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Sangra, sangra hemorragia
Oscar Niemeyer faz 100 anos. Ele só não é mais velho que suas idéias políticas, que datam do Cenozóico, de acordo com estimativas conservadoras. Em homenagem aos 100 anos do comunista mais amado do Brasil, eu desenvolvi dois projetos de documentário sobre o velhinho bon vivant. O primeiro é sobre sua obra arquitetônica: Niemeyer, 100 anos a serviço do kitsch. O que é Brasília se não o kitsch em seu grau mais desenvolvido? O Memorial da América Latina, com aquela mão aberta e sangrando o mapa da região, é de um mau gosto quase sem precedentes.
O outro documentário vai abordar a coerência política de Niemeyer. Eu tenho apenas uma dúvida quanto ao título: Stalinismo no cu dos outros é refresco ou O stalinismo é um humanismo. Niemeyer tem uma visão de mundo bastante sofisticada. Como não liga para coisas como genocídio - o que são 20 milhões de pessoas se o sujeito é de esquerda? -, ele coloca tipos como Stálin num patamar bem acima de crápulas como Fernando Henrique, que cometeram o crime supremo de serem neoliberais.
Mas eu não tenho nenhuma esperança de conseguir realizar os documentários. Em primeiro lugar, porque ninguém se disporia a financiar projetos como esses. Nenhuma estatal teria coragem de colocar dinheiro em filmes que falem mal de Niemeyer, e filme brasileiro hoje sem dinheiro de estatal é como enterro de anão. Ninguém sabe, ninguém viu. Segundo, porque haveria no máximo uns 100 brasileiros dispostos a assisti-los. É mais provável Niemeyer criticar Stálin do que esses documentários saírem do papel e se tornarem um sucesso de público
PS: Este texto se baseia em parte num comentário feito neste post do Hermenauta


