« abril 2007 | Main | junho 2007 »
maio 30, 2007
Injustiça e preconceito
A licença da esquerda
É interessante notar como mesmo a esquerda blogueira moderada, tipos que eu admiro como o Hermenauta e o Alon, apóia mais ou menos o desligamento da RCTV pelo Chávez. Há toda uma discussão jurídica nesta história, e com os dois mencionados acima eu jamais me aventuraria num debate como este, porque eles têm mais saco e mais competência do que eu para revirar assuntos remotos de alto a baixo em busca de bons argumentos.
Mas eu faço só uma perguntinha singela, e posso inclusive quebrar a cara com isto:
Me apontem algum outro episódio na história da democracia em que um governo tenha tirado do ar um canal de TV aberta líder em audiência (e imagino que qualquer governo poderia fazê-lo no momento de renovar concessões, caso quisesse)
É interessante notar como mesmo a esquerda blogueira moderada, tipos que eu admiro como o Hermenauta e o Alon, apóia mais ou menos o desligamento da RCTV pelo Chávez. Há toda uma discussão jurídica nesta história, e com os dois mencionados acima eu jamais me aventuraria num debate como este, porque eles têm mais saco e mais competência do que eu para revirar assuntos remotos de alto a baixo em busca de bons argumentos.
Mas eu faço só uma perguntinha singela, e posso inclusive quebrar a cara com isto:
Me apontem algum outro episódio na história da democracia em que um governo tenha tirado do ar um canal de TV aberta líder em audiência (e imagino que qualquer governo poderia fazê-lo no momento de renovar concessões, caso quisesse)
maio 28, 2007
Grandes personagens de nossa história

Renan Calheiros, varão da República
"... e saio da alcova para entrar na escória." (frase suprimida na última hora do discurso do senador Renan Calheiros)

Renan Calheiros, varão da República
"... e saio da alcova para entrar na escória." (frase suprimida na última hora do discurso do senador Renan Calheiros)
maio 23, 2007
Lombroso e Nietzsche

O novo homem foi parar em Brasília
Eu só não acho justa a prédica moralista contra personagens como o Zuleido.
Afinal, ele é um tipo nietzschiano, muito aquém do bem e do mal
PS: E não me cansa de espantar o fato de que o Supeido seja bundista

O novo homem foi parar em Brasília
Eu só não acho justa a prédica moralista contra personagens como o Zuleido.
Afinal, ele é um tipo nietzschiano, muito aquém do bem e do mal
PS: E não me cansa de espantar o fato de que o Supeido seja bundista
maio 22, 2007
Lombrosolândia

Retrato do corrupto brasileiro quando jovem
Corrupto brasileiro é assustadoramente previsível: tem nome grotesco, cara de bandido e jeito pegajoso. Veja o caso da bola da vez, o Zuleido Soares Veras. Ele é um estereótipo ambulante, com bigode ensebado, barriga enorme e feições de bandoleiro mexicano. No Brasil, o trabalho da Polícia Federal é mais fácil do que parece. É só pedir a prisão preventiva de quem tem cara de bandido

Retrato do corrupto brasileiro quando jovem
Corrupto brasileiro é assustadoramente previsível: tem nome grotesco, cara de bandido e jeito pegajoso. Veja o caso da bola da vez, o Zuleido Soares Veras. Ele é um estereótipo ambulante, com bigode ensebado, barriga enorme e feições de bandoleiro mexicano. No Brasil, o trabalho da Polícia Federal é mais fácil do que parece. É só pedir a prisão preventiva de quem tem cara de bandido
maio 21, 2007
O idioma impenetrável
O meu fascínio por línguas só não é maior do que minha preguiça em aprendê-las. Estudei inglês e italiano, me viro razoavelmente nas duas, mas não as domino como gostaria. Se eu tomar vergonha na cara, vou aprender francês neste ano. Cheguei a uma idade em que consigo aprender apenas línguas latinas.
Alemão, por exemplo, me parece intransponível. A gramática é muito complicada e a sonoridade é muito feia. A língua só me parece adequada para xingar – frase que certamente vai me custar uma discussão com um grande amigo.
Mas, perto do húngaro, alemão é coisa de jardim da infância. Eu já tinha lido muitas vezes que o idioma é impenetrável, mas só tive total consciência disso nas minhas férias, quando passei alguns dias em Budapeste.
O som do húngaro, por exemplo, não se parece com o de nenhuma outra língua que eu já tenha ouvido (dizem que há semelhanças com o finlandês, mas os meus conhecimentos do idioma de Mika Hakkinen estão um pouco enferrujados). No hotel, eu assisti hipnotizado a trechos de telejornais e filmes, tentando entender uma palavra que fosse. Por longos minutos, não aparecia nenhuma palavra remotamente identificável – de vez em quando, mas muito de vez em quando mesmo, surgia alguma de origem latina, como informació. Nas ruas, eu via as crianças e ficava fascinado por elas conseguirem falar fluentemente uma língua tão complicada.
Mas nada bate a grafia das palavras. Quase nenhuma vogal, muitas consoantes, e muitos, muitos, muitos acentos e tremas. Abundam palavras quilométricas. Você abre um livro escrito em húngaro e jura que imprimiram páginas e páginas datilografadas a esmo*.
A complicação não se resume ao som e à grafia. Paulo Rónai, que nasceu na Hungria, disse que a gramática do húngaro é "um emaranhado de opacos labirintos”. Uma definição bonita - e um sinal de que nesse labirinto é melhor não tentar entrar
* Está duvidando? Veja este trecho que eu escolhi aleatoriamente do site de Budapeste: A honfoglaló magyarok a Kárpát-medencét a IX. század végén vették birtokukba. A fejedelmi törzs Árpád vezetésével az ország e természetes földrajzi központján Aquincumot választotta szálláshelyül. A honfoglaló vezért, Árpád fejedelmet, 907-ben a római kori város romjai közelében temették el. A honfoglaló magyarok szláv-bolgár népeket találtak a folyam két partján.
O meu fascínio por línguas só não é maior do que minha preguiça em aprendê-las. Estudei inglês e italiano, me viro razoavelmente nas duas, mas não as domino como gostaria. Se eu tomar vergonha na cara, vou aprender francês neste ano. Cheguei a uma idade em que consigo aprender apenas línguas latinas.
Alemão, por exemplo, me parece intransponível. A gramática é muito complicada e a sonoridade é muito feia. A língua só me parece adequada para xingar – frase que certamente vai me custar uma discussão com um grande amigo.
Mas, perto do húngaro, alemão é coisa de jardim da infância. Eu já tinha lido muitas vezes que o idioma é impenetrável, mas só tive total consciência disso nas minhas férias, quando passei alguns dias em Budapeste.
O som do húngaro, por exemplo, não se parece com o de nenhuma outra língua que eu já tenha ouvido (dizem que há semelhanças com o finlandês, mas os meus conhecimentos do idioma de Mika Hakkinen estão um pouco enferrujados). No hotel, eu assisti hipnotizado a trechos de telejornais e filmes, tentando entender uma palavra que fosse. Por longos minutos, não aparecia nenhuma palavra remotamente identificável – de vez em quando, mas muito de vez em quando mesmo, surgia alguma de origem latina, como informació. Nas ruas, eu via as crianças e ficava fascinado por elas conseguirem falar fluentemente uma língua tão complicada.
Mas nada bate a grafia das palavras. Quase nenhuma vogal, muitas consoantes, e muitos, muitos, muitos acentos e tremas. Abundam palavras quilométricas. Você abre um livro escrito em húngaro e jura que imprimiram páginas e páginas datilografadas a esmo*.
A complicação não se resume ao som e à grafia. Paulo Rónai, que nasceu na Hungria, disse que a gramática do húngaro é "um emaranhado de opacos labirintos”. Uma definição bonita - e um sinal de que nesse labirinto é melhor não tentar entrar
* Está duvidando? Veja este trecho que eu escolhi aleatoriamente do site de Budapeste: A honfoglaló magyarok a Kárpát-medencét a IX. század végén vették birtokukba. A fejedelmi törzs Árpád vezetésével az ország e természetes földrajzi központján Aquincumot választotta szálláshelyül. A honfoglaló vezért, Árpád fejedelmet, 907-ben a római kori város romjai közelében temették el. A honfoglaló magyarok szláv-bolgár népeket találtak a folyam két partján.
maio 17, 2007
Reflexões sobre a visita do papa

O defensor do matrimônio casto
Bento 16 já não está mais entre nós. Em pouco tempo, sua mensagem anacrônica e obscurantista será em grande parte esquecida, o que é bom. Cheguei ao Brasil apenas no domingo, mas acompanhei à distância, pela internet, os pronunciamentos do papa. Como era de se esperar, a mesma ladainha reacionária. A glorificação da virgindade, a condenação do uso de anticoncepcionais e do aborto, a defesa da castidade – mesmo dentro do matrimônio, o que quer que isso signifique.
Não, não quero ensinar ao papa como ele deve comandar uma “instituição que tem mais de dois milênios de história”, como diz o clichê. Se ele acredita que os católicos só devem fazer sexo na primeira quinta-feira dos meses com 29 dias, o problema é dele e dos fiéis.
O que me incomoda é que a Igreja não pára de jogar seu peso político, infelizmente ainda não desprezível, para influenciar a vida pública e tentar impor sua visão de mundo obscurantista e anticientífica. Que história é essa de propor a volta do ensino religioso nas escolas públicas? E como respeitar uma instituição que faz o possível para atrapalhar o progresso científico, como no caso da crítica ao uso de células-tronco embrionárias em pesquisas?
Outro detalhe lamentável da visita de Bento 16 é que ele veio ao Brasil para canonizar Frei Galvão. O papa intelectual sancionou mais um culto obscurantista, que explora a fé de pessoas ignorantes. Pelo que eu vi, católicos mais intelectualizados silenciaram sobre essa parte da viagem, possivelmente por constrangimento.
No vôo para São Paulo, havia uns quatro padres. Não era difícil adivinhar a orientação sexual dos sacerdotes. Um deles tinha cabelos pintados, acredite. Padre pode pintar cabelo? Quando eu leio sobre padres homossexuais, não consigo deixar de sentir nojo da pregação moralista e hipócrita da igreja em defesa da virginidade e da condenação ao amor que não ousa dizer seu nome. Isso sem mencionar os casos, que não são poucos, de padres pedófilos.
A igreja católica vai aos poucos perdendo fiéis. Muitos vão para as igrejas evangélicas, em geral máquinas de ganhar dinheiro. Talvez a troca seja pior. Mas também há católicos que deixam a igreja e abandonam qualquer tipo de crença religiosa, optando pelo agnosticismo ou ateísmo. É um movimento saudável, ainda que tímido. E não será a visita de Bento 16 que vai deter esse processo

O defensor do matrimônio casto
Bento 16 já não está mais entre nós. Em pouco tempo, sua mensagem anacrônica e obscurantista será em grande parte esquecida, o que é bom. Cheguei ao Brasil apenas no domingo, mas acompanhei à distância, pela internet, os pronunciamentos do papa. Como era de se esperar, a mesma ladainha reacionária. A glorificação da virgindade, a condenação do uso de anticoncepcionais e do aborto, a defesa da castidade – mesmo dentro do matrimônio, o que quer que isso signifique.
Não, não quero ensinar ao papa como ele deve comandar uma “instituição que tem mais de dois milênios de história”, como diz o clichê. Se ele acredita que os católicos só devem fazer sexo na primeira quinta-feira dos meses com 29 dias, o problema é dele e dos fiéis.
O que me incomoda é que a Igreja não pára de jogar seu peso político, infelizmente ainda não desprezível, para influenciar a vida pública e tentar impor sua visão de mundo obscurantista e anticientífica. Que história é essa de propor a volta do ensino religioso nas escolas públicas? E como respeitar uma instituição que faz o possível para atrapalhar o progresso científico, como no caso da crítica ao uso de células-tronco embrionárias em pesquisas?
Outro detalhe lamentável da visita de Bento 16 é que ele veio ao Brasil para canonizar Frei Galvão. O papa intelectual sancionou mais um culto obscurantista, que explora a fé de pessoas ignorantes. Pelo que eu vi, católicos mais intelectualizados silenciaram sobre essa parte da viagem, possivelmente por constrangimento.
No vôo para São Paulo, havia uns quatro padres. Não era difícil adivinhar a orientação sexual dos sacerdotes. Um deles tinha cabelos pintados, acredite. Padre pode pintar cabelo? Quando eu leio sobre padres homossexuais, não consigo deixar de sentir nojo da pregação moralista e hipócrita da igreja em defesa da virginidade e da condenação ao amor que não ousa dizer seu nome. Isso sem mencionar os casos, que não são poucos, de padres pedófilos.
A igreja católica vai aos poucos perdendo fiéis. Muitos vão para as igrejas evangélicas, em geral máquinas de ganhar dinheiro. Talvez a troca seja pior. Mas também há católicos que deixam a igreja e abandonam qualquer tipo de crença religiosa, optando pelo agnosticismo ou ateísmo. É um movimento saudável, ainda que tímido. E não será a visita de Bento 16 que vai deter esse processo
maio 16, 2007
Foi tudo muito rápido
Trecho do capitulo XXIII da "História Concisa da América Latina", a obra clássica e referencial de Álvaro Sanches, publicada em 2.834:
"Após a conquista da independência nas primeiras décadas do século XIX, a maior parte dos novos países debateu-se com recorrentes problemas de solvência externa e crises financeiras durante pouco menos de duzentos anos. No início do século XXI, porém, uma combinação de fatores econômicos e políticos pôs fim ao período de instabilidade financeira e cambial, dando início à convergência relativamente rápida para os padrões de renda do mundo rico. O ritmo deste processo não foi homogêneo, e foi ditado pelas peculiaridades sócio-econômicas de cada país e pelo complexo e quase ininteligível jogo de opções político-ideológicas que caracterizou a era do pós-comunismo."
Trecho do capitulo XXIII da "História Concisa da América Latina", a obra clássica e referencial de Álvaro Sanches, publicada em 2.834:
"Após a conquista da independência nas primeiras décadas do século XIX, a maior parte dos novos países debateu-se com recorrentes problemas de solvência externa e crises financeiras durante pouco menos de duzentos anos. No início do século XXI, porém, uma combinação de fatores econômicos e políticos pôs fim ao período de instabilidade financeira e cambial, dando início à convergência relativamente rápida para os padrões de renda do mundo rico. O ritmo deste processo não foi homogêneo, e foi ditado pelas peculiaridades sócio-econômicas de cada país e pelo complexo e quase ininteligível jogo de opções político-ideológicas que caracterizou a era do pós-comunismo."
maio 07, 2007
Bom começo
No Valor de hoje, em entrevista com José Gomes Temporão, novo ministro do Trabalho:
Mas é razoável o Brasil importar 25 mil marcapassos por ano? É uma tecnologia de fácil acesso, não vejo sentido em criar empregos lá fora.
É isso aí. Ministro do Trabalho tem mais é que criar emprego. O resto é papo furado
No Valor de hoje, em entrevista com José Gomes Temporão, novo ministro do Trabalho:
Mas é razoável o Brasil importar 25 mil marcapassos por ano? É uma tecnologia de fácil acesso, não vejo sentido em criar empregos lá fora.
É isso aí. Ministro do Trabalho tem mais é que criar emprego. O resto é papo furado
maio 04, 2007
Por que não me preocupo com o perigo comunista

O Ho Chi Minh Index, da Bolsa do Vietnã, dobrou em menos de um ano - é a menina
dos olhos do capitalismo global

O Ho Chi Minh Index, da Bolsa do Vietnã, dobrou em menos de um ano - é a menina
dos olhos do capitalismo global



A vítima Viviane Araújo
É uma causa perdida, eu sei, mas exatamente por isso o gosto de defendê-la é ainda melhor. Neste post, caro leitor, eu vou mostrar que Viviane Araújo é uma mulher injustiçada, e injustiçada por ser vítima de preconceito.
Para quem não sabe, Viviane é uma gostosa profissional. Ela vive de ser gostosa. A cada seis meses, um ano, estampa a capa de uma revista de mulher pelada. Aparece regularmente em programas de televisão trash, como o Superpop, da Luciana Gimenez. No Carnaval, brilha na avenida como madrinha de bateria de escola de samba.
Como se vê, Viviane transita numa faixa bastante estreita, não explorando todo o potencial que a mídia oferece a uma gostosa. Ela não aparece na capa da Nova ou da Boa Forma, por exemplo. Até a Playboy demorou muito tempo para lhe dar uma capa.
Alguns dirão que Viviane é uma mulher vulgar. Reconheço que ela não é exatamente uma Catherine Deneuve. Mas veja bem: Viviane não é mais vulgar do que Juliana Paes ou mesmo Deborah Secco, e é bem mais gostosa do que as duas. Eu tenho certeza de que ela não seria pior atriz do que Fernanda Lima.
Por que então Viviane é vítima de tão sórdida injustiça? O motivo é um só: seu amor por Belo, o pagodeiro loiro, que ficou preso um bom tempo por sua associação com traficantes. Eis aí a realidade: uma mulher condenada à periferia do mundo das gostosas por causa de seu amor. E ninguém poderá dizer que o amor de Viviane não era sincero. O sujeito ficou preso e ela continuou lá, firme e apaixonada. É verdade que ele tinha dinheiro, mas Viviane, se estivesse interessada no vil metal, conseguiria um homem mais rico e, o que não seria difícil, mais bonito.
Lendo um site de alto nível, descobri ontem que os dois se separaram. Eu temo, porém, que o estrago causado à sua imagem seja irreversível. Sonho com o dia em que ela será capa da Nova ou dará entrevista ao Fantástico, mas sei que isso é muito improvável. O mundo é cruel, e estereótipos não se desfazem da noite para o dia. De qualquer modo, Viviane pode continuar andando de cabeça erguida. Ela sabe que é injustiçada porque amou demais. Quem há de condená-la?