« Notas de um viajante | Main | Nosso débito com Pizarro »
Basílica de Quito, também conhecida como "La Cucaracha del Cerro"
Welcome to the Roving Tower. Bienvenido a la Torre Itinerante. Como cucaracho do blog, estou nos Andes. Alguns comentários:
- Há alguma coisa com mais pinta de loser do que índio andino?
- Mas tem sua graça. No meu quarto de hotel em Quito, cidade a 2.850 metros de altitude, só dava para ver a montanha em que se sobe de teleférico (e que vai a 4 mil e cem metros, assim como quem não quer nada, como um morro mais alto do Rio, com verdinhos espalhados aqui e acolá) e um monte de nuvem. Um belo dia, ou melhor dizendo, uma bela hora, eu abro a janela e me quiedo de ojos arregalados: apareció um baita vulcão nevado no horizonte, baita mesmo, big big big, com neve do topo à base do cone. Exibiu-se por uma hora e pouco, e sumiu de novo, definitivamente, nas nuvens (e não dá para ficar reclamando de nuvem quando se está a quase 3 mil metros de altitude). Perguntei ao erudito motorista de táxi (fenômeno comum nos Andes) que raios era aquilo, e ele me explicou que era o vulcão Cotopaxi, com 5.987 metros, a 50 quilômetros de Quito. Legal olhar pela janela e ver um vulcão de 6 mil metros.
- Pode parecer estranho, mas estou achando Quito e Lima mais ordeiras e limpinhas do que Rio e São Paulo. E as pessoas mais educadas (com exceção do trânsito, o que confirma a minha tese politicamente escandalosa de que apenas umas poucas etnias conseguem verdadeiramente dirigir – e admito que isto não inclui os cariocas)
- O Centro Histórico de Quito vale a pena. Uma primeira surpresa é uma catedral neogótica, grandalhoníssima, que eles construíram no final do século XIX, vai entender por quê (e veja a foto). As igrejas barrocas são... muito barrocas. Tem gente que não gosta daquele excesso todo. Eu sei que fiquei um tempão dentro de várias delas, olhando e fotografando. Miré también pinturas e esculturas da “escola quitenha”, que, pelo que depreendi, tem como grande mérito não ser tão boa quanto a escola cusquenha, mas estar na liga das escolas em enha. Não me fez mal algum, e o jardim interno adjacente à Igreja de São Francisco (por onde se entra para o museu de arte quitenha) é de arrepiar
- O Centro de Lima, todo antigão e com muita coisa bonita, não tem nenhum camelô (qual é a palavra que vocês usam aí em São Paulo?). Nenhum mesmo, literalmente. E está tudo muito bem conservado e cuidado, mas, curiosamente, não se nota muito aquele tipo de turismo (prepare-se para vomitar) “roteiro charme”
- No Equador só circula dólar, mas as moedas são locais. Esquisito. Mas confesso que a sensação de pagar tudo em dólares em plena Cucaráchia me foi enigmaticamente reconfortadora
- Os pigmeus não estão confinados à África. Já posso afirmar - e jogo nisto todo o peso do meu currículo em bio-antropologia, aliado a uma minuciosa pesquisa de campo - que há, definitivamente, tribos de pigmeus nos Andes
- A comida peruana é ótima
Por fim, um comentário mais subjetivo e provavelmente incompreensível. Quando eu viajo por estes países latino-americanos, noto um travo de formalidade, um negócio quase antiquado, meio respeitoso e meio tímido, que é agradável e que definitivamente desapareceu no Brasil. Eu tenho certeza de que a culpa é das novelas da Globo (que também passam aqui, eu sei, mas que não viram a 'coisa nossa' deles)
PS: Por que estou nos Andes? É um projeto de pesquisa: "En busca del borogodó de Mercedes Sosa"
PS2: Eu sei que Lima não é Andes


