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Piss off, mongrel scum!
Quando eu estava na fila para embarcar de Paris para o Brasil, o pensamento que me veio à cabeça foi: "De novo aquela mistura típica, brazucas empolgados, gringos acafajestados e mestiças apiranhadas – o povo que sai (d’) e entra na pátria amada” (sai-e-entra, sai-e-entra, sai-e entra, diriam os cassetas). Já quieto no meu lugar dentro do avião (será que confesso que viajei de econômica?), reparo na brasileira que se senta ao meu lado. Feinha, cafuza e humilde. Vestida com mau gosto modesto, e sem pinta de vagaba.
Ela quer falar. E me conta a história chocante de como aterrissou em Londres e foi chutada de volta (via Paris). A história dela é que veio do Brasil com um engenheiro inglês (funcionário de uma multinacional com operações aqui), que vive em Birmingham com a sua irmã. Ela teria viajado para passar duas semanas, conhecer a Inglaterra e visitar a maninha. De início me parece plausível. Aos poucos, percebo um punhado de inconsistências e acabo desconfiando de que ela, de fato, é uma potencial imigrante ilegal – talvez não daquela vez, mas já explorando o terreno.
Mas os caras não poderiam (tampouco eu) ter certeza de que ela queria ficar ilegamente. E mesmo assim trataram-na como a gente trata um vagabundo impertinente.
O relato mexeu com meus sentimentos e brios nacionais. Ela ficou retida numa salinha quase 24 horas, só teve chá, café e salgadinhos para se alimentar, foi alvo de piadas, sarcasmos e ofensas por parte das autoridades de imigração, não pôde fazer nenhuma ligação de telefone e foi transportada num carro com grades nas janelas até o avião para o Rio, quando a sua passagem de volta original era até Vitória (e teve que morrer neste trecho extra).
Enquanto ela falava, olhei meu passaporte verde. E invejei a prole do Lula, para quem Dona Marisa descolou os italianos


