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Pois eu vejo valor no pequeno corrupto, este abnegado que carrega nas costas o cotidiano da desonestidade, sem pensar em grandes recompensas, glórias, apartamentos em Miami ou cachorras de luxo. Na sua humilde lida, desviando um caraminguá aqui, liberando uma merreca acolá, ele leva adiante com seu trabalho modesto e negligenciado a arte centenária da propina, esta vocação coletiva da nacionalidade, fundamento e razão de ser da civilização brasileira. O pequeno corrupto é o trampolim, o último homem do super-homem petista, abrindo caminho, com seu pertinaz empenho em sujar as mãos na pequena merda, para os píncaros da coprocracia nacional. Não pode deixar de ferir uma nota pungente nas cordas de um coração sensível este comovente desapego do pequeno corrupto, que coloca em risco a reputação, a tranqüilidade da família, o aconchego da admiração coletiva, em nome do ideal puro, cristalino, translúcido, da safadeza. Com seus dedos suarentos e trajes amarfanhados, arrostando o desprezo, a indiferença e o sarcasmo de uma sociedade que não perdoa o crime sem recompensa, o pequeno corrupto é a prova viva do espírito indômito, indestrutível, que pulsa nos recônditos do Brasil profundo. E mais não digo porque a emoção tomou conta de mim. Snif, snif. Feliz Natal para todos


