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Este é o meu corpo, que é dado por vós
Há um filósofo australiano, judeu, contemporâneo, o Peter Singer, que acha que a vida de um chimpanzé vale tanto ou mais do que a de um bebê humano (estou provavelmente simplificando e distorcendo, não enche). A minha leitura desta idéia (já que não li a fundo a dele, he he) é simples. Como o nosso critério para matar sem remorso é, grosso modo, o primitivismo mental da vítima (insetos, por exemplo), um chimpanzé tem uma vida mental igual ou até superior à de um bebê humano. É claro que na prática o critério para matar sem remorso também é o da vítima em questão ser ou não fofinha. Um rato talvez seja mais inteligente do que um porquinho-da-índia, mas matar o primeiro repugna menos do que matar o segundo. Mas isto não interessa. De um ponto de vista moral e lógico mais rigoroso, o critério, naquela visão, deve ser o da riqueza da vida mental.
Cena: o motorista que trabalhou muitos anos para o meu pai, e hoje faz bicos para a família, excelente motorista, responde a uma pergunta minha sobre como foi a viagem. "E aí, foi rápido?" "Ah não, tinha criança no carro". É curioso, mas o raciocínio implícito é o oposto do Singer. Para o Antônio, a vida de uma criança vale mais do que a de um adulto.
Tendo a concordar com o Antônio. Poderia falar aqui da criança como potencialidade (arghhh), e acho mesmo que os que estão chegando tendem a ser melhores do que os que estão partindo. E há também o fato de que as crianças são fofinhas. Mas não acho que nada disto importa muito não. O Antônio me parece certo porque a moralidade só faz sentido se derivar da emoção. Ser for pela razão, na ausência de um sistema de prêmios e punições (terreno ou extra-terreno), o comportamento adequado é o do free-riding na moralidade alheia. Todo mundo se comporta, e eu me aproveito. Imperativo categórico para quê? Só se justificaria se a moralidade fosse um acordo coletivo que todos assinassem ao mesmo tempo – só me comporto se todos os outros 7 bilhões também o fizerem. Na prática, 1 em 7 bilhões é meaningless. Num mundo em que a maioria é boa, a jogada é ser 100% egoísta.
Não é assim, na prática. O comportamento moral vem de um impulso de fundo emocional, e está ligado a simpatias, preconceitos – ao não-racional, em suma. Para o ser humano médio, matar focas a pancada é pior do que desratizar o metrô – mesmo que a segunda atividade seja um holocausto animal muito maior. E eu não vejo problema nisso.
Mas a morte de animais só arranha a moralidade humana. São as mortes de humanos que importam. O Singer questiona isto. Eu não. Não questiono porque vem da verdade emocional que dá base à moralidade.
E esta mesma base valora a vida de uma criança mais do que a de um adulto. Não sou eu que penso assim. É quase todo mundo que sente assim.
A morte desse menino João me fez pensar. Primeiro, notei que o fato calou cinismos e sarcasmos. Eu convivo num meio que lida profissionalmente com a espuma abundante destes casos, e onde depois que a coisa satura quase que inevitavelmente se entra na fase das piadas para desopilar. Muitas piadas sobre o Ayrton Senna. Muitas piadas sobre Lady Di. Muitas piadas sobre Ulysses, sobre Tancredo (sou antigo). Não ouvi nenhuma piada sobre o João. Pode ser que já haja alguma. Eu não ouvi (e, por favor, não me contem nem digam que há).
A reação da sociedade, ao contrário do que estão dizendo, foi impressionantemente sóbria, uma reação de gravitas, não de histeria. Aqueles inevitáveis momentos de kitsch sentimental – a entrevista dos pais no Fantástico – foram sintomaticamente contidos, diria até elegantes. É claro que tem uma máquina de comércio comunicacional que não vai parar e esta história vai acabar chegando aos excessos de exploração e mau-gosto habituais (provavelmente já chegou lá). Mas houve um glimpse inicial de algo reconfortante na reação popular
E a demanda pelo endurecimento do regime penal brotou, pela primeira vez na minha memória, de forma civilizada. Pouca gente pedindo esquadrão da morte. A discussão sobre pena de morte e prisão perpétua (sou contra) no eixo correto, que não é o de fascistas contra humanistas. E a maioria dos cidadãos pedindo simplesmente que penas longas sejam cumpridas por criminosos que as mereçam.
Por que esta morte provocou esta reação? Afinal, foi uma pessoa só, no país das chacinas. Esquerdinhas podem argumentar que derivou do fato de o João ser um menino fofinho, branquinho de classe média, morto por uns negões horríveis. É fraca. Não senti desta vez o clima de ricos sitiados pedindo napalm nas favelas. Nada parecido com isso.
É claro que ser criança, o tema inicial deste post, contou. Mas acho que foi mais. O soco no estômago da sociedade, que produziu esta rara combinação de abatimento e vontade de reagir, foi a profanação do corpo humano. Mais até do que o crime contra a vida, o insuportável neste caso foi o crime contra o corpo.
Me lembraram um caso de uns anos atrás no Sul do país de uma rapaziada com uma ‘brincadeira’ horrível de arrastar cachorros amarrados a carros. A notícia foi recebida com o senso de asco devido. Mas eram só cães (sorry, Singer).
Esfolado vivo. Desculpem os leitores. Mas ‘esfolado vivo’ é um conceito presente na memória da minha imaginação, ligado a suplícios, com toques medievais. É a morte horrenda. Acho até que o João deve ter morrido rapidamente, ou rapidamente desfalecido antes de morrer. Há mortes mais sofridas. O horror do caso, como eu já disse, não me parece ser o crime contra a vida, mas sim o crime contra o corpo.
O corpo. O templo sagrado. O corpo de Cristo. A ressurreição da carne. Os corpos deformados de Francis Bacon. O corpo de uma criança. Na fronteira mais sofisticada do ateísmo, Antonio Damásio explica que a grande ilusão é o dualismo, a idéia de que haja algum tipo de separação entre espírito e corpo. Irônico como isto se confunde com o misticismo profundo da ressurreição da carne. A carne não ressuscita, muito menos o espírito vive para além da carne, diz Damásio. Não acho que um católico moderno creia que a carne ressuscite. Mas quando se precisou falar de ressurreição, o que ressuscitou foi a carne, o corpo. O espírito não existe fora do seu templo. O templo é o espírito.
O esfolamento é a forma macabramente suprema de destruir um corpo, camada por camada, célula por célula. Esfolamento no chão sujo e sórdido da cidade, até a destruição total da forma, de qualquer forma que remotamente remeta ao corpo humano, ao corpo infantil. O corpo como carne, no pior sentido. Por isto até policiais calejados na barbárie do crime carioca vieram abaixo. Essa, nem Bacon. Nem Sin City.
Por isto a sociedade reagiu como a um soco duro, surdo, seco no estômago. Um soco que nauseia e clareia. Que cala e faz pensar. Talvez alguma coisa tenha mudado. Talvez tenhamos aprendido a não perdoar


