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Abaixo a imparcialidade II

Depois de intensas deliberações do Conselho Executivo do Torre, foi decidido que o meu comentário em resposta ao ótimo comentário do Edson no post anterior seria readaptado como post. O Edson faz várias restrições inteligentes ao meu post abaixo,“Abaixo a imparcialidade” (não resisti ao ‘abaixo abaixo’), e em determinado momento pergunta “Você acha que nesse contexto uma marcação cerrada sobre as ações policiais é parte do ‘zeitgeist pró-marginália’?”. Neste post, eu respondo ao Edson. Para uma compreensão mais completa da polêmica, leia o post anterior e o comentário do Edson.

Segue a enxundiosa chorumela, que prossegue no ‘continue reading’ por questões estéticas:

Edson, acho que uma marcação cerrada sobre as ações policiais faz parte de uma sociedade democrática, mas no post anterior tentei exercer o papel de quem faz uma marcação cerrada sobre aqueles que fazem uma marcação cerrada sobre as ações policiais - o que também faz parte de uma sociedade democrática.

A polícia brasileira mata muito, sem dúvida. Mas os assassinos brasileiros também matam muito. Outro dia, verifiquei que, se o Brasil tivesse a mesma taxa de homicídios da Inglaterra, o número de assassinatos por ano cairia de algo como 50 mil para 3 mil - 47 mil vidas poupadas por ano (as cifras são aproximadas).

Você deve estar se perguntando o que este último ponto tem a ver com o seu ponto. O problema é que os assassinos brasileiros também matam muitos policiais. Se for feita uma comparação entre o número de policiais mortos em ação no Rio e o número de policiais mortos em ação nos Estados Unidos, tenho certeza de que a diferença será impressionante. Aliás, seria interessante se alguém tivesse saco para comparar a proporção entre policiais assassinados e bandidos mortos pela polícia, no Brasil e nos Estados Unidos. Quer dizer, a relação entre bandidos e policiais mortos no confronto entre os dois grupos. Será que a polícia brasileira mata muito mais por cada policial morto? Teria curiosidade em saber.

Mas o que eu quero dizer é que os confrontos entre polícia e bandidos no Brasil são muito mais violentos do que em outros países, o que pode explicar pelo menos parte (atenção, estou falando em parte) dos números enormes de pessoas mortas pela polícia no Brasil. Não estou justificando que a polícia se vingue dos seus mortos matando criminosos, mas apenas pensando que o clima deteriorado de ultra-violência que envolve os confrontos polícia-bandidos no Brasil de certa forma aumenta muito o número de mortos de ambos os lados, quando comparado com o que acontece em outros países.

Antes que digam que eu estou sendo contraditório (em relação ao meu post anterior), os policiais mortos tipicamente são policiais comuns assassinados em episódios como bandidos atirando em cabines de PM, ou em confrontos repentinos. Em ações de tropas de elite em favelas, o número de policiais mortos é muito baixo. Se não me engano, morreu apenas um policial do Bope (principal corpo de elite da polícia no Rio) nos últimos dois anos, apesar de dezenas de incursões nos morros.

Um último ponto. Não tenho como ter certeza, e acho normal que as ONGs questionem ao máximo se os mortos do Alemão eram de fato criminosos que resistiam a tiros à ação da polícia. Mas a minha impressão é de que eles eram isso mesmo. Esta impressão provém de um monte de detalhes e sinais sobre os quais eu pude refletir, acompanhando o noticiário sobre a operação e me informando por outros meios. Não vou me estender, mas falar sobre apenas um deles.

Você notou que nesta e em outras operações do mesmo tipo, 99% dos mortos são adolescentes ou jovens do sexo masculino? Bem, se a polícia entrasse atirando a esmo no que se mexesse à frente, sem que a população inocente tivesse meios nem tempo de sair da frente, uma dedução lógica é de que os mortos seriam uma amostra aproximada da população da favela: haveria velhos, crianças, mulheres, etc.

Bem, aí alguém pode dizer: mas é claro que os velhos, crianças e mulheres saem fora. Ao que eu retrucaria: se velhos, crianças e mulheres conseguem sair fora, por que jovens do sexo masculino que nada têm a ver com o tráfico também não conseguem sair? Teoricamente, jovens do sexo masculino seriam até mais ágeis e rápidos para fugir do que velhos, crianças e mulheres.

A conclusão simples é de que os jovens e adolescentes do sexo masculino que estavam no caminho da ação policial foram aqueles que optaram por lá ficar, porque participavam ativamente do tráfico ou no mínimo tinham ligações. E se eles resistem a tiros à ação da polícia, tentando matar os agentes da lei que vão lá para prendê-los, é muito provável que eles morram à bala - o negócio não funciona assim só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, na Suécia, em qualquer lugar. Experimente apontar uma arma para um policial super bem treinado de qualquer país rico.

Agora, as ressalvas à – digamos – direção geral dos meus próprios argumentos:

1) Se eu estiver certo, 99% dos que morrem são de fato ligados ao crime, mas 1% não é - aqui entram a mulher, a criança, o velho e o homem jovem inocente, que morrem de balas perdidas no tiroteio entre traficantes e policiais. Ao contrário do que diz a "comunidade" (isto é, aqueles carinhas que falam para os repórteres o que o traficante quer que eles falem, pois se eles falassem o contrário morreriam em meio a bárbaras torturas), é muito mais provável que a bala perdida tenha partido dos traficantes, que atiram pior e estão se lixando 100% para a vida dos inocentes. Ainda assim, a causa última da morte é a ação policial. Neste ponto, estou com o governador Sérgio Cabral. A palavra é horrível, mas são danos colaterais, que terão que existir na guerra contra o crime no Rio, mas que devem ser minimizados obsessivamente (e é provável que o esforço para minimizar isto ainda esteja aquém do que eu gostaria que fosse).

2) O fato de que praticamente todos os que morreram no Alemão e em ações semelhantes, se eu estiver certo, eram criminosos resistindo a bala à ação da polícia não quer dizer que necessariamente não tenha havido execuções. É possível que, durante o confronto, depois de dominar alguns dos bandidos, a polícia os execute. Conhecendo a mentalidade da polícia, eu não descarto esta hipótese (de jeito nenhum). Acho que o governo deve fazer todo o esforço possível para impedir que isto ocorra, e, quando tiver ocorrido comprovadamente, puna quem agiu assim da forma mais dura possível (quem me conhece sabe que eu sou a favor da dureza ampla, geral e irrestrita das punições no Brasil). Agora, as "provas" que as ONGs e quejandos apresentaram até agora de que houve execuções no Alemão não me parecem provar porra nenhuma. Mas acho correto que isto seja um ponto de obsessiva preocupação e cobrança.

Feito o argumento e as ‘auto-ressalvas’, concluo que as ações policiais como a do Alemão têm de continuar, e que está certa a postura do governo do Rio de não aceitar mais que criminosos tenham base territorial onde o poder repressor do Estado não entra (o resto do Estado entra - os moradores do Alemão têm acesso a escola, saúde, água e saneamento aproximadamente no nível de qualidade e nas proporções que o resto da população brasileira de mesmo nível sócio-econômico tem. Por questões de engenharia, pode ser um pouco abaixo da média no saneamento, e a qualidade daqueles serviços em geral é ruim, assim como a proporção é insuficiente, porque o Estado brasileiro é uma merda. Mas dizer que o Estado só entra no Alemão na forma de policiais atirando é outra cascata de certa esquerda, que não cola mais).



F. Arranhaponte at 07:55 PM | Comentários (9)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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