espírito natalino que me contagia...

Os bancos brasileiros o fariam corar
Eu sei que alguns dos nossos leitores são economistas de gabarito, e é para eles que eu lanço a seguinte singela dúvida. Como se explica que a taxa de juros do cheque especial (que eu não uso nunca) do meu banco seja de 11% ao mês, ou 250% ao ano? Quando a taxa de juros básica estava em 40%, a inflação tinha surtos de recaída e eventualmente batia 30% anualizada em algum trimestre maluco, o país era mais instável do que o meu humor, etc, etc, vá lá. Vá lá não, para ser rigoroso. 250% ao ano não se justificava nem em plena turbulência de 2002. Mas façamos esta concessão: vá lá. Agora, porém, com juros básicos de 13,25%, inflação de 3%, estabilidade granítica nas contas externas, e coisa e tal, a taxa de juros do cheque especial continua em 250% ao ano por quê? Hoje eu recebi o meu extratinho pelo correio e fiquei extremamente irritado de ver lá: "Suas Taxas de Juros Contratadadas/Taxa a.m./Cheque Especial ---- 10,99%". Já não basta este 'ponto de compra' ridículo de qualquer coisa ",99", que é intragável em produtos no comércio em geral e francamente nauseabundo quando utilizado em taxas de juros extorsivas. O mais irritante, porém, é a desfaçatez com que estes caras sapecam na tua cara uma taxa de juros de 250% ao ano como se fosse a coisa mais normal do mundo. É o equivalente ao supermercado no qual eu faço compras me enviar um folheto pelo correio no qual esteja escrito "Seu preço para comprar bananas - R$ 500 a dúzia". Ok, eu não tenho a menor obrigação de comprar bananas por R$ 500 nem de usar o cheque especial com taxa de 250% ao ano. Mas a simples publicação de preços tão absurdos, ainda mais em uma correspondência enviada para a minha casa, já é ofensa grave. Estou com vontade de entrar na agência e tacar uma pedra na cabeça do gerente, coitado, que não deveria ser objeto da fúria que mais acertadamente dirigir-se-ia ao acionista. Tá bom, fico quieto no meu lugar. Mas vai segurar este espírito natalino que me contagia...
dezembro 19, 2006
O espírito do Natal II (a caixinha ou o voto)
A caixinha tem um sub-texto. Eles são pobres, são explorados. Você é um privilegiado, estudou e o cacete, agora tem que contribuir. Ok, mas então o pobre tem que me devolver o voto. Explico. Eu acho que ele continua pobre porque o País é comandado por uma besta como o Lula, que não aproveita a maravilhosa oportunidade conferida por um mundo em boom econômico para fazer as coisas que vão tirar o maior número possível de pessoas da pobreza no menor tempo possível. E este mesmo sujeito que vem me extorquir caixinha vota no Lula, que optou por transferir minha renda diretamente para o bolso dele (mesmo sujeito), via aumento do salário mínimo, do Bolsa-Família, desoneração da cesta básica, enquanto eu classe média (que confissão de mau-gosto) tenho que pagar cada vez mais impostos e pagar cada vez mais caro por serviços. A opção rejeitada pelo Lula e pelo pedinte de caixinha é a de usar o imposto arrecadado da minha renda para fazer o país crescer mais rápido.
Ora, então o cara vota no Lula, que manda eu dar meu dinheiro para ele, de uma forma que não vai fazer ele enriquecer por si próprio, e ainda vem me pedir caixinha no final do ano? Vai pra pqp, antes que eu me esqueça.
Das duas uma:
1) ou eu dou caixinha mas decido como o dinheiro dos meus impostos vai ser usado (e para isto ele tem que me devolver o voto para eu votar contra o Lula), e aí eu vou optar por transferir a grana para ele mesmo, pobre, de um jeito diferente, que vai fazer com que ele deixe de ser pobre aos poucos (educação, infra-estrututra, programas sociais inteligentes);
2) ou então eu financio compulsoriamente o aumento do salário mínimo, do Bolsa-Família, o inchamento do Estado até quase a grande explosão de merda - isto é, ele e o Lula decidem como vão usar o pedaço da minha renda que eles já estão tascando -, mas não me venham pedir caixinha (e podem ficar com os seus votos e não me encham o saco). Tenho dito!
PS: Na vida real, não é nada disso, devo confessar. Já separei boa parte do meu salário para as caixinhas, e vou acatar como um cãozinho medroso as ordens da diarista, que fixou o seu piso de caixinha em termos absolutamente peremptórios. Sou pusilânime, para usar a palavra consagrada pelo Matamoros
A caixinha tem um sub-texto. Eles são pobres, são explorados. Você é um privilegiado, estudou e o cacete, agora tem que contribuir. Ok, mas então o pobre tem que me devolver o voto. Explico. Eu acho que ele continua pobre porque o País é comandado por uma besta como o Lula, que não aproveita a maravilhosa oportunidade conferida por um mundo em boom econômico para fazer as coisas que vão tirar o maior número possível de pessoas da pobreza no menor tempo possível. E este mesmo sujeito que vem me extorquir caixinha vota no Lula, que optou por transferir minha renda diretamente para o bolso dele (mesmo sujeito), via aumento do salário mínimo, do Bolsa-Família, desoneração da cesta básica, enquanto eu classe média (que confissão de mau-gosto) tenho que pagar cada vez mais impostos e pagar cada vez mais caro por serviços. A opção rejeitada pelo Lula e pelo pedinte de caixinha é a de usar o imposto arrecadado da minha renda para fazer o país crescer mais rápido.
Ora, então o cara vota no Lula, que manda eu dar meu dinheiro para ele, de uma forma que não vai fazer ele enriquecer por si próprio, e ainda vem me pedir caixinha no final do ano? Vai pra pqp, antes que eu me esqueça.
Das duas uma:
1) ou eu dou caixinha mas decido como o dinheiro dos meus impostos vai ser usado (e para isto ele tem que me devolver o voto para eu votar contra o Lula), e aí eu vou optar por transferir a grana para ele mesmo, pobre, de um jeito diferente, que vai fazer com que ele deixe de ser pobre aos poucos (educação, infra-estrututra, programas sociais inteligentes);
2) ou então eu financio compulsoriamente o aumento do salário mínimo, do Bolsa-Família, o inchamento do Estado até quase a grande explosão de merda - isto é, ele e o Lula decidem como vão usar o pedaço da minha renda que eles já estão tascando -, mas não me venham pedir caixinha (e podem ficar com os seus votos e não me encham o saco). Tenho dito!
PS: Na vida real, não é nada disso, devo confessar. Já separei boa parte do meu salário para as caixinhas, e vou acatar como um cãozinho medroso as ordens da diarista, que fixou o seu piso de caixinha em termos absolutamente peremptórios. Sou pusilânime, para usar a palavra consagrada pelo Matamoros
dezembro 18, 2006
O espírito de Natal

Ele também merece caixinha, seu ingrato
O espírito natalino não perdoa. A poucos dias do fim do ano, a temporada de caixinhas está no auge. Na empresa, e-mails não param de lembrar que você não pode esquecer o dinheirinho dos contínuos. Afinal, os meninos – todos são meninos, ainda que alguns tenham mais de 30 – passam o ano inteiro nos ajudando. Eu jurava que esse era o trabalho deles, mas os pedidos de caixinha sugerem que não. Eu fico com a impressão de que eles não ganham nada o ano inteiro. Parece que vivem de janeiro a novembro das caixinhas recebidas no fim do ano anterior. É claro que o pessoal da lanchonete também recebe uma graninha.
No prédio, cartazes avisam gentilmente que a lista para os funcionários está na portaria. É óbvio que você vai dar alguma coisa para o pessoal que não faz nada o ano inteiro além de ajudá-lo, não é mesmo? Nesse ritmo, o meu 13.º já era. Ah, o entregador de jornal não deixa de mandar aquele cartãozinho, desejando boas festas e lembrando como ele é importante para sua vida. Quando eu morava em casa, os funcionários da Eletropaulo e da Sabesp também recebiam a caxinha, assim como os varredores de rua - ainda que na minha rua eles só aparecessem em dezembro.
Os próximos a pedir um dinheirinho serão os blogueiros. Aliás, não duvido que algum mais atrevido já tenha passado o pires virtual

Ele também merece caixinha, seu ingrato
O espírito natalino não perdoa. A poucos dias do fim do ano, a temporada de caixinhas está no auge. Na empresa, e-mails não param de lembrar que você não pode esquecer o dinheirinho dos contínuos. Afinal, os meninos – todos são meninos, ainda que alguns tenham mais de 30 – passam o ano inteiro nos ajudando. Eu jurava que esse era o trabalho deles, mas os pedidos de caixinha sugerem que não. Eu fico com a impressão de que eles não ganham nada o ano inteiro. Parece que vivem de janeiro a novembro das caixinhas recebidas no fim do ano anterior. É claro que o pessoal da lanchonete também recebe uma graninha.
No prédio, cartazes avisam gentilmente que a lista para os funcionários está na portaria. É óbvio que você vai dar alguma coisa para o pessoal que não faz nada o ano inteiro além de ajudá-lo, não é mesmo? Nesse ritmo, o meu 13.º já era. Ah, o entregador de jornal não deixa de mandar aquele cartãozinho, desejando boas festas e lembrando como ele é importante para sua vida. Quando eu morava em casa, os funcionários da Eletropaulo e da Sabesp também recebiam a caxinha, assim como os varredores de rua - ainda que na minha rua eles só aparecessem em dezembro.
Os próximos a pedir um dinheirinho serão os blogueiros. Aliás, não duvido que algum mais atrevido já tenha passado o pires virtual
dezembro 15, 2006
Vou te contar

Um brasileiro sofisticado
Falar mal de brasileiros consagrados é quase irresistível. Oscar Niemeyer? Arquiteto kitsch e stalinista despudorado. Rubem Fonseca? Mau escritor, repetitivo e masturbatório. Caetano Veloso? Baiano verborrágico que perdeu o rumo no começo dos anos 90. Mas é claro que há exceções entre os brazucas famosos no mundo da cultura. Tom Jobim é certamente uma delas. No sábado passado, fui ao All of jazz, onde vi um show do grupo de Mário Aphonso III, com repertório baseado em Wave e Tide e uma ou outra coisa de Stone Flower.
Foi a quinta ou sexta vez a que assisti ao show, que tem como ponto alto músicas desconhecidas como Mojave, Antigua ou Sue Ann. Entendo pouco do assunto, mas quando ouço qualquer disco de Tom Jobim fica claro por que os músicos de jazz costumam idolatrá-lo. O homem era realmente sofisticado – de quantos brasileiros se pode dizer o mesmo? Gosto de quase tudo dele, das mais óbvias como Chega de saudade, Garota de Ipanema, Samba de uma nota só e Desafinado até as pouco conhecidas como Mojave, por exemplo.
É verdade que ele poderia ter evitado os corinhos femininos meio Quarteto em Cy que aparecem em músicas como Gabriela, mas nem isso diminui minha admiração. Tom Jobim e Machado de Assis são dois dos poucos brasileiros que merecem toda a fama que têm

Um brasileiro sofisticado
Falar mal de brasileiros consagrados é quase irresistível. Oscar Niemeyer? Arquiteto kitsch e stalinista despudorado. Rubem Fonseca? Mau escritor, repetitivo e masturbatório. Caetano Veloso? Baiano verborrágico que perdeu o rumo no começo dos anos 90. Mas é claro que há exceções entre os brazucas famosos no mundo da cultura. Tom Jobim é certamente uma delas. No sábado passado, fui ao All of jazz, onde vi um show do grupo de Mário Aphonso III, com repertório baseado em Wave e Tide e uma ou outra coisa de Stone Flower.
Foi a quinta ou sexta vez a que assisti ao show, que tem como ponto alto músicas desconhecidas como Mojave, Antigua ou Sue Ann. Entendo pouco do assunto, mas quando ouço qualquer disco de Tom Jobim fica claro por que os músicos de jazz costumam idolatrá-lo. O homem era realmente sofisticado – de quantos brasileiros se pode dizer o mesmo? Gosto de quase tudo dele, das mais óbvias como Chega de saudade, Garota de Ipanema, Samba de uma nota só e Desafinado até as pouco conhecidas como Mojave, por exemplo.
É verdade que ele poderia ter evitado os corinhos femininos meio Quarteto em Cy que aparecem em músicas como Gabriela, mas nem isso diminui minha admiração. Tom Jobim e Machado de Assis são dois dos poucos brasileiros que merecem toda a fama que têm
dezembro 14, 2006
Já vai tarde

Engole o choro
Heloísa Helena abriu o berreiro em seu discurso de despedida do Senado. Como sempre, apelou para a demagogia. Eu não me comovi. A gralha alagoana não vai fazer falta nenhuma. Seu partido tem idéias debilóides, como a defesa do não pagamento da dívida externa e da reindexação mensal de salários. Ela fez uma campanha presidencial com um discurso populista, alternando propostas cretinas e metidas a revolucionárias com a pose de mulher meiguinha. Com Heloísa Helena fora do Senado, ficaremos livres por um tempo da ladainha da musa da esquerda raiz. O PSOL terá menos espaço na mídia, o que não deixa de ser uma boa notícia

Engole o choro
Heloísa Helena abriu o berreiro em seu discurso de despedida do Senado. Como sempre, apelou para a demagogia. Eu não me comovi. A gralha alagoana não vai fazer falta nenhuma. Seu partido tem idéias debilóides, como a defesa do não pagamento da dívida externa e da reindexação mensal de salários. Ela fez uma campanha presidencial com um discurso populista, alternando propostas cretinas e metidas a revolucionárias com a pose de mulher meiguinha. Com Heloísa Helena fora do Senado, ficaremos livres por um tempo da ladainha da musa da esquerda raiz. O PSOL terá menos espaço na mídia, o que não deixa de ser uma boa notícia
dezembro 13, 2006
Cinco Copas, nenhum Nobel

Homem do Renascimento
É inacreditável. Leio em editorial do Estadão que o Brasil sediou nos últimos dias a Olimpíada Internacional Júnior de Ciências, recebendo estudantes das mais diversas partes do mundo para uma competição de conhecimentos em química, biologia e física. Realizadas as provas, a cerimônia de premiação foi cancelada porque não rolou o dinheiro para comprar as medalhas. E a hospedagem dos competidores também não foi paga. O detalhe epifânico: a verba havia sido prometida pela Presidência da República, em negociação dos organizadores com ninguém menos que o Freud Godoy, o homem do dossiê na campanha. Mais abaixo

Homem do Renascimento
É inacreditável. Leio em editorial do Estadão que o Brasil sediou nos últimos dias a Olimpíada Internacional Júnior de Ciências, recebendo estudantes das mais diversas partes do mundo para uma competição de conhecimentos em química, biologia e física. Realizadas as provas, a cerimônia de premiação foi cancelada porque não rolou o dinheiro para comprar as medalhas. E a hospedagem dos competidores também não foi paga. O detalhe epifânico: a verba havia sido prometida pela Presidência da República, em negociação dos organizadores com ninguém menos que o Freud Godoy, o homem do dossiê na campanha. Mais abaixo
Minúcias da incompetência
Se a incompetência governamental é evidenciada por falhas retumbantes que podem gerar grandes riscos para a sociedade - e aí temos o apagão aéreo que por todos os motivos se tornou emblemático -, às vezes é nas insuspeitadas minúcias do descaso ou da burocracia trapalhona que se flagra de maneira mais precisa a generalizada desarticulação administrativa de um governo, capaz de transformar, como num passe de mágica, uma ótima idéia num robusto fiasco. Ótima idéia, sem dúvida, era o estímulo à competição educacional, representado pela participação do Brasil na Olimpíada Internacional Júnior de Ciências, como país-sede de um badalado evento com representantes de 31 países e participação de 180 estudantes. É consenso entre entidades educacionais, tanto de ensino básico quanto universitário, que a competição entre jovens de diferentes regiões do mundo, no campo da utilização do conhecimento e da criatividade, une o saber ao que de melhor existe no espírito esportivo, além de propiciar um saudável intercâmbio de culturas, idiomas e costumes entre os concorrentes. Não sem razão, pois, a Olimpíada Internacional Júnior de Ciências recebeu apoio, no País, além do Ministério da Educação (MEC), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Paulista (Unip), da Intel, da Embratur e da Prefeitura de São Paulo.
Estudantes da Inglaterra, do México, do Kuwait, de Taiwan, da Nigéria e de tantas outras regiões vieram aqui para, junto com os brasileiros, tentar responder às questões elaboradas pelos professores na Universidade de São Paulo e conquistar as 20 medalhas de ouro, 40 de prata e 60 de bronze - que, certamente, lhes seriam de grande importância no início da vida profissional, valorizando-lhes o currículo.
Mas a falta de dinheiro, 'descoberta' na última hora, estragou a festa da Olimpíada educacional, pela primeira vez realizada no Brasil. Os meninos e meninas se esforçaram ao máximo para resolver as três difíceis provas de química, física e biologia, mas a cerimônia de entrega de medalhas aos vencedores - prevista para segunda-feira à noite - foi simplesmente cancelada, por não ter surgido a verba, para tal fim, prometida pela Presidência da República - apesar de o logotipo do governo federal ter sido estampado em todo o material de divulgação do evento. E, para completar o fiasco - que não deixa de ter, como outros, sua dimensão internacional -, as diárias dos estudantes nos hotéis não foram pagas, deixando-se um calote de R$ 250 mil na rede hoteleira.
Segundo o coordenador da Olimpíada, Ozimar Pereira, a verba de R$ 250 mil havia sido prometida pela Presidência da República a partir de negociação, entabulada pelo coordenador com (adivinhem quem!...) Freud Godoy, o ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afastado do Planalto após ter sido acusado de participação no escândalo do dossiê Vedoin. É que 'o Freud tem uma irmã que é professora de física em São Carlos e por isso estava nos ajudando'. Eis, numa rápida pincelada, a demonstração de como são realizados os programas de estímulo governamental à educação - bem como os riscos a que estão submetidos em razão da bagunça que reina na administração federal 'aparelhada' pelo Partido dos Trabalhadores. 'Não dava para fazer a festa como se nada estivesse acontecendo' - desabafou o coordenador Ozimar Pereira, justificando seu inconformismo. Do MEC o evento recebera R$ 40 mil e contara com o apoio das entidades educacionais mencionadas. Cada delegação paga a taxa de US$ 1 mil, mas é o país-sede que se compromete a bancar estadia e alimentação de estudantes adolescentes e professores que os acompanham. 'Fomos totalmente enganados' - resumiu uma estudante indiana, que se identificou apenas como Mahajan, traduzindo o sentimento de frustração daqueles jovens que para aqui vieram cheios de entusiasmo pela competição. Aliás, a boa competição, no campo do conhecimento, é o estímulo que a juventude brasileira mais necessita, nestes tempos de tanta desvalorização do esforço do aprendizado e do desprezo pela meritocracia.
dezembro 12, 2006
Em defesa da burka

Vai ser feia assim lá na mesquita
Num post abaixo, falei do visual pouco atraente da ministra Dilma Rousseff. Nada como um dia após o outro: perto da bareinita Ruqaya Al Ghasara, Dilma é irresistível. A mocréia muçulmana, que ganhou a medalha de ouro nos 200 metros rasos nos Jogos Asiáticos, é minha favorita para o Baranga awards 2006. Eu sempre fui contra a burka, mas no caso dela não seria má idéia

Vai ser feia assim lá na mesquita
Num post abaixo, falei do visual pouco atraente da ministra Dilma Rousseff. Nada como um dia após o outro: perto da bareinita Ruqaya Al Ghasara, Dilma é irresistível. A mocréia muçulmana, que ganhou a medalha de ouro nos 200 metros rasos nos Jogos Asiáticos, é minha favorita para o Baranga awards 2006. Eu sempre fui contra a burka, mas no caso dela não seria má idéia
Foreign affairs

Amigo do Quico, Guia Genial e Zacarias pagam mico
Eu confesso: tenho ficado meio deprimido com essas reuniões de presidentes cucarachas. No fim de semana, Lula esteve em Cochabamba para a segunda reunião dos chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa). Os presidentes fizeram papel de palhaço, quebrando vasos de cerâmica com cidra num ritual indígena. Chávez foi inconveniente, como sempre. Lula propôs a criação de um Parlamento Sul-Americano em Cochabamba.
Em geral, eu rio dessas coisas. A América Latina é a região da piada pronta: Evo Morales parece o Zacarias; o candidato derrotado à presidência do Peru se chama Ollanta Humala; Lula quer criar um parlamento na Bolívia; Chávez vai votar dirigindo um fusca vermelho. É claro que isso tudo é engraçado. Mas é deprimente que uma das prioridades do Guia Genial seja a integração sul-americana.
Lula não vai a eventos como o do fim de semana apenas para cumprir formalidades. Ele acha realmente que intensificar laços comerciais e diplomáticos com potências como Venezuela, Bolívia e Equador é o melhor caminho para a política externa brasileira. A África também é bem cotada no Itamaraty. A estratégia não deu resultado no primeiro mandato, mas continuará a ser seguida no segundo. A opção de intensificar o comércio com os EUA e a Europa, mercados de fato relevantes, não parece em cogitação.
A opção pelos hermanos e pelos afropaíses está mantida. É bom se preparar para mais quatro anos de viagem de Lula a países pujantes como a Mauritânia ou a cúpulas sul-americanas no interior da Venezuela

Amigo do Quico, Guia Genial e Zacarias pagam mico
Eu confesso: tenho ficado meio deprimido com essas reuniões de presidentes cucarachas. No fim de semana, Lula esteve em Cochabamba para a segunda reunião dos chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa). Os presidentes fizeram papel de palhaço, quebrando vasos de cerâmica com cidra num ritual indígena. Chávez foi inconveniente, como sempre. Lula propôs a criação de um Parlamento Sul-Americano em Cochabamba.
Em geral, eu rio dessas coisas. A América Latina é a região da piada pronta: Evo Morales parece o Zacarias; o candidato derrotado à presidência do Peru se chama Ollanta Humala; Lula quer criar um parlamento na Bolívia; Chávez vai votar dirigindo um fusca vermelho. É claro que isso tudo é engraçado. Mas é deprimente que uma das prioridades do Guia Genial seja a integração sul-americana.
Lula não vai a eventos como o do fim de semana apenas para cumprir formalidades. Ele acha realmente que intensificar laços comerciais e diplomáticos com potências como Venezuela, Bolívia e Equador é o melhor caminho para a política externa brasileira. A África também é bem cotada no Itamaraty. A estratégia não deu resultado no primeiro mandato, mas continuará a ser seguida no segundo. A opção de intensificar o comércio com os EUA e a Europa, mercados de fato relevantes, não parece em cogitação.
A opção pelos hermanos e pelos afropaíses está mantida. É bom se preparar para mais quatro anos de viagem de Lula a países pujantes como a Mauritânia ou a cúpulas sul-americanas no interior da Venezuela
dezembro 11, 2006
Pinochet e Fidel

Eles não deixaram ponto sem nó
A comparação é inevitável. Com Perón, são os governantes latino-americanos do pós-Guerra mais conhecidos mundo afora. Poderia fazer um post "Perón, Fidel e Pinochet", mas por ora fico com os dois ditadores arquetípicos. Num continente confuso, conflituoso e medíocre, os dois conseguiram algo raro, que foi fazer a coisa até o fim, implementar os seus modelos até as últimas conseqüências. Comunismo, no caso do Fidel. Capitalismo liberal, no de Pinochet. É claro que, sem a ferocidade e a falta de escrúpulos inerentes a ambos, não teriam feito a coisa até o fim.
Toda uma discussão comparativa pode ser feita. Ajuda até o fato de que a população dos dois países, entre 10 e 20 milhões, é equivalente. Para mim, é claro que o Chile se deu muito melhor até agora. Para começar, o seu ditador apeou do poder e o país foi redemocratizado. A economia cresceu a 6% ao ano desde o início da década de 80, muito mais rápido do que a média latino-americana. Hoje o Chile é talvez o país mais rico da América Latina, e o que tem os melhores indicadores sociais. Cuba é dos mais pobres, e combina alguns indicadores sociais ótimos com outros péssimos (os de renda e consumo). A educação básica de Cuba é a melhor do continente (fora US e Canadá, claro), e ainda é bem melhor que a chilena. Mas praticamente pára por aí. Na mortalidade infantil, Cuba ainda está um tico à frente, mas partiu de uma base muito melhor. Em 1960, um ano depois da revolução, a mortalidade infantil cubana era de 39 por mil nascidos, disparado a melhor da América Latina. Em 2004, estava em 6,3. Em 1960, a do Chile era de 118. Em 2004, 7,6. Não tem particularmente a ver com o Pinochet não. Já havia caído para 78 em 1970, três anos antes do golpe.
Tem o papo dos jornais de que o modelo liberal do Chile teve como custo criar uma sociedade muito desigual. Os dados, até onde eu consegui ir, desmentem*. O Chile é de fato um dos países latino-americanos mais desiguais (o Brasil é pior), mas já é assim há algum tempo. Estou olhando aqui um gráfico da The Economist da evolução do índice de Gini (que mede a desigualdade) de Argentina, Brasil, Chile, Honduras, México, Peru, Uruguai e Venezuela desde o início dos anos 90 (se tiverem dados mais antigos, apresentem, por favor). Não há nenhum padrão que mostre que o Chile evoluiu pior do que os outros. Na verdade, as piores pioras são as da Argentina e da Venezuela. Com certeza a distribuição é muito melhor em Cuba, mas aí é claramente um nivelamento (em termos de renda) por baixo.
Foi-se o ditador do liberalismo. Em breve, deve ir também o do comunismo. No Brasil, nunca houve hegemonia suficiente para impor uma coisa nem outra. Ficamos na mistureba, geleca, escolham o seu termo. Acho que o pensamento sóbrio indica que, em alguns aspectos, o caminho brasileiro é claramente pior - não temos nem a educação básica de Cuba nem o desenvolvimento sócio-econômico do Chile. Deve haver, porém, muitos aspectos positivos em não termos sido governados por dois escrotos - os nossos foram ou mais brandos ou mais ineficazes na escrotidão - como o Pinochet e o Fidel. Fico com esta última opção, mesmo que às vezes eu pense que todos aqueles guris bem educados em Cuba, todos aqueles cidadãos que poderiam ser miseráveis ou pobres no Chile e não o são e todas aquelas crianças que sobrevivem em Cuba e no Chile e que perecem no Brasil indicam fragilidades lógicas na minha escolha. Mas eu a mantenho. Questão de gosto
* Retificação: como o Pinochet ficou de 73 a 90, os dados a partir de 90 que eu achei não dirimem a questão da desigualdade. Tenho que achar dados que comparem a evolução da distribuição do Chile e dos seus pares latino-americanos entre 70 e 90. Se alguém tiver, mande
P.S (no dia seguinte) : Em nome da honestidade intelectual, que já classifiquei aqui no blog como "a mais brochante das virtudes", reproduzo na área do 'continue lendo' dois artigos de hoje na Folha (um deles do César Maia), mostrando que o modelo econômico chileno bem sucedido iniciado pelo Pinochet só foi implantado no terço final do seu governo, e que nos primeiros 2/3 a experimentação ultraliberal foi desastrosa. Bem, para pesquisar a fundo estas questões eu teria que abandonar o meu emprego, o que não pretendo fazer. Então posto os artigos como food for thought, mas suspeitando que a verdade verdadeira deve ser bem mais complexa.
Agreguei mais uma matéria sobre o assunto, do Estadão, que me pareceu equilibrada

Eles não deixaram ponto sem nó
A comparação é inevitável. Com Perón, são os governantes latino-americanos do pós-Guerra mais conhecidos mundo afora. Poderia fazer um post "Perón, Fidel e Pinochet", mas por ora fico com os dois ditadores arquetípicos. Num continente confuso, conflituoso e medíocre, os dois conseguiram algo raro, que foi fazer a coisa até o fim, implementar os seus modelos até as últimas conseqüências. Comunismo, no caso do Fidel. Capitalismo liberal, no de Pinochet. É claro que, sem a ferocidade e a falta de escrúpulos inerentes a ambos, não teriam feito a coisa até o fim.
Toda uma discussão comparativa pode ser feita. Ajuda até o fato de que a população dos dois países, entre 10 e 20 milhões, é equivalente. Para mim, é claro que o Chile se deu muito melhor até agora. Para começar, o seu ditador apeou do poder e o país foi redemocratizado. A economia cresceu a 6% ao ano desde o início da década de 80, muito mais rápido do que a média latino-americana. Hoje o Chile é talvez o país mais rico da América Latina, e o que tem os melhores indicadores sociais. Cuba é dos mais pobres, e combina alguns indicadores sociais ótimos com outros péssimos (os de renda e consumo). A educação básica de Cuba é a melhor do continente (fora US e Canadá, claro), e ainda é bem melhor que a chilena. Mas praticamente pára por aí. Na mortalidade infantil, Cuba ainda está um tico à frente, mas partiu de uma base muito melhor. Em 1960, um ano depois da revolução, a mortalidade infantil cubana era de 39 por mil nascidos, disparado a melhor da América Latina. Em 2004, estava em 6,3. Em 1960, a do Chile era de 118. Em 2004, 7,6. Não tem particularmente a ver com o Pinochet não. Já havia caído para 78 em 1970, três anos antes do golpe.
Tem o papo dos jornais de que o modelo liberal do Chile teve como custo criar uma sociedade muito desigual. Os dados, até onde eu consegui ir, desmentem*. O Chile é de fato um dos países latino-americanos mais desiguais (o Brasil é pior), mas já é assim há algum tempo. Estou olhando aqui um gráfico da The Economist da evolução do índice de Gini (que mede a desigualdade) de Argentina, Brasil, Chile, Honduras, México, Peru, Uruguai e Venezuela desde o início dos anos 90 (se tiverem dados mais antigos, apresentem, por favor). Não há nenhum padrão que mostre que o Chile evoluiu pior do que os outros. Na verdade, as piores pioras são as da Argentina e da Venezuela. Com certeza a distribuição é muito melhor em Cuba, mas aí é claramente um nivelamento (em termos de renda) por baixo.
Foi-se o ditador do liberalismo. Em breve, deve ir também o do comunismo. No Brasil, nunca houve hegemonia suficiente para impor uma coisa nem outra. Ficamos na mistureba, geleca, escolham o seu termo. Acho que o pensamento sóbrio indica que, em alguns aspectos, o caminho brasileiro é claramente pior - não temos nem a educação básica de Cuba nem o desenvolvimento sócio-econômico do Chile. Deve haver, porém, muitos aspectos positivos em não termos sido governados por dois escrotos - os nossos foram ou mais brandos ou mais ineficazes na escrotidão - como o Pinochet e o Fidel. Fico com esta última opção, mesmo que às vezes eu pense que todos aqueles guris bem educados em Cuba, todos aqueles cidadãos que poderiam ser miseráveis ou pobres no Chile e não o são e todas aquelas crianças que sobrevivem em Cuba e no Chile e que perecem no Brasil indicam fragilidades lógicas na minha escolha. Mas eu a mantenho. Questão de gosto
* Retificação: como o Pinochet ficou de 73 a 90, os dados a partir de 90 que eu achei não dirimem a questão da desigualdade. Tenho que achar dados que comparem a evolução da distribuição do Chile e dos seus pares latino-americanos entre 70 e 90. Se alguém tiver, mande
P.S (no dia seguinte) : Em nome da honestidade intelectual, que já classifiquei aqui no blog como "a mais brochante das virtudes", reproduzo na área do 'continue lendo' dois artigos de hoje na Folha (um deles do César Maia), mostrando que o modelo econômico chileno bem sucedido iniciado pelo Pinochet só foi implantado no terço final do seu governo, e que nos primeiros 2/3 a experimentação ultraliberal foi desastrosa. Bem, para pesquisar a fundo estas questões eu teria que abandonar o meu emprego, o que não pretendo fazer. Então posto os artigos como food for thought, mas suspeitando que a verdade verdadeira deve ser bem mais complexa.
Agreguei mais uma matéria sobre o assunto, do Estadão, que me pareceu equilibrada
"Milagre" só veio após 12 anos, empurrado por cobre
Economia sob Pinochet teve duas fases; na primeira, país teve duas recessões
Desemprego dobrou entre 1973 e 1975; segundo economista, só ditadura garantiu assimilação de custo social das reformas
MARCELO BILLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Com o colapso argentino, no fim dos anos 90, e o desempenho sofrível das economias brasileira e mexicana no começo deste século, o Chile tornou-se a menina dos olhos dos economistas liberais. Foi o país, do ponto de vista de um economista ortodoxo, que fez todas as reformas que faltavam aos seus vizinhos e, por isso, pôde crescer mais que eles. Entre 2004 e este ano, o país teve taxa média de crescimento de 5,8%.
Para os partidários do ditador Augusto Pinochet, foi justamente ele quem plantou as sementes para o crescimento dos últimos anos quando implantou, a partir de meados dos anos 70, um programa radical de abertura comercial, ajuste fiscal e aperto monetário.
As primeiras reformas econômicas de Pinochet começaram entre 1974 e 1975. Desenhadas por um grupo de economistas de Chicago -Milton Friedman (1912-2006) chegou a ir ao país e participar de seminário de lançamento das reformas-, elas previam abertura unilateral da economia, privatização, reforma trabalhista, e apertos fiscal e monetário.
O resultado inicial foi desastroso. O desemprego dobrou entre 1974 e 1975 e a economia do país encolheu quase 13% em apenas um ano, tombo do qual só se recuperaria completamente três anos depois.
No começo dos anos 80, mais problemas. Como os demais países do mundo, o Chile foi atropelado pelo choque do petróleo e pela alta dos juros internacionais. Em 1982, o tombo foi maior do que o de 1975, de 13,6%. A economia chilena demoraria cinco anos para recuperar o terreno perdido com a recessão, que durou dois anos.
Feitas as contas, os primeiros doze anos de governo do ditador não pareciam nada animadores do ponto de vista de desempenho econômico. A taxa média de crescimento foi, entre 1973 e 1985, de pouco mais de 1%. Dados os custos sociais das reformas e o desempenho econômico destes primeiros anos, diz Simão Silber, economista da USP, é provável que apenas um regime de exceção ficasse no poder. "É inimaginável imaginar que um governo democrático sobreviveria a essa experiência desastrosa", diz ele.
A partir da segunda metade dos anos 80 a história, do ponto e vista do desempenho econômico, muda. Uma segunda leva de reformas, diz Silber, pôde colocar o país na rota do crescimento: a privatização do sistema de Previdência e um ajuste fiscal mais rigoroso ainda. De fato, a taxa de crescimento do Chile entre 1986 e 1998 salta para 7,3% ao ano, um desempenho de "tigre asiático", usando a comparação de Silber.
Mas nem tudo mudou depois da segunda onda de reformas liberais. O ritmo de crescimento do país continuou sendo ditado pelo preço de um, e apenas um produto, o cobre. A conclusão da onda de reformas liberais se dá justamente quando o preço do produto, cuja tendência foi de queda durante as décadas de 60 e 70, começa a subir. Entre 1986 e 2000, o preço do cobre se estabiliza, de lá para cá, sobe até voltar, nos últimos meses, aos níveis recordes dos anos 60.
É digno de nota que o programa de reformas não chegou ao cobre, ainda nas mãos do governo chileno. O produto ainda responde por 40% das exportações do país, seguido de longe por frutas, com 5% do total.
Não mudou a distribuição de renda também. O Chile está entre os países com maior concentração de riqueza do mundo, muito perto do Brasil e de seus pares latino-americanos.
A volta da democracia não trouxe mudanças econômicas, pelo menos não no sentido de desfazer as reformas de Pinochet. Mas o receio de que problemas com o cobre voltem a abater a economia chilena fez com que o governo adotasse um programa de "superávit estrutural". Economizará recursos enquanto os preços do cobre estiverem acima de sua média histórica para, quando e se os preços caírem abaixo da média, poder gastá-los e evitar queda muito drástica no nível de atividade.
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ARTIGO
Pinochet, traição e embuste econômico
CESAR MAIA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Os sinais foram dados ainda na transição, antes da posse de Salvador Allende. O general René Schneider, relacionado com a Democracia Cristã, foi assassinado por um comando que se dizia de ultra-esquerda. Quem escolhia o presidente no Chile, sempre e quando não alcançava a maioria absoluta nas urnas, era o Congresso. A tradição era escolher o mais votado. Com Allende poderia ser diferente.
Contatos feitos e acordo firmado: a estrutura de organização interna das Forças Armadas seria intocável. Dois anos depois, o quadro era de instabilidade. Proteger a zona de Santiago era fundamental, pois representava uns 40% da população chilena. O que se dizia é que o general Pinochet era de confiança por seu relacionamento com um setor socialista. Era militar de confiança para trabalhar e apoiar o general Carlos Prats, comandante do Exército de Allende, de vocação democrática (assassinado em Buenos Aires a mando de Pinochet em 1974).
A certeza da boa escolha veio na tentativa prematura de golpe -uns 30 dias antes do 11 de Setembro-, conhecida por "Tancazo". Vá a uma vídeolocadora e peça a "Batalha do Chile". Busque entre os DVDs o dos tempos próximos ao golpe.
Veja e ouça Pinochet reprimindo o golpe e caminhando em frente ao palácio La Moneda, acompanhado do ministro da Defesa, José Tohá, amigo e de total confiança de Allende.
Momento da traição
Sua expressão e suas palavras pareciam garantir o acerto da sua escolha. O momento da traição não se conhece, mas a probabilidade de ter aderido a um golpe em gestação é muito grande. Continue vendo o DVD e fique atento à locução dele no momento do golpe. Sinta a traição nas palavras. A resistência esperada por muitos não veio, desmistificando o que se dizia. A Marinha sabia disso quando, alegando tráfico de armas pela esquerda, ocupou Valparaíso e outros locais e fábricas e vasculhou tudo. Dizem que para comprovar o que se soube após o golpe. Mas a inexistência de qualquer exército preparado por Allende não serviu para nada. Por um longo tempo assassinava-se por qualquer pretexto e cometiam-se as atrocidades comprovadas depois.
Ingênuos
Alguns ingênuos relevam a barbárie de Pinochet, justificando-a pelas mudanças na economia que explicariam a situação exemplar do Chile de hoje. Outro embuste. A economia foi entregue aos mais ortodoxos monetaristas da escola de Chicago. Aplicou-se o receituário mais horizontal possível. As empresas quebraram, a economia desintegrou.
No período 1950-1971, o PIB por habitante do Chile cresceu 2% ao ano. Entre 1972 e 1983, o PIB por habitante decresceu à taxa de 1,1% ao ano. Insisto: 1,1% ao ano, negativos. Em 1970, a relação do PIB por habitante do Chile em relação ao dos EUA era de 35,1%. Em 1992, era de 33,6%. Isso depois de um forte crescimento nos últimos anos de Pinochet.
Dos 17 anos de ditadura, o período de desenvolvimento econômico veio quando os conselheiros de Pinochet sugeriram que ele saísse de nomes ortodoxos e apostasse num economista brilhante que trabalhava na Oficina de Planejamento e havia participado, assessorando, da área da Previdência Social.
A propaganda de Pinochet, depois de uma queda abissal do PIB nos primeiros anos, apresentava números positivos que nada mais eram que uma reação ao abismo. Depois de 12 anos de fracasso, assumiu o Ministério da Fazenda/Economia Hernán Buchi (que os chilenos pronunciam Birri). Com poderes plenos, atuou como uma espécie de premiê econômico.
Transformações
Foram nesses cinco anos sob o comando de Buchi que a economia chilena viveu as transformações que conhecemos: reforma do Estado, focalização nos setores com vantagem comparativa, abertura da economia, desvalorização para estimular as exportações, controle de capitais especulativos, gestão monetária e fiscal flexíveis (a reforma previdenciária custou 10% do PIB).
Quando veio a primeira eleição pós-ditadura, com a Concertação entre democrata-cristãos e socialistas apresentando um político experimentado, Patricio Aylwin, Pinochet não tinha um nome para apresentar. Recorreu a Buchi e o lançou sem nenhuma experiência política anterior e com seu cabelinho de corte à príncipe valente.
Assim mesmo, Buchi obteve 40% dos votos. Confundir o desastrado período Pinochet com os últimos cinco anos dos 17 em que ele mandou e que, no fim, apelou para outra direção econômica, assim como querer atribuir ao período ditatorial uma façanha econômica é no mínimo outra impostura. Hoje, Buchi dirige seu Instituto Liberdade e Desenvolvimento e continua prestando serviços ao Chile com seu talento.
CESAR MAIA é prefeito do Rio e viveu no Chile entre 1969 e 1973
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Recuperação teve tentativas e erros
Plano adotado por Pinochet construiu as bases para a estabilidade econômica e foi aperfeiçoado por socialistas
Priscilla Murphy, ESPECIAL PARA O ESTADO, SANTIAGO
Mesmo seus piores detratores reconhecem que o ex-ditador chileno Augusto Pinochet construiu as bases para a estabilidade econômica do Chile que começou a se consolidar em 1984. No ano do golpe, 1973, a inflação era de 508% e o governo de Salvador Allende tentava controlar uma grave crise de desabastecimento causada por um controle de preços cada vez mais amplo e ineficaz, semelhante à situação que viveu o Brasil no governo José Sarney.
Pinochet então adotou um plano de ação com base num documento chamado “O Ladrilho”, preparado para a candidatura do ex-presidente de direita Jorge Alessandri, que perdeu as eleições para Allende. O documento, feito por um grupo de economistas formados na Universidade de Chicago, continha os princípios do que ficou conhecido depois como o neoliberalismo: redução do papel do Estado na economia por meio de privatizações, segurança jurídica e regras claras e previsíveis para os investidores, e abertura comercial.
Mas a história da construção da estabilidade econômica chilena teve uma maior sucessão de tentativas e erros que em outros países latinos do que se costuma imaginar. A primeira crise ocorreu semanas depois do golpe, quando Pinochet liberou a maior parte dos preços e desvalorizou a moeda. A segunda crise ocorreu em 1975, causada por uma forte queda do preço do cobre no mercado mundial e a alta dos preços do petróleo. Pinochet lançou então um Programa de Recuperação Econômica irrigado por petrodólares que, como em outros países latino-americanos, causaram uma sensação de prosperidade frustrada no início dos anos 80, com a crise da dívida.
A crise iniciada em maio de 1981 foi a mais grave, e realmente fez cambalear o modelo econômico. Nesse mês, quebrou a sólida refinaria de açúcar de Viña Del Mar, uma espécie de Enron da época, espalhando o pânico no restante do setor empresarial, grande parte do qual fortemente endividado em dólares.
Os juros mundiais disparavam com o preço do petróleo e o Banco Central perdia enorme quantidade de reservas tentando defender a taxa de câmbio fixa e diante de um crescente déficit externo. Depois de intervir em quatro bancos e quatro financeiras, Pinochet decidiu contrariar os especialistas de Chicago e desvalorizar o peso - de 39 pesos por dólar, para 46 pesos. Houve quebradeira das empresas endividadas em dólar e a tragédia se mostrou nos números de 1982: o PIB caiu 13,4% e o desemprego chegou a 19,6%. As pessoas contratadas por programas emergenciais do governo chegavam a 30% da população.
O governo então interveio em bancos maiores, provocando uma corrida bancária. A Fazenda retrocedeu na liberalização, elevando a tarifa geral de importação de 9% para 20%. Mas a crise não dava trégua e Pinochet ainda trocou três vezes de ministro da Economia até finalmente acertar com Hernán Büchi, um economista de Columbia, afinado com a teoria de Chicago.
Büchi consolidou o modelo original, voltou a baixar as tarifas externas e promoveu uma onda de privatizações. A economia passou a responder com mais crescimento - uma média anual de 7,5% de 1985 a 1989 - o que justificou a aprovação da lei de autonomia do Banco Central, que estava na gaveta do governo havia anos. Mas o resgate do sistema financeiro havia custado 30% do PIB do país.
Quando chegou a democratização, a coalizão socialista que assumiu o governo, a Concertação, decidiu manter as bases do modelo neoliberal e aperfeiçoá-lo, um pouco como fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, guardadas as devidas proporções. Em 1990, 38,6% da população estava abaixo da linha da pobreza e a distribuição de renda era a mesma de antes do golpe. A decisão foi tomada em parte por falta de alternativas - os exemplos de política econômica alternativa a seguir eram os desastrosos governos de Alan García no Peru e de Raúl Alfonsín na Argentina. Ao mesmo tempo, muitos exilados que voltavam da França e da Espanha traziam uma boa impressão das experiências de socialismo moderado nesses países.
Com quatro presidentes eleitos até hoje, a Concertação baixou mais as tarifas externas e deu início à negociação de uma série de acordos comerciais bilaterais. Graças aos acordos, hoje a maior parte dos produtos importados pelo Chile entra no país com tarifa zero. Além disso, o governo de Ricardo Lagos adotou a partir de 2001 o que os economistas consideram a grande chave da estabilidade chilena: a lei de superávit estrutural de 1% do PIB, um mecanismo anticíclico onde o governo economiza receita nos anos bons para gastar em tempos de vacas magras.
Para tentar atenuar a desigualdade, o governo passou a investir mais na área social e a pobreza caiu para 18,7% em 2003. Mas a distribuição de renda continua a mesma, um coeficiente Gini de 57,1, o que levou o governo a adotar novas medidas de apoio social. Uma delas é a reforma do sistema de Previdência, privatizado por Pinochet, que agora incluirá uma rede de proteção social.
A reforma de Pinochet, além de representar um custo fiscal de 130% do PIB para trasladar do regime de reparto para um de capitalização individual, fracassou em prever como se desenvolveria o mercado de trabalho no futuro, principalmente em relação ao papel da mulher e ao crescimento da informalidade. Hoje, só 61% da força de trabalho está no sistema de pensões. Os detalhes da nova reforma serão conhecidos esta semana, quando deve ser enviado o projeto de lei ao Congresso, junto com um pacote pró-investimento para recuperar o ritmo de crescimento de mais de 6% mantido até o ano passado. Este ano, prevê-se que o Chile crescerá cerca de 5,5%.
dezembro 08, 2006
Incompetência e feiúra

Dilma, mocréia chefe da Casa Civil
O caos aéreo chega ao auge e o que faz Lula? Indica a ministra Dilma Rousseff para chefiar o “gabinete de crise”. Por algum motivo obscuro, ela é considerada competente pelo Guia Genial. A questão é que o histórico de Dilma mostra o oposto. Como ministra de Minas e Energia, ela desenhou o modelo do setor elétrico, que não atrai investimento nenhum. O risco de apagão continua. Em resumo, o quadro mais competente do governo é incompetente. E outra coisa: ela é muito feia. Eu não confio em gente muito feia. Quem é muito feio costuma ser ressentido. Isso afeta a capacidade de julgamento. É científico

Dilma, mocréia chefe da Casa Civil
O caos aéreo chega ao auge e o que faz Lula? Indica a ministra Dilma Rousseff para chefiar o “gabinete de crise”. Por algum motivo obscuro, ela é considerada competente pelo Guia Genial. A questão é que o histórico de Dilma mostra o oposto. Como ministra de Minas e Energia, ela desenhou o modelo do setor elétrico, que não atrai investimento nenhum. O risco de apagão continua. Em resumo, o quadro mais competente do governo é incompetente. E outra coisa: ela é muito feia. Eu não confio em gente muito feia. Quem é muito feio costuma ser ressentido. Isso afeta a capacidade de julgamento. É científico
dezembro 07, 2006
Emir Sader contra a democracia

Topo tudo por socialismo
Tá legal, o assunto é chatinho e de mau gosto. Mas não resisti. Vejam como o guru da esquerda limítrofe acha que a derrubada do governo democraticamente eleito no México só não deve ser tentada porque não é possível. Está em entrevista ao JB
O México é típico, com a questão do López Obrador. Não dá para se fazer um poder dual, é uma luta eleitoral; não se tinha consciência para isso, mas foi uma grande mobilização e depois não teve aonde chegar, então vai refluir. São grandes explosões institucionais, sociais etc. que se não encontram uma saída política vão refluir, partindo do pressuposto de que as saídas insurrecionais, hoje, não se suportam. Seria uma boa saída, mas, hoje em dia, qualquer militarização do conflito, pela relação de força brutalmente desproporcional, geraria um massacre. Tem que encontrar saídas políticas. Insurrecionais também, se conseguem um momento de enfrentamento militar

Topo tudo por socialismo
Tá legal, o assunto é chatinho e de mau gosto. Mas não resisti. Vejam como o guru da esquerda limítrofe acha que a derrubada do governo democraticamente eleito no México só não deve ser tentada porque não é possível. Está em entrevista ao JB
O México é típico, com a questão do López Obrador. Não dá para se fazer um poder dual, é uma luta eleitoral; não se tinha consciência para isso, mas foi uma grande mobilização e depois não teve aonde chegar, então vai refluir. São grandes explosões institucionais, sociais etc. que se não encontram uma saída política vão refluir, partindo do pressuposto de que as saídas insurrecionais, hoje, não se suportam. Seria uma boa saída, mas, hoje em dia, qualquer militarização do conflito, pela relação de força brutalmente desproporcional, geraria um massacre. Tem que encontrar saídas políticas. Insurrecionais também, se conseguem um momento de enfrentamento militar
Já matou o seu juiz hoje?

Obrigado por me financiar
O Supremo acaba de derrubar as cláusulas de barreira, e agora qualquer partideco tem direito ao teu, ao meu, ao nosso dinheiro para promover sua ideologia delirante ou os interesses pecuniários dos seus membros. Todo aquele papo de fusão de partidos e de evolução do quadro partidário deixa de existir, e voltamos a ser (mais precisamente, permaneceremos) o país de bunda suja com 300 partidinhos ladrões ladrando pelas migalhas dos governos obrigados a negociar com eles se quiserem passar qualquer lei que seja. Volte 15 casas, como nos jogos de dados e tabuleiro

Obrigado por me financiar
O Supremo acaba de derrubar as cláusulas de barreira, e agora qualquer partideco tem direito ao teu, ao meu, ao nosso dinheiro para promover sua ideologia delirante ou os interesses pecuniários dos seus membros. Todo aquele papo de fusão de partidos e de evolução do quadro partidário deixa de existir, e voltamos a ser (mais precisamente, permaneceremos) o país de bunda suja com 300 partidinhos ladrões ladrando pelas migalhas dos governos obrigados a negociar com eles se quiserem passar qualquer lei que seja. Volte 15 casas, como nos jogos de dados e tabuleiro
dezembro 05, 2006
O bardo e o bruxo

Bardo é o cacete
Nesta terça-feira de tédio, uma dúvida me consome - o que é mais ridículo: chamar Machado de Assis de bruxo do Cosme Velho ou se referir a Shakespeare como o bardo de Stratford upon Avon?
PS: Terminei de escrever o post e fiquei com a impressão de que já li algo parecido em algum blog, mas fiz uma busca e não achei nada. Se alguém lembrar quem foi (se é que foi alguém), me diga, por favor

Bardo é o cacete
Nesta terça-feira de tédio, uma dúvida me consome - o que é mais ridículo: chamar Machado de Assis de bruxo do Cosme Velho ou se referir a Shakespeare como o bardo de Stratford upon Avon?
PS: Terminei de escrever o post e fiquei com a impressão de que já li algo parecido em algum blog, mas fiz uma busca e não achei nada. Se alguém lembrar quem foi (se é que foi alguém), me diga, por favor
dezembro 02, 2006
Do you speak English?

E a língua de Shakespeare foi para a cozinha
One outcome of the Norman Conquest was the making of the English language. As a result of Hastings, the Anglo-Saxon tongue, the speech of Alfred and Bede, was exiled from hall and bower, from court and cloister, and was despised as a peasant’s jargon, the talk of ignorant serfs. It ceased almost, though not quite, to be a written language. The learned and the pedantic lost all interest in its forms, for the clergy talked Latin and the gentry talked French. Now when a language is seldom written and is not an object of interest to scholars, it quickly adapts itself in the mouths of plain people to the needs and uses of life. This may be either good or evil, according to circumstances. If the grammar is clumsy and ungraceful, it can be altered much more easily when there are no grammarians to protest. And so it fell out in England. During the three centuries when our native language was a peasants’ dialect, it lost its clumsy inflexions and elaborate genders, and acquired the grace, suppleness, and adaptability which are among its chief merits. At the same time it was enriched by many French words and ideas. The English vocabulary is mainly French in words relating to war, politics, justice, religion, hunting, cooking, and art. Thus improved, our native tongue re-entered polite and learned society as the English of Chaucer’s Tales and Wycliffe’s Bible, to be still further enriched into the English of Shakespeare and of Milton. There is no more romantic episode in the history of man than this underground growth and unconscious self-preparation of the despised island patois, destined ere long to ‘burst forth into sudden blaze’, to be spoken in every quarter of the globe, and to produce a literature with which only that of ancient Hellas is comparable. It is symbolic of the fate of the English race itself after Hastings, fallen to rise nobler, trodden under foot only to be trodden into shape.
Eu adoro este parágrafo de A Shortened History of England, do G. M. Trevelyan. Gosto de como ele descreve o salto do inglês de sua fase plebéia e quase clandestina para a hegemonia global (e olha que isto foi publicado antes da Segunda Guerra, anterior portanto ao auge do império americano e à Internet, que levaram aquele domínio ainda mais longe), e gosto principalmente da teoriazinha sacada para explicar a plasticidade e a simplicidade da língua.
Também aprecio este tipo de narrativa histórica despreocupada com os pseudo-rigores acadêmicos e científicos, sem jargões abstratos como ‘estrutura’, ‘arcabouço institucional’ e outras chatices do gênero, e nas quais o autor perambula gostosamente entre fatos e tiradas interpretativas, com a non-chalance de quem passeia num jardim com brisa fresca e sol de outono. O dia em que escreverem livros de História do Brasil desse jeito, deixarei de ser o ignorantão consumado nas ‘cosas nostras’ no qual me fiz.

E a língua de Shakespeare foi para a cozinha
One outcome of the Norman Conquest was the making of the English language. As a result of Hastings, the Anglo-Saxon tongue, the speech of Alfred and Bede, was exiled from hall and bower, from court and cloister, and was despised as a peasant’s jargon, the talk of ignorant serfs. It ceased almost, though not quite, to be a written language. The learned and the pedantic lost all interest in its forms, for the clergy talked Latin and the gentry talked French. Now when a language is seldom written and is not an object of interest to scholars, it quickly adapts itself in the mouths of plain people to the needs and uses of life. This may be either good or evil, according to circumstances. If the grammar is clumsy and ungraceful, it can be altered much more easily when there are no grammarians to protest. And so it fell out in England. During the three centuries when our native language was a peasants’ dialect, it lost its clumsy inflexions and elaborate genders, and acquired the grace, suppleness, and adaptability which are among its chief merits. At the same time it was enriched by many French words and ideas. The English vocabulary is mainly French in words relating to war, politics, justice, religion, hunting, cooking, and art. Thus improved, our native tongue re-entered polite and learned society as the English of Chaucer’s Tales and Wycliffe’s Bible, to be still further enriched into the English of Shakespeare and of Milton. There is no more romantic episode in the history of man than this underground growth and unconscious self-preparation of the despised island patois, destined ere long to ‘burst forth into sudden blaze’, to be spoken in every quarter of the globe, and to produce a literature with which only that of ancient Hellas is comparable. It is symbolic of the fate of the English race itself after Hastings, fallen to rise nobler, trodden under foot only to be trodden into shape.
Eu adoro este parágrafo de A Shortened History of England, do G. M. Trevelyan. Gosto de como ele descreve o salto do inglês de sua fase plebéia e quase clandestina para a hegemonia global (e olha que isto foi publicado antes da Segunda Guerra, anterior portanto ao auge do império americano e à Internet, que levaram aquele domínio ainda mais longe), e gosto principalmente da teoriazinha sacada para explicar a plasticidade e a simplicidade da língua.
Também aprecio este tipo de narrativa histórica despreocupada com os pseudo-rigores acadêmicos e científicos, sem jargões abstratos como ‘estrutura’, ‘arcabouço institucional’ e outras chatices do gênero, e nas quais o autor perambula gostosamente entre fatos e tiradas interpretativas, com a non-chalance de quem passeia num jardim com brisa fresca e sol de outono. O dia em que escreverem livros de História do Brasil desse jeito, deixarei de ser o ignorantão consumado nas ‘cosas nostras’ no qual me fiz.
Uma proposta modesta

O inimigo público número 1
Quem anda por São Paulo percebe que o número de motoboys não pára de crescer. A proliferação foi muito além dos limites do razoável. Os motoboys estão em guerra aberta com os carros e em disputa velada com os pedestres. Alguma providência tem que ser tomada antes que se atinja o grande colapso final. Em mais um dia de ócio pela cidade, tive uma idéia que pode solucionar o problema, ou pelo menos torná-lo mais suportável.
O caos se intalou no trânsito de São Paulo porque os predadores naturais dos motoboys – os automóveis – não têm liberdade total de ação. A combinação de uma legislação excessivamente humanista com a demanda crescente pelo serviço dos motoqueiros provocou o desequilíbrio. Para resolver o problema, é indispensável que os motoristas dos carros e os pedestres possam agir livremente, pelo menos em parte do ano. Por que não estabelecer uma temporada de caça aos motoboys? Não proponho nada muito drástico. Em abril e outubro, por exemplo, os motoristas e pedestres teriam autorização para investir contra os motoqueiros. Talvez seja pouco, mas é um começo.
Além de reduzir o número de motoboys, a proposta tem outras vantagens claras. Uma delas é permitir que motoristas estressados canalizem suas neuroses. Dar vazão à agressividade inata do ser humano pode ser mais eficaz do que anos de terapia.
Os próprios motoboys seriam beneficiados. É verdade que a profissão se tornaria um pouco mais arriscada, mas os salários dos sobreviventes tenderiam a subir. A oferta excessiva de motoqueiros derruba o rendimento da categoria. Com menos motoboys em circulação, as empresas disputariam os que restassem a tapas.
A solução está aí. Com um pouco de vontade política, pode ser implementada sem grandes problemas

O inimigo público número 1
Quem anda por São Paulo percebe que o número de motoboys não pára de crescer. A proliferação foi muito além dos limites do razoável. Os motoboys estão em guerra aberta com os carros e em disputa velada com os pedestres. Alguma providência tem que ser tomada antes que se atinja o grande colapso final. Em mais um dia de ócio pela cidade, tive uma idéia que pode solucionar o problema, ou pelo menos torná-lo mais suportável.
O caos se intalou no trânsito de São Paulo porque os predadores naturais dos motoboys – os automóveis – não têm liberdade total de ação. A combinação de uma legislação excessivamente humanista com a demanda crescente pelo serviço dos motoqueiros provocou o desequilíbrio. Para resolver o problema, é indispensável que os motoristas dos carros e os pedestres possam agir livremente, pelo menos em parte do ano. Por que não estabelecer uma temporada de caça aos motoboys? Não proponho nada muito drástico. Em abril e outubro, por exemplo, os motoristas e pedestres teriam autorização para investir contra os motoqueiros. Talvez seja pouco, mas é um começo.
Além de reduzir o número de motoboys, a proposta tem outras vantagens claras. Uma delas é permitir que motoristas estressados canalizem suas neuroses. Dar vazão à agressividade inata do ser humano pode ser mais eficaz do que anos de terapia.
Os próprios motoboys seriam beneficiados. É verdade que a profissão se tornaria um pouco mais arriscada, mas os salários dos sobreviventes tenderiam a subir. A oferta excessiva de motoqueiros derruba o rendimento da categoria. Com menos motoboys em circulação, as empresas disputariam os que restassem a tapas.
A solução está aí. Com um pouco de vontade política, pode ser implementada sem grandes problemas



Não há a menor possibilidade de dar certo
E eis que a Etiópia decidiu atacar forças muçulmanas da Somália. Pelos meus cálculos, é a 3.375.ª guerra ocorrida na África neste século. Quando dois países ou duas tribos africanos entram em confronto, eu costumo ler todas as reportagens com uma curiosidade mórbida.
Na segunda-feira, de molho no aeroporto de Congonhas à espera do meu vôo para o Rio, li uma reportagem sobre o conflito etíope-somali. Aprendo que 62% da população da Somália é analfabeta, e que a expectativa de vida é de 48 anos. A situação política do país também não é das melhores. A Somália vive em anarquia há 15 anos. O governo reconhecido internacionalmente não manda quase nada, pois quem está no controle da maior parte do país, inclusive da capital, são as forças muçulmanas que foram bombardeadas pela Etiópia. O peso médio do adulto somali é de 35 quilos.
A Folha de ontem informa que "desde pelo menos 1332 etíopes cristãos e somalis muçulmanos esporadicamente entram em guerra, muitas vezes com ajuda direta ou indireta de uma potência regional ou global. As brigas envolveram de um neto do navegador português Vasco da Gama a tropas cubanas lideradas por um soviético; e agora o conflito está ligado à guerra dos EUA contra o terror de origem islâmica."
Não há nada mais ridículo do que um conflito entre a Etiópia e a Somália. É claro que os dois países não têm nenhuma viabilidade política, social ou econômica, assim como a maior parte da África. Não há nenhuma possibilidade de a maior parte do continente melhorar nos próximos 500 anos, mas isso não impede que a comunidade internacional destine quantias absurdas para os países africanos.
Mas não quero dizer que a África não serve para nada. Na verdade, a África redime a América Latina. Perto da Somália, o Paraguai parece uma Coréia do Sul. O Brasil, então, se transforma numa Suécia tropical. A Guerra do Chaco, conflito entre Bolívia e Paraguai, assume dimensões napoleônicas perto da disputa entre etíopes e somalis. Para a América Latina, a África é uma poderosa fonte de melhora de auto-estima