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A favor da ficção*

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E o sexo entre as antas nada mais é do que o reflexo do...


Livros de não-ficção têm este problema. Ao fim e ao cabo é um sujeito (ou uma sujeita) querendo convencer você de alguma coisa, ou de uma profusão de coisas**. É alguém cheio de idéias, procurando divulgá-las. E as idéias tendem a ser chatas, quando confusas, e irritantes quando claras (nada mais sufocante do que a sensação de tudo explicadinho). Livros de ficção são cheios de idéias também, é claro, mas o autor tem pelo menos o pudor de disfarçá-las e diluí-las, atribuindo-as a diferentes personagens - e por mais que a gente saiba que este ou aquele são alter-egos do autor, papagaiando as suas verdades, sempre há um grau de incerteza, um esfumaçado ideológico, de dentro do qual surge a vida dos personagens, o que realmente interessa - e quanto mais vivinhos da silva, mais somos capturados por suas peripécias, e menos atenção damos ao que o autor pensa ou não pensa sobre isto ou aquilo. Na ficção, as idéias nos penetram, sem dúvida, mas de uma forma furtiva, mais inconsciente, e aí não rola aquela sensação de chatice de quando alguém tenta convencê-lo (a) de coisas obscuras e confusas, ou aquela sensação meio canina e bocó de admiração por alguém que supostamente consegue explicar de forma clara e detalhada (haja saco) algum aspecto do caos reinante. Sempre que eu leio não-ficção, e especialmente quando eu gosto, sinto que estou me tornando um cara mais chato, capaz de sentar numa mesa de bar e tentar explicar coisas interessantes para as pessoas em volta. E tentem pensar nos chatos mais notórios do seu convívio: aposto que uma boa parte é de ávidos leitores de não-ficção, que adoram explicar coisas interessantes

Pensando bem, talvez a boa não-ficção - um bom ensaio, por exemplo - seja aquela na qual o autor narra, divaga, deixa suas idéias brotarem, mas não o agarra pela gola perguntando se você entendeu direitinho e concorda com ele. Pensando melhor, é bom quando quase parece ficção

* Este post é mais uma tentativa de um chato de convencê-lo (a) de alguma coisa

** Depois que eu escrevi me ocorreu que livros de história, biografias, etc, não se encaixam tão bem na definição de alguém tentando convencê-lo (a) de alguma coisa. Aí pensei em reescrever, manobrando e sofismando para demonstrar que, sim, se encaixam sim. Mas faltou saco



F. Arranhaponte at 01:53 PM | Comentários (5)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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