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Bia Lessa, picareta profissional
Picaretagem e artes plásticas andam de mãos dadas. Muitas vezes o picareta é o próprio artista plástico, como Nuno Ramos. Há casos, porém, em que o artista plástico é vítima de picaretagem da corja que organiza exposições. Um exemplo disso? A mostra no Instituto Itaú Cultural de pintura brasileira contemporânea. Bia Lessa teve uma idéia brilhante: colocou 22 quadros no chão de uma sala. Muitos dos artistas ficaram putos, como mostra a coluna de Mônica Bergamo de ontem (a nota está no continue reading).
“Coloquei as obras no chão porque isso permite todas as possibilidades de visualização”, disse a picareta. É claro que isso não é verdade. Bia Lessa não colocou as obras no chão porque isso permite todas as possibilidades de visualização. Ela colocou as obras no chão para criar polêmica. Foi xingada pelos artistas, e tenho certeza de que ficou feliz. Era exatamente o que ela queria.
Veja acima a foto que saiu na coluna da Mônica Bergamo. Se ela fosse séria, não posaria desse jeito. Daniel Senise, uma das vítimas da picaretagem de Bia Lessa, disse tudo: “A gente faz a obra, coloca um ponto de fuga na tela na altura dos olhos da pessoa, calcula tudo isso. Ela coloca o quadro no chão e daí fode tudo, pô!” Qualquer um que se interessa minimamente por arte sabe que é ridículo colocar um quadro no chão.
Bia Lessa é uma versão feminina de Gerald Thomas. Vai aparecer em muitas reportagens e, é óbvio, vai organizar muitas outras exposições – sempre polêmicas
PS: A idéia de colocar quadros no chão me lembrou os suportes de pinturas inventados por Lina Bo Bardi para o Masp. Para quem não lembra, o quadro ficava num negócio de vidro, com o nome do autor e da obra atrás da pintura. O espectador era obrigado a dar a volta para saber essas informações pouco importantes. Se eu não estou enganado, a idéia de Lina Bo Bardi era que, desse modo, o espectador não fosse influenciado por nenhuma outra informação que não a visualização do quadro. Um conceito autoritário, que fazia todo mundo de palhaço. Ah, é claro: muita gente adorava
"Desta vez a gente não escapa, Bia!", dizia o curador Teixeira Coelho à cenógrafa Bia Lessa no meio da abertura da exposição "Itaú Contemporâneo -1981-2006", anteontem, na avenida Paulista. A decisão de Bia de colocar 22 telas de vários artistas no chão de uma sala enlouqueceu os autores das obras -que souberam da "novidade" ao chegar ao evento.
"E "tô" puto! Meu quadro não foi feito para ficar no chão. É uma violentação moral!", exaltava-se Antonio Manuel. "Pra mim, é falta de conhecimento dela [Bia Lessa]", responde o artista plástico Paulo Pasta. "O que está em jogo, pra ela, é a cenografia, o espetáculo, e não a obra". Manuel ergue a voz. "É uma infeliz, uma burra, isso sim! Essa menina fez uma piada com o trabalho da gente. Trabalho de 40 anos! Não admito isso!".
As pessoas iam chegando, e o espanto só aumentava. Rodinhas tensas se formavam na entrada da sala. Carlos Vergara diz a Bia: "Sua arrogância é inversamente proporcional ao seu tamanho". O carioca Daniel Senise, numa roda com Fábio Miguez, engrossa o coro: "A gente faz a obra, coloca um ponto de fuga na tela na altura dos olhos da pessoa, calcula tudo isso. Ela coloca o quadro no chão e daí f... tudo, pô!"
Bia Lessa tenta explicar: "Coloquei as obras no chão porque isso permite todas as possibilidades de visualização". Aponta para o espelho no teto da sala -razão pela qual o andar logo foi apelidado pelos artistas de "motel"- e mostra a passarela ao lado das obras. "Elas podem ser vistas em 360º. Deslocá-las significa valorizá-las. Ouvi de um deles: "Bia, tudo tem limite!". E eu acho exatamente o contrário." Siron Franco apóia a cenógrafa: "Relaxa, moçada. Depois tudo volta pra parede".


