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Razão e Emoção

Damásio.bmp
Este portuga é um génio

Eu não deveria fazer este post de memória. Mas se não fizer assim, acabo não fazendo de jeito nenhum. Então vou falar de um cara já mencionado em alguns posts meus, e cuja lembrança não é razão, em hipótese alguma, para que eu me candidate a algum prêmio de originalidade ou de citação cool. É bem manjado, o português António Damásio, neurocirurgião e cientista da mente, que vive nos Estados Unidos e escreve livros em inglês. No livro O Erro de Descartes sua tese central é de que a emoção é um componente vital da razão, digamos, prática. Talvez fosse melhor dizer da razão aplicada às atividades sociais. Antes que alguém tenha um frêmito humanista e ache superlegal um cientista 'resgatando' o valor da emoção, aviso que não há nada de sentimentalmente gratificante no livro. Na verdade, é um raciocínio complicado pra cacete, que entediaria um Frei Betto da vida depois de uns poucos parágrafos.

Damásio conta de pacientes que perdem um pedaço lá do cérebro, relevante para o assunto em tela (quá quá), e aí ficam na seguinte situação: são absolutamente normais em tudo o que possa ser verificado com testes psicológicos, de inteligência, de aptidão motora, etc. Mas, na vida prática, acabam virando dropouts. E por que viram dropouts? Partindo do fato já bem estabelecido de que aquela parte do cérebro está ligada a emoções, a idéia de Damásio é a de que se danifica uma espécie de sensor que guia o, digamos, micromanagement emocional das ações racionais na realidade. A coisa é mais ou menos assim: quando a gente age na vida social, há uma série de medidas, limites e jeitos com os quais lidamos de forma meio intuitiva, já que não é possível dirimir racionalmente todas as nossas dúvidas. Um exemplo: se você vai viajar, é possível, com um mapa e informações de amigos, determinar racionalmente qual é o melhor roteiro. Mas, se você pára na estrada para fazer um lanche, não tem regra racional que lhe diga se você deve ficar 15 ou 40 minutos. Não tem regra racional que diga se você deve esperar um pouco mais pelo amigo atrasado para o encontro, ou se deve desistir. Não tem regra racional para que você decida se ocupar durante mais algum tempo de alguma tarefa necessária, antes de interromper para se ocupar de outra tarefa necessária. A pessoa normal, com as emoções funcionando de forma regular, tem o tempo todo ligada uma espécie de pilhazinha neurótica, uma ansiedadezinha, que nada mais é do que um instrumento de navegação para todos aqueles tipos de situação que eu descrevi. É uma espécie de micro-instinto, de fundo emocional, e construído pelo acúmulo hierarquizado na memória de experiências negativas e positivas em situações semelhantes. É este mecanismo que meio que nos empurra na hora de tomar aquele tipo de decisão. "Ei, crianças, chega de lanche, está na hora de pegar a estrada de novo". "Puta que o pariu, vou marcar cinco minutos no relógio e se este cara não chegar eu me mando (mas você acaba esperando oito e o cara chega)". "Bem, agora se eu não largar isso aqui e começar logo aquele troço, estou ferrado". Em todas estas decisões, a maquininha nervosa está pulsando, discretamente, te empurrando, te freando, te desviando. O cara que perde aquela parte do cérebro vira dropout porque a maquinhinha pifa, e ele é capaz de ficar duas horas no bar da estrada, abandonar o local do encontro com um minuto de atraso do amigo ou simplesmente só fazer uma das duas tarefas necessárias. Parecem coisas inofensivas, mas, se alguém é assim o tempo todo, não consegue ter um desempenho minimamente bom no trabalho ou em outras atividades sociais complexas que envolvam compromissos de longo prazo.

Tudo isto para dizer que a emoção pode ser ótima conselheira na hora de tomar decisões, se bem dosada. E que o Congresso deveria aproveitar esta onda de comoção com o crime para tomar muitas decisões na área penal

PS: Espero que algum leitor destrua esta simplificação grosseira do livro do Damásio



F. Arranhaponte at 04:54 PM | Comentários (1)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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