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Este é o cara
Como todo mundo já deve ter visto, a Folha fez uma enquete com 200 personalidades para definir quem foi o maior brasileiro de todos os tempos. Deu Getúlio Vargas na cabeça. O ditador que torturou, matou e desrespeitou a liberdade de expressão é o cara. Em segundão, Juscelino Kubitschek, o homem que comandava um país de analfabetos e sem saneamento básico e decidiu que o negócio mesmo era mudar a capital do Rio de Janeiro para o meio do nada.
É provável que a maior parte dos eleitores tenha escolhido Getúlio Vargas não por considerá-lo um sujeito admirável, mas por acreditar que ele foi o brasileiro mais importante da história. O economista Yoshiaki Nakano, por exemplo, justificou seu voto no ditador dizendo que ele promoveu a transição do Brasil agrícola para o Brasil urbano.
Esse tipo de raciocínio sempre me incomodou. Não sou historiador ou economista, mas veja bem: a modernização do Brasil não foi obra de um só homem; mudanças estruturais mais profundas estavam em curso no país quando Getúlio Vargas assumiu o poder. Se ele comandou essa transição do Brasil agrícola para o Brasil urbano, isso só foi possível porque as condições históricas e econômicas assim o permitiram. Não quero, com isso, subestimar a importância do indivíduo na História, mas me parece claro que as mudanças promovidas por Getúlio Vargas foram possibilitadas pelo contexto histórico e econômico. Se não fosse esse contexto, as mudanças que Nakano atribui ao ditador simplesmente não teriam ocorrido.
Alguém poderá dizer que, sem Getúlio Vargas, as transformações demorariam muito mais tempo. É uma possibilidade. Mas também é possível que, sem Getúlio Vargas, o país não tivesse que passar por uma ditadura como o Estado Novo.
A lista da Folha traz outras informações interessantes. O voto revela muito do caráter do eleitor. José Dirceu votou em Lula, assim como os sindicalistas Jair Meneguelli e José Lopez Feijóo. Outro exemplo de voto edificante foi o do Pai Pérsio de Xangô, que escolheu a Mãe Menininha do Gantois. É o primeiro caso de afrocorporativismo místico que eu conheço.
Paulo Skaf e Cildo Meireles, entre outros, votaram no povo. Essa abstração sempre disposta a ouvir música ruim, assistir novela e apoiar a pena de morte também recebeu o voto de três publicitários: Celso Loducca, Nizan Guanaes e Fábio Fernandes. Na enquete da Folha na internet, o povo lidera com folga.
Mas os meus dois votos preferidos são outros. O primeiro é o do empresário Emílio Odebrecht, que escolheu "os povos indígenas" como "o maior brasileiro de todos os tempos". O segundo é o de Márcio Cypriano, presidente do Bradesco. Ele votou em Amador Aguiar, fundador, para quem não sabe, do Bradesco. Isso é que é prova de coragem


