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Grandeza

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Ecce Homo

Eu nem achava que fosse escrever este post, pelo trabalhão mesmo. Mas o Paulo Francis também teve lá o seu papel na minha vida. Não o li como adolescente deslumbrado, porque já tinha passado esta etapa biológica. Li como adulto jovem, já um pouco seasoned, enroscado na luta pela sobrevivência material, sem tempo nem vontade de fazer minha cabeça d’après Francis ou ir atrás das miríades de referências culturais que ele cuspia a cada parágrafo. Mas eu curtia muito, como direitista assaz isolado, aquela explosão bi-semanal de sopapos e bofetões no aparelho cultural esquerdista tupiniquim. Era quase como uma dose regular de alguma droga inebriante, que me fazia respirar contente e aliviado, encarar a feia realidade e pensar que “um dia a gente ainda desmascara estes panacas”. Este dia nunca chegou, mas sementes foram plantadas, e hoje existe no Brasil uma direita pensante que não recende ao mofo de livrinhos de missa ensebados ou ao chulé de botas no quartel.

O Francis escrevia muita merda. Chutava a torto e a direito. Era praticamente um farsante escrevendo sobre alguns assuntos dos quais não entendia xongas, mas sobre os quais enrolava os leitores mais crédulos com pose e texto. Este defeito de caráter (e havia muitos outros, até mais graves) foi, naturalmente, a alegria dos seus muitos inimigos. Num post já meio célebre, o Milton Ribeiro conta como desconstruir Francis foi uma das atividades intelectuais mais gratificantes da sua adolescência e primeira juventude. Acho até certo ponto natural. O cara é de esquerda, supra-sumo da correção política. Cada tonitruante parágrafo do Francis devia fazer tremer de forma desagradável todos os recantos daquela alma sensível. E se o Francis lhe entregava de bandeja 23 erros factuais por coluna, por que não aproveitar para uma pequena, cotidiana, obsessiva vingança? Questão de gosto.

É óbvio que o Francis produzia muito ouro também (e conhecia profundamente muito daquilo sobre o que pontificava). Foi insuperável na crônica confessional, prolixa, irritada, dolorida, brilhantemente neurótica, cruelmente sarcástica, terrivelmente engraçada, deliciosamente culta. Eu acho que não tinha como não ter os 25 erros factuais por coluna. É preciso entender Francis, a turma do Pasquim, a formação ipanemense dos anos 60 e 70. Era a vida como frenesi ou estupor alcoólico (e isto fica mesmo se eventualmente se pára de beber). Imaginar que Francis, do alto da sua auto-suficiência intelectual, tomado pela narcose preguiçosa de uma velhice exaltada, e preso à necessidade depressiva de não deixar o show parar, a bola cair e a ressaca chegar, fosse frear a cada linha para meticulosamente consultar livros, rever anotações, o caralho a quatro, é não entender nada de Francis. Não seria mais aquele texto quase oral, errático, vibrante, ziguezagueando entre o erudito e o chulo, o sublime e a baixaria. Vinha da cabeça, do coração, do fígado e era vomitado rápido, quase todo de uma vez. Não tinha como estacionar mais um pouquinho naquelas partes chatas do cérebro devotadas a conferir e retificar. Ia perder toda a graça.

Acho que Francis era um mau polemista no varejo, embora não tenha acompanhado todas. A com o Caio Túlio Costa eu segui. E, ao contrário de muitos, acho que Caio levou a melhor. Seus xingamentos foram surpreendentemente competitivos em eloqüência com os do Francis, e quanto aos fatos o Caio estava com razão em quase tudo e mostrou claramente que estava. Seu ponto básico, verdadeiro, é que Francis não era para ser levado 100% a sério como jornalista. Eu acho isto elogio, mas o Francis tomou o negócio como criança, para quem qualquer coisa é negativa se quem a diz coloca uma conotação negativa. E ficou enfurecido. O Caio tinha razão porque, na realidade feia e crua das redações, de fato os cronistas não são levados 100% a sério. Acho que mesmo um repórter que escreve crônicas não as leva 100% a sério. Jornalismo sério tem que ter uma dose inevitável de chatice que é cianureto numa crônica. O que Francis fazia não era crônica stricto sensu, mas a levada era de crônica. O Francis não era bom polemista porque partia histérico para cima do oponente, para socar, puxar cabelo, morder a orelha. Em quase qualquer luta, o que conta mais é o sangue-frio. Vocês acham que o Federer ganha sempre por quê?

Mas o que menos importa na herança de um grande polemista é o seu histórico de vitórias e derrotas, mesmo por que estamos num terreno fuzzy no qual estas coisas nunca ficam muito claras, graças a Deus. Que se fodam as 350 questiúnculas que de fato estavam em jogo. Existe uma big picture na vida de um polemista. E nesta o Francis ganhou. Em resumo, ele apostou que a esquerda estava errada em quase tudo, e estava mesmo. Pergunte para quase qualquer um em qualquer lugar em que as pessoas comam de garfo e faca intelectualmente, e aquela verdade básica será reconhecida. Menas aqui, é claro. Mas na Venezuela é ainda pior. Francis também jogou suas fichas na tese de que o Brasil é um pântano cultural e político, e essa quem ousa negar, hoje? Ah, e por falar nisso, eu uma vez encontrei Caio Túlio Costa num avião, tentando ler um livro do Walter Benjamin. Tornou-se um importante executivo de Comunicações. Eu acho que ele ganhou a polêmica com o Francis, mas não é um polemista. Nunca irá ganhar a grande polêmica da vida. Mas ganha dinheiro, e por isto merece respeito.

A morte do Francis foi um caso desagradável, nada heróico. Jornalista da turma do Pasquim era esculhambado demais para ganhar dinheiro de verdade, com exceções, como o Ziraldo, que tinha talento e especialização mais marqueteáveis. Houve outras exceções, mas o fato é que o Francis ficou rico meio num golpe de sorte, quando ao criar a persona de curmudgeon esnobe em Nova York ele acertou big time, faturando legal tanto (e primeiro) no Diário da Corte quanto nos programas de TV. Ficar rico já meio depois de velho foi o equivalente para o Francis de uma visita supresa à Disneylândia para um guri da favela. Ele gostou que se enroscou, e ficou todo melado. Agora podia ir despreocupadamente aos melhores restaurantes do mundo, se hospedar nos hotéis mais aristocráticos, viajar de Concorde, freqüentar que ocasião ou regabofe cultural e artístico que lhe desse na veneta. Para um curmudgeon esnobe metralhando de Nova York a esquerda barbudinha de sandálias e dedão preto, não poderia haver nada mais bem-vindo do que aquela prosperidade crepuscular.

Mas ele não era rico de verdade. Ganhava um grande salário e gastava muito. Fez um pé-de-meia com os juros mais altos do mundo. Isto não é ser rico. Qualquer menino semi-imberbe de vinte e poucos anos operando numa mesa de Wall Street era mais rico do que o Francis. A riqueza dele era frágil, e quando a Petrobrás entrou com um processo de, sei lá, dezenas de milhões de dólares numa corte de Nova York ele se desesperou. Apavorou-se com o fantasma de perder toda a grana e a toda a pose. Já pensou que vingança para os Milton Ribeiro da vida, o Francis na penúria? E o coração não agüentou.

A Petrobrás estava coberta de razão. As acusações do Francis eram ridículas, pueris. Ele não entendia nada deste mundo de negócios, petróleo. Não reconheceria uma plataforma se alguma passasse na sua frente (ainda mais com aquela miopia toda). Como boa parte dos intelectuais, era um peso pluma nos embates sérios e pesados da vida capitalista. O pessoal da Petrobrás passou como moto-niveladora por cima dele, eles sim, executivos, homens duros, que sabem ser praticamente maus e intolerantes (os atributos que os inimigos ideológicos viam no Francis). Ele não era páreo para essa turma, e se borrou. O processo foi em Nova York para machucar o máximo possível mesmo, que é o que homens adultos fazem quando entram em conflito. Eles usaram todo o arsenal jurídico da Petrobrás, cobertos de razão, porque a ofensa foi institucional. A companheirada do Francis, como o Elio Gaspari, tentou condenar eticamente a Petrobrás (irônico isto: Gaspari, o arqui-estatista). Como se fosse errado você partir com os pés para cima do peito de alguém que te chama de corrupto. Inglória esta morte, muito inglória.

Neste final Francis já tinha caído na grande armadilha dos curmudgeons, que é a de virar uma caricatura da própria caricatura. A primeira caricatura é adequada, nobre, vital. Me lembro uma vez de um viadinho deleuziano me chamar a atenção para algo como o Nietszche defendendo a bufonaria. É isto aí, é preciso ser um bufão, criar uma caricatura de madeira talhada, uma careta com riso esgarçado, sobrancelhas arqueadas e muitas rugas na testa. É para assustar, desafiar e principalmente para que não encham o saco. Não dá para ofender a sensibilidade de toda uma época e depois circular com sua própria carinha, reagindo como ser humano normal a todos os olhares desaprovadores, caras ressabiadas e fúrias recalcadas. É preciso vestir a máscara para que no jogo social você não se comprometa inconscientemente a recuar, voltar atrás, abrandar o fogo. A caricatura é meio que um aviso para sair da frente quem não quiser levar tiro. É célebre a afabilidade pessoal de Francis, quase que independentemente de qualquer característica social, cultural e ideológica do interlocutor, quando comparada com a impiedade mal-humorada dos seus textos. É que ele não julgava necessário vestir a máscara para desempenhar as atividades do cotidiano mais restrito.

A velhice, porém, dá cansaço, preguiça. E aí a tentação de ser a caricatura da caricatura é grande. A primeira caricatura é uma criação brilhante, cheia de nuances. É uma versão artisticamente exagerada da personalidade do autor. A segunda é dura, repetitiva, tem o jeito dos bordões dos maus programas de humor, infinitamente repetidos. Francis não estava de forma definitiva na fase da segunda caricatura. Ele alternava. Alguns dos seus piores momentos, como elogios a Collor e Maluf, eu atribuo à caricatura da caricatura. É a simplificação extrema. A esquerda não gosta? Então é bom. Dá menos trabalho assim. Fica mais fácil de administrar no dia a dia.

Bem, eu falei muita coisa ruim do Francis nos parágrafos acima, e alguém pode achar que eu não gostava dele. Imenso engano. Francis peitou praticamente sozinho o establishment nacional-populista na área cultural. Não o fez com gestos calculados, mas sim com rompantes de cavaleiro tresloucado, com brio e com brilho, com garbo e com verve, e com enormes riscos humanos e mesmo profissionais (deu certo ser do contra, mas naquela época ainda era uma fórmula por testar). Foi coisa de macho invocado, e as hienas que espalhavam a boca pequena ser ele a bicha do Pasquim jamais teriam os culhões e o cérebro para empreender algo semelhante.

Para caras como eu, obscuros e constrangidos neoliberais, a fulgurante vida intelectual do Francis foi uma benção. Bem, não quero aqui fazer aquela listinha de herdeiros culturais de Francis, de articulistas e blogueiros que provavelmente não seriam o que são se ele não tivesse antes, sozinho, arrombado as portas por onde toda esta inteligência pode fluir hoje em dia.

Não tenho dúvida de que Francis foi um herói intelectual. E de que esta foi uma história de grandeza



F. Arranhaponte at 11:53 AM | Comentários (8)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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