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As entranhas do Estado brasileiro
Por incrível que pareça, o amadorismo do governo Lula ainda me surpreende. Logo após as eleições, o Guia Genial decidiu que o país precisaria crescer 5% ao ano. Como foi reeleito sem programa de governo, mandou a equipe econômica elaborar de uma hora para outra um plano para atingir o objetivo. No começo, alguns coitados propuseram medidas corretas, embora tímidas, para controlar o crescimento dos gastos correntes. Houve quem sugerisse em reuniões com Lula que se mudassem algumas regras da Previdência. O presidente logo rechaçou as propostas, porque, segundo ele, faltava ousadia. Insatisfeito, deu mais algumas semanas aos ministros, que optaram pelo caminho mais fácil: aumentar o investimento público à custa da redução da economia para pagar juros, e não por meio de um corte de gastos.
O mais ridículo foi dizer que o programa prevê R$ 503,9 bilhões em investimentos em quatro anos. Boa parte dos recursos se refere ao que estatais como a Petrobras já tinham programado investir, e uma outra parte significativa virá do setor privado, se vier, é claro. O Globo informa que, dos R$ 503,9 bilhões anunciados, os recursos novos são apenas R$ 81,2 bilhões, ou 16,1% do total.
Também é constrangedor o governo decidir que o país vai crescer 4,5% neste ano e 5% a partir de 2008. A expansão média de 1991 para cá ficou na casa de 2,5% ao ano. É possível que o crescimento potencial do país tenha aumentado nos últimos anos, devido à melhora das contas externas e à queda dos juros para níveis mais baixos, mas daí a acreditar que o país pode crescer o dobro do que vinha crescendo é, na melhor das hipóteses, wishful thinking. O mais provável é que seja coisa de picareta mesmo.
Como o governo não vai cortar os gastos, a carga tributária não poderá cair, o que obviamente inibe o investimento privado. O Estado vai continuar enorme e o crescimento vai seguir pífio. Mas tudo bem. Se der errado, o governo e muitos analistas vão culpar os juros altos e o câmbio valorizado, como sempre


