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O velhinho ataca outra vez

Oscar Niemeyer. Eu sou obcecado por Oscar Niemeyer. Eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. Eu gosto de escrever Oscar Niemeyer. O nome é sonoro. Com 100 anos, o velhinho stalinista segue hiperativo. A Folha adora publicar seus artigos. No domingo, publicou mais um (para quem quiser, eu coloquei a íntegra no continue reading). Em geral, os textos são curtos, formados por parágrafos pequenos e desconexos. O do domingo era mais longo, mas também era formado parágrafos pequenos e desconexos. Eu devo ter sido um dos únicos que o leram até o fim. A vantagem é que eu fui recompensado. O destaque são os três últimos parágrafos.

Depois de esclarecer que considera a presença de Lula no governo da “maior importância” e ressaltar que o cenário internacional passa por um momento difícil - o “império de Bush", afinal, ameaça o mundo inteiro -, Niemeyer mostra todo o seu senso de proporção e seu humanismo: “Internamente, um ambiente estranho começa a nos inquietar: é uma onda irrefreável de denúncias, gravações de conversas telefônicas, gente sendo presa sem provas; cria-se o terror, como nos velhos tempos de Beria na antiga União Soviética ou no período do macartismo nos Estados Unidos”.

Veja do que é capaz a mente de Niemeyer: ele acha possível comparar o momento brasileiro atual com o terror stalinista. O esquerdista coerente vê semelhanças entre eventuais exageros cometidos numa democracia e o clima de uma ditadura genocida. Assim fica fácil entender por que o sujeito continua stalinista. A comparação do clima de terror soviético com o macartismo também não faz nenhum sentido. O macartismo foi obviamente um período vergonhoso e injustificável da história dos EUA, mas é claro que não há como igualá-los aos crimes cometidos por Stálin.

Uma possível interpretação é que Niemeyer escreve essas bobagens porque está senil. Mas não é verdade. Basta ver suas entrevistas: ele continua lúcido. Parece um sujeito divertido. Quando fala de política, porém, mostra a face totalitária e nojenta de quem vê qualidades numa ditadura assassina

Entrevistas

Oscar Niemeyer

ULTIMAMENTE , minhas manhãs são ocupadas por entrevistas e encontros. Jornais e revistas nacionais e estrangeiros, pessoas interessadas em saber o que penso da arquitetura e da própria vida.
Sobre a arquitetura, me restrinjo a explicar que, hoje, o concreto armado tudo permite aos arquitetos, que arquitetura é invenção e que a minha preocupação principal é utilizar a técnica em toda a sua plenitude, buscando dar aos meus projetos a surpresa, o espanto que uma obra de arte requer.
E esclareço aos que me entrevistam que, quando o tema permite, começo reduzindo os apoios, e a arquitetura se faz mais audaciosa, e as coberturas, maiores, se adaptando às formas diferentes que a imaginação vai criar.
A entrevista prossegue, eu procurando encurtar os assuntos da arquitetura, mas não raro surge uma pergunta que requer uma explicação. Numa das entrevistas recentes, indagaram: "Que relação tem Le Corbusier com o projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde?". Um projeto feito por uma equipe chefiada por Lucio Costa, tendo por base um projeto do velho mestre.
E, como de costume, me limitei a dizer que se tratava de um projeto de Le Corbusier. Uma preocupação permanente que temos em preservar a autoria de qualquer projeto arquitetônico -coisa antiga que, já no passado, Michelangelo revelava, ao se recusar a interferir no projeto original de Bramante para a basílica de São Pedro em Roma.
Mas, no caso do projeto elaborado pela comissão chefiada por Lucio Costa, é diferente, tantas foram as modificações feitas no segundo estudo apresentado por Le Corbusier.
A própria localização do prédio no terreno foi alterada: em vez de mantê-lo, como constava do projeto do velho mestre, grudado à rua, defronte do Ministério do Trabalho, com a fachada norte prejudicada (praticamente escondida), resolvemos colocar o edifício no meio do terreno, dividindo em duas a praça existente. Em razão dessa solução, surgiram os pilotis e a ligação tão bonita entre eles.
E nos ocorreu a solução diferente dada ao bloco destinado a exposições e auditório, solto, independente do edifício, como antes não ocorria.
Depois, a simplificação das fachadas do edifício. A fachada sul construída toda de vidro, sem as interrupções nas áreas correspondentes aos sanitários, antes previstas. Na outra, foi adotado o sistema de brise-soleil por Le Corbusier preconizado, com a diferença de que as placas horizontais não são fixas, em concreto, como o velho mestre usava, mas móveis, regulando a proteção solar -um sistema de placas móveis antes empregado pelos irmãos Roberto. Um detalhe que evoluiu naturalmente ao passar do tempo. Podia ter lembrado que, na mesma época, no Rio, outros edifícios de igual espírito arquitetônico estavam sendo criados, como o prédio da ABI, o aeroporto Santos Dumont etc.
Essa era a explicação que, como membro daquela comissão, eu deveria ter fornecido ao meu entrevistador. Afinal, é generosidade demais considerar o prédio do Ministério da Educação e Saúde uma simples variação de um projeto já elaborado diante da explicação que acabo de dar.
Nessas entrevistas, procuro limitar um pouco os assuntos da arquitetura -um trabalho, a meu ver, muito pessoal, em que o arquiteto deve fazer o que gosta, e não aquilo que os outros gostariam que ele fizesse.
E a conversa prossegue, os jornalistas perguntando sobre meus últimos trabalhos, o que estou fazendo no exterior, qual o projeto que mais me agrada entre os já realizados.
Para atendê-los, lembro às vezes o projeto da sede da editora Mondadori, em Milão (Itália), em que a surpresa arquitetural surge logo ao visitante que chega -a grande colunata com espaços diferentes, num ritmo musical que até hoje não se viu em outro edifício-, ou a Universidade de Constantine, na Argélia, em que, estando com o nosso amigo Darcy Ribeiro, que lá nos acompanhava, preocupado com que o projeto em elaboração garantisse o contato mais íntimo entre os estudantes, adotei a sua idéia, criando uma universidade completamente diferente. Lembro do entusiasmo com que Darcy, Luís Hildebrando Pereira da Silva, Heron de Alencar e Ubirajara Brito, exilados na Europa, vieram à Argélia para comigo colaborar.
Ah, como até no exterior a arquitetura muitas vezes sofre alterações! É a notícia que recebo de Constantine, surpreso ao saber que uma grande placa de vidro foi colocada, fechando o recreio em pilotis que desenhei -o que contrasta com o que se verificou com a sede do Partido Comunista Francês.



Marcos Matamoros at 12:36 PM | Comentários (6)

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* Marcos Matamoros
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