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julho 29, 2007
Súbita apreensão e uma revolucionária proposta
julho 26, 2007
O mala arrogante

Ele é chatinho, nervosinho e escrotinho
O meu pai sabe das coisas. Bernardinho nunca o convenceu. Nem no começo da fama do técnico, nem depois que o Brasil passou a ganhar tudo no vôlei. O velho sempre ficou firme: "Esse cara é arrogante, um prepotente quer aparecer mais do que os jogadores! Aquele jeito de gritar é ridículo!" Eu discutia. Dizia que ele era prepotente mesmo, mas argumentava que o histórico de vitórias era uma credencial irrefutável. Eis que Bernardinho decide cortar Ricardinho, o melhor jogador da liga mundial, e convocar para o lugar o seu filho Bruninho (os sujeitos não são meio grandinhos para serem chamados pelo diminutivo?)
O meu pai exultou. Quando o encontrei no fim de semana, ele não se agüentava: "Está vendo? Caiu a máscara! Esse sujeito acha que ninguém pode ser melhor do que ele!", vociferava, com o lábio trêmulo e o olho rútilo, como diria o Nelson Rodrigues. Dei o braço a torcer. O velho estava certo. Cortar um dos melhores jogadores do time é coisa de quem não suporta concorrência.
Mas Bernardinho se supera. Chego hoje na empresa e recebo um folheto na entrada. É uma propaganda da Uptime, uma escola de inglês que anuncia ter como um de seus diferenciais o ensino por meio da neurolingüística e da mnemônica. Quem é o garoto propaganda? Bernardinho, é claro. Eu ia chamá-lo de mercenário, mas vejo no pé do folheto que ele doou o cachê para os projetos do Instituto Compartilhar. Menos mal. A questão é que eu descubro em seguida que o Instituto Compartilhar é uma organização civil sem fins lucrativos, idealizada em 2003 pelo próprio Bernardinho.
Ok, ele não me parece corrupto, mas está associando sua imagem a uma escola de inglês que usa como método a neurolingüística e a mnemônica, para conseguir recursos para seu próprio instituto. Ser garoto propaganda da Uninove e da Unilever já é ruim, mas da Uptime? Para a Unilever, aliás, Bernardinho protagoniza um dos comerciais mais ridículos de todos os tempos, em que ele, a mulher e os filhos guardam os produtos da empresa nos armários da cozinha e do banheiro com saques, cortadas e manchetes. Para completar, Bernardinho tem um livro com um nome grotesco – Transformando suor em ouro - e é um das estrelas das palestras de motivação profissional. Além de arrogante e prepotente como afirma o meu pai, o sujeito também é picareta

Ele é chatinho, nervosinho e escrotinho
O meu pai sabe das coisas. Bernardinho nunca o convenceu. Nem no começo da fama do técnico, nem depois que o Brasil passou a ganhar tudo no vôlei. O velho sempre ficou firme: "Esse cara é arrogante, um prepotente quer aparecer mais do que os jogadores! Aquele jeito de gritar é ridículo!" Eu discutia. Dizia que ele era prepotente mesmo, mas argumentava que o histórico de vitórias era uma credencial irrefutável. Eis que Bernardinho decide cortar Ricardinho, o melhor jogador da liga mundial, e convocar para o lugar o seu filho Bruninho (os sujeitos não são meio grandinhos para serem chamados pelo diminutivo?)
O meu pai exultou. Quando o encontrei no fim de semana, ele não se agüentava: "Está vendo? Caiu a máscara! Esse sujeito acha que ninguém pode ser melhor do que ele!", vociferava, com o lábio trêmulo e o olho rútilo, como diria o Nelson Rodrigues. Dei o braço a torcer. O velho estava certo. Cortar um dos melhores jogadores do time é coisa de quem não suporta concorrência.
Mas Bernardinho se supera. Chego hoje na empresa e recebo um folheto na entrada. É uma propaganda da Uptime, uma escola de inglês que anuncia ter como um de seus diferenciais o ensino por meio da neurolingüística e da mnemônica. Quem é o garoto propaganda? Bernardinho, é claro. Eu ia chamá-lo de mercenário, mas vejo no pé do folheto que ele doou o cachê para os projetos do Instituto Compartilhar. Menos mal. A questão é que eu descubro em seguida que o Instituto Compartilhar é uma organização civil sem fins lucrativos, idealizada em 2003 pelo próprio Bernardinho.
Ok, ele não me parece corrupto, mas está associando sua imagem a uma escola de inglês que usa como método a neurolingüística e a mnemônica, para conseguir recursos para seu próprio instituto. Ser garoto propaganda da Uninove e da Unilever já é ruim, mas da Uptime? Para a Unilever, aliás, Bernardinho protagoniza um dos comerciais mais ridículos de todos os tempos, em que ele, a mulher e os filhos guardam os produtos da empresa nos armários da cozinha e do banheiro com saques, cortadas e manchetes. Para completar, Bernardinho tem um livro com um nome grotesco – Transformando suor em ouro - e é um das estrelas das palestras de motivação profissional. Além de arrogante e prepotente como afirma o meu pai, o sujeito também é picareta
julho 25, 2007
O destruidor de reputações

Isto continua a não ser um charuto
Não se sabe ainda o que provocou o acidente com o avião da TAM, mas eu não tenho dúvidas: fumar charuto em lugar público ajuda a acabar com algumas reputações. A diretora da Anac Denise Abreu foi flagrada em uma festa com um puro, e não há quem, ao criticá-la, não faça menção ao fato, como um agravante à sua conduta. Que fique claro: Denise me parece totalmente despraparada para o cargo. Deu uma entrevista grotesca para Mônica Bergamo, dizendo que o “acidente é o acidente, e o setor aéreo é o setor aéreo”. Além disso, a sua maior credencial para o posto é ser amiga de José Dirceu.
Como se vê, sobram motivos para criticá-la. Ter fumado charuto em público, porém, a transformou numa Maria Antonieta de anedota. Eu sei que ela apareceu de modo descontraído numa festa de casamento que ocorreu numa semana marcada por muita confusão nos aeroportos, mas é um pouco ridículo tomar o ato como o símbolo do descaso com o que se passa no país. De qualquer modo, isso mostra que Freud estava errado: um charuto nunca é apenas um charuto
PS: Eu não fumo e não suporto o cheiro de charuto

Isto continua a não ser um charuto
Não se sabe ainda o que provocou o acidente com o avião da TAM, mas eu não tenho dúvidas: fumar charuto em lugar público ajuda a acabar com algumas reputações. A diretora da Anac Denise Abreu foi flagrada em uma festa com um puro, e não há quem, ao criticá-la, não faça menção ao fato, como um agravante à sua conduta. Que fique claro: Denise me parece totalmente despraparada para o cargo. Deu uma entrevista grotesca para Mônica Bergamo, dizendo que o “acidente é o acidente, e o setor aéreo é o setor aéreo”. Além disso, a sua maior credencial para o posto é ser amiga de José Dirceu.
Como se vê, sobram motivos para criticá-la. Ter fumado charuto em público, porém, a transformou numa Maria Antonieta de anedota. Eu sei que ela apareceu de modo descontraído numa festa de casamento que ocorreu numa semana marcada por muita confusão nos aeroportos, mas é um pouco ridículo tomar o ato como o símbolo do descaso com o que se passa no país. De qualquer modo, isso mostra que Freud estava errado: um charuto nunca é apenas um charuto
PS: Eu não fumo e não suporto o cheiro de charuto
julho 20, 2007
A indesejada das gentes

No mesmo dia do Kennedy, seu Aldous?
O senador Antônio Carlos Magalhães foi ruim de timing. Morrer três dias depois do acidente da TAM e no meio do Pan? Tirando a mídia da Bahia, a cobertura não vai ser das maiores. Pior que ele, só Aldous Huxley e C.S. Lewis. Os sujeitos escolheram morrer justo no dia do assassinato de John Kennedy

No mesmo dia do Kennedy, seu Aldous?
O senador Antônio Carlos Magalhães foi ruim de timing. Morrer três dias depois do acidente da TAM e no meio do Pan? Tirando a mídia da Bahia, a cobertura não vai ser das maiores. Pior que ele, só Aldous Huxley e C.S. Lewis. Os sujeitos escolheram morrer justo no dia do assassinato de John Kennedy
julho 19, 2007
Grandes momentos do esporte
Como eu mostrei cabalmente neste post, o curling é o esporte mais ridículo que existe. Isso não quer dizer, porém, que seja o mais feio. Nessa categoria, o judô e a luta greco-romana travam uma disputa apertada. Eu vi hoje a luta de judô entre o brasileiro João Gabriel Schilitter e o cubano Oscar Brayson, na final da categoria acima de 100 kg. João Gabriel perdeu. No tempo normal, ninguém fez ponto. Na prorrogação (ok, no golden score), os dois também ficaram no zero a zero, e os juízes decidiram pela vitória do cubano. Fazia tempo que eu não via uma luta de judô, e não me lembrava em todos os detalhes de como o negócio pode ser grotesco.
Boa parte da luta consiste em tentativas de agarrar o quimono do adversário, que, por sua vez, passa o tempo todo tentando se esquivar da manobra. Como ser derrubado de costas configura derrota inexorável, os judocas fazem o impossível para impedir o ippon: ficam de quatro no tatami, se apóiam nos ombros e apontam a bunda para cima, agarram o adversário e ficam em poses obscenas. Na luta do Pan, várias vezes o brasileiro ficou cheirando o rabo do cubano – que tinha uma barriguinha pouco atlética, aliás. É claro que há golpes mais plásticos e lutas menos travadas do que as que eu já vi, mas nem pai de judoca consegue ver beleza no esporte.
Ainda assim, o judô perde o título de esporte mais feio do mundo para a luta greco-romana. Nem mesmo a mais feia das artes marciais é páreo para um combate em que os participantes usam roupinhas ridículas e ficam se agarrando de modo animalesco e esteticamente prejudicado. Credo
Como eu mostrei cabalmente neste post, o curling é o esporte mais ridículo que existe. Isso não quer dizer, porém, que seja o mais feio. Nessa categoria, o judô e a luta greco-romana travam uma disputa apertada. Eu vi hoje a luta de judô entre o brasileiro João Gabriel Schilitter e o cubano Oscar Brayson, na final da categoria acima de 100 kg. João Gabriel perdeu. No tempo normal, ninguém fez ponto. Na prorrogação (ok, no golden score), os dois também ficaram no zero a zero, e os juízes decidiram pela vitória do cubano. Fazia tempo que eu não via uma luta de judô, e não me lembrava em todos os detalhes de como o negócio pode ser grotesco.
Boa parte da luta consiste em tentativas de agarrar o quimono do adversário, que, por sua vez, passa o tempo todo tentando se esquivar da manobra. Como ser derrubado de costas configura derrota inexorável, os judocas fazem o impossível para impedir o ippon: ficam de quatro no tatami, se apóiam nos ombros e apontam a bunda para cima, agarram o adversário e ficam em poses obscenas. Na luta do Pan, várias vezes o brasileiro ficou cheirando o rabo do cubano – que tinha uma barriguinha pouco atlética, aliás. É claro que há golpes mais plásticos e lutas menos travadas do que as que eu já vi, mas nem pai de judoca consegue ver beleza no esporte.
Ainda assim, o judô perde o título de esporte mais feio do mundo para a luta greco-romana. Nem mesmo a mais feia das artes marciais é páreo para um combate em que os participantes usam roupinhas ridículas e ficam se agarrando de modo animalesco e esteticamente prejudicado. Credo
julho 18, 2007
Mais um show de bola
Ganhamos a Copa América, estamos indo bem no Pan, e também na aviação estamos mostrando ao mundo do que o brasileiro é capaz. Agora me diz se algum outro país dispõe da capacitação técnica e da eficiência institucional necessárias para fazer uma investigação completa de um desastre aéreo e chegar a conclusões definitivas menos de 24 horas depois do acidente? Pois nós mal precisamos deste tempo todo para estabelecer que os culpados pela queda do avião da Gol foram os pilotos gringos do Legacy e, agora, que a queda do avião da TAM não teve nada a ver com a pista, com o avião, com o treinamento dos pilotos da empresa ou com a chuva.
E se só caísse avião no Brasil de vez em quando, alguém ainda poderia questionar a nossa fantástica velocidade em apurar causas de acidentes aéreos, alegando que os exemplos eram muito poucos para uma conclusão tão definitiva. Mas como cai avião toda hora, e a gente sempre apura rapidinho, temos condição de afirmar que, pelo menos nisso aí, com brasileiro não há quem possa
Ganhamos a Copa América, estamos indo bem no Pan, e também na aviação estamos mostrando ao mundo do que o brasileiro é capaz. Agora me diz se algum outro país dispõe da capacitação técnica e da eficiência institucional necessárias para fazer uma investigação completa de um desastre aéreo e chegar a conclusões definitivas menos de 24 horas depois do acidente? Pois nós mal precisamos deste tempo todo para estabelecer que os culpados pela queda do avião da Gol foram os pilotos gringos do Legacy e, agora, que a queda do avião da TAM não teve nada a ver com a pista, com o avião, com o treinamento dos pilotos da empresa ou com a chuva.
E se só caísse avião no Brasil de vez em quando, alguém ainda poderia questionar a nossa fantástica velocidade em apurar causas de acidentes aéreos, alegando que os exemplos eram muito poucos para uma conclusão tão definitiva. Mas como cai avião toda hora, e a gente sempre apura rapidinho, temos condição de afirmar que, pelo menos nisso aí, com brasileiro não há quem possa
Estranha forma de noticiar
SAO PAULO, Brazil (CNN) -- Heavy black smoke poured into the air and bright orange flames lit the night sky in Sao Paulo after a passenger plane skidded across a road and crashed into a building Tuesday. At least 200 people were killed.
Li isto aí na CNN às 00:02 de hoje, 18 de julho. Nos sites dos principais jornais brasileiros, Folha, Estado e Globo, não encontrei até agora (00:07) nenhuma referência a 200 mortos, nem a que todos os passageiros do avião da TAM morreram, nem mesmo a que provavelmente ou possivelmente morreram. Está dito num deles que é a maior tragédia da aviação brasileira, mas você lê o texto e não explicam por quê.
Das duas uma: 1) ou a CNN irresponsavelmente está dizendo que há 200 mortos quando ainda há reais chances de que grande parte dos passageiros esteja viva. 2) Ou os principais jornais brasileiros estranhamente acanham-se em dizer que morreu todo mundo, ou que tudo indica que morreu todo mundo. Acompanhando o noticiário, a hipótese 2 me parece muito mais provável que a 1. Se for isto mesmo, fica a pergunta: por que a imprensa brasileira demora tanto a dizer que morreram 150 a 200 pessoas que de fato morreram? Eu não tenho a menor idéia
PS: Eu imagino que as edições da manhã já devem trazer a má notícia do enorme número de mortos. Mas por que a demora dos sites em divulgar claramente a dimensão da tragédia?
SAO PAULO, Brazil (CNN) -- Heavy black smoke poured into the air and bright orange flames lit the night sky in Sao Paulo after a passenger plane skidded across a road and crashed into a building Tuesday. At least 200 people were killed.
Li isto aí na CNN às 00:02 de hoje, 18 de julho. Nos sites dos principais jornais brasileiros, Folha, Estado e Globo, não encontrei até agora (00:07) nenhuma referência a 200 mortos, nem a que todos os passageiros do avião da TAM morreram, nem mesmo a que provavelmente ou possivelmente morreram. Está dito num deles que é a maior tragédia da aviação brasileira, mas você lê o texto e não explicam por quê.
Das duas uma: 1) ou a CNN irresponsavelmente está dizendo que há 200 mortos quando ainda há reais chances de que grande parte dos passageiros esteja viva. 2) Ou os principais jornais brasileiros estranhamente acanham-se em dizer que morreu todo mundo, ou que tudo indica que morreu todo mundo. Acompanhando o noticiário, a hipótese 2 me parece muito mais provável que a 1. Se for isto mesmo, fica a pergunta: por que a imprensa brasileira demora tanto a dizer que morreram 150 a 200 pessoas que de fato morreram? Eu não tenho a menor idéia
PS: Eu imagino que as edições da manhã já devem trazer a má notícia do enorme número de mortos. Mas por que a demora dos sites em divulgar claramente a dimensão da tragédia?
julho 17, 2007
O velhinho ataca outra vez
Oscar Niemeyer. Eu sou obcecado por Oscar Niemeyer. Eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. Eu gosto de escrever Oscar Niemeyer. O nome é sonoro. Com 100 anos, o velhinho stalinista segue hiperativo. A Folha adora publicar seus artigos. No domingo, publicou mais um (para quem quiser, eu coloquei a íntegra no continue reading). Em geral, os textos são curtos, formados por parágrafos pequenos e desconexos. O do domingo era mais longo, mas também era formado parágrafos pequenos e desconexos. Eu devo ter sido um dos únicos que o leram até o fim. A vantagem é que eu fui recompensado. O destaque são os três últimos parágrafos.
Depois de esclarecer que considera a presença de Lula no governo da “maior importância” e ressaltar que o cenário internacional passa por um momento difícil - o “império de Bush", afinal, ameaça o mundo inteiro -, Niemeyer mostra todo o seu senso de proporção e seu humanismo: “Internamente, um ambiente estranho começa a nos inquietar: é uma onda irrefreável de denúncias, gravações de conversas telefônicas, gente sendo presa sem provas; cria-se o terror, como nos velhos tempos de Beria na antiga União Soviética ou no período do macartismo nos Estados Unidos”.
Veja do que é capaz a mente de Niemeyer: ele acha possível comparar o momento brasileiro atual com o terror stalinista. O esquerdista coerente vê semelhanças entre eventuais exageros cometidos numa democracia e o clima de uma ditadura genocida. Assim fica fácil entender por que o sujeito continua stalinista. A comparação do clima de terror soviético com o macartismo também não faz nenhum sentido. O macartismo foi obviamente um período vergonhoso e injustificável da história dos EUA, mas é claro que não há como igualá-los aos crimes cometidos por Stálin.
Uma possível interpretação é que Niemeyer escreve essas bobagens porque está senil. Mas não é verdade. Basta ver suas entrevistas: ele continua lúcido. Parece um sujeito divertido. Quando fala de política, porém, mostra a face totalitária e nojenta de quem vê qualidades numa ditadura assassina
Oscar Niemeyer. Eu sou obcecado por Oscar Niemeyer. Eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. Eu gosto de escrever Oscar Niemeyer. O nome é sonoro. Com 100 anos, o velhinho stalinista segue hiperativo. A Folha adora publicar seus artigos. No domingo, publicou mais um (para quem quiser, eu coloquei a íntegra no continue reading). Em geral, os textos são curtos, formados por parágrafos pequenos e desconexos. O do domingo era mais longo, mas também era formado parágrafos pequenos e desconexos. Eu devo ter sido um dos únicos que o leram até o fim. A vantagem é que eu fui recompensado. O destaque são os três últimos parágrafos.
Depois de esclarecer que considera a presença de Lula no governo da “maior importância” e ressaltar que o cenário internacional passa por um momento difícil - o “império de Bush", afinal, ameaça o mundo inteiro -, Niemeyer mostra todo o seu senso de proporção e seu humanismo: “Internamente, um ambiente estranho começa a nos inquietar: é uma onda irrefreável de denúncias, gravações de conversas telefônicas, gente sendo presa sem provas; cria-se o terror, como nos velhos tempos de Beria na antiga União Soviética ou no período do macartismo nos Estados Unidos”.
Veja do que é capaz a mente de Niemeyer: ele acha possível comparar o momento brasileiro atual com o terror stalinista. O esquerdista coerente vê semelhanças entre eventuais exageros cometidos numa democracia e o clima de uma ditadura genocida. Assim fica fácil entender por que o sujeito continua stalinista. A comparação do clima de terror soviético com o macartismo também não faz nenhum sentido. O macartismo foi obviamente um período vergonhoso e injustificável da história dos EUA, mas é claro que não há como igualá-los aos crimes cometidos por Stálin.
Uma possível interpretação é que Niemeyer escreve essas bobagens porque está senil. Mas não é verdade. Basta ver suas entrevistas: ele continua lúcido. Parece um sujeito divertido. Quando fala de política, porém, mostra a face totalitária e nojenta de quem vê qualidades numa ditadura assassina
Entrevistas
Oscar Niemeyer
ULTIMAMENTE , minhas manhãs são ocupadas por entrevistas e encontros. Jornais e revistas nacionais e estrangeiros, pessoas interessadas em saber o que penso da arquitetura e da própria vida.
Sobre a arquitetura, me restrinjo a explicar que, hoje, o concreto armado tudo permite aos arquitetos, que arquitetura é invenção e que a minha preocupação principal é utilizar a técnica em toda a sua plenitude, buscando dar aos meus projetos a surpresa, o espanto que uma obra de arte requer.
E esclareço aos que me entrevistam que, quando o tema permite, começo reduzindo os apoios, e a arquitetura se faz mais audaciosa, e as coberturas, maiores, se adaptando às formas diferentes que a imaginação vai criar.
A entrevista prossegue, eu procurando encurtar os assuntos da arquitetura, mas não raro surge uma pergunta que requer uma explicação. Numa das entrevistas recentes, indagaram: "Que relação tem Le Corbusier com o projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde?". Um projeto feito por uma equipe chefiada por Lucio Costa, tendo por base um projeto do velho mestre.
E, como de costume, me limitei a dizer que se tratava de um projeto de Le Corbusier. Uma preocupação permanente que temos em preservar a autoria de qualquer projeto arquitetônico -coisa antiga que, já no passado, Michelangelo revelava, ao se recusar a interferir no projeto original de Bramante para a basílica de São Pedro em Roma.
Mas, no caso do projeto elaborado pela comissão chefiada por Lucio Costa, é diferente, tantas foram as modificações feitas no segundo estudo apresentado por Le Corbusier.
A própria localização do prédio no terreno foi alterada: em vez de mantê-lo, como constava do projeto do velho mestre, grudado à rua, defronte do Ministério do Trabalho, com a fachada norte prejudicada (praticamente escondida), resolvemos colocar o edifício no meio do terreno, dividindo em duas a praça existente. Em razão dessa solução, surgiram os pilotis e a ligação tão bonita entre eles.
E nos ocorreu a solução diferente dada ao bloco destinado a exposições e auditório, solto, independente do edifício, como antes não ocorria.
Depois, a simplificação das fachadas do edifício. A fachada sul construída toda de vidro, sem as interrupções nas áreas correspondentes aos sanitários, antes previstas. Na outra, foi adotado o sistema de brise-soleil por Le Corbusier preconizado, com a diferença de que as placas horizontais não são fixas, em concreto, como o velho mestre usava, mas móveis, regulando a proteção solar -um sistema de placas móveis antes empregado pelos irmãos Roberto. Um detalhe que evoluiu naturalmente ao passar do tempo. Podia ter lembrado que, na mesma época, no Rio, outros edifícios de igual espírito arquitetônico estavam sendo criados, como o prédio da ABI, o aeroporto Santos Dumont etc.
Essa era a explicação que, como membro daquela comissão, eu deveria ter fornecido ao meu entrevistador. Afinal, é generosidade demais considerar o prédio do Ministério da Educação e Saúde uma simples variação de um projeto já elaborado diante da explicação que acabo de dar.
Nessas entrevistas, procuro limitar um pouco os assuntos da arquitetura -um trabalho, a meu ver, muito pessoal, em que o arquiteto deve fazer o que gosta, e não aquilo que os outros gostariam que ele fizesse.
E a conversa prossegue, os jornalistas perguntando sobre meus últimos trabalhos, o que estou fazendo no exterior, qual o projeto que mais me agrada entre os já realizados.
Para atendê-los, lembro às vezes o projeto da sede da editora Mondadori, em Milão (Itália), em que a surpresa arquitetural surge logo ao visitante que chega -a grande colunata com espaços diferentes, num ritmo musical que até hoje não se viu em outro edifício-, ou a Universidade de Constantine, na Argélia, em que, estando com o nosso amigo Darcy Ribeiro, que lá nos acompanhava, preocupado com que o projeto em elaboração garantisse o contato mais íntimo entre os estudantes, adotei a sua idéia, criando uma universidade completamente diferente. Lembro do entusiasmo com que Darcy, Luís Hildebrando Pereira da Silva, Heron de Alencar e Ubirajara Brito, exilados na Europa, vieram à Argélia para comigo colaborar.
Ah, como até no exterior a arquitetura muitas vezes sofre alterações! É a notícia que recebo de Constantine, surpreso ao saber que uma grande placa de vidro foi colocada, fechando o recreio em pilotis que desenhei -o que contrasta com o que se verificou com a sede do Partido Comunista Francês.
julho 16, 2007
Zacarias na feira

Evo Morales, estadista
Se eu fosse da oposição boliviana, pediria o impeachment do Zacarias com base nessa foto
Evo Morales, estadista
Se eu fosse da oposição boliviana, pediria o impeachment do Zacarias com base nessa foto
julho 13, 2007
Cena carioca
Dois colegas chegam a um local de acesso restrito, para realizar uma tarefa profissional. Um grupo de vigilantes à paisana barra a passagem. Em voz muito abafada, um dos profissionais comenta para o outro: "Pshhh, quieto, é a (inaudível) lícia". O outro pergunta: "Polícia ou milícia?", e recebe a resposta, numa voz um pouco mais audível, "milícia". Ao que retruca: "Que alívio, pensei que fossem os traficantes"
Dois colegas chegam a um local de acesso restrito, para realizar uma tarefa profissional. Um grupo de vigilantes à paisana barra a passagem. Em voz muito abafada, um dos profissionais comenta para o outro: "Pshhh, quieto, é a (inaudível) lícia". O outro pergunta: "Polícia ou milícia?", e recebe a resposta, numa voz um pouco mais audível, "milícia". Ao que retruca: "Que alívio, pensei que fossem os traficantes"
julho 12, 2007
O discreto charme da cretinice
Publicar um perfil da Alcione é fazer jornalismo marrom?
Publicar um perfil da Alcione é fazer jornalismo marrom?
julho 11, 2007
Abaixo a imparcialidade II
Depois de intensas deliberações do Conselho Executivo do Torre, foi decidido que o meu comentário em resposta ao ótimo comentário do Edson no post anterior seria readaptado como post. O Edson faz várias restrições inteligentes ao meu post abaixo,“Abaixo a imparcialidade” (não resisti ao ‘abaixo abaixo’), e em determinado momento pergunta “Você acha que nesse contexto uma marcação cerrada sobre as ações policiais é parte do ‘zeitgeist pró-marginália’?”. Neste post, eu respondo ao Edson. Para uma compreensão mais completa da polêmica, leia o post anterior e o comentário do Edson.
Segue a enxundiosa chorumela, que prossegue no ‘continue reading’ por questões estéticas:
Edson, acho que uma marcação cerrada sobre as ações policiais faz parte de uma sociedade democrática, mas no post anterior tentei exercer o papel de quem faz uma marcação cerrada sobre aqueles que fazem uma marcação cerrada sobre as ações policiais - o que também faz parte de uma sociedade democrática.
A polícia brasileira mata muito, sem dúvida. Mas os assassinos brasileiros também matam muito. Outro dia, verifiquei que, se o Brasil tivesse a mesma taxa de homicídios da Inglaterra, o número de assassinatos por ano cairia de algo como 50 mil para 3 mil - 47 mil vidas poupadas por ano (as cifras são aproximadas).
Você deve estar se perguntando o que este último ponto tem a ver com o seu ponto. O problema é que os assassinos brasileiros também matam muitos policiais. Se for feita uma comparação entre o número de policiais mortos em ação no Rio e o número de policiais mortos em ação nos Estados Unidos, tenho certeza de que a diferença será impressionante. Aliás, seria interessante se alguém tivesse saco para comparar a proporção entre policiais assassinados e bandidos mortos pela polícia, no Brasil e nos Estados Unidos. Quer dizer, a relação entre bandidos e policiais mortos no confronto entre os dois grupos. Será que a polícia brasileira mata muito mais por cada policial morto? Teria curiosidade em saber.
Depois de intensas deliberações do Conselho Executivo do Torre, foi decidido que o meu comentário em resposta ao ótimo comentário do Edson no post anterior seria readaptado como post. O Edson faz várias restrições inteligentes ao meu post abaixo,“Abaixo a imparcialidade” (não resisti ao ‘abaixo abaixo’), e em determinado momento pergunta “Você acha que nesse contexto uma marcação cerrada sobre as ações policiais é parte do ‘zeitgeist pró-marginália’?”. Neste post, eu respondo ao Edson. Para uma compreensão mais completa da polêmica, leia o post anterior e o comentário do Edson.
Segue a enxundiosa chorumela, que prossegue no ‘continue reading’ por questões estéticas:
Edson, acho que uma marcação cerrada sobre as ações policiais faz parte de uma sociedade democrática, mas no post anterior tentei exercer o papel de quem faz uma marcação cerrada sobre aqueles que fazem uma marcação cerrada sobre as ações policiais - o que também faz parte de uma sociedade democrática.
A polícia brasileira mata muito, sem dúvida. Mas os assassinos brasileiros também matam muito. Outro dia, verifiquei que, se o Brasil tivesse a mesma taxa de homicídios da Inglaterra, o número de assassinatos por ano cairia de algo como 50 mil para 3 mil - 47 mil vidas poupadas por ano (as cifras são aproximadas).
Você deve estar se perguntando o que este último ponto tem a ver com o seu ponto. O problema é que os assassinos brasileiros também matam muitos policiais. Se for feita uma comparação entre o número de policiais mortos em ação no Rio e o número de policiais mortos em ação nos Estados Unidos, tenho certeza de que a diferença será impressionante. Aliás, seria interessante se alguém tivesse saco para comparar a proporção entre policiais assassinados e bandidos mortos pela polícia, no Brasil e nos Estados Unidos. Quer dizer, a relação entre bandidos e policiais mortos no confronto entre os dois grupos. Será que a polícia brasileira mata muito mais por cada policial morto? Teria curiosidade em saber.
Mas o que eu quero dizer é que os confrontos entre polícia e bandidos no Brasil são muito mais violentos do que em outros países, o que pode explicar pelo menos parte (atenção, estou falando em parte) dos números enormes de pessoas mortas pela polícia no Brasil. Não estou justificando que a polícia se vingue dos seus mortos matando criminosos, mas apenas pensando que o clima deteriorado de ultra-violência que envolve os confrontos polícia-bandidos no Brasil de certa forma aumenta muito o número de mortos de ambos os lados, quando comparado com o que acontece em outros países.
Antes que digam que eu estou sendo contraditório (em relação ao meu post anterior), os policiais mortos tipicamente são policiais comuns assassinados em episódios como bandidos atirando em cabines de PM, ou em confrontos repentinos. Em ações de tropas de elite em favelas, o número de policiais mortos é muito baixo. Se não me engano, morreu apenas um policial do Bope (principal corpo de elite da polícia no Rio) nos últimos dois anos, apesar de dezenas de incursões nos morros.
Um último ponto. Não tenho como ter certeza, e acho normal que as ONGs questionem ao máximo se os mortos do Alemão eram de fato criminosos que resistiam a tiros à ação da polícia. Mas a minha impressão é de que eles eram isso mesmo. Esta impressão provém de um monte de detalhes e sinais sobre os quais eu pude refletir, acompanhando o noticiário sobre a operação e me informando por outros meios. Não vou me estender, mas falar sobre apenas um deles.
Você notou que nesta e em outras operações do mesmo tipo, 99% dos mortos são adolescentes ou jovens do sexo masculino? Bem, se a polícia entrasse atirando a esmo no que se mexesse à frente, sem que a população inocente tivesse meios nem tempo de sair da frente, uma dedução lógica é de que os mortos seriam uma amostra aproximada da população da favela: haveria velhos, crianças, mulheres, etc.
Bem, aí alguém pode dizer: mas é claro que os velhos, crianças e mulheres saem fora. Ao que eu retrucaria: se velhos, crianças e mulheres conseguem sair fora, por que jovens do sexo masculino que nada têm a ver com o tráfico também não conseguem sair? Teoricamente, jovens do sexo masculino seriam até mais ágeis e rápidos para fugir do que velhos, crianças e mulheres.
A conclusão simples é de que os jovens e adolescentes do sexo masculino que estavam no caminho da ação policial foram aqueles que optaram por lá ficar, porque participavam ativamente do tráfico ou no mínimo tinham ligações. E se eles resistem a tiros à ação da polícia, tentando matar os agentes da lei que vão lá para prendê-los, é muito provável que eles morram à bala - o negócio não funciona assim só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, na Suécia, em qualquer lugar. Experimente apontar uma arma para um policial super bem treinado de qualquer país rico.
Agora, as ressalvas à – digamos – direção geral dos meus próprios argumentos:
1) Se eu estiver certo, 99% dos que morrem são de fato ligados ao crime, mas 1% não é - aqui entram a mulher, a criança, o velho e o homem jovem inocente, que morrem de balas perdidas no tiroteio entre traficantes e policiais. Ao contrário do que diz a "comunidade" (isto é, aqueles carinhas que falam para os repórteres o que o traficante quer que eles falem, pois se eles falassem o contrário morreriam em meio a bárbaras torturas), é muito mais provável que a bala perdida tenha partido dos traficantes, que atiram pior e estão se lixando 100% para a vida dos inocentes. Ainda assim, a causa última da morte é a ação policial. Neste ponto, estou com o governador Sérgio Cabral. A palavra é horrível, mas são danos colaterais, que terão que existir na guerra contra o crime no Rio, mas que devem ser minimizados obsessivamente (e é provável que o esforço para minimizar isto ainda esteja aquém do que eu gostaria que fosse).
2) O fato de que praticamente todos os que morreram no Alemão e em ações semelhantes, se eu estiver certo, eram criminosos resistindo a bala à ação da polícia não quer dizer que necessariamente não tenha havido execuções. É possível que, durante o confronto, depois de dominar alguns dos bandidos, a polícia os execute. Conhecendo a mentalidade da polícia, eu não descarto esta hipótese (de jeito nenhum). Acho que o governo deve fazer todo o esforço possível para impedir que isto ocorra, e, quando tiver ocorrido comprovadamente, puna quem agiu assim da forma mais dura possível (quem me conhece sabe que eu sou a favor da dureza ampla, geral e irrestrita das punições no Brasil). Agora, as "provas" que as ONGs e quejandos apresentaram até agora de que houve execuções no Alemão não me parecem provar porra nenhuma. Mas acho correto que isto seja um ponto de obsessiva preocupação e cobrança.
Feito o argumento e as ‘auto-ressalvas’, concluo que as ações policiais como a do Alemão têm de continuar, e que está certa a postura do governo do Rio de não aceitar mais que criminosos tenham base territorial onde o poder repressor do Estado não entra (o resto do Estado entra - os moradores do Alemão têm acesso a escola, saúde, água e saneamento aproximadamente no nível de qualidade e nas proporções que o resto da população brasileira de mesmo nível sócio-econômico tem. Por questões de engenharia, pode ser um pouco abaixo da média no saneamento, e a qualidade daqueles serviços em geral é ruim, assim como a proporção é insuficiente, porque o Estado brasileiro é uma merda. Mas dizer que o Estado só entra no Alemão na forma de policiais atirando é outra cascata de certa esquerda, que não cola mais).
julho 10, 2007
Abaixo a imparcialidade

Eu torço contra o alemão
Durante boa parte do século XX, boa parte da esquerda torceu para o comunismo vencer a guerra fria contra o capitalismo. Aí, quando o comunismo perdeu, e o bloco soviético veio abaixo, e revelou-se para o mundo em toda a sua intensidade a bostança que aquilo era, a referida boa parte da esquerda mudou o discurso. Passou a lamentar que já não havia o “equilíbrio de forças entre as duas potências”, que representaria um limite ao poder de ambas. Já eu acho preferível uma potência democrática dominante, que de vez em quando faz cagada porque muito poder sobe à cabeça mesmo, do que metade do mundo sob o tacão de um potência ditatorial e escrota nos fundamentos.
Mas a idéia do “equilíbrio de forças” ficou. Vejam este trechinho da última coluna do ombundasman da Folha. Ele está falando da megaoperação da polícia carioca no Complexo do Alemão:
O salutar ceticismo jornalístico em relação ao poder tinha motivos suplementares para ser exercido desde o dia 27. Chamou a atenção a desproporção entre as 19 mortes de um lado e nenhuma do outro. Para 19 "bandidos" abatidos, houve somente três feridos e 12 armas apreendidas.
Quer dizer, então o bundaman preferia um resultado mais equilibrado, digamos, 15 mortes entre os bandidos e umas 10 entre os policiais? Assim, a sociedade ficaria livre de uma hegemonia excessiva de algum dos “lados” envolvidos no conflito.
Eu estou distorcendo. O objetivo daquele trecho acima é o de tentar mostrar que houve execuções, já que seria irrealista esperar que no confronto apenas traficantes morressem. É de uma estupidez atroz. Estes policiais que subiram o morro fazem parte de tropas de elite super-treinadas, e qualquer especialista no assunto sabe que os bandidos não têm a menor condição de resistir aos ataques. Eles só não são varridos dos morros porque a população inocente está no meio.
Mesmo a intenção do homem-bunda da Folha sendo a de tentar mostrar que é bem possível que tenha havido execuções (e é possível, mas não pelos motivos por ele alegados), me irrita a leveza com que o assboy quase que lamenta a “desproporção” entre as mortes de policiais e de bandidos. Me arriscando a incorrer em olavismo, eu diria que faz parte do zeitgeist pró-marginália

Eu torço contra o alemão
Durante boa parte do século XX, boa parte da esquerda torceu para o comunismo vencer a guerra fria contra o capitalismo. Aí, quando o comunismo perdeu, e o bloco soviético veio abaixo, e revelou-se para o mundo em toda a sua intensidade a bostança que aquilo era, a referida boa parte da esquerda mudou o discurso. Passou a lamentar que já não havia o “equilíbrio de forças entre as duas potências”, que representaria um limite ao poder de ambas. Já eu acho preferível uma potência democrática dominante, que de vez em quando faz cagada porque muito poder sobe à cabeça mesmo, do que metade do mundo sob o tacão de um potência ditatorial e escrota nos fundamentos.
Mas a idéia do “equilíbrio de forças” ficou. Vejam este trechinho da última coluna do ombundasman da Folha. Ele está falando da megaoperação da polícia carioca no Complexo do Alemão:
O salutar ceticismo jornalístico em relação ao poder tinha motivos suplementares para ser exercido desde o dia 27. Chamou a atenção a desproporção entre as 19 mortes de um lado e nenhuma do outro. Para 19 "bandidos" abatidos, houve somente três feridos e 12 armas apreendidas.
Quer dizer, então o bundaman preferia um resultado mais equilibrado, digamos, 15 mortes entre os bandidos e umas 10 entre os policiais? Assim, a sociedade ficaria livre de uma hegemonia excessiva de algum dos “lados” envolvidos no conflito.
Eu estou distorcendo. O objetivo daquele trecho acima é o de tentar mostrar que houve execuções, já que seria irrealista esperar que no confronto apenas traficantes morressem. É de uma estupidez atroz. Estes policiais que subiram o morro fazem parte de tropas de elite super-treinadas, e qualquer especialista no assunto sabe que os bandidos não têm a menor condição de resistir aos ataques. Eles só não são varridos dos morros porque a população inocente está no meio.
Mesmo a intenção do homem-bunda da Folha sendo a de tentar mostrar que é bem possível que tenha havido execuções (e é possível, mas não pelos motivos por ele alegados), me irrita a leveza com que o assboy quase que lamenta a “desproporção” entre as mortes de policiais e de bandidos. Me arriscando a incorrer em olavismo, eu diria que faz parte do zeitgeist pró-marginália
julho 09, 2007
O túmulo da inteligência

Não é brinquedo, não
No sábado, eu vi pela primeira vez um trecho de Paraíso tropical. Fujo de novela como Lula foge de livro, mas, como apareceu a Camila Pitanga enquanto eu mudava de canal, fiquei curioso para ver a atriz que “conquistou o Brasil” com a interpretação da prostituta Bebel. Assisti um trecho bem longo para meus padrões – uns cinco minutos, talvez dez. Camila Pitanga, eu não preciso dizer para vocês, é uma mulher bonita. A questão é que ela está numa novela brasileira. Bastou abrir a boca para que toda a beleza e sensualidade fossem para o vinagre. A sua Bebel é uma caricatura péssima. (Eu li que as prostitutas elogiam a atuação de Camila Pitanga. Não acredite. Elas podem entender de prostituição, mas fica claro que não entendem nada de acting).
A culpa, obviamente, não é toda de Camila Pitanga, ainda que ela não seja exatamente uma Sarah Bernhardt. O grande responsável, claro, é o autor da novela. Nada resiste ao poder de vulgarização de um Gilberto Braga ou de um Manoel Carlos. Diálogos de novela, como disse o Alexandre Soares Silva, “são um dos pontos mais baixos do espírito humano”. No trecho que eu vi, Bebel acabava uma discussão com o personagem interpretado por Wagner Moura com uma frase bonita - e bastante original: “O meu ouvido não é penico”. Faltou apenas chupar o dente e cuspir no chão. Eu estou há horas tentando lembrar de outras trechos de diálogos de Paraíso tropical, mas minha memória não reteve nada. Posso garantir, porém, que eram do mesmo nível do que a frase do penico.
Quando vejo novela – qualquer uma -, eu tenho a nítida sensação de que o meu QI despenca vertiginosamente. Bons atores se tornam canastrões abomináveis. O sujeito que trabalhou a vida inteira com Antunes Filho tem uma performance igual à do Mário Gomes. Por causa da combinação de tramas pobres, atuações amadorísticas e diálogos constrangedores, eu me policio para não ver mais do que dez minutos de novela a cada três anos. Eu tenho medo de assistir a um capítulo inteiro e passar a gostar de pagode, o equivalente musical de novela

Não é brinquedo, não
No sábado, eu vi pela primeira vez um trecho de Paraíso tropical. Fujo de novela como Lula foge de livro, mas, como apareceu a Camila Pitanga enquanto eu mudava de canal, fiquei curioso para ver a atriz que “conquistou o Brasil” com a interpretação da prostituta Bebel. Assisti um trecho bem longo para meus padrões – uns cinco minutos, talvez dez. Camila Pitanga, eu não preciso dizer para vocês, é uma mulher bonita. A questão é que ela está numa novela brasileira. Bastou abrir a boca para que toda a beleza e sensualidade fossem para o vinagre. A sua Bebel é uma caricatura péssima. (Eu li que as prostitutas elogiam a atuação de Camila Pitanga. Não acredite. Elas podem entender de prostituição, mas fica claro que não entendem nada de acting).
A culpa, obviamente, não é toda de Camila Pitanga, ainda que ela não seja exatamente uma Sarah Bernhardt. O grande responsável, claro, é o autor da novela. Nada resiste ao poder de vulgarização de um Gilberto Braga ou de um Manoel Carlos. Diálogos de novela, como disse o Alexandre Soares Silva, “são um dos pontos mais baixos do espírito humano”. No trecho que eu vi, Bebel acabava uma discussão com o personagem interpretado por Wagner Moura com uma frase bonita - e bastante original: “O meu ouvido não é penico”. Faltou apenas chupar o dente e cuspir no chão. Eu estou há horas tentando lembrar de outras trechos de diálogos de Paraíso tropical, mas minha memória não reteve nada. Posso garantir, porém, que eram do mesmo nível do que a frase do penico.
Quando vejo novela – qualquer uma -, eu tenho a nítida sensação de que o meu QI despenca vertiginosamente. Bons atores se tornam canastrões abomináveis. O sujeito que trabalhou a vida inteira com Antunes Filho tem uma performance igual à do Mário Gomes. Por causa da combinação de tramas pobres, atuações amadorísticas e diálogos constrangedores, eu me policio para não ver mais do que dez minutos de novela a cada três anos. Eu tenho medo de assistir a um capítulo inteiro e passar a gostar de pagode, o equivalente musical de novela
julho 05, 2007
Olavismo, a doença infantil do direitismo
Eu tenho um sonho: que o Brasil tenha uma direita que não seja paranóica e delirante. Muito direitista brasileiro começa bem, mas, de repente, desanda: em vez de analisar a realidade com frieza, opta por teorias conspiratórias sem sentido. Toda ação do governo Lula passa a ser uma tentativa de cercear as liberdades e sufocar a oposição. Em vez de ser visto como o governo de um oportunista jeca, de um populista pragmático, a administração de quinta categoria do petista se transforma numa máquina ideológica cujo objetivo é transformar o Brasil numa Venezuela de dimensões continentais. Alguns petistas até gostariam que Lula enveredasse pelo caminho chavista, mas não há nenhuma possibilidade de isso ocorrer por aqui. É lugar comum, eu sei, mas as instituições democráticas por aqui estão bem mais maduras.
Se a direita não consegue entender a realidade e passa a criar teorias conspiratórias cada vez mais malucas, não haverá a menor possibilidade de derrotar a esquerda, seja nas urnas, seja na batalha de idéias. Escrevo este texto por causa deste post do Reinaldo Azevedo. Ele acha que o projeto da Anvisa de limitar a propaganda na televisão de alimentos considerados pouco saudáveis ao horário das 21h às 6h é uma tentativa de sufocar as emissoras privadas, principalmente a Globo. Seria um exemplo de bolivarianismo light do governo Lula. É isso aí. Olavo de Carvalho assinaria embaixo, não? As restrições me parecem de fato muito rígidas, mas ver no projeto uma estratégia para asfixiar a mídia independente é delírio. Acho mais provável que o negrinho do pastoreio tenha sido o autor intelectual do assassinato de John Kennedy.
Com essa direita, a esquerda brasileira pode rir à vontade. Quem não dorme à noite porque tem medo de que Lula esteja embaixo da cama é um adversário político irrelevante
Eu tenho um sonho: que o Brasil tenha uma direita que não seja paranóica e delirante. Muito direitista brasileiro começa bem, mas, de repente, desanda: em vez de analisar a realidade com frieza, opta por teorias conspiratórias sem sentido. Toda ação do governo Lula passa a ser uma tentativa de cercear as liberdades e sufocar a oposição. Em vez de ser visto como o governo de um oportunista jeca, de um populista pragmático, a administração de quinta categoria do petista se transforma numa máquina ideológica cujo objetivo é transformar o Brasil numa Venezuela de dimensões continentais. Alguns petistas até gostariam que Lula enveredasse pelo caminho chavista, mas não há nenhuma possibilidade de isso ocorrer por aqui. É lugar comum, eu sei, mas as instituições democráticas por aqui estão bem mais maduras.
Se a direita não consegue entender a realidade e passa a criar teorias conspiratórias cada vez mais malucas, não haverá a menor possibilidade de derrotar a esquerda, seja nas urnas, seja na batalha de idéias. Escrevo este texto por causa deste post do Reinaldo Azevedo. Ele acha que o projeto da Anvisa de limitar a propaganda na televisão de alimentos considerados pouco saudáveis ao horário das 21h às 6h é uma tentativa de sufocar as emissoras privadas, principalmente a Globo. Seria um exemplo de bolivarianismo light do governo Lula. É isso aí. Olavo de Carvalho assinaria embaixo, não? As restrições me parecem de fato muito rígidas, mas ver no projeto uma estratégia para asfixiar a mídia independente é delírio. Acho mais provável que o negrinho do pastoreio tenha sido o autor intelectual do assassinato de John Kennedy.
Com essa direita, a esquerda brasileira pode rir à vontade. Quem não dorme à noite porque tem medo de que Lula esteja embaixo da cama é um adversário político irrelevante
julho 02, 2007
Um outro mundo é possível

Ele também será vítima do fundamentalismo muçulmano
Os nossos amiguinhos muçulmanos são realmente divertidos. Num programa infantil de uma emissora de televisão ligada ao Hamas, Farfur, um ratinho sósia do Mickey, foi “assassinado” por um sujeito com roupas de militar israelense. Segundo a Folha Online, Farfur “fazia resistência a Israel e tecia comentários sobre os Estados Unidos. Ele também ensinava às crianças o respeito aos preceitos do Islã". Hollywood é sempre acusada de mostrar muçulmanos de modo caricatural, como vilões ignóbeis e mal encarados. É reconfortante saber que, no mundo islâmico, não há esse tipo de maniqueísmo.
Mas o que é realmente admirável é a sutileza dos muçulmanos, como notou o Arranhaponte numa conversa na sede da Torre de Marfim. No episódio em que o sósia do Mickey partiu desta para a melhor, “o militar tentava comprar as terras de Farfur. O ratinho reagiu e o chamou de ‘terrorista’". Foi o suficiente para que Farfur fosse "assassinado". O consolo é que ele deve ter encontrado 72 ratinhas virgens à sua espera no paraíso dos roedores muçulmanos. Os diretores da emissora disseram que Farfur foi morto para dar lugar a outros programas.
Acho que o ocidente deveria reagir na mesma moeda. A Disney poderia fazer um desenho mais ou menos nessa linha: Mickey e Minnie estão em casa, tomando café da manhã, como fazem os casais em propaganda de margarina. De repente, tudo vai pelos ares, com o amigo do Pateta morrendo num atentado suicida cometido por um gato muçulmano. Não ficaria bonitinho?

Ele também será vítima do fundamentalismo muçulmano
Os nossos amiguinhos muçulmanos são realmente divertidos. Num programa infantil de uma emissora de televisão ligada ao Hamas, Farfur, um ratinho sósia do Mickey, foi “assassinado” por um sujeito com roupas de militar israelense. Segundo a Folha Online, Farfur “fazia resistência a Israel e tecia comentários sobre os Estados Unidos. Ele também ensinava às crianças o respeito aos preceitos do Islã". Hollywood é sempre acusada de mostrar muçulmanos de modo caricatural, como vilões ignóbeis e mal encarados. É reconfortante saber que, no mundo islâmico, não há esse tipo de maniqueísmo.
Mas o que é realmente admirável é a sutileza dos muçulmanos, como notou o Arranhaponte numa conversa na sede da Torre de Marfim. No episódio em que o sósia do Mickey partiu desta para a melhor, “o militar tentava comprar as terras de Farfur. O ratinho reagiu e o chamou de ‘terrorista’". Foi o suficiente para que Farfur fosse "assassinado". O consolo é que ele deve ter encontrado 72 ratinhas virgens à sua espera no paraíso dos roedores muçulmanos. Os diretores da emissora disseram que Farfur foi morto para dar lugar a outros programas.
Acho que o ocidente deveria reagir na mesma moeda. A Disney poderia fazer um desenho mais ou menos nessa linha: Mickey e Minnie estão em casa, tomando café da manhã, como fazem os casais em propaganda de margarina. De repente, tudo vai pelos ares, com o amigo do Pateta morrendo num atentado suicida cometido por um gato muçulmano. Não ficaria bonitinho?



Os defensores do capitalismo (entre os quais me incluo) tendem a se tornar defensores do liberalismo porque o segundo é muito mais uma doutrina bem pensada do que o primeiro, que significa tão somente um bando de gente correndo atrás de dinheiro. Pausa. Pode parecer que liberalismo é que é um bando de gente em busca de dinheiro, mas a palavra contém muito mais do que apenas isso. Há o liberalismo político, e mesmo o liberalismo econômico pode ser identificado com a liberdade, algo que ninguém fora da franja lunática ou fundamentalista consegue atacar.
Então defendemos o liberalismo porque soa mais nobre do que defender o capitalismo (arre, eu sei que vocês defendem o liberalismo porque acreditam nele, mas deixa eu acabar o argumento). O problema é que o liberalismo é um negócio pequeno, ao contrário do capitalismo, que é grande. O público consumidor de ideologias age um pouco como o público adepto de times de futebol. Não se torce pelo time mais simpático (o América, no Rio – não sei o equivalente paulista), mas sim, entre os grandes e antipáticos (toda grandeza é antipática), por algum ao qual nos afiliamos sem saber bem o porquê.
Assim, no combate ideológico, talvez defender direta e desinibidamente o capitalismo seja uma tática melhor do que defender o liberalismo. O capitalismo é grande e forte para caralho, é um vencedor nato, tão antipático quanto o Roberto Justus mas indiscutivelmente o protagonista das titânicas batalhas finais da história hegeliana. O liberalismo é um bom moço que tenta conquistar adesões pelo bom-senso, inteligência e um discreto orgulho do passado mais racé. Agora me responde qual dos dois têm mais potencial de atrair as massas flamengo-corinthianas?
Enquanto o capitalismo chama o socialismo, o comunismo, os populismos – em suma, o esquerdismo – para a porrada em campo aberto, o liberalismo propõe uma entediante discussão sobre métodos e resultados de cada sistema.
O capitalismo venceu o comunismo. Isto é fato. Pode-se dizer que foi o capitalismo liberal de Reagan quem venceu, mas o substantivo vencedor continua sendo o capitalismo, e o liberal entra como um reles adjetivo.
Eu até me pergunto se a pecha de neoliberal que a esquerda emprega para combater seus adversários não é uma bem urdida estratégia do Foro de São Paulo, junto com os remanescentes da KGB, para dar ao inimigo um nome pedante e livresco que desperta subliminarmente o desprezo e a indiferença do povão.
Proponho desde já, portanto, a fundação do Partido Capitalista Nacional (não pode ser Brasileiro por causa da sigla), o PCN. Precisamos de um milhão de assinaturas, e os que quiserem contribuir por favor registrem-se na sessão de comentários abaixo.