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Eles vão invadir sua praia
Sim, eu crio teorias esdrúxulas durante 80% do tempo acordado. Se eu pudesse vender cada Tractatus Logico-Esdruxulus que concebo por 2 reais, já seria milionário. Uma das últimas teorias do meu manancial é a que segue:
(Aviso: teorias esdrúxulas devem ser vazadas em texto esdrúxulo, desde os mais ínfimos albores)
Cena 1 – Piauí profundo
A palavra Piauí evoca alternadamente visões de atraso mesozóico e de pretensão editorial-intelectual. Bem, eu estive no Piauí real, onde congracei com a força telúrica da nossa terra e da nossa gente (opss). Num remoto trato de sertão piauiense, ouvi dos capiaus que outrora houvera veados lá* (o bicho, não a bicha). Em seguida, dois brocoiós me explicaram por que desapareceram os cervídeos. Como eu não sou Guimarães Rosa, não encherei sacos recriando a linguagem matuta. Conto em português de manual de Imposto de Renda o que os catimbós me revelaram.
Segundo os capa-bodes, a extinção dos veados na região deveu-se à caça sistemática, obsessiva, impiedosa e exterminadora, movida pelos cafumangos desde tempos imemoriais. A coisa funciona assim: se por acaso um pobrezinho de um veadinho sobrevivente e desgarrado surge lá por aquelas terras, os mocorongos formam-se em bandos e perseguem o coitadinho dia e noite, atravessando fazendas, florestas, rios e serras, abandonando trabalhos, afazeres e famílias, até encontrarem e darem cabo da vítima, que em questões de minutos é estraçalhada e devorada pela malta de capurreiros. Não há a menor chance de que convivam, lá por aquelas bandas, humanos e veados. Os primeiros sempre matam quantos haja dos últimos num raio de 500 a 1000 quilômetros.
Cena 2 – Búzios, praia dos Ossos
Dois nativos conversam ao pé de uma frondosa árvore. Eu me aproximo, curioso, porque noto um tom de certo maravilhamento nas suas vozes. Apontando para algo que tudo indica se tratar de uma pomba no galho da árvore, eles se impressionam com a desfaçatez do bicho de deixar-se ficar assim tão despreocupadamente num ambiente apinhado de seres humanos. Rápidas explicações me fazem entender que aquilo não é um pombo do tipo urbano, rato voador, mas sim uma autêntica pomba-rola (não confundir com a rolinha, que é um passarinho), mais afeita às nossas matas e aos nossos campos. Numa segunda e atenta inspeção, noto que de fato o bicho acima é diferente da vulgar pomba de praça, tendo um quê de esbeltez e de brio nas linhas fluidas, o que trai uma estirpe mais racée. Mas o que fascina os minhocos é a tranqüilidade da criatura, que chega a pousar no chão de paralelepípedos, e a ciscar toda serelepe até a proximidade das pontas dos seus pés. E eles me explicam o porquê do espanto. É que, quando eram crianças, não havia pomba-rola num raio de 50 quilômetros da vila de Búzios, porque os bichos eram caçados e dizimados freneticamente, numa campanha de extermínio de chocar nazista, zulu e mongol. As pomba-rolas fugiam mais dos seres humanos do que católico de xereca (com exceção das que são disponibilizadas nos cânones do casamento casto). Daí a surpresa dos caiçaras com o comportamento descontraidão, com a non-chalance da pomba rola.
E, por fim, heideggerianamente, a teoria em si (pode chamar de coisa):
É simples. Antigamente, quando todos éramos jecas famintos, as crianças e os adultos tinham uma atitude em relação à natureza – e me refiro especialmente aos bichos comestíveis – não muito diferente daquela que os 300 de Esparta demonstraram ante os seus inimigos persas. Matar, matar e matar – este era o nosso lema. A civilização contemporânea trouxe, todavia, novos hábitos, e a fúria caçadora amainou-se. Já não somos os serial killers de outras espécies que fomos em passadas eras (e os aborígenes do Piauí, mencionados acima, são a exceção que confirma a regra). Refestelados em nossas poltronas, empanturrados com a super-produção do moderno agribusiness, manipulamos o controle remoto com as mesmas mãos que outrora empunhariam bodoques e espingardas na Grande Campanha Geral de Extermínio de Todo Ser Movente e Comestível. Os catastrofistas ambientais, portanto, estão inteiramente enganados, e Gaia vive neste momento um esplendoroso repovoamento de animais de duas e quatro pernas, de penas e de pelos, da terra, das águas e dos céus. É como se a Arca de Nóe tivesse atracado na Praça Mauá, e a bicharada saísse em desfile pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro.
Tudo bem, isto não está exatamente acontecendo. Mas há ubíquos sinais de que um processo mais ou menos assim está em marcha. Cito apenas os exemplos mais conspícuos:
- a pomba-rola em Búzios
- onças invadem cidades em São Paulo (e não acreditem na lorotinha de que isto não significa que está nascendo mais felino do que chuchu na serra)
- um leão vem sendo perseguido na região de Vassouras, a menos de 200 quilômetros do Rio
- micos abundam em prédios do Rio nos bairros do Jardim Botânico e da Gávea
- Patos aproximados (mergulhões, se é que você me entende) e capivaras de quatro costados reaparecem na lagoa Rodrigo de Freitas, na zona Sul do Rio
- a raríssima variante beneditina do picapau faz uma emocionante rentrèe no Jardim Botânico do Rio, com direito a citação na coluna do Ancelmo
Conclusão:
É célebre o fato de que apenas nas modernas viagens espaciais, quando se constatou um lapso de segundos (ou seriam frações de segundos? ou seriam minutos?) entre o tempo decorrido dentro das naves e aquele vivido pelos que aqui ficaram, na Terra, viu-se confirmada uma das hipóteses da teoria da relatividade, de que as enormes velocidades comprimem o tempo (ou seria o contrário?).
De qualquer forma, o que importa aqui é reiterar que uma boa teoria deve estabelecer previsões que, se acertadas, a confirmem.
No caso da minha teoria esdrúxula nº 1, fica desde já previsto que:
- Um belo dia você será acordado com lambidas de tamanduá-bandeira
- Araras azuis esvoaçantes tornarão ainda mais infernal o trânsito na hora do rush na Avenida Rebouças (por alguma estranha razão, elas voarão muito perto do solo, e se chocarão seguidamente contra os pára-brisas dos carros)
- Encontrar um sagüi na cadeira de trabalho pela manhã não será mais uma ocorrência bizarra; expulsar os micos de cima da mesa tornar-se-á uma tarefa rotineira
- Tropeções em jabutis elevarão o número de internações de idosos com ossos quebrados no sistema público de saúde; surfistas se queixarão das tartaguras que crowdeiam as ondas e dificultam as manobras
Eu já estabeleci minhas credenciais proféticas com as previsões arranhapônticas. Me aguardem
* Sugestão de exercício eufônico: experimente diversas combinações com “houvera”, “outrora”, “veados” e “lá”, até achar a melhor opção (Houvera outrora veados lá?; Outrora houvera lá veados”; Veados lá outrora houvera?, etc)


