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fevereiro 23, 2007
Na direção errada, como sempre II
O lobby dos assassinos é mais forte
Por enquanto, o que adianta é se armar, blindar carro, emigrar, etc. O establishment pró-crime ainda está dando todas as cartas
Por enquanto, o que adianta é se armar, blindar carro, emigrar, etc. O establishment pró-crime ainda está dando todas as cartas
Na direção errada, como sempre
Aos poucos, a estratégia do governo Lula no segundo mandato vai ficando clara: a idéia é promover pequenas mudanças de rota, todas na direção errada. O primeiro sinal disso foi o PAC, um plano feito nas coxas que não toca no principal obstáculo ao crescimento mais forte da economia – a expansão desenfreada dos gastos públicos.
A mais nova prova de genialidade é a indicação de Paulo Nogueira Batista Jr. para o FMI, no lugar de Eduardo Loyo. O governo nomeou para o Fundo, instituição com a qual o Brasil tem uma boa relação, um dos pais da moratória de 1987. Para piorar, ele é adepto de idéias brilhantes como o controle de capitais. Talvez Guido Mantega acredite que, com essa indicação, vai mudar os rumos do FMI. O governo Lula é isso aí. Não há nenhum perigo de melhorar
Aos poucos, a estratégia do governo Lula no segundo mandato vai ficando clara: a idéia é promover pequenas mudanças de rota, todas na direção errada. O primeiro sinal disso foi o PAC, um plano feito nas coxas que não toca no principal obstáculo ao crescimento mais forte da economia – a expansão desenfreada dos gastos públicos.
A mais nova prova de genialidade é a indicação de Paulo Nogueira Batista Jr. para o FMI, no lugar de Eduardo Loyo. O governo nomeou para o Fundo, instituição com a qual o Brasil tem uma boa relação, um dos pais da moratória de 1987. Para piorar, ele é adepto de idéias brilhantes como o controle de capitais. Talvez Guido Mantega acredite que, com essa indicação, vai mudar os rumos do FMI. O governo Lula é isso aí. Não há nenhum perigo de melhorar
fevereiro 22, 2007
Reflexões mal-humoradas sobre o carnaval

É brega, é de mau gosto e é de bandido
Acho o carnaval um lixo. A música é de uma pobreza inacreditável, as alegorias são o cúmulo do brega e os enredos são ridículos. Mas até aí é questão de gosto. Como o povo é chegado mesmo em pão com merda, e de preferência com pouco pão, não é surpreendente que a festa faça um grande sucesso.
Não é a questão estética que me deixa exasperado. O ponto é outro. Como até o asfalto da Marquês de Sapucaí sabe, as escolas de samba são comandadas por bicheiros, mas isso não impede que recebam milhões de dinheiro público todos os anos. Boa parte sai dos cofres da Prefeitura do Rio. Além disso, as escolas conseguem captar recursos por mecanismos fiscais de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, aquela que permite às empresas “aplicarem” parte do imposto devido em projetos culturais. Treze escolas do Rio conseguiram autorização para arrecadar R$ 33,324 milhões isentos de tributos neste ano.
Quando saiu o resultado, Aniz Abrahão David, bicheiro e presidente da Beija Flor, deu entrevista na televisão normalmente, como se não fosse bandido. Nos dias de desfile, o presidente da Liesa, Capitão Guimarães, também apareceu algumas vezes na Globo, falando com a maior desenvoltura, como se fosse um sujeito respeitável. Para quem não sabe, além de ser bicheiro e ter cabelo tingido, ele foi torturador nos anos da ditadura militar. É esse tipo de gente que recebe milhões dos cofres públicos. Todo carnaval eu lembro desses detalhes, mas a maior parte das pessoas não dá a menor bola para essa chatice. O negócio mesmo é discutir se a Mangueira deve ou não pedir desculpas públicas a Beth Carvalho (se bem que pelo menos é uma polêmica divertida)
PS: Antes que eu me esqueça: pau no cu do Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. Grande merda. E foda-se o Bacalhau do Batata

É brega, é de mau gosto e é de bandido
Acho o carnaval um lixo. A música é de uma pobreza inacreditável, as alegorias são o cúmulo do brega e os enredos são ridículos. Mas até aí é questão de gosto. Como o povo é chegado mesmo em pão com merda, e de preferência com pouco pão, não é surpreendente que a festa faça um grande sucesso.
Não é a questão estética que me deixa exasperado. O ponto é outro. Como até o asfalto da Marquês de Sapucaí sabe, as escolas de samba são comandadas por bicheiros, mas isso não impede que recebam milhões de dinheiro público todos os anos. Boa parte sai dos cofres da Prefeitura do Rio. Além disso, as escolas conseguem captar recursos por mecanismos fiscais de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, aquela que permite às empresas “aplicarem” parte do imposto devido em projetos culturais. Treze escolas do Rio conseguiram autorização para arrecadar R$ 33,324 milhões isentos de tributos neste ano.
Quando saiu o resultado, Aniz Abrahão David, bicheiro e presidente da Beija Flor, deu entrevista na televisão normalmente, como se não fosse bandido. Nos dias de desfile, o presidente da Liesa, Capitão Guimarães, também apareceu algumas vezes na Globo, falando com a maior desenvoltura, como se fosse um sujeito respeitável. Para quem não sabe, além de ser bicheiro e ter cabelo tingido, ele foi torturador nos anos da ditadura militar. É esse tipo de gente que recebe milhões dos cofres públicos. Todo carnaval eu lembro desses detalhes, mas a maior parte das pessoas não dá a menor bola para essa chatice. O negócio mesmo é discutir se a Mangueira deve ou não pedir desculpas públicas a Beth Carvalho (se bem que pelo menos é uma polêmica divertida)
PS: Antes que eu me esqueça: pau no cu do Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. Grande merda. E foda-se o Bacalhau do Batata
fevereiro 20, 2007
A esquerda pirando II (tá vendo só!)
Foi só eu escrever. (uma forma mais irritante ainda de iniciar este post seria "não falei, não falei", em tom de papagaio fanhoso)
Leiam o artigo abaixo do Vinicius Torre Freire na Folha (coloquei no "continuem lendo"). O artigo é bom, por um lado. Ele critica, com razão, as estultices do Janine Ribeiro comentadas no post abaixo. Mas, mais do que isto, o artigo do Torres Freire é um sinal de como as discussões brasileiras bizantinizam-se e fogem dos fatos e do pragmatismo como o diabo da Cruz.
Vou resumir. Uma criança é barbaramente assassinada no Rio. Um dos assassinos é menor, o que chama a atenção da sociedade para o fato de que ele ficará no máximo três anos detido e será solto. A sociedade aproveita e presta atenção também no fato de que os assassinos maiores provavelmente não esquentarão banco de cela mais do que 5, 6 anos, por causa do regime semi-aberto depois do cumprimento de 1/6 da pena. A sociedade pára para pensar, e se incomoda com a brandura do regime penal brasileiro. Começa a rolar um debate. Naturalmente, o cidadão comum tende a trazer de volta a inevitável discussão sobre pena de morte e prisão perpétua. É uma forma simples, eu diria até simplória, de se colocar a favor do endurecimento penal. Na verdade, num país que não consegue prender assassinos confessos como o jornalista Pimenta Neves, falar em pena de morte ou prisão perpétua é botar o carro na frente dos bois (desculpem a pobreza da metáfora, mas nada mais legalzinho me ocorreu). De forma promissora, porém, o debate engata na questão da maioridade penal e das regras ultragenerosas de liberdade condicional. O melhor é que este temas, muito mais relevantes para uma eventual reforma do regime penal brasileiro, começam a ser discutidos pelos cidadãos não-especialistas, como fica claro nas sessões de cartas dos jornais.
Nesse momento, os intelectuais entram em cena. O Janine Ribeiro, subitamente transtornado, guina do pseudo-humanismo liberalóide para a indagação sobre os eventuais méritos dos suplícios medievais, tudo isto regado a muitas debulhações (sic) de dúvidas dilacerantes, angústias insuportáveis, mergulhos no coração das trevas. Menos, Janine, menos. Mas aí a bola já está rolando no campo da grandiloquência oca que caracteriza 95% do debate de idéias no país. Na "polêmica" que vai se estabelecendo entre o Janine e o Torres Freire, somos levados a ler perólas do tipo:
Se a alma ou o espírito tem um destino após a morte, chame-se esse de juízo eterno ou de uma série de reencarnações, como poderá esse infeliz menino ser recompensado pela vida que lhe foi ceifada, não apenas tão cedo, mas, além disso, de modo tão bárbaro?
O problema-chave aí não é a irredutibilidade dos argumentos a um ponto comum, ao consenso, ou a impossibilidade de evidenciar razões e desrazões.
Carajo, eu quero números, fatos, argumentos práticos sobre a conveniência ou não de prender mais do que prendemos. É tão simples.
Mas o pessoar só qué sabê di falá bonito, sô. Arre!
Foi só eu escrever. (uma forma mais irritante ainda de iniciar este post seria "não falei, não falei", em tom de papagaio fanhoso)
Leiam o artigo abaixo do Vinicius Torre Freire na Folha (coloquei no "continuem lendo"). O artigo é bom, por um lado. Ele critica, com razão, as estultices do Janine Ribeiro comentadas no post abaixo. Mas, mais do que isto, o artigo do Torres Freire é um sinal de como as discussões brasileiras bizantinizam-se e fogem dos fatos e do pragmatismo como o diabo da Cruz.
Vou resumir. Uma criança é barbaramente assassinada no Rio. Um dos assassinos é menor, o que chama a atenção da sociedade para o fato de que ele ficará no máximo três anos detido e será solto. A sociedade aproveita e presta atenção também no fato de que os assassinos maiores provavelmente não esquentarão banco de cela mais do que 5, 6 anos, por causa do regime semi-aberto depois do cumprimento de 1/6 da pena. A sociedade pára para pensar, e se incomoda com a brandura do regime penal brasileiro. Começa a rolar um debate. Naturalmente, o cidadão comum tende a trazer de volta a inevitável discussão sobre pena de morte e prisão perpétua. É uma forma simples, eu diria até simplória, de se colocar a favor do endurecimento penal. Na verdade, num país que não consegue prender assassinos confessos como o jornalista Pimenta Neves, falar em pena de morte ou prisão perpétua é botar o carro na frente dos bois (desculpem a pobreza da metáfora, mas nada mais legalzinho me ocorreu). De forma promissora, porém, o debate engata na questão da maioridade penal e das regras ultragenerosas de liberdade condicional. O melhor é que este temas, muito mais relevantes para uma eventual reforma do regime penal brasileiro, começam a ser discutidos pelos cidadãos não-especialistas, como fica claro nas sessões de cartas dos jornais.
Nesse momento, os intelectuais entram em cena. O Janine Ribeiro, subitamente transtornado, guina do pseudo-humanismo liberalóide para a indagação sobre os eventuais méritos dos suplícios medievais, tudo isto regado a muitas debulhações (sic) de dúvidas dilacerantes, angústias insuportáveis, mergulhos no coração das trevas. Menos, Janine, menos. Mas aí a bola já está rolando no campo da grandiloquência oca que caracteriza 95% do debate de idéias no país. Na "polêmica" que vai se estabelecendo entre o Janine e o Torres Freire, somos levados a ler perólas do tipo:
Se a alma ou o espírito tem um destino após a morte, chame-se esse de juízo eterno ou de uma série de reencarnações, como poderá esse infeliz menino ser recompensado pela vida que lhe foi ceifada, não apenas tão cedo, mas, além disso, de modo tão bárbaro?
O problema-chave aí não é a irredutibilidade dos argumentos a um ponto comum, ao consenso, ou a impossibilidade de evidenciar razões e desrazões.
Carajo, eu quero números, fatos, argumentos práticos sobre a conveniência ou não de prender mais do que prendemos. É tão simples.
Mas o pessoar só qué sabê di falá bonito, sô. Arre!
Folha de São Paulo, 20/02/2007
VINICIUS TORRES FREIRE
Convite à filosofia da morte
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Filósofo prega que o desejo de torturar e matar influencie as razões do debate público sobre Justiça e punição do crime
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UM INTELECTUAL que deseja a tortura demorada e a morte dolorosa de homicidas. Trata-se do filósofo Renato Janine Ribeiro, segundo conta ele próprio em artigo publicado no Mais!, na Folha do domingo de Carnaval. Até aí, tudo bem. Na noite escura da alma, todos os gatos são lobos pardos, diria San Juan de La Cruz se escrevesse horóscopos. Mas o que interessa não é o desfile de emoções de Janine, mas seu entrudo filosófico.
Janine meditou seu artigo ainda transtornado pela morte horrível do menino João Hélio. Essa emoção suscitou desejos de vingança e "colocou em xeque" algumas de suas crenças, tais como a oposição à pena de morte e à tortura estatal.
Janine mesmo diz não saber se pleiteia a pena capital. Mas, para o filósofo, é "muito importante" que, em certa medida, suas idéias sejam consoantes com seus sentimentos. É preciso "criticar os sentimentos pela razão e a razão pelos sentimentos" que se apoderam de nós.
A não ser que Janine se considere um déspota do sentimentalismo esclarecido, ele deve admitir que, no debate público, outros cidadãos também teriam o direito de apresentar razões consoantes com desejos de vinganças odientas ou outro tipo qualquer de fúria. Isto é, Janine parece adepto de algum tipo de irracionalismo subjetivista.
Sabemos, porém, que as razões expostas no debate público são de qualquer modo conformadas por pulsões variadas e pelo interesse particular: econômico, estamental, corporativo etc. Mas Janine quer dar ao ódio status semelhante. Quer deduzir políticas públicas de seu horror, do seu turbilhão emocional vingativo. Trata-se de um idealista da pá virada, que deduz regras da boa Justiça a partir da sopa moral-emocional de sua alma.
Isto é, Janine não leva em consideração nenhum elemento da realidade que influencia crime e castigo: cultura, economia, psicologia, processualística, polícia, estrutura judicial, criminalística, nada.
Há argumentos para defender ou refutar a pena de morte? Em termos morais, sem "parti pris" político? Difícil. A pena capital é objeto daquelas discussões em que se confrontam princípios abstratos irreconciliáveis, como em debates sobre aborto, eutanásia, direito de se drogar ou de portar armas.
O problema-chave aí não é a irredutibilidade dos argumentos a um ponto comum, ao consenso, ou a impossibilidade de evidenciar razões e desrazões. O problema é a incompatibilidade total dos princípios abstratos em confronto, como as opiniões sobre liberdade individual ou direito à vida.
Mas, se os princípios deixam de ser abstratos, se argumentos se traduzem em formas de pensar a sociedade e se as razões têm conteúdo real, tais princípios passam a expressar preferências políticas.
Um exemplo: dizer apenas que a pena capital ofende o direito à vida é pregar um princípio abstrato. Diferente é dizer que a condenação à morte torna irreversíveis os erros dos tribunais. Que tal pena é influenciada por fatores como classe, raça, contexto social etc. Que a pena capital legitima e institucionaliza a idéia de que a morte pode ser uma boa coisa, assim como a vingança cruenta. Que, se um cidadão quer uma sociedade menos injusta e violenta, não deveria aceitar a pena capital, dados tais argumentos.
Tal debate também pode levar a conflitos insolúveis. Mas as partes em disputa terão de explicitar qual tipo de sociedade preferem e tendem a criar, dados os efeitos práticos de seus princípios.
Janine não ofereceu razões para a pena de morte. Propagandeou a idéia de que a desordem furiosa das razões deve ter lugar no debate público. Deu a entender assim que tipo de sociedade prefere.
fevereiro 19, 2007
A esquerda pirando
Vejam este artigo do Renato Janine Ribeiro, no qual o professor de Ética e Filosofia da USP compara mais de uma vez os assassinos do garoto no Rio com os nazistas. Ele conclui assim:
Dizem uns que o Brasil está como o Iraque. Parece, pior que isso, que temos algumas mini-auschwitzes espalhadas pelo território nacional.
Ridículo. Confundir um bando de sociopatas limítrofes e semi-analfabetos com a mais sofisticada máquina genocida da História é demonstração de que o pessoal se perdeu mesmo. Esta artigo do Janine ilustra a gritante falta de pragmatismo no debate brasileiro. São contorções íntimas, espasmos metafóricos, teorizações sem fim. Para mim, é muito mais simples. Passados alguns dias, eu sinto pouca ou nenhuma raiva daqueles assassinos, o que é normal, já que não sou da família nem próximo. E, no entanto, continuo defendendo penas de 40, 50 anos para os autores, que é o que acho adequado para quem assassina sem atenuantes e com agravantes (crueldade, no caso). Tirou uma vida, então você perde, de certa forma, um enorme pedaço da sua própria vida. Tão simples. Não precisa ser nazista para merecer perder a vida numa cadeia ou perdê-la de fato (que é o que Janine discute, a pena de morte; eu sou contra, mas considero a sua defesa aceitável no debate civilizado).
Não é preciso nenhuma diarréia intelectual para se chegar à conclusão de que o crime tem de ser punido duramente. Não é preciso nenhuma perplexidade, nenhum tormento mental. Basta pensar com clareza
Vejam este artigo do Renato Janine Ribeiro, no qual o professor de Ética e Filosofia da USP compara mais de uma vez os assassinos do garoto no Rio com os nazistas. Ele conclui assim:
Dizem uns que o Brasil está como o Iraque. Parece, pior que isso, que temos algumas mini-auschwitzes espalhadas pelo território nacional.
Ridículo. Confundir um bando de sociopatas limítrofes e semi-analfabetos com a mais sofisticada máquina genocida da História é demonstração de que o pessoal se perdeu mesmo. Esta artigo do Janine ilustra a gritante falta de pragmatismo no debate brasileiro. São contorções íntimas, espasmos metafóricos, teorizações sem fim. Para mim, é muito mais simples. Passados alguns dias, eu sinto pouca ou nenhuma raiva daqueles assassinos, o que é normal, já que não sou da família nem próximo. E, no entanto, continuo defendendo penas de 40, 50 anos para os autores, que é o que acho adequado para quem assassina sem atenuantes e com agravantes (crueldade, no caso). Tirou uma vida, então você perde, de certa forma, um enorme pedaço da sua própria vida. Tão simples. Não precisa ser nazista para merecer perder a vida numa cadeia ou perdê-la de fato (que é o que Janine discute, a pena de morte; eu sou contra, mas considero a sua defesa aceitável no debate civilizado).
Não é preciso nenhuma diarréia intelectual para se chegar à conclusão de que o crime tem de ser punido duramente. Não é preciso nenhuma perplexidade, nenhum tormento mental. Basta pensar com clareza
Novo Dicionário Paranóide do Século XXI*

Alô bocó, considere-se pó pra sempre, póóóóó pra sempre**
ameaçar – 4 v.t.d ter a probabilidade de 1 em 45 mil ou mais de representar perigo para (Asteróide ameaça a Terra em 2.036)
* Troque mentalmente 'schizoid' por 'paranoid'
** Clique em Verão do Cometa

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fevereiro 17, 2007
Razão e Emoção

Este portuga é um génio
Eu não deveria fazer este post de memória. Mas se não fizer assim, acabo não fazendo de jeito nenhum. Então vou falar de um cara já mencionado em alguns posts meus, e cuja lembrança não é razão, em hipótese alguma, para que eu me candidate a algum prêmio de originalidade ou de citação cool. É bem manjado, o português António Damásio, neurocirurgião e cientista da mente, que vive nos Estados Unidos e escreve livros em inglês. No livro O Erro de Descartes sua tese central é de que a emoção é um componente vital da razão, digamos, prática. Talvez fosse melhor dizer da razão aplicada às atividades sociais. Antes que alguém tenha um frêmito humanista e ache superlegal um cientista 'resgatando' o valor da emoção, aviso que não há nada de sentimentalmente gratificante no livro. Na verdade, é um raciocínio complicado pra cacete, que entediaria um Frei Betto da vida depois de uns poucos parágrafos.

Este portuga é um génio
Eu não deveria fazer este post de memória. Mas se não fizer assim, acabo não fazendo de jeito nenhum. Então vou falar de um cara já mencionado em alguns posts meus, e cuja lembrança não é razão, em hipótese alguma, para que eu me candidate a algum prêmio de originalidade ou de citação cool. É bem manjado, o português António Damásio, neurocirurgião e cientista da mente, que vive nos Estados Unidos e escreve livros em inglês. No livro O Erro de Descartes sua tese central é de que a emoção é um componente vital da razão, digamos, prática. Talvez fosse melhor dizer da razão aplicada às atividades sociais. Antes que alguém tenha um frêmito humanista e ache superlegal um cientista 'resgatando' o valor da emoção, aviso que não há nada de sentimentalmente gratificante no livro. Na verdade, é um raciocínio complicado pra cacete, que entediaria um Frei Betto da vida depois de uns poucos parágrafos.
Damásio conta de pacientes que perdem um pedaço lá do cérebro, relevante para o assunto em tela (quá quá), e aí ficam na seguinte situação: são absolutamente normais em tudo o que possa ser verificado com testes psicológicos, de inteligência, de aptidão motora, etc. Mas, na vida prática, acabam virando dropouts. E por que viram dropouts? Partindo do fato já bem estabelecido de que aquela parte do cérebro está ligada a emoções, a idéia de Damásio é a de que se danifica uma espécie de sensor que guia o, digamos, micromanagement emocional das ações racionais na realidade. A coisa é mais ou menos assim: quando a gente age na vida social, há uma série de medidas, limites e jeitos com os quais lidamos de forma meio intuitiva, já que não é possível dirimir racionalmente todas as nossas dúvidas. Um exemplo: se você vai viajar, é possível, com um mapa e informações de amigos, determinar racionalmente qual é o melhor roteiro. Mas, se você pára na estrada para fazer um lanche, não tem regra racional que lhe diga se você deve ficar 15 ou 40 minutos. Não tem regra racional que diga se você deve esperar um pouco mais pelo amigo atrasado para o encontro, ou se deve desistir. Não tem regra racional para que você decida se ocupar durante mais algum tempo de alguma tarefa necessária, antes de interromper para se ocupar de outra tarefa necessária. A pessoa normal, com as emoções funcionando de forma regular, tem o tempo todo ligada uma espécie de pilhazinha neurótica, uma ansiedadezinha, que nada mais é do que um instrumento de navegação para todos aqueles tipos de situação que eu descrevi. É uma espécie de micro-instinto, de fundo emocional, e construído pelo acúmulo hierarquizado na memória de experiências negativas e positivas em situações semelhantes. É este mecanismo que meio que nos empurra na hora de tomar aquele tipo de decisão. "Ei, crianças, chega de lanche, está na hora de pegar a estrada de novo". "Puta que o pariu, vou marcar cinco minutos no relógio e se este cara não chegar eu me mando (mas você acaba esperando oito e o cara chega)". "Bem, agora se eu não largar isso aqui e começar logo aquele troço, estou ferrado". Em todas estas decisões, a maquininha nervosa está pulsando, discretamente, te empurrando, te freando, te desviando. O cara que perde aquela parte do cérebro vira dropout porque a maquinhinha pifa, e ele é capaz de ficar duas horas no bar da estrada, abandonar o local do encontro com um minuto de atraso do amigo ou simplesmente só fazer uma das duas tarefas necessárias. Parecem coisas inofensivas, mas, se alguém é assim o tempo todo, não consegue ter um desempenho minimamente bom no trabalho ou em outras atividades sociais complexas que envolvam compromissos de longo prazo.
Tudo isto para dizer que a emoção pode ser ótima conselheira na hora de tomar decisões, se bem dosada. E que o Congresso deveria aproveitar esta onda de comoção com o crime para tomar muitas decisões na área penal
PS: Espero que algum leitor destrua esta simplificação grosseira do livro do Damásio
Vendo a Mangueira sair

A fantasia de árabe é uma velha tradição do Carnaval carioca
Foi ao atravessar o Cordão da Bola Preta, tradicional bloco carnavalesco do Centro do Rio, que eu pela primeira vez tive um insight da mente do homem-bomba. Mas isto é assunto para outro post. O que interessa aqui é expressar minha alegria. Porque hoje é Carnaval. O centro do Rio está tomado. Panças pardas tremulam disformes, carrancas femininas de variados formatos balouçam gentilmente em gorduchos tocos de tronco. As gostosas são cercadas por machos peludos e suarentos, arrastando a voz naquela engrolada fala de hiena, típica do adorável carioquês. Mija-se com uma liberdade nunca antes atingida pelas atividades penianas, nem mesmo nos festivais de rock'n'roll e amor livre dos anos 60. A urina espalha-se como um manto fétido sobre as calçadas e o asfalto, penetrando nas muitas saliências e formando um intricado mosaico de poças brilhantes. A música está em toda a parte. Tum tum, urrhhhrrhhhh, tum tum, urhhh uurhh, tum tum. As crianças com expressão chorosa fitam os pais, desconsoladas. Elas querem ver televisão, brincar no playground, comprar bugigangas chinesas - que saco esse negócio de bloco (mas tem um consolo: cobrir o maior número de pessoas possível com aquela espuma nojenta, que se amalgama ao suor e dá esta peculiar sensação de melado profundo que todo folião conhece tão bem). E agora me dá licença que eu vou brincar por aí

A fantasia de árabe é uma velha tradição do Carnaval carioca
Foi ao atravessar o Cordão da Bola Preta, tradicional bloco carnavalesco do Centro do Rio, que eu pela primeira vez tive um insight da mente do homem-bomba. Mas isto é assunto para outro post. O que interessa aqui é expressar minha alegria. Porque hoje é Carnaval. O centro do Rio está tomado. Panças pardas tremulam disformes, carrancas femininas de variados formatos balouçam gentilmente em gorduchos tocos de tronco. As gostosas são cercadas por machos peludos e suarentos, arrastando a voz naquela engrolada fala de hiena, típica do adorável carioquês. Mija-se com uma liberdade nunca antes atingida pelas atividades penianas, nem mesmo nos festivais de rock'n'roll e amor livre dos anos 60. A urina espalha-se como um manto fétido sobre as calçadas e o asfalto, penetrando nas muitas saliências e formando um intricado mosaico de poças brilhantes. A música está em toda a parte. Tum tum, urrhhhrrhhhh, tum tum, urhhh uurhh, tum tum. As crianças com expressão chorosa fitam os pais, desconsoladas. Elas querem ver televisão, brincar no playground, comprar bugigangas chinesas - que saco esse negócio de bloco (mas tem um consolo: cobrir o maior número de pessoas possível com aquela espuma nojenta, que se amalgama ao suor e dá esta peculiar sensação de melado profundo que todo folião conhece tão bem). E agora me dá licença que eu vou brincar por aí
Vendo a Mangueira entrar

O homem com sapatos de drag queen
Este carnaval promete. Ligo a televisão e, na Rede TV, Léo Aquilla entrevista ao vivo Eduardo Suplicy. O Forrest Gump brasileiro, todo vestido de vermelho, se prepara para entrar na avenida. “Eu fui convidado pelo Frank Aguiar para desfilar pela Tom Maior”, diz Suplicy, transpirando empolgação.
Léo Aquilla mostra os sapatos vermelhos do senador e dispara: “Senador, o senhor está com sapatos de drag queen!” Sem perder o sorriso, ele explica que estava com dificuldades para encontrar um sapato 43 e teve que comprar aquele mesmo. A entrevista termina com Suplicy e Frank Aguiar abraçados. Eu juro que não estou estou mentindo.
Um pouco depois, um repórter encontra Fá Morena (eu nunca tinha ouvido falar da mulher, apesar de meus conhecimentos do mundo trash serem razoáveis) e dedica longos segundos a ela, que recebe tratamento de popstar. Em seguida, Léo Aquilla ataca mais uma vez, e engata um papo demorado com Sílvio Brito - aquele mesmo. Corta e entra um outro repórter, que entrevista a gostosa profissional Núbia Óliiver (esse é o nome artístico dela), e tome conversa fiada sobre a beleza do carnaval e os sacrifícios que são feitos para estar com tudo em cima na hora do desfile. Tudo isso em menos de dez minutos.
O negócio vai bem. Eu não vou sair da frente da televisão

O homem com sapatos de drag queen
Este carnaval promete. Ligo a televisão e, na Rede TV, Léo Aquilla entrevista ao vivo Eduardo Suplicy. O Forrest Gump brasileiro, todo vestido de vermelho, se prepara para entrar na avenida. “Eu fui convidado pelo Frank Aguiar para desfilar pela Tom Maior”, diz Suplicy, transpirando empolgação.
Léo Aquilla mostra os sapatos vermelhos do senador e dispara: “Senador, o senhor está com sapatos de drag queen!” Sem perder o sorriso, ele explica que estava com dificuldades para encontrar um sapato 43 e teve que comprar aquele mesmo. A entrevista termina com Suplicy e Frank Aguiar abraçados. Eu juro que não estou estou mentindo.
Um pouco depois, um repórter encontra Fá Morena (eu nunca tinha ouvido falar da mulher, apesar de meus conhecimentos do mundo trash serem razoáveis) e dedica longos segundos a ela, que recebe tratamento de popstar. Em seguida, Léo Aquilla ataca mais uma vez, e engata um papo demorado com Sílvio Brito - aquele mesmo. Corta e entra um outro repórter, que entrevista a gostosa profissional Núbia Óliiver (esse é o nome artístico dela), e tome conversa fiada sobre a beleza do carnaval e os sacrifícios que são feitos para estar com tudo em cima na hora do desfile. Tudo isso em menos de dez minutos.
O negócio vai bem. Eu não vou sair da frente da televisão
fevereiro 16, 2007
Companheiros na avenida

Faço greve, vou pra rua, digo não à opressão
A mentalidade esquerdinha realmente dita as regras no Brasil. Acabo de descobrir que tem até escola de samba engajada. A Tom Maior vai para o sambódromo cantando a opressão ao trabalhador pelo capitalismo e a luta da classe operária por seus direitos. É o sindicalismo na avenida, como deixa claro a letra do samba composta por Maradona, Didi, Turko e Diego Poesia (que, reconheço, é um apelido interessante; se eu fosse malandro ou cafetão, não seria má idéia ser conhecido como Marcos Poesia):
Numa era industrial
A ambição gerou ganância e cobiça
Máquinas devoram o trabalhador
Uma escravidão...Onde o capital é o que importa
Se o tempo é dinheiro a ganhar
A vida é só trabalhar
Pra sobreviver, não basta!
Surgem movimentos pelo mundo
Irmanados por um ideal
Pra nossa dignidade
“1º de Maio”, conquista universal
Quero ter o meu direito, chega de exploração
Com licença, eu vou à luta (BIS)
Faço greve, vou pra rua
Digo não à opressão
É muito lirismo, não?
A Tom Maior não se furta a comentar a realidade brasileira. Na sinopse do enredo, o carnavalesco Marco Aurélio Rufininn diz que “a força dos trabalhadores do complexo industrial automobilístico do ABC teve grande importância, construíram espaços de luta, conquistaram legitimidade, se rebelaram e mostraram que o sindicato tem de ser independente do Estado, livre, pois é a voz do trabalhador.”
Tudo muito bonito, tudo muito engajado – e tudo muito patrocinado. No site da Tom Maior, há uma lista de parceiros da escola. Sabe quem está nela? A CUT de São Paulo. É isso mesmo, meus amigos. Os companheiros aparelharam até escola de samba.
Mas eu confesso que a descoberta do samba-enredo da Tom Maior me deixou contente. Eu odeio carnaval, e todo ano torço para que todas as escolas percam, o que infelizmente não é possível. Neste ano, eu já decidi: vou concentrar meus esforços em secar a Tom Maior

Faço greve, vou pra rua, digo não à opressão
A mentalidade esquerdinha realmente dita as regras no Brasil. Acabo de descobrir que tem até escola de samba engajada. A Tom Maior vai para o sambódromo cantando a opressão ao trabalhador pelo capitalismo e a luta da classe operária por seus direitos. É o sindicalismo na avenida, como deixa claro a letra do samba composta por Maradona, Didi, Turko e Diego Poesia (que, reconheço, é um apelido interessante; se eu fosse malandro ou cafetão, não seria má idéia ser conhecido como Marcos Poesia):
Numa era industrial
A ambição gerou ganância e cobiça
Máquinas devoram o trabalhador
Uma escravidão...Onde o capital é o que importa
Se o tempo é dinheiro a ganhar
A vida é só trabalhar
Pra sobreviver, não basta!
Surgem movimentos pelo mundo
Irmanados por um ideal
Pra nossa dignidade
“1º de Maio”, conquista universal
Quero ter o meu direito, chega de exploração
Com licença, eu vou à luta (BIS)
Faço greve, vou pra rua
Digo não à opressão
É muito lirismo, não?
A Tom Maior não se furta a comentar a realidade brasileira. Na sinopse do enredo, o carnavalesco Marco Aurélio Rufininn diz que “a força dos trabalhadores do complexo industrial automobilístico do ABC teve grande importância, construíram espaços de luta, conquistaram legitimidade, se rebelaram e mostraram que o sindicato tem de ser independente do Estado, livre, pois é a voz do trabalhador.”
Tudo muito bonito, tudo muito engajado – e tudo muito patrocinado. No site da Tom Maior, há uma lista de parceiros da escola. Sabe quem está nela? A CUT de São Paulo. É isso mesmo, meus amigos. Os companheiros aparelharam até escola de samba.
Mas eu confesso que a descoberta do samba-enredo da Tom Maior me deixou contente. Eu odeio carnaval, e todo ano torço para que todas as escolas percam, o que infelizmente não é possível. Neste ano, eu já decidi: vou concentrar meus esforços em secar a Tom Maior
fevereiro 15, 2007
Considerações sobre a morte do menino João

Este é o meu corpo, que é dado por vós
Há um filósofo australiano, judeu, contemporâneo, o Peter Singer, que acha que a vida de um chimpanzé vale tanto ou mais do que a de um bebê humano (estou provavelmente simplificando e distorcendo, não enche). A minha leitura desta idéia (já que não li a fundo a dele, he he) é simples. Como o nosso critério para matar sem remorso é, grosso modo, o primitivismo mental da vítima (insetos, por exemplo), um chimpanzé tem uma vida mental igual ou até superior à de um bebê humano. É claro que na prática o critério para matar sem remorso também é o da vítima em questão ser ou não fofinha. Um rato talvez seja mais inteligente do que um porquinho-da-índia, mas matar o primeiro repugna menos do que matar o segundo. Mas isto não interessa. De um ponto de vista moral e lógico mais rigoroso, o critério, naquela visão, deve ser o da riqueza da vida mental.

Este é o meu corpo, que é dado por vós
Há um filósofo australiano, judeu, contemporâneo, o Peter Singer, que acha que a vida de um chimpanzé vale tanto ou mais do que a de um bebê humano (estou provavelmente simplificando e distorcendo, não enche). A minha leitura desta idéia (já que não li a fundo a dele, he he) é simples. Como o nosso critério para matar sem remorso é, grosso modo, o primitivismo mental da vítima (insetos, por exemplo), um chimpanzé tem uma vida mental igual ou até superior à de um bebê humano. É claro que na prática o critério para matar sem remorso também é o da vítima em questão ser ou não fofinha. Um rato talvez seja mais inteligente do que um porquinho-da-índia, mas matar o primeiro repugna menos do que matar o segundo. Mas isto não interessa. De um ponto de vista moral e lógico mais rigoroso, o critério, naquela visão, deve ser o da riqueza da vida mental.
Cena: o motorista que trabalhou muitos anos para o meu pai, e hoje faz bicos para a família, excelente motorista, responde a uma pergunta minha sobre como foi a viagem. "E aí, foi rápido?" "Ah não, tinha criança no carro". É curioso, mas o raciocínio implícito é o oposto do Singer. Para o Antônio, a vida de uma criança vale mais do que a de um adulto.
Tendo a concordar com o Antônio. Poderia falar aqui da criança como potencialidade (arghhh), e acho mesmo que os que estão chegando tendem a ser melhores do que os que estão partindo. E há também o fato de que as crianças são fofinhas. Mas não acho que nada disto importa muito não. O Antônio me parece certo porque a moralidade só faz sentido se derivar da emoção. Ser for pela razão, na ausência de um sistema de prêmios e punições (terreno ou extra-terreno), o comportamento adequado é o do free-riding na moralidade alheia. Todo mundo se comporta, e eu me aproveito. Imperativo categórico para quê? Só se justificaria se a moralidade fosse um acordo coletivo que todos assinassem ao mesmo tempo – só me comporto se todos os outros 7 bilhões também o fizerem. Na prática, 1 em 7 bilhões é meaningless. Num mundo em que a maioria é boa, a jogada é ser 100% egoísta.
Não é assim, na prática. O comportamento moral vem de um impulso de fundo emocional, e está ligado a simpatias, preconceitos – ao não-racional, em suma. Para o ser humano médio, matar focas a pancada é pior do que desratizar o metrô – mesmo que a segunda atividade seja um holocausto animal muito maior. E eu não vejo problema nisso.
Mas a morte de animais só arranha a moralidade humana. São as mortes de humanos que importam. O Singer questiona isto. Eu não. Não questiono porque vem da verdade emocional que dá base à moralidade.
E esta mesma base valora a vida de uma criança mais do que a de um adulto. Não sou eu que penso assim. É quase todo mundo que sente assim.
A morte desse menino João me fez pensar. Primeiro, notei que o fato calou cinismos e sarcasmos. Eu convivo num meio que lida profissionalmente com a espuma abundante destes casos, e onde depois que a coisa satura quase que inevitavelmente se entra na fase das piadas para desopilar. Muitas piadas sobre o Ayrton Senna. Muitas piadas sobre Lady Di. Muitas piadas sobre Ulysses, sobre Tancredo (sou antigo). Não ouvi nenhuma piada sobre o João. Pode ser que já haja alguma. Eu não ouvi (e, por favor, não me contem nem digam que há).
A reação da sociedade, ao contrário do que estão dizendo, foi impressionantemente sóbria, uma reação de gravitas, não de histeria. Aqueles inevitáveis momentos de kitsch sentimental – a entrevista dos pais no Fantástico – foram sintomaticamente contidos, diria até elegantes. É claro que tem uma máquina de comércio comunicacional que não vai parar e esta história vai acabar chegando aos excessos de exploração e mau-gosto habituais (provavelmente já chegou lá). Mas houve um glimpse inicial de algo reconfortante na reação popular
E a demanda pelo endurecimento do regime penal brotou, pela primeira vez na minha memória, de forma civilizada. Pouca gente pedindo esquadrão da morte. A discussão sobre pena de morte e prisão perpétua (sou contra) no eixo correto, que não é o de fascistas contra humanistas. E a maioria dos cidadãos pedindo simplesmente que penas longas sejam cumpridas por criminosos que as mereçam.
Por que esta morte provocou esta reação? Afinal, foi uma pessoa só, no país das chacinas. Esquerdinhas podem argumentar que derivou do fato de o João ser um menino fofinho, branquinho de classe média, morto por uns negões horríveis. É fraca. Não senti desta vez o clima de ricos sitiados pedindo napalm nas favelas. Nada parecido com isso.
É claro que ser criança, o tema inicial deste post, contou. Mas acho que foi mais. O soco no estômago da sociedade, que produziu esta rara combinação de abatimento e vontade de reagir, foi a profanação do corpo humano. Mais até do que o crime contra a vida, o insuportável neste caso foi o crime contra o corpo.
Me lembraram um caso de uns anos atrás no Sul do país de uma rapaziada com uma ‘brincadeira’ horrível de arrastar cachorros amarrados a carros. A notícia foi recebida com o senso de asco devido. Mas eram só cães (sorry, Singer).
Esfolado vivo. Desculpem os leitores. Mas ‘esfolado vivo’ é um conceito presente na memória da minha imaginação, ligado a suplícios, com toques medievais. É a morte horrenda. Acho até que o João deve ter morrido rapidamente, ou rapidamente desfalecido antes de morrer. Há mortes mais sofridas. O horror do caso, como eu já disse, não me parece ser o crime contra a vida, mas sim o crime contra o corpo.
O corpo. O templo sagrado. O corpo de Cristo. A ressurreição da carne. Os corpos deformados de Francis Bacon. O corpo de uma criança. Na fronteira mais sofisticada do ateísmo, Antonio Damásio explica que a grande ilusão é o dualismo, a idéia de que haja algum tipo de separação entre espírito e corpo. Irônico como isto se confunde com o misticismo profundo da ressurreição da carne. A carne não ressuscita, muito menos o espírito vive para além da carne, diz Damásio. Não acho que um católico moderno creia que a carne ressuscite. Mas quando se precisou falar de ressurreição, o que ressuscitou foi a carne, o corpo. O espírito não existe fora do seu templo. O templo é o espírito.
O esfolamento é a forma macabramente suprema de destruir um corpo, camada por camada, célula por célula. Esfolamento no chão sujo e sórdido da cidade, até a destruição total da forma, de qualquer forma que remotamente remeta ao corpo humano, ao corpo infantil. O corpo como carne, no pior sentido. Por isto até policiais calejados na barbárie do crime carioca vieram abaixo. Essa, nem Bacon. Nem Sin City.
Por isto a sociedade reagiu como a um soco duro, surdo, seco no estômago. Um soco que nauseia e clareia. Que cala e faz pensar. Talvez alguma coisa tenha mudado. Talvez tenhamos aprendido a não perdoar
fevereiro 11, 2007
Grandeza

Ecce Homo
Eu nem achava que fosse escrever este post, pelo trabalhão mesmo. Mas o Paulo Francis também teve lá o seu papel na minha vida. Não o li como adolescente deslumbrado, porque já tinha passado esta etapa biológica. Li como adulto jovem, já um pouco seasoned, enroscado na luta pela sobrevivência material, sem tempo nem vontade de fazer minha cabeça d’après Francis ou ir atrás das miríades de referências culturais que ele cuspia a cada parágrafo. Mas eu curtia muito, como direitista assaz isolado, aquela explosão bi-semanal de sopapos e bofetões no aparelho cultural esquerdista tupiniquim. Era quase como uma dose regular de alguma droga inebriante, que me fazia respirar contente e aliviado, encarar a feia realidade e pensar que “um dia a gente ainda desmascara estes panacas”. Este dia nunca chegou, mas sementes foram plantadas, e hoje existe no Brasil uma direita pensante que não recende ao mofo de livrinhos de missa ensebados ou ao chulé de botas no quartel.

Ecce Homo
Eu nem achava que fosse escrever este post, pelo trabalhão mesmo. Mas o Paulo Francis também teve lá o seu papel na minha vida. Não o li como adolescente deslumbrado, porque já tinha passado esta etapa biológica. Li como adulto jovem, já um pouco seasoned, enroscado na luta pela sobrevivência material, sem tempo nem vontade de fazer minha cabeça d’après Francis ou ir atrás das miríades de referências culturais que ele cuspia a cada parágrafo. Mas eu curtia muito, como direitista assaz isolado, aquela explosão bi-semanal de sopapos e bofetões no aparelho cultural esquerdista tupiniquim. Era quase como uma dose regular de alguma droga inebriante, que me fazia respirar contente e aliviado, encarar a feia realidade e pensar que “um dia a gente ainda desmascara estes panacas”. Este dia nunca chegou, mas sementes foram plantadas, e hoje existe no Brasil uma direita pensante que não recende ao mofo de livrinhos de missa ensebados ou ao chulé de botas no quartel.
O Francis escrevia muita merda. Chutava a torto e a direito. Era praticamente um farsante escrevendo sobre alguns assuntos dos quais não entendia xongas, mas sobre os quais enrolava os leitores mais crédulos com pose e texto. Este defeito de caráter (e havia muitos outros, até mais graves) foi, naturalmente, a alegria dos seus muitos inimigos. Num post já meio célebre, o Milton Ribeiro conta como desconstruir Francis foi uma das atividades intelectuais mais gratificantes da sua adolescência e primeira juventude. Acho até certo ponto natural. O cara é de esquerda, supra-sumo da correção política. Cada tonitruante parágrafo do Francis devia fazer tremer de forma desagradável todos os recantos daquela alma sensível. E se o Francis lhe entregava de bandeja 23 erros factuais por coluna, por que não aproveitar para uma pequena, cotidiana, obsessiva vingança? Questão de gosto.
É óbvio que o Francis produzia muito ouro também (e conhecia profundamente muito daquilo sobre o que pontificava). Foi insuperável na crônica confessional, prolixa, irritada, dolorida, brilhantemente neurótica, cruelmente sarcástica, terrivelmente engraçada, deliciosamente culta. Eu acho que não tinha como não ter os 25 erros factuais por coluna. É preciso entender Francis, a turma do Pasquim, a formação ipanemense dos anos 60 e 70. Era a vida como frenesi ou estupor alcoólico (e isto fica mesmo se eventualmente se pára de beber). Imaginar que Francis, do alto da sua auto-suficiência intelectual, tomado pela narcose preguiçosa de uma velhice exaltada, e preso à necessidade depressiva de não deixar o show parar, a bola cair e a ressaca chegar, fosse frear a cada linha para meticulosamente consultar livros, rever anotações, o caralho a quatro, é não entender nada de Francis. Não seria mais aquele texto quase oral, errático, vibrante, ziguezagueando entre o erudito e o chulo, o sublime e a baixaria. Vinha da cabeça, do coração, do fígado e era vomitado rápido, quase todo de uma vez. Não tinha como estacionar mais um pouquinho naquelas partes chatas do cérebro devotadas a conferir e retificar. Ia perder toda a graça.
Acho que Francis era um mau polemista no varejo, embora não tenha acompanhado todas. A com o Caio Túlio Costa eu segui. E, ao contrário de muitos, acho que Caio levou a melhor. Seus xingamentos foram surpreendentemente competitivos em eloqüência com os do Francis, e quanto aos fatos o Caio estava com razão em quase tudo e mostrou claramente que estava. Seu ponto básico, verdadeiro, é que Francis não era para ser levado 100% a sério como jornalista. Eu acho isto elogio, mas o Francis tomou o negócio como criança, para quem qualquer coisa é negativa se quem a diz coloca uma conotação negativa. E ficou enfurecido. O Caio tinha razão porque, na realidade feia e crua das redações, de fato os cronistas não são levados 100% a sério. Acho que mesmo um repórter que escreve crônicas não as leva 100% a sério. Jornalismo sério tem que ter uma dose inevitável de chatice que é cianureto numa crônica. O que Francis fazia não era crônica stricto sensu, mas a levada era de crônica. O Francis não era bom polemista porque partia histérico para cima do oponente, para socar, puxar cabelo, morder a orelha. Em quase qualquer luta, o que conta mais é o sangue-frio. Vocês acham que o Federer ganha sempre por quê?
Mas o que menos importa na herança de um grande polemista é o seu histórico de vitórias e derrotas, mesmo por que estamos num terreno fuzzy no qual estas coisas nunca ficam muito claras, graças a Deus. Que se fodam as 350 questiúnculas que de fato estavam em jogo. Existe uma big picture na vida de um polemista. E nesta o Francis ganhou. Em resumo, ele apostou que a esquerda estava errada em quase tudo, e estava mesmo. Pergunte para quase qualquer um em qualquer lugar em que as pessoas comam de garfo e faca intelectualmente, e aquela verdade básica será reconhecida. Menas aqui, é claro. Mas na Venezuela é ainda pior. Francis também jogou suas fichas na tese de que o Brasil é um pântano cultural e político, e essa quem ousa negar, hoje? Ah, e por falar nisso, eu uma vez encontrei Caio Túlio Costa num avião, tentando ler um livro do Walter Benjamin. Tornou-se um importante executivo de Comunicações. Eu acho que ele ganhou a polêmica com o Francis, mas não é um polemista. Nunca irá ganhar a grande polêmica da vida. Mas ganha dinheiro, e por isto merece respeito.
A morte do Francis foi um caso desagradável, nada heróico. Jornalista da turma do Pasquim era esculhambado demais para ganhar dinheiro de verdade, com exceções, como o Ziraldo, que tinha talento e especialização mais marqueteáveis. Houve outras exceções, mas o fato é que o Francis ficou rico meio num golpe de sorte, quando ao criar a persona de curmudgeon esnobe em Nova York ele acertou big time, faturando legal tanto (e primeiro) no Diário da Corte quanto nos programas de TV. Ficar rico já meio depois de velho foi o equivalente para o Francis de uma visita supresa à Disneylândia para um guri da favela. Ele gostou que se enroscou, e ficou todo melado. Agora podia ir despreocupadamente aos melhores restaurantes do mundo, se hospedar nos hotéis mais aristocráticos, viajar de Concorde, freqüentar que ocasião ou regabofe cultural e artístico que lhe desse na veneta. Para um curmudgeon esnobe metralhando de Nova York a esquerda barbudinha de sandálias e dedão preto, não poderia haver nada mais bem-vindo do que aquela prosperidade crepuscular.
Mas ele não era rico de verdade. Ganhava um grande salário e gastava muito. Fez um pé-de-meia com os juros mais altos do mundo. Isto não é ser rico. Qualquer menino semi-imberbe de vinte e poucos anos operando numa mesa de Wall Street era mais rico do que o Francis. A riqueza dele era frágil, e quando a Petrobrás entrou com um processo de, sei lá, dezenas de milhões de dólares numa corte de Nova York ele se desesperou. Apavorou-se com o fantasma de perder toda a grana e a toda a pose. Já pensou que vingança para os Milton Ribeiro da vida, o Francis na penúria? E o coração não agüentou.
A Petrobrás estava coberta de razão. As acusações do Francis eram ridículas, pueris. Ele não entendia nada deste mundo de negócios, petróleo. Não reconheceria uma plataforma se alguma passasse na sua frente (ainda mais com aquela miopia toda). Como boa parte dos intelectuais, era um peso pluma nos embates sérios e pesados da vida capitalista. O pessoal da Petrobrás passou como moto-niveladora por cima dele, eles sim, executivos, homens duros, que sabem ser praticamente maus e intolerantes (os atributos que os inimigos ideológicos viam no Francis). Ele não era páreo para essa turma, e se borrou. O processo foi em Nova York para machucar o máximo possível mesmo, que é o que homens adultos fazem quando entram em conflito. Eles usaram todo o arsenal jurídico da Petrobrás, cobertos de razão, porque a ofensa foi institucional. A companheirada do Francis, como o Elio Gaspari, tentou condenar eticamente a Petrobrás (irônico isto: Gaspari, o arqui-estatista). Como se fosse errado você partir com os pés para cima do peito de alguém que te chama de corrupto. Inglória esta morte, muito inglória.
Neste final Francis já tinha caído na grande armadilha dos curmudgeons, que é a de virar uma caricatura da própria caricatura. A primeira caricatura é adequada, nobre, vital. Me lembro uma vez de um viadinho deleuziano me chamar a atenção para algo como o Nietszche defendendo a bufonaria. É isto aí, é preciso ser um bufão, criar uma caricatura de madeira talhada, uma careta com riso esgarçado, sobrancelhas arqueadas e muitas rugas na testa. É para assustar, desafiar e principalmente para que não encham o saco. Não dá para ofender a sensibilidade de toda uma época e depois circular com sua própria carinha, reagindo como ser humano normal a todos os olhares desaprovadores, caras ressabiadas e fúrias recalcadas. É preciso vestir a máscara para que no jogo social você não se comprometa inconscientemente a recuar, voltar atrás, abrandar o fogo. A caricatura é meio que um aviso para sair da frente quem não quiser levar tiro. É célebre a afabilidade pessoal de Francis, quase que independentemente de qualquer característica social, cultural e ideológica do interlocutor, quando comparada com a impiedade mal-humorada dos seus textos. É que ele não julgava necessário vestir a máscara para desempenhar as atividades do cotidiano mais restrito.
A velhice, porém, dá cansaço, preguiça. E aí a tentação de ser a caricatura da caricatura é grande. A primeira caricatura é uma criação brilhante, cheia de nuances. É uma versão artisticamente exagerada da personalidade do autor. A segunda é dura, repetitiva, tem o jeito dos bordões dos maus programas de humor, infinitamente repetidos. Francis não estava de forma definitiva na fase da segunda caricatura. Ele alternava. Alguns dos seus piores momentos, como elogios a Collor e Maluf, eu atribuo à caricatura da caricatura. É a simplificação extrema. A esquerda não gosta? Então é bom. Dá menos trabalho assim. Fica mais fácil de administrar no dia a dia.
Bem, eu falei muita coisa ruim do Francis nos parágrafos acima, e alguém pode achar que eu não gostava dele. Imenso engano. Francis peitou praticamente sozinho o establishment nacional-populista na área cultural. Não o fez com gestos calculados, mas sim com rompantes de cavaleiro tresloucado, com brio e com brilho, com garbo e com verve, e com enormes riscos humanos e mesmo profissionais (deu certo ser do contra, mas naquela época ainda era uma fórmula por testar). Foi coisa de macho invocado, e as hienas que espalhavam a boca pequena ser ele a bicha do Pasquim jamais teriam os culhões e o cérebro para empreender algo semelhante.
Para caras como eu, obscuros e constrangidos neoliberais, a fulgurante vida intelectual do Francis foi uma benção. Bem, não quero aqui fazer aquela listinha de herdeiros culturais de Francis, de articulistas e blogueiros que provavelmente não seriam o que são se ele não tivesse antes, sozinho, arrombado as portas por onde toda esta inteligência pode fluir hoje em dia.
Não tenho dúvida de que Francis foi um herói intelectual. E de que esta foi uma história de grandeza
fevereiro 10, 2007
A política monetária assassina

André Araújo: estúpido ou mal intencionado?
Eu não pretendia escrever sobre a morte do garoto João Hélio Fernandes Vieites, mas uma mensagem enviada por André Araújo a Luís Nassif me fez mudar de idéia. Cito de cara os dois primeiros parágrafos, para deixar claro o nível de estupidez (ou de má fé?) a que se pode chegar quando se discute a violência no Brasil: “A TV Globo está dando cobertura detalhista sobre o caso do menino arrastado por assaltantes no Rio. Lateralmente, o usual discurso de estupor e condenação do trágico evento (que é trágico mesmo). Mas no mesmo dia e na mesma hora, no outro canal do grupo, a Globonews, a Miriam Leitão entrevista José Julio Senna (pela segunda vez esta semana no mesmo programa) e Luis Fernando Figueiredo, que aprovam com louvor e sem meias palavras a política monetária do BC.
Os dois acontecimentos estão ligados para quem vê o mundo como um todo. A política monetária elogiada pela Globonews é a mesma que produz a total ausência de perspectiva para a juventude carioca e brasileira de classe baixa e encaminha parte dela para o crime.”
É isso mesmo. Eu não inventei nada, podem conferir aqui. Para Araújo, o Banco Central, o mordomo da economia brasileira, acaba de cometer mais um crime: é responsável também pela barbárie cometida por um bando de celerados contra um menino de seis anos. O assassinato de João não teve nada a ver com a impunidade ou com a crueldade dos assassinos. Eu não duvido que, na cabeça de Araújo, o crime não teria ocorrido se os juros estivessem em 6% ao ano, e não em 13%.
O raciocínio de Araújo é de uma sofisticação invejável. Primeiro, atribui exclusivamente ao BC a culpa pelo baixo crescimento do país. Depois, diz que é a ausência de perspectiva para a juventude que a leva ao crime. E continua: “Em um milhão de jovens, 950 mil podem passar fome mas não irão matar para roubar. Mas 50 mil podem seguir esse caminho sem volta. Se houvesse mais empregos parte desses futuros assaltantes poderiam não ir para o crime. Mas a Globonews não liga as duas coisas e dobra a aposta na defesa de uma política suicida cujo custo mais alto é a impossibilidade de haver sequer esperança para um futuro emprego de dois milhões de jovens brasileiros que a cada ano ingressam no mercado de trabalho.”
Antes de ler a mensagem de Araújo, eu tinha certeza de que a medida mais importante para reduzir a criminalidade era o fim da impunidade, com processos mais rápidos – é óbvio que com amplo direito de defesa -, que resultassem em penas duras e cumpridas integralmente em regime fechado para culpados de crimes hediondos. Mas percebo que a carta de Araújo embute uma saída mais simples: reduzir mais rapidamente os juros. Com uma Selic mais baixa, a juventude terá todas as oportunidades para fugir do crime. É bem possível que não haja mais assassinatos, estupros ou seqüestros. Eu não ficaria espantado se o Marcola se regenerasse.
Como muita gente pensa como Araújo, o Brasil não só não vai crescer mais rápido como também não vai resolver o problema da criminalidade. O Grande Paraguai é isso aí. Não tem a menor possibilidade de dar certo

André Araújo: estúpido ou mal intencionado?
Eu não pretendia escrever sobre a morte do garoto João Hélio Fernandes Vieites, mas uma mensagem enviada por André Araújo a Luís Nassif me fez mudar de idéia. Cito de cara os dois primeiros parágrafos, para deixar claro o nível de estupidez (ou de má fé?) a que se pode chegar quando se discute a violência no Brasil: “A TV Globo está dando cobertura detalhista sobre o caso do menino arrastado por assaltantes no Rio. Lateralmente, o usual discurso de estupor e condenação do trágico evento (que é trágico mesmo). Mas no mesmo dia e na mesma hora, no outro canal do grupo, a Globonews, a Miriam Leitão entrevista José Julio Senna (pela segunda vez esta semana no mesmo programa) e Luis Fernando Figueiredo, que aprovam com louvor e sem meias palavras a política monetária do BC.
Os dois acontecimentos estão ligados para quem vê o mundo como um todo. A política monetária elogiada pela Globonews é a mesma que produz a total ausência de perspectiva para a juventude carioca e brasileira de classe baixa e encaminha parte dela para o crime.”
É isso mesmo. Eu não inventei nada, podem conferir aqui. Para Araújo, o Banco Central, o mordomo da economia brasileira, acaba de cometer mais um crime: é responsável também pela barbárie cometida por um bando de celerados contra um menino de seis anos. O assassinato de João não teve nada a ver com a impunidade ou com a crueldade dos assassinos. Eu não duvido que, na cabeça de Araújo, o crime não teria ocorrido se os juros estivessem em 6% ao ano, e não em 13%.
O raciocínio de Araújo é de uma sofisticação invejável. Primeiro, atribui exclusivamente ao BC a culpa pelo baixo crescimento do país. Depois, diz que é a ausência de perspectiva para a juventude que a leva ao crime. E continua: “Em um milhão de jovens, 950 mil podem passar fome mas não irão matar para roubar. Mas 50 mil podem seguir esse caminho sem volta. Se houvesse mais empregos parte desses futuros assaltantes poderiam não ir para o crime. Mas a Globonews não liga as duas coisas e dobra a aposta na defesa de uma política suicida cujo custo mais alto é a impossibilidade de haver sequer esperança para um futuro emprego de dois milhões de jovens brasileiros que a cada ano ingressam no mercado de trabalho.”
Antes de ler a mensagem de Araújo, eu tinha certeza de que a medida mais importante para reduzir a criminalidade era o fim da impunidade, com processos mais rápidos – é óbvio que com amplo direito de defesa -, que resultassem em penas duras e cumpridas integralmente em regime fechado para culpados de crimes hediondos. Mas percebo que a carta de Araújo embute uma saída mais simples: reduzir mais rapidamente os juros. Com uma Selic mais baixa, a juventude terá todas as oportunidades para fugir do crime. É bem possível que não haja mais assassinatos, estupros ou seqüestros. Eu não ficaria espantado se o Marcola se regenerasse.
Como muita gente pensa como Araújo, o Brasil não só não vai crescer mais rápido como também não vai resolver o problema da criminalidade. O Grande Paraguai é isso aí. Não tem a menor possibilidade de dar certo
fevereiro 09, 2007
Vacas magras

Sacudam estas ancas ossudas, tio Chávez mandou chamar
Ça bouge na Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), a área de livre qualquer coisa (populismo? socialismo? ditadura?) concebida pelo Chávez para se opor ao projeto imperialista da Alca. Ontem mesmo o Chávez, às voltas com problemas de desabastecimento como efeito das medidas de controles de preços para conter a inflação, telefonou para o companheiro Morales pedindo uma remessa imediata de carne boliviana para suprir as prateleiras vazias dos supermercados em Caracas.
Eu fecho os olhos e vejo aquelas vacas magras nos Andes enregelados, zeradas de colesterol, e com a cocaína escorrendo pelas fuças. Poético, à sua maneira. O apelo de Chávez augura uma poderosa corrente de comércio para a América Bolivariana num futuro já não tão distante. Avante, compañeros!

Sacudam estas ancas ossudas, tio Chávez mandou chamar
Ça bouge na Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), a área de livre qualquer coisa (populismo? socialismo? ditadura?) concebida pelo Chávez para se opor ao projeto imperialista da Alca. Ontem mesmo o Chávez, às voltas com problemas de desabastecimento como efeito das medidas de controles de preços para conter a inflação, telefonou para o companheiro Morales pedindo uma remessa imediata de carne boliviana para suprir as prateleiras vazias dos supermercados em Caracas.
Eu fecho os olhos e vejo aquelas vacas magras nos Andes enregelados, zeradas de colesterol, e com a cocaína escorrendo pelas fuças. Poético, à sua maneira. O apelo de Chávez augura uma poderosa corrente de comércio para a América Bolivariana num futuro já não tão distante. Avante, compañeros!
fevereiro 08, 2007
Ah, essa nossa direita II
Eu nunca levo pefelistas a sério, mas dessa vez Jorge Bornhausen se superou no ridículo. Nada mais constrangedor do que chamar de democrata um partido cujos maiores líderes tiveram participação ativa na ditadura, como você notou. Nasce o partido da piada pronta. E quem é do PD, o que é? Pedista?
Bornhausen, além da atuação durante o regime militar, teve posições de destaque em dois governos grotescos da redemocratização. Ele foi ministro da Educação de José Sarney entre 1986 e 1987, período em que, como todos sabem, houve uma revolução que mudou a cara do setor no país, transformando o Brasil numa Coréia do Sul tropical. No governo do estadista Fernando Collor, Bornhausen foi ministro da Secretaria de Governo, acompanhando o presidente até o impeachment. O homem certo no lugar certo.
Dá para respeitar um sujeito com essa história? Eu não consigo – e nem tento
Eu nunca levo pefelistas a sério, mas dessa vez Jorge Bornhausen se superou no ridículo. Nada mais constrangedor do que chamar de democrata um partido cujos maiores líderes tiveram participação ativa na ditadura, como você notou. Nasce o partido da piada pronta. E quem é do PD, o que é? Pedista?
Bornhausen, além da atuação durante o regime militar, teve posições de destaque em dois governos grotescos da redemocratização. Ele foi ministro da Educação de José Sarney entre 1986 e 1987, período em que, como todos sabem, houve uma revolução que mudou a cara do setor no país, transformando o Brasil numa Coréia do Sul tropical. No governo do estadista Fernando Collor, Bornhausen foi ministro da Secretaria de Governo, acompanhando o presidente até o impeachment. O homem certo no lugar certo.
Dá para respeitar um sujeito com essa história? Eu não consigo – e nem tento
Ah, essa nossa direita

Seja democrata, seja marginal
Acabo de ler que, como parte da "refundação" do PFL, o seu presidente Jorge Bornhausen decidiu mudar o nome da agremiação para "Partido Democrata". É genial: tem todo o élan para atrair a massa orfã conservadora e liberal. Afinal, "democrata" é a essência da idéia de ajuste do Estado, redução de tributos, sistema penal mais severo, etc. Em uma simples palavra, capta-se o zeitgeist da nova direita brasileira, perpassando Mainardi, Wunderblogs, turma liberal da PUC-Rio, classe média irritada com a violência, pequenos empresários do interior próspero (tão próximos do fisco e tão longe de Brasília), Ali Kamel, Reinaldo Azevedo etc. Partido Democrata me lembra até um partido americano que, bem a propósito, partilha dos ideais do PF... espera um pouco, o partido americano é o que está à esquerda do espectro político, esquece essa então.
Partido Democrata. Bonito isso. Ainda mais vindo do partido que apoiou os militares na ditadura. É sinal de contrição, reconstrução, aggiornamento. Eu já vejo os pefelistas excitadíssimos, sentindo-se super prafrentex, dançando o iê-iê-iê, e zoando da esquerda, "somos democratas, somos cabeludos, e nos fins de semana usamos calças jeans".
É, agora a coisa vai. O PT vai finalmente encarar uma oposição de direita de verdade

Seja democrata, seja marginal
Acabo de ler que, como parte da "refundação" do PFL, o seu presidente Jorge Bornhausen decidiu mudar o nome da agremiação para "Partido Democrata". É genial: tem todo o élan para atrair a massa orfã conservadora e liberal. Afinal, "democrata" é a essência da idéia de ajuste do Estado, redução de tributos, sistema penal mais severo, etc. Em uma simples palavra, capta-se o zeitgeist da nova direita brasileira, perpassando Mainardi, Wunderblogs, turma liberal da PUC-Rio, classe média irritada com a violência, pequenos empresários do interior próspero (tão próximos do fisco e tão longe de Brasília), Ali Kamel, Reinaldo Azevedo etc. Partido Democrata me lembra até um partido americano que, bem a propósito, partilha dos ideais do PF... espera um pouco, o partido americano é o que está à esquerda do espectro político, esquece essa então.
Partido Democrata. Bonito isso. Ainda mais vindo do partido que apoiou os militares na ditadura. É sinal de contrição, reconstrução, aggiornamento. Eu já vejo os pefelistas excitadíssimos, sentindo-se super prafrentex, dançando o iê-iê-iê, e zoando da esquerda, "somos democratas, somos cabeludos, e nos fins de semana usamos calças jeans".
É, agora a coisa vai. O PT vai finalmente encarar uma oposição de direita de verdade
fevereiro 03, 2007
Paraescritores

Ferréz, escritor e semi-analfabeto
O Brasil é realmente um lugar assombroso. Além de ter um presidente semi-analfabeto, o país também tem escritores semi-analfabetos. Um dos mais conhecidos é Ferréz. No aniversário de São Paulo, a Folha publicou um artigo dele sobre a cidade. O texto, intitulado Metrópole de aço, é uma carta enviada pelo filho “Periferia” para a “mãe” São Paulo. Lugares comuns abundam, como se vê neste trecho: “Mesmo que eu nunca tenha usufruído da suas posses, mesmo que você não tenha dado direitos iguais há seus filhos, mesmo assim, feliz aniversário. Mãe, eu não te culpo, faltou eu ter a maldade necessária para vencer, mas faz mó cara que eu não escrevo, acho que com todo seu poder, você entende, pois no final, toda rua de São Paulo quando não é contra mão é sem saída, pelo menos para nós que além do poder público ficamos a mercê do poder paralelo. Sou o menino que passa carregando a carroça ao lado de um carro importado, mais caro que toda minha vida de salário, e estou indo para a esquina onde os rostos manchados por uma vida dura fazem bifurcação”. O artigo completo pode ser lido aqui.
Talvez por masoquismo, fui procurar outras coisas que Ferréz escreveu. Descobri que ele tem um blog. Os textos são ainda piores do que o artigo publicado na Folha, que, tudo indica, foi generosamente revisado. Um post mostra o estilo machadiano de Ferréz: “é quente, amanhã sabadão, eu vou dar uma caminhada logo pela manhã, uma grande caminhada, mas quando tiver olhando em volta, o verde da estrada de Itapecerica, eu vou estar sabendo que é o dia do aniversário do nosso escritor do abraçado ao rancor. isso mesmo, amanhã, sábado dia 27 João Antônio faz 70 anos. quem puder, ore, quem quizer beba, quem não acredita viva, porque um dos três ele faria. tamu junto João, 70 anos de muitas letras.”
O texto deixa claro que chamar Ferréz de semi-analfabeto não é exagero. Mas a qualidade literária da escrita do mano não impede que ele seja um dos queridinhos da mídia. Seus livros Capão pecado e Manutal prático do ódio receberam espaço nobre na imprensa. Numa resenha do segundo, Marcelo Rubens Paiva se desmancha em elogios: “(...) mais profundo, mais bem escrito e, como não poderia deixar de ser, mais envolvente. O livro aborda o universo da violência urbana com o refinamento de quem a conhece em detalhes. Tem aquela crueza dos primeiros contos de Rubem Fonseca, aquele de Feliz Ano Novo. Sua violência não é alegórica. Narra a história de uma gangue ('firma') como deve ser narrada, sem preconceitos, humanizada.” Eu não li Manual prático do ódio e não o lerei, mas não há como não ter certeza de que o livro é muito ruim. E eu não gosto de Rubem Fonseca, mas ser comparado com Ferréz? Essa ele não merecia.
Fuçando nos arquivos da Folha, encontrei uma frase de Ferréz sobre Bouvard e Pécuchet: "É um livro legal pra caramba. Conta a história de dois amigos que tentam tudo para encontrar um sentido na vida.” Eu gostei principalmente do termo “pra caramba”. Flaubert, sempre preocupado com a busca do “mot juste”, iria adorar.
Quando eu pensei em escrever este post, lembrei da frase que abre The great Gatsby: “In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. 'Whenever you feel like criticizing anyone,' he told me, 'just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had.'
Chamar Ferréz de semi-analfabeto e não reconhecer nenhuma qualidade no sujeito seria desconsiderar totalmente esse conselho. É claro que ele tem seus méritos. Pelo que li no seu blog, ele organiza bibliotecas na periferia, o que é sem dúvida um trabalho importante – e aqui não estou sendo irônico. Também é admirável que alguém com sua história se torne escritor, ainda que um mau escritor.
O que me irrita é que alguns identifiquem Ferréz como uma das vozes importantes da literatura brasileira atual. A leitura do seu blog mostra que ele escreve bisonhamente. Se os posts são mal escritos, o que imaginar de seus romances? Confundir um exemplo de superação individual com literatura é excesso de condescendência. É o mesmo fenômeno que ocorre quando tentam transformar atletas paraolímpicos em heróis do esporte. Não há como não admirar pessoas que têm uma determinação e uma coragem que eu não teria em circunstâncias parecidas. Mas isso não quer dizer que eu tenha algum interesse em assistir uma partida de futebol com jogadores que têm paralisia cerebral ou uma prova de atletismo com velocistas cegos

Ferréz, escritor e semi-analfabeto
O Brasil é realmente um lugar assombroso. Além de ter um presidente semi-analfabeto, o país também tem escritores semi-analfabetos. Um dos mais conhecidos é Ferréz. No aniversário de São Paulo, a Folha publicou um artigo dele sobre a cidade. O texto, intitulado Metrópole de aço, é uma carta enviada pelo filho “Periferia” para a “mãe” São Paulo. Lugares comuns abundam, como se vê neste trecho: “Mesmo que eu nunca tenha usufruído da suas posses, mesmo que você não tenha dado direitos iguais há seus filhos, mesmo assim, feliz aniversário. Mãe, eu não te culpo, faltou eu ter a maldade necessária para vencer, mas faz mó cara que eu não escrevo, acho que com todo seu poder, você entende, pois no final, toda rua de São Paulo quando não é contra mão é sem saída, pelo menos para nós que além do poder público ficamos a mercê do poder paralelo. Sou o menino que passa carregando a carroça ao lado de um carro importado, mais caro que toda minha vida de salário, e estou indo para a esquina onde os rostos manchados por uma vida dura fazem bifurcação”. O artigo completo pode ser lido aqui.
Talvez por masoquismo, fui procurar outras coisas que Ferréz escreveu. Descobri que ele tem um blog. Os textos são ainda piores do que o artigo publicado na Folha, que, tudo indica, foi generosamente revisado. Um post mostra o estilo machadiano de Ferréz: “é quente, amanhã sabadão, eu vou dar uma caminhada logo pela manhã, uma grande caminhada, mas quando tiver olhando em volta, o verde da estrada de Itapecerica, eu vou estar sabendo que é o dia do aniversário do nosso escritor do abraçado ao rancor. isso mesmo, amanhã, sábado dia 27 João Antônio faz 70 anos. quem puder, ore, quem quizer beba, quem não acredita viva, porque um dos três ele faria. tamu junto João, 70 anos de muitas letras.”
O texto deixa claro que chamar Ferréz de semi-analfabeto não é exagero. Mas a qualidade literária da escrita do mano não impede que ele seja um dos queridinhos da mídia. Seus livros Capão pecado e Manutal prático do ódio receberam espaço nobre na imprensa. Numa resenha do segundo, Marcelo Rubens Paiva se desmancha em elogios: “(...) mais profundo, mais bem escrito e, como não poderia deixar de ser, mais envolvente. O livro aborda o universo da violência urbana com o refinamento de quem a conhece em detalhes. Tem aquela crueza dos primeiros contos de Rubem Fonseca, aquele de Feliz Ano Novo. Sua violência não é alegórica. Narra a história de uma gangue ('firma') como deve ser narrada, sem preconceitos, humanizada.” Eu não li Manual prático do ódio e não o lerei, mas não há como não ter certeza de que o livro é muito ruim. E eu não gosto de Rubem Fonseca, mas ser comparado com Ferréz? Essa ele não merecia.
Fuçando nos arquivos da Folha, encontrei uma frase de Ferréz sobre Bouvard e Pécuchet: "É um livro legal pra caramba. Conta a história de dois amigos que tentam tudo para encontrar um sentido na vida.” Eu gostei principalmente do termo “pra caramba”. Flaubert, sempre preocupado com a busca do “mot juste”, iria adorar.
Quando eu pensei em escrever este post, lembrei da frase que abre The great Gatsby: “In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. 'Whenever you feel like criticizing anyone,' he told me, 'just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had.'
Chamar Ferréz de semi-analfabeto e não reconhecer nenhuma qualidade no sujeito seria desconsiderar totalmente esse conselho. É claro que ele tem seus méritos. Pelo que li no seu blog, ele organiza bibliotecas na periferia, o que é sem dúvida um trabalho importante – e aqui não estou sendo irônico. Também é admirável que alguém com sua história se torne escritor, ainda que um mau escritor.
O que me irrita é que alguns identifiquem Ferréz como uma das vozes importantes da literatura brasileira atual. A leitura do seu blog mostra que ele escreve bisonhamente. Se os posts são mal escritos, o que imaginar de seus romances? Confundir um exemplo de superação individual com literatura é excesso de condescendência. É o mesmo fenômeno que ocorre quando tentam transformar atletas paraolímpicos em heróis do esporte. Não há como não admirar pessoas que têm uma determinação e uma coragem que eu não teria em circunstâncias parecidas. Mas isso não quer dizer que eu tenha algum interesse em assistir uma partida de futebol com jogadores que têm paralisia cerebral ou uma prova de atletismo com velocistas cegos
fevereiro 01, 2007
Humilhação

Piss off, mongrel scum!
Quando eu estava na fila para embarcar de Paris para o Brasil, o pensamento que me veio à cabeça foi: "De novo aquela mistura típica, brazucas empolgados, gringos acafajestados e mestiças apiranhadas – o povo que sai (d’) e entra na pátria amada” (sai-e-entra, sai-e-entra, sai-e entra, diriam os cassetas). Já quieto no meu lugar dentro do avião (será que confesso que viajei de econômica?), reparo na brasileira que se senta ao meu lado. Feinha, cafuza e humilde. Vestida com mau gosto modesto, e sem pinta de vagaba.
Ela quer falar. E me conta a história chocante de como aterrissou em Londres e foi chutada de volta (via Paris). A história dela é que veio do Brasil com um engenheiro inglês (funcionário de uma multinacional com operações aqui), que vive em Birmingham com a sua irmã. Ela teria viajado para passar duas semanas, conhecer a Inglaterra e visitar a maninha. De início me parece plausível. Aos poucos, percebo um punhado de inconsistências e acabo desconfiando de que ela, de fato, é uma potencial imigrante ilegal – talvez não daquela vez, mas já explorando o terreno.
Mas os caras não poderiam (tampouco eu) ter certeza de que ela queria ficar ilegamente. E mesmo assim trataram-na como a gente trata um vagabundo impertinente.
O relato mexeu com meus sentimentos e brios nacionais. Ela ficou retida numa salinha quase 24 horas, só teve chá, café e salgadinhos para se alimentar, foi alvo de piadas, sarcasmos e ofensas por parte das autoridades de imigração, não pôde fazer nenhuma ligação de telefone e foi transportada num carro com grades nas janelas até o avião para o Rio, quando a sua passagem de volta original era até Vitória (e teve que morrer neste trecho extra).
Enquanto ela falava, olhei meu passaporte verde. E invejei a prole do Lula, para quem Dona Marisa descolou os italianos

Piss off, mongrel scum!
Quando eu estava na fila para embarcar de Paris para o Brasil, o pensamento que me veio à cabeça foi: "De novo aquela mistura típica, brazucas empolgados, gringos acafajestados e mestiças apiranhadas – o povo que sai (d’) e entra na pátria amada” (sai-e-entra, sai-e-entra, sai-e entra, diriam os cassetas). Já quieto no meu lugar dentro do avião (será que confesso que viajei de econômica?), reparo na brasileira que se senta ao meu lado. Feinha, cafuza e humilde. Vestida com mau gosto modesto, e sem pinta de vagaba.
Ela quer falar. E me conta a história chocante de como aterrissou em Londres e foi chutada de volta (via Paris). A história dela é que veio do Brasil com um engenheiro inglês (funcionário de uma multinacional com operações aqui), que vive em Birmingham com a sua irmã. Ela teria viajado para passar duas semanas, conhecer a Inglaterra e visitar a maninha. De início me parece plausível. Aos poucos, percebo um punhado de inconsistências e acabo desconfiando de que ela, de fato, é uma potencial imigrante ilegal – talvez não daquela vez, mas já explorando o terreno.
Mas os caras não poderiam (tampouco eu) ter certeza de que ela queria ficar ilegamente. E mesmo assim trataram-na como a gente trata um vagabundo impertinente.
O relato mexeu com meus sentimentos e brios nacionais. Ela ficou retida numa salinha quase 24 horas, só teve chá, café e salgadinhos para se alimentar, foi alvo de piadas, sarcasmos e ofensas por parte das autoridades de imigração, não pôde fazer nenhuma ligação de telefone e foi transportada num carro com grades nas janelas até o avião para o Rio, quando a sua passagem de volta original era até Vitória (e teve que morrer neste trecho extra).
Enquanto ela falava, olhei meu passaporte verde. E invejei a prole do Lula, para quem Dona Marisa descolou os italianos



E ao Nogueira Batista, inimigo histórico do FMI, deixo aqui a minha mensagem congratulatória:
"É isso aí, rapaz. Boca-livre não se discute, aceita-se"