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Paraescritores

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Ferréz, escritor e semi-analfabeto

O Brasil é realmente um lugar assombroso. Além de ter um presidente semi-analfabeto, o país também tem escritores semi-analfabetos. Um dos mais conhecidos é Ferréz. No aniversário de São Paulo, a Folha publicou um artigo dele sobre a cidade. O texto, intitulado Metrópole de aço, é uma carta enviada pelo filho “Periferia” para a “mãe” São Paulo. Lugares comuns abundam, como se vê neste trecho: “Mesmo que eu nunca tenha usufruído da suas posses, mesmo que você não tenha dado direitos iguais há seus filhos, mesmo assim, feliz aniversário. Mãe, eu não te culpo, faltou eu ter a maldade necessária para vencer, mas faz mó cara que eu não escrevo, acho que com todo seu poder, você entende, pois no final, toda rua de São Paulo quando não é contra mão é sem saída, pelo menos para nós que além do poder público ficamos a mercê do poder paralelo. Sou o menino que passa carregando a carroça ao lado de um carro importado, mais caro que toda minha vida de salário, e estou indo para a esquina onde os rostos manchados por uma vida dura fazem bifurcação”. O artigo completo pode ser lido aqui.

Talvez por masoquismo, fui procurar outras coisas que Ferréz escreveu. Descobri que ele tem um blog. Os textos são ainda piores do que o artigo publicado na Folha, que, tudo indica, foi generosamente revisado. Um post mostra o estilo machadiano de Ferréz: “é quente, amanhã sabadão, eu vou dar uma caminhada logo pela manhã, uma grande caminhada, mas quando tiver olhando em volta, o verde da estrada de Itapecerica, eu vou estar sabendo que é o dia do aniversário do nosso escritor do abraçado ao rancor. isso mesmo, amanhã, sábado dia 27 João Antônio faz 70 anos. quem puder, ore, quem quizer beba, quem não acredita viva, porque um dos três ele faria. tamu junto João, 70 anos de muitas letras.”

O texto deixa claro que chamar Ferréz de semi-analfabeto não é exagero. Mas a qualidade literária da escrita do mano não impede que ele seja um dos queridinhos da mídia. Seus livros Capão pecado e Manutal prático do ódio receberam espaço nobre na imprensa. Numa resenha do segundo, Marcelo Rubens Paiva se desmancha em elogios: “(...) mais profundo, mais bem escrito e, como não poderia deixar de ser, mais envolvente. O livro aborda o universo da violência urbana com o refinamento de quem a conhece em detalhes. Tem aquela crueza dos primeiros contos de Rubem Fonseca, aquele de Feliz Ano Novo. Sua violência não é alegórica. Narra a história de uma gangue ('firma') como deve ser narrada, sem preconceitos, humanizada.” Eu não li Manual prático do ódio e não o lerei, mas não há como não ter certeza de que o livro é muito ruim. E eu não gosto de Rubem Fonseca, mas ser comparado com Ferréz? Essa ele não merecia.

Fuçando nos arquivos da Folha, encontrei uma frase de Ferréz sobre Bouvard e Pécuchet: "É um livro legal pra caramba. Conta a história de dois amigos que tentam tudo para encontrar um sentido na vida.” Eu gostei principalmente do termo “pra caramba”. Flaubert, sempre preocupado com a busca do “mot juste”, iria adorar.

Quando eu pensei em escrever este post, lembrei da frase que abre The great Gatsby: “In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. 'Whenever you feel like criticizing anyone,' he told me, 'just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had.'

Chamar Ferréz de semi-analfabeto e não reconhecer nenhuma qualidade no sujeito seria desconsiderar totalmente esse conselho. É claro que ele tem seus méritos. Pelo que li no seu blog, ele organiza bibliotecas na periferia, o que é sem dúvida um trabalho importante – e aqui não estou sendo irônico. Também é admirável que alguém com sua história se torne escritor, ainda que um mau escritor.

O que me irrita é que alguns identifiquem Ferréz como uma das vozes importantes da literatura brasileira atual. A leitura do seu blog mostra que ele escreve bisonhamente. Se os posts são mal escritos, o que imaginar de seus romances? Confundir um exemplo de superação individual com literatura é excesso de condescendência. É o mesmo fenômeno que ocorre quando tentam transformar atletas paraolímpicos em heróis do esporte. Não há como não admirar pessoas que têm uma determinação e uma coragem que eu não teria em circunstâncias parecidas. Mas isso não quer dizer que eu tenha algum interesse em assistir uma partida de futebol com jogadores que têm paralisia cerebral ou uma prova de atletismo com velocistas cegos



Marcos Matamoros at 07:57 PM | Comentários (11)

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