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Local: Hotel internacional decadente isolado no centro de Lima. Restaurante no lobby. Um palco é ameaçadoramente montado na calada do dia
É a minha milésima refeição no hotel. Já perdi o saco de pegar táxis de ida e volta à zona Sul daqui toda noite, para poder comer sem ter depois de engolir três Prozacs como digestivo. Conformei-me com o destino temporário de loner, a fermentar frustrações, rejeição e ira. Há dias que só me comunico por monossílabos. Cheguei a ensaiar uns sketches macabros com a filmadora da câmara no quarto.
E eis que anunciam o show musical da noite (eu não sabia que tinha show musical), sobre os incas, antes mesmo de eu dar a primeira garfada. As luzes se apagam, e, no escuro, todos os ceviches parecem pardos.
Um grupo de emplumados sobe ao palco, subs dos subs dos subs do saudoso Clóvis Bornay, com saiotes multicoloridos em padrões de enésima categoria, chapelões idem, e, sem nem ao menos terem se dignado a raspar as pernas, começam a correr e a saltitar ao som de flautas andinas a plenos pulmões.
“O” Inca é um patagônio de Darwin, com narigão empinado, grenha negra escorrendo pelos ombros, em expressão congelada de bicha em píncaros de indignação.
Meu coração dispara, as mãos ficam geladas, a face branca. Olho em volta e tudo o que vejo são expressões japonesas de beatífica admiração. A tortura aguda da flauta andina intensifica-se, minha visão borra-se, e espectros fantasmagóricos de ornitorrincas venusianos dançam a dança da garrafa na minha frente.
E é então que alguma coisa trinca no meu eu profundo, e camadas geologicamente recalcadas vêm à tona em incontrolável erupção. Parto para cima do primeiro pescoço oriental, consciente de que nada menos do que algumas dezenas de cadáveres abrirá espaço na CNN. Mas, infelizmente, peguei a faca de peixe por engano, e tudo o que consigo é desfazer o coque de uma velha nipônica, cuja fúria, essa sim, mostra um potencial homicida compatível com os meios de comunicação de massa.
Sou conduzido por seguranças aos trancos e bofetões para fora do restaurante. Só à custa de muitas explicações e apologias, frenéticas sacudidas dos meus cartões de crédito, e frêmitas reiterações do meu comportamento até então impecável como hóspede, sou liberado e volto ao meu quarto onde, ainda trêmulo, escrevo estas palavras – um flash gotejante, de pisco sour, nos escuros porões da mente de um psicopata


