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agosto 31, 2007
Pule se você não agüenta mais ouvir falar em Vale
Memórias do subdesenvolvimento
É impressionante a capacidade de parte da esquerda brasileira de atrasar a vida política e econômica do país. Temas como a reestatização da Vale ou a construção do socialismo continuam na pauta. Não, não temo que o governo Lula exproprie a Vale ou que o Brasil se torne um país socialista. As idéias são tão delirantes e contraproducentes que não existe a mínima possibilidade de vingarem. Lula e os petistas são acima de tudo pragmáticos. O Foro de São Paulo não me assusta. Isso é coisa para olavistas.
A questão é que, se o país não anda para trás a ponto de reestatizar empresas que foram privatizadas, tampouco avança na direção de um Estado menor e mais eficiente. O governo trata de aumentá-lo, seja por meio da contratação de mais e mais funcionários públicos, seja por meio de ações como a entrada mais forte da Petrobras no setor petroquímico. A crença num Estado grande e gastador continua firme. Não há vestígio de empenho do governo em reduzir o ritmo de crescimento dos gastos correntes ou de promover reformas que permitam a redução estrutural dessas despesas, como a da Previdência. Um bando de sujeitos que não conseguiriam gerir uma quitanda acredita que pode definir planos estratégicos para todos os setores da economia.
É como se houvesse uma troca: o governo do PT não toma medidas ridículas como reestatizar uma empresa privatizada de sucesso, mas também não se esforça um milímetro na direção de diminuir o tamanho do Estado - pelo contrário. Márcio Pochmann sintetizou o ideário petista sobre o assunto ao dizer que o Estado brasileiro é raquítico. Ele se refere a um país em que as despesas do governo federal cresceram a uma média anual de 10% acima da inflação nos últimos quatro anos e tem uma carga tributária absurdamente elevada.
Mas o que esperar do governo de um partido em que muita gente ainda discute a sério o socialismo? Não faz parte da estratégia dos petistas que de fato comandam o país tornar o Brasil uma república socialista, mas há muita gente, mesmo nessa parcela pragmática do PT, que aceita o capitalismo a contragosto. Os sujeitos acreditam numa bobagem como o socialismo democrático. Nesse cenário, quem defende a economia de mercado tem que mostrar didaticamente por que é uma idéia debilóide reestatizar a Vale, ou por que o capitalismo é um sistema melhor do que o socialismo. Em vez de se pensar em como modernizar o capitalismo por aqui, a discussão está algumas décadas atrasada. O negócio é tão surreal que, quando não ocorre uma cagada como o calote da dívida ou a reestatização da Vale, parece que o país é super-avançado
É impressionante a capacidade de parte da esquerda brasileira de atrasar a vida política e econômica do país. Temas como a reestatização da Vale ou a construção do socialismo continuam na pauta. Não, não temo que o governo Lula exproprie a Vale ou que o Brasil se torne um país socialista. As idéias são tão delirantes e contraproducentes que não existe a mínima possibilidade de vingarem. Lula e os petistas são acima de tudo pragmáticos. O Foro de São Paulo não me assusta. Isso é coisa para olavistas.
A questão é que, se o país não anda para trás a ponto de reestatizar empresas que foram privatizadas, tampouco avança na direção de um Estado menor e mais eficiente. O governo trata de aumentá-lo, seja por meio da contratação de mais e mais funcionários públicos, seja por meio de ações como a entrada mais forte da Petrobras no setor petroquímico. A crença num Estado grande e gastador continua firme. Não há vestígio de empenho do governo em reduzir o ritmo de crescimento dos gastos correntes ou de promover reformas que permitam a redução estrutural dessas despesas, como a da Previdência. Um bando de sujeitos que não conseguiriam gerir uma quitanda acredita que pode definir planos estratégicos para todos os setores da economia.
É como se houvesse uma troca: o governo do PT não toma medidas ridículas como reestatizar uma empresa privatizada de sucesso, mas também não se esforça um milímetro na direção de diminuir o tamanho do Estado - pelo contrário. Márcio Pochmann sintetizou o ideário petista sobre o assunto ao dizer que o Estado brasileiro é raquítico. Ele se refere a um país em que as despesas do governo federal cresceram a uma média anual de 10% acima da inflação nos últimos quatro anos e tem uma carga tributária absurdamente elevada.
Mas o que esperar do governo de um partido em que muita gente ainda discute a sério o socialismo? Não faz parte da estratégia dos petistas que de fato comandam o país tornar o Brasil uma república socialista, mas há muita gente, mesmo nessa parcela pragmática do PT, que aceita o capitalismo a contragosto. Os sujeitos acreditam numa bobagem como o socialismo democrático. Nesse cenário, quem defende a economia de mercado tem que mostrar didaticamente por que é uma idéia debilóide reestatizar a Vale, ou por que o capitalismo é um sistema melhor do que o socialismo. Em vez de se pensar em como modernizar o capitalismo por aqui, a discussão está algumas décadas atrasada. O negócio é tão surreal que, quando não ocorre uma cagada como o calote da dívida ou a reestatização da Vale, parece que o país é super-avançado
agosto 30, 2007
Anti-popperianos
Alon para presidente da Vale
Se o arquiteto Conde virou presidente da Furnas Centrais Elétricas, por que o jornalista Alon Feuerwerker não pode ser presidente da Vale reestatizada? Experiência no setor público ele tem, como Subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República de 2004 e 2005.
Deve ser muito duro mesmo para a esquerda petista ver todos aqueles cargões de diretoria da Vale, ali pertinho, tantalizantes, nos quais os cumpanhêros já estariam todos empoleirados se não fosse a maldita privatização do FH.
Pra não falar no caixa. Pra não falar no fundo de pensão
Se o arquiteto Conde virou presidente da Furnas Centrais Elétricas, por que o jornalista Alon Feuerwerker não pode ser presidente da Vale reestatizada? Experiência no setor público ele tem, como Subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República de 2004 e 2005.
Deve ser muito duro mesmo para a esquerda petista ver todos aqueles cargões de diretoria da Vale, ali pertinho, tantalizantes, nos quais os cumpanhêros já estariam todos empoleirados se não fosse a maldita privatização do FH.
Pra não falar no caixa. Pra não falar no fundo de pensão
agosto 29, 2007
Tragam-me outros fatos que estes não servem II
Eu não li o livro de Alberto Carlos Almeida, não li a reportagem da Veja sobre ele e nem assisti ao Roda Viva, mas, exercendo meu direito de ser leviano, vou me meter na discussão. Eu também acho que uma população com mais escolaridade tenderá a ser mais preocupada com valores éticos e democráticos, embora eu acredite que o Alon tem um ponto quando diz, neste post sobre o livro, que há uma diferença entre os que as pessoas acham e o que as pessoas dizem que acham. Ele entra depois num papo furado marxista sobre ideologia, mas acho razoável supor que uma parte dos que têm maior escolaridade tenha dado as “respostas certas” sobre assuntos como corrupção e democracia porque sabe qual é a opinião politicamente correta sobre eles – o difícil é saber se essa parcela é a maioria. Mas, de resto, o Alon me parece muito equivocado.
O que me chama a atenção depois que o PT assumiu o poder é a mudança de discurso da esquerda em relação à questão do nível de escolarização e de renda. Por muito tempo, uma grande parte dos eleitores do PT se encontrava justamente na elite intelectualizada, na classe média com formação superior. O povão não votava no PT, como ficou claro em várias eleições que o partido perdeu. É constrangedoramente óbvio escrever isso, mas Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso não teriam sido eleitos se os mais pobres tivessem votado maciçamente em Lula. Não foi apenas a classe média malufista que os elegeu.
Nos grotões do Nordeste, por exemplo, o PT não tinha penetração eleitoral, e a massa votava basicamente em coronéis como Antônio Carlos Magalhães ou Miguel Arraes – de esquerda, mas coronel. Para grande parte da militância petista, esses votos eram fruto da ignorância dos menos escolarizados, que votavam nos políticos tradicionais em troca de migalhas. Eu perdi a conta de quantas vezes ouvi petistas atribuindo derrotas eleitorais ao fato de que a maior parte da população era pouco escolarizada. Os mais adeptos de teorias da conspiração adoravam usar o argumento de que a educação no Brasil nunca seria prioridade, porque a ignorância das classes pobres era a garantia de que os políticos tradicionais se manteriam no poder por muito tempo.
Depois de 2002, porém, esse discurso mudou. Lula conseguiu se eleger com apoio decisivo de parte desse mesmo povo iletrado, que por muitos anos não votava no PT nem amarrado – a moderação do discurso petista, a transformação de Lula num sujeito menos radical e o desempenho ruim da economia no fim do governo Fernando Henrique acabaram abrindo espaço para a vitória do Guia Genial. Quatro anos depois, com uma política baseada em aumentos elevados do salário mínimo e o Bolsa Família, o apoio dos mais pobres foi ainda mais importante na reeleição. O nível de escolaridade, então, passou a deixar de ser um grandes obstáculos à ascensão do PT, já que os menos escolarizados, que são também os mais pobres, passaram a votar maciçamente no PT. A educação deixou de ser uma das bandeiras principais do partido e do governo.
Se eu fosse adepto de teorias conspiratórias, diria que o partido não se esforça para melhorar de fato a educação porque isso contraria seus interesses eleitorais. Mas eu não acredito nisso. A resposta é mais simples e mais óbvia. Boa parte da esquerda simplesmente não tem convicção no poder de transformação da educação. Do ponto de vista eleitoral, concluiu que é mais negócio insistir na divisão povo bonzinho e coitado X elite má e cruel
Eu não li o livro de Alberto Carlos Almeida, não li a reportagem da Veja sobre ele e nem assisti ao Roda Viva, mas, exercendo meu direito de ser leviano, vou me meter na discussão. Eu também acho que uma população com mais escolaridade tenderá a ser mais preocupada com valores éticos e democráticos, embora eu acredite que o Alon tem um ponto quando diz, neste post sobre o livro, que há uma diferença entre os que as pessoas acham e o que as pessoas dizem que acham. Ele entra depois num papo furado marxista sobre ideologia, mas acho razoável supor que uma parte dos que têm maior escolaridade tenha dado as “respostas certas” sobre assuntos como corrupção e democracia porque sabe qual é a opinião politicamente correta sobre eles – o difícil é saber se essa parcela é a maioria. Mas, de resto, o Alon me parece muito equivocado.
O que me chama a atenção depois que o PT assumiu o poder é a mudança de discurso da esquerda em relação à questão do nível de escolarização e de renda. Por muito tempo, uma grande parte dos eleitores do PT se encontrava justamente na elite intelectualizada, na classe média com formação superior. O povão não votava no PT, como ficou claro em várias eleições que o partido perdeu. É constrangedoramente óbvio escrever isso, mas Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso não teriam sido eleitos se os mais pobres tivessem votado maciçamente em Lula. Não foi apenas a classe média malufista que os elegeu.
Nos grotões do Nordeste, por exemplo, o PT não tinha penetração eleitoral, e a massa votava basicamente em coronéis como Antônio Carlos Magalhães ou Miguel Arraes – de esquerda, mas coronel. Para grande parte da militância petista, esses votos eram fruto da ignorância dos menos escolarizados, que votavam nos políticos tradicionais em troca de migalhas. Eu perdi a conta de quantas vezes ouvi petistas atribuindo derrotas eleitorais ao fato de que a maior parte da população era pouco escolarizada. Os mais adeptos de teorias da conspiração adoravam usar o argumento de que a educação no Brasil nunca seria prioridade, porque a ignorância das classes pobres era a garantia de que os políticos tradicionais se manteriam no poder por muito tempo.
Depois de 2002, porém, esse discurso mudou. Lula conseguiu se eleger com apoio decisivo de parte desse mesmo povo iletrado, que por muitos anos não votava no PT nem amarrado – a moderação do discurso petista, a transformação de Lula num sujeito menos radical e o desempenho ruim da economia no fim do governo Fernando Henrique acabaram abrindo espaço para a vitória do Guia Genial. Quatro anos depois, com uma política baseada em aumentos elevados do salário mínimo e o Bolsa Família, o apoio dos mais pobres foi ainda mais importante na reeleição. O nível de escolaridade, então, passou a deixar de ser um grandes obstáculos à ascensão do PT, já que os menos escolarizados, que são também os mais pobres, passaram a votar maciçamente no PT. A educação deixou de ser uma das bandeiras principais do partido e do governo.
Se eu fosse adepto de teorias conspiratórias, diria que o partido não se esforça para melhorar de fato a educação porque isso contraria seus interesses eleitorais. Mas eu não acredito nisso. A resposta é mais simples e mais óbvia. Boa parte da esquerda simplesmente não tem convicção no poder de transformação da educação. Do ponto de vista eleitoral, concluiu que é mais negócio insistir na divisão povo bonzinho e coitado X elite má e cruel
Tragam-me outros fatos que estes não servem
Eu não li o livro A Cabeça do Brasileiro do sociólogo Alberto Carlos Almeida, mas sei alguma coisa do conteúdo pelo que já saiu na imprensa. E estou realmente abismado de ver como a informação de que a educação melhora a cidadania caiu como uma bomba atômica sobre a nossa intelligentsia.
Em uma típica reação de esquerda (e eu posso chamá-lo de esquerda porque é assim que ele se auto-intitula), o Alon tenta desqualificar o fato (o resultado da pesquisa indica que as pessoas mais educadas demonstram verbalmente mais aversão à corrupção e mais apreço à democracia do que as menos educadas) acenando com o que considera que seriam as conseqüências deste fato (a Justiça teria de considerar falta de educação como atenuante de crimes). Alon, conseqüências supostamente funestas não têm o poder de anular os fatos.
Em outra típica reação de esquerda, o Alon tenta misturar os fatos (aqueles já descritos) com a interpretação a eles dada pelo autor, de que os mais educados seriam a parte moderna do País, e os menos educados a arcaica. Ora, a interpretação do autor pode estar errada, mas ainda assim fatos são fatos. Montou-se uma amostra. Perguntas foram feitas. Respostas foram obtidas e tabuladas. E o resultado é aquele: quando indagados, os mais educados mostram-se mais hostis à corrupção e receptivos às idéias democráticas do que os menos educados. (ponto)
(parágrafo)
Os resultados de pesquisas empíricas em ciência social são mais tênues do que os resultados de experimentos em física ou química. É possível que, em outras circunstâncias, e com metodologia diferente, outros estudos cheguem a conclusões diferentes. Mas o que importa agora (porque é o que temos à nossa frente agora) é que a pesquisa do Alberto Carlos Almeida reforçou uma visão que, no final das contas, é tremendamente óbvia. Afinal, a gente não quer melhorar a educação para melhorar o País?
Eu prevejo que o próximo espetáculo bizarro a ser proporcionado pelo bloqueio cognitivo da nossa intelligentsia (que passou décadas cultivando preconceitos e estereótipos do que de pior há no pensamento de esquerda, sem nunca se preocupar em ir a campo e dar uma olhada nos dados empíricos) é quando surgir uma pesquisa bem feita mostrando que punição reduz o crime (um ponto, justiça seja feita, que o Alon endossa ardorosamente).
Aí o autor do estudo nem poderá ir ao Roda-Viva, sob risco de ser apedrejado (o Alon poderia voltar lá para defendê-lo)
PS: O Lula foi maciçamente votado pelos menos educados no ano seguinte ao mensalão. A pesquisa do Alberto Carlos Almeida mostra que os pobres toleram mais a corrupção dos governantes. Lé e cré em perfeita comunhão e provocando, como de costume, espanto e fúria na esquerda
Eu não li o livro A Cabeça do Brasileiro do sociólogo Alberto Carlos Almeida, mas sei alguma coisa do conteúdo pelo que já saiu na imprensa. E estou realmente abismado de ver como a informação de que a educação melhora a cidadania caiu como uma bomba atômica sobre a nossa intelligentsia.
Em uma típica reação de esquerda (e eu posso chamá-lo de esquerda porque é assim que ele se auto-intitula), o Alon tenta desqualificar o fato (o resultado da pesquisa indica que as pessoas mais educadas demonstram verbalmente mais aversão à corrupção e mais apreço à democracia do que as menos educadas) acenando com o que considera que seriam as conseqüências deste fato (a Justiça teria de considerar falta de educação como atenuante de crimes). Alon, conseqüências supostamente funestas não têm o poder de anular os fatos.
Em outra típica reação de esquerda, o Alon tenta misturar os fatos (aqueles já descritos) com a interpretação a eles dada pelo autor, de que os mais educados seriam a parte moderna do País, e os menos educados a arcaica. Ora, a interpretação do autor pode estar errada, mas ainda assim fatos são fatos. Montou-se uma amostra. Perguntas foram feitas. Respostas foram obtidas e tabuladas. E o resultado é aquele: quando indagados, os mais educados mostram-se mais hostis à corrupção e receptivos às idéias democráticas do que os menos educados. (ponto)
(parágrafo)
Os resultados de pesquisas empíricas em ciência social são mais tênues do que os resultados de experimentos em física ou química. É possível que, em outras circunstâncias, e com metodologia diferente, outros estudos cheguem a conclusões diferentes. Mas o que importa agora (porque é o que temos à nossa frente agora) é que a pesquisa do Alberto Carlos Almeida reforçou uma visão que, no final das contas, é tremendamente óbvia. Afinal, a gente não quer melhorar a educação para melhorar o País?
Eu prevejo que o próximo espetáculo bizarro a ser proporcionado pelo bloqueio cognitivo da nossa intelligentsia (que passou décadas cultivando preconceitos e estereótipos do que de pior há no pensamento de esquerda, sem nunca se preocupar em ir a campo e dar uma olhada nos dados empíricos) é quando surgir uma pesquisa bem feita mostrando que punição reduz o crime (um ponto, justiça seja feita, que o Alon endossa ardorosamente).
Aí o autor do estudo nem poderá ir ao Roda-Viva, sob risco de ser apedrejado (o Alon poderia voltar lá para defendê-lo)
PS: O Lula foi maciçamente votado pelos menos educados no ano seguinte ao mensalão. A pesquisa do Alberto Carlos Almeida mostra que os pobres toleram mais a corrupção dos governantes. Lé e cré em perfeita comunhão e provocando, como de costume, espanto e fúria na esquerda
agosto 27, 2007
Nasce mais uma estrela

O Gilberto Braga da literatura brasileira
Tales Ab’ Saber é um dos novos intelectuais brasileiros de plantão. O sujeito está na Folha quase toda semana. Pelo que eu percebo, Ab’ Saber fala sobre qualquer coisa, de unha encravada ao neoconservadorismo da era Bush. Eu ia escrever um post sobre ele há duas semanas, quando o Mais! publicou uma entrevista a respeito do documentário que ele e Rubens Rewald fizeram sobre Telê Santana. O cabra é bom. Ele me lembrou alguns professores da ECA que só falavam merda, vomitando lugares comuns com a convicção de que eram geniais.
Dou alguns exemplos. Ao ser perguntado se o futebol é um esporte homofóbico, o psicanalista Ab’ Saber diz: “Do mesmo modo que o esporte é sublimação da agressividade humana direta na esfera da linguagem do corpo - e o futebol contém em si, transmutada como um objeto-sonho, a história da batalha épica e da vitória difícil e desejada na guerra-, me parece evidente que o futebol é também um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano. (...) Como o futebol pode degenerar rapidamente em pancadaria - porque em sua origem ele é violência transformada em jogo, civilização -, ele também tem que expulsar constantemente o homossexual de si, porque ele é o amor dos homens pelos homens, transformado em jogo e em razão eficaz e estética na forma do gol”.
Quer dizer que o o futebol “é o amor dos homens pelos homens”, “um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano”? Um jogo, meu caro Ab’ Saber, é muitas vezes apenas um jogo. A viadagem me parece estar nos olhos de quem vê.
Outro trecho brilhante, mas cuja genialidade se deve em grande parte ao entrevistador, é o seguinte:
FOLHA - Por que, em contraste com os campeonatos de futebol masculinos, o futebol feminino no Brasil é, institucionalmente, um fracasso, mesmo a seleção nacional sendo uma das melhores do mundo. Você acha que, devido ao erro que cometeu, a bandeirinha Ana Paula Oliveira tenha sido "empurrada" para as funções a que o imaginário coletivo associa à imagem da mulher, ao aceitar posar nua para uma revista masculina?
AB' SABER - Acho que é isso. De boa fé, Ana Paula desejou ser uma mulher no forte mundo homoerótico dos homens. Ela não era homossexual, não desejava ser homem. Quando entrava em campo, como mulher, para fazer a função abstrata do trabalho de auxiliar, punha em risco a estrutura do pacto inconsciente do grande grupo dos homens -que amam um Pelé, que amam um Raí e um Romário, entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória. O grande grupo masculino só podia concebê-la como mulher no lugar em que ela terminou [na capa da revista "Playboy"], no lugar social objetificado das mulheres. O futebol segue não-contaminado, as mulheres seguem controladas. Creio que esse é também o problema do lugar difícil do futebol feminino entre nós.
Como se vê, é só merda. Para Ab’ Saber, Pelé, Raí e Romário não são craques, mas “entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória”. Ana Paula Oliveira posou nua não porque resolveu ganhar uma grana mostrando a xereca, mas porque os homens que gostam de futebol só podiam concebê-la no “lugar social objetificado das mulheres”.
Mas Ab’ Saber joga nas 11. Ontem, ele apareceu na Ilustrada falando sobre Gilberto Braga, o autor de Paraíso Tropical, uma das piores novelas de todos os tempos. Ab’ Saber afirma que “Braga é o ‘grande inventor moderno’ da novela, levando-o ‘até o limite extremo da sua forma’” – na cabeça do sujeito, provavelmente uma espécie de James Joyce. Mostrando que tem senso de proporção, ele compara “o salto qualitativo atingido pelo autor em Vale Tudo com o nível atingido por Machado de Assis em suas obras de maturidade”.E ele vai além: "Não foi por acaso, portanto, que ele deu o seu próprio salto mortal, como ocorreu com Machado de Assis cem anos antes no registro da alta literatura". Segundo ele, em "Vale Tudo", Gilberto Braga "passa a olhar o Brasil do ponto de vista radical de uma elite beneficiária da vida nacional estagnada, que opera com liberdade cínica e violência sistemática a sua relação com uma classe média ambígua ao extremo em relação à ordem de exploração e ao descompromisso do grande dinheiro por aqui".
É isso aí. O sujeito acha que dá para comparar Gilberto Braga e Machado de Assis. Quem disse que não há vida intelectual no Brasil?

O Gilberto Braga da literatura brasileira
Tales Ab’ Saber é um dos novos intelectuais brasileiros de plantão. O sujeito está na Folha quase toda semana. Pelo que eu percebo, Ab’ Saber fala sobre qualquer coisa, de unha encravada ao neoconservadorismo da era Bush. Eu ia escrever um post sobre ele há duas semanas, quando o Mais! publicou uma entrevista a respeito do documentário que ele e Rubens Rewald fizeram sobre Telê Santana. O cabra é bom. Ele me lembrou alguns professores da ECA que só falavam merda, vomitando lugares comuns com a convicção de que eram geniais.
Dou alguns exemplos. Ao ser perguntado se o futebol é um esporte homofóbico, o psicanalista Ab’ Saber diz: “Do mesmo modo que o esporte é sublimação da agressividade humana direta na esfera da linguagem do corpo - e o futebol contém em si, transmutada como um objeto-sonho, a história da batalha épica e da vitória difícil e desejada na guerra-, me parece evidente que o futebol é também um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano. (...) Como o futebol pode degenerar rapidamente em pancadaria - porque em sua origem ele é violência transformada em jogo, civilização -, ele também tem que expulsar constantemente o homossexual de si, porque ele é o amor dos homens pelos homens, transformado em jogo e em razão eficaz e estética na forma do gol”.
Quer dizer que o o futebol “é o amor dos homens pelos homens”, “um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano”? Um jogo, meu caro Ab’ Saber, é muitas vezes apenas um jogo. A viadagem me parece estar nos olhos de quem vê.
Outro trecho brilhante, mas cuja genialidade se deve em grande parte ao entrevistador, é o seguinte:
FOLHA - Por que, em contraste com os campeonatos de futebol masculinos, o futebol feminino no Brasil é, institucionalmente, um fracasso, mesmo a seleção nacional sendo uma das melhores do mundo. Você acha que, devido ao erro que cometeu, a bandeirinha Ana Paula Oliveira tenha sido "empurrada" para as funções a que o imaginário coletivo associa à imagem da mulher, ao aceitar posar nua para uma revista masculina?
AB' SABER - Acho que é isso. De boa fé, Ana Paula desejou ser uma mulher no forte mundo homoerótico dos homens. Ela não era homossexual, não desejava ser homem. Quando entrava em campo, como mulher, para fazer a função abstrata do trabalho de auxiliar, punha em risco a estrutura do pacto inconsciente do grande grupo dos homens -que amam um Pelé, que amam um Raí e um Romário, entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória. O grande grupo masculino só podia concebê-la como mulher no lugar em que ela terminou [na capa da revista "Playboy"], no lugar social objetificado das mulheres. O futebol segue não-contaminado, as mulheres seguem controladas. Creio que esse é também o problema do lugar difícil do futebol feminino entre nós.
Como se vê, é só merda. Para Ab’ Saber, Pelé, Raí e Romário não são craques, mas “entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória”. Ana Paula Oliveira posou nua não porque resolveu ganhar uma grana mostrando a xereca, mas porque os homens que gostam de futebol só podiam concebê-la no “lugar social objetificado das mulheres”.
Mas Ab’ Saber joga nas 11. Ontem, ele apareceu na Ilustrada falando sobre Gilberto Braga, o autor de Paraíso Tropical, uma das piores novelas de todos os tempos. Ab’ Saber afirma que “Braga é o ‘grande inventor moderno’ da novela, levando-o ‘até o limite extremo da sua forma’” – na cabeça do sujeito, provavelmente uma espécie de James Joyce. Mostrando que tem senso de proporção, ele compara “o salto qualitativo atingido pelo autor em Vale Tudo com o nível atingido por Machado de Assis em suas obras de maturidade”.E ele vai além: "Não foi por acaso, portanto, que ele deu o seu próprio salto mortal, como ocorreu com Machado de Assis cem anos antes no registro da alta literatura". Segundo ele, em "Vale Tudo", Gilberto Braga "passa a olhar o Brasil do ponto de vista radical de uma elite beneficiária da vida nacional estagnada, que opera com liberdade cínica e violência sistemática a sua relação com uma classe média ambígua ao extremo em relação à ordem de exploração e ao descompromisso do grande dinheiro por aqui".
É isso aí. O sujeito acha que dá para comparar Gilberto Braga e Machado de Assis. Quem disse que não há vida intelectual no Brasil?
agosto 24, 2007
21º century paranoid man
Olha, eu sou um ferrenho crítico da paranóia olavista (e continuo sendo), mas isto aqui me deixou arrepiado no pior dos sentidos. Um troço destes desperta os meus mais primitivos sentimentos de combate primordial. É um discurso de seita totalitária em busca do domínio absoluto pelo método de comer pelas bordas, e o palavreado eufemístico de "democracia", "paz mundial" etc só torna tudo mais sinistro e soturno. Só o que salva é a gostosinha da locutora, mas acho que ela é do tipo capaz de mandar para o paredão o porco capitalista que a fez gozar cinco minutos antes (ou vai ver é só uma locutora profissional, patricinha e admiradora do Bush - a paranóia às vezes deixa a gente confuso)
Olha, eu sou um ferrenho crítico da paranóia olavista (e continuo sendo), mas isto aqui me deixou arrepiado no pior dos sentidos. Um troço destes desperta os meus mais primitivos sentimentos de combate primordial. É um discurso de seita totalitária em busca do domínio absoluto pelo método de comer pelas bordas, e o palavreado eufemístico de "democracia", "paz mundial" etc só torna tudo mais sinistro e soturno. Só o que salva é a gostosinha da locutora, mas acho que ela é do tipo capaz de mandar para o paredão o porco capitalista que a fez gozar cinco minutos antes (ou vai ver é só uma locutora profissional, patricinha e admiradora do Bush - a paranóia às vezes deixa a gente confuso)
Nojo da política

O palco de diálogos inteligentes
Eu tenho uma quedinha pelo niilismo político. É uma tendência que se acentua cada vez mais. Anulei o voto para presidente, governador e senador, e tive uma sensação de liberdade agradável. Nem sempre foi assim. Eu comecei a acompanhar política com 14 anos, e achava o assunto apaixonante. Vinte e dois anos depois, pouco ou nada resta dessa ilusão, embora eu ainda acompanhe o assunto diariamente, com mais nojo do que interesse.
A eleição de 2006 foi certamente decisiva para aumentar ainda mais meu asco pela política. Não houve nada parecido com uma discussão de um projeto de país. O segundo turno atingiu o ápice do grotesco, com a campanha mentirosa e repulsiva adotada pelos petistas, dizendo que Geraldo Alckmin retomaria as privatizações e acabaria com o Bolsa Família. A reação pusilânime de Alckmin, que não teve coragem de defender as privatizações feitas no governo Fernando Henrique Cardoso e ainda tirou fotos com uma jaqueta com logotipos de estatais, foi constrangedora - e selou meu voto nulo.
O segundo mandato de Lula é de um ridículo atroz. Como não ter vergonha de um governo que aposta num plano de obras de infra-estrutura que não sai do papel e de um presidente que faz bravatas patéticas a cada discurso? Isso sem falar na reação de Lula e dos petistas a qualquer manifestação de oposição, sempre consideradas golpismo ou conspiração das elites.
O Legislativo, sempre infestado por seres lombrosianos, consegue ser ainda mais repulsivo neste ano. Não lembro de deputados e senadores protagonistas de escândalos anteriores terem mostrado a desfaçatez exibida atualmente por Renan Calheiros. Ele é o tipo de político que mais me enoja. Além de obviamente picareta, nunca teve uma idéia política. Não se sabe o que Renan pensa sobre nenhum assunto importante. A sua única preocupação é obter vantagens do governo, de qualquer governo. Foi assecla de Collor, ministro da Justiça do governo Fernando Henrique e é um aliado de peso de Lula.
E chegamos enfim ao Judiciário. A divulgação das conversas entre os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi ridícula. No meio do julgamento, os dois trocam mensagens, que dão a entender que combinam os votos, ou pelo menos que Cármen Lúcia está louquinha para ser influenciada por Lewandowski. Além disso, tratam de questões mesquinhas sobre a política interna do STF, e sugerem que a indicação do próximo ministro do tribunal pode estar atrelada ao voto de Eros Grau. É claro que não vejo problemas no fato de os ministros conversarem, mas acho o fim da picada o fazerem durante o julgamento. Para completar, a conversa pedestre só fez piorar a imagem já ruim que eu tinha dos ministros do STF.
Nada por aqui tem a mínima solenidade. Tudo é pequeno, escroto e patético

O palco de diálogos inteligentes
Eu tenho uma quedinha pelo niilismo político. É uma tendência que se acentua cada vez mais. Anulei o voto para presidente, governador e senador, e tive uma sensação de liberdade agradável. Nem sempre foi assim. Eu comecei a acompanhar política com 14 anos, e achava o assunto apaixonante. Vinte e dois anos depois, pouco ou nada resta dessa ilusão, embora eu ainda acompanhe o assunto diariamente, com mais nojo do que interesse.
A eleição de 2006 foi certamente decisiva para aumentar ainda mais meu asco pela política. Não houve nada parecido com uma discussão de um projeto de país. O segundo turno atingiu o ápice do grotesco, com a campanha mentirosa e repulsiva adotada pelos petistas, dizendo que Geraldo Alckmin retomaria as privatizações e acabaria com o Bolsa Família. A reação pusilânime de Alckmin, que não teve coragem de defender as privatizações feitas no governo Fernando Henrique Cardoso e ainda tirou fotos com uma jaqueta com logotipos de estatais, foi constrangedora - e selou meu voto nulo.
O segundo mandato de Lula é de um ridículo atroz. Como não ter vergonha de um governo que aposta num plano de obras de infra-estrutura que não sai do papel e de um presidente que faz bravatas patéticas a cada discurso? Isso sem falar na reação de Lula e dos petistas a qualquer manifestação de oposição, sempre consideradas golpismo ou conspiração das elites.
O Legislativo, sempre infestado por seres lombrosianos, consegue ser ainda mais repulsivo neste ano. Não lembro de deputados e senadores protagonistas de escândalos anteriores terem mostrado a desfaçatez exibida atualmente por Renan Calheiros. Ele é o tipo de político que mais me enoja. Além de obviamente picareta, nunca teve uma idéia política. Não se sabe o que Renan pensa sobre nenhum assunto importante. A sua única preocupação é obter vantagens do governo, de qualquer governo. Foi assecla de Collor, ministro da Justiça do governo Fernando Henrique e é um aliado de peso de Lula.
E chegamos enfim ao Judiciário. A divulgação das conversas entre os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi ridícula. No meio do julgamento, os dois trocam mensagens, que dão a entender que combinam os votos, ou pelo menos que Cármen Lúcia está louquinha para ser influenciada por Lewandowski. Além disso, tratam de questões mesquinhas sobre a política interna do STF, e sugerem que a indicação do próximo ministro do tribunal pode estar atrelada ao voto de Eros Grau. É claro que não vejo problemas no fato de os ministros conversarem, mas acho o fim da picada o fazerem durante o julgamento. Para completar, a conversa pedestre só fez piorar a imagem já ruim que eu tinha dos ministros do STF.
Nada por aqui tem a mínima solenidade. Tudo é pequeno, escroto e patético
Enfim, empreguei
Vocês não acham que o Globo agiu anticonstitucionalissimamente?
PS: Eu não acho porra nenhuma
Vocês não acham que o Globo agiu anticonstitucionalissimamente?
PS: Eu não acho porra nenhuma
agosto 23, 2007
Lamento do mundo da lua

Aconchegantemente human-free
Às vezes eu acho irritante que para certas pessoas não baste que eu não tenha boas relações com os seus inimigos, mesmo que eu não saiba por que os inimigos são inimigos. Para certas pessoas, é preciso que eu não tenha boas relações com os seus inimigos, mesmo que eu nem saiba que são inimigos. É como se não adivinhar que o inimigo é inimigo fosse uma falta de sensibilidade, uma incompreensão injustificável dos sinais exteriores de que o inimigo em questão é intrinsecamente hostil a tudo de mais importante que "nós" (eu e a certa pessoa, num súbito e improvável uníssono de julgamentos e sensibilidade) defendemos. É como se não captar antipatias não explicitadas fosse aderir ao que deve ser antipatizado. É claro que tudo fica pior se a 'certa pessoa' tem poder sobre mim. E é claro que é disso que estou falando. Eu sou um sujeito em estado avançado de vivência no mundo da lua, um mundinho particular que é preenchido com minhas constantes opiniões e teorias sobre quase todas as coisas que acontecem no universo, menos aquilo que está excessivamente próximo de mim. A minha tendência a me alhear, por exemplo, das questões relativas ao condomínio do meu prédio, ao funcionamento do meu carro, à composição do meu guarda-roupas ou às fofocas não-sexuais (estas eu acho divertidas) do meu trabalho é avassaladora. Dá uma canseira tremenda, e tem sido para mim fonte de fortes dores-de-cabeça, me manter atualizado em relação às panelas e às rixas que se desenvolvem bem na frente dos meus olhos (e ao alcance dos meus ouvidos), nos ambientes sociais em que estou imerso. Porque na verdade eu fico muito mais imerso na minha mentezinha bolorenta do que na podridão medíocre que me cerca. Droga por droga, sou mais eu
P.S: Não levem a sério a auto-depreciação, é que estou de mau humor. Como vocês já devem ter percebido, normalmente me acho o máximo

Aconchegantemente human-free
Às vezes eu acho irritante que para certas pessoas não baste que eu não tenha boas relações com os seus inimigos, mesmo que eu não saiba por que os inimigos são inimigos. Para certas pessoas, é preciso que eu não tenha boas relações com os seus inimigos, mesmo que eu nem saiba que são inimigos. É como se não adivinhar que o inimigo é inimigo fosse uma falta de sensibilidade, uma incompreensão injustificável dos sinais exteriores de que o inimigo em questão é intrinsecamente hostil a tudo de mais importante que "nós" (eu e a certa pessoa, num súbito e improvável uníssono de julgamentos e sensibilidade) defendemos. É como se não captar antipatias não explicitadas fosse aderir ao que deve ser antipatizado. É claro que tudo fica pior se a 'certa pessoa' tem poder sobre mim. E é claro que é disso que estou falando. Eu sou um sujeito em estado avançado de vivência no mundo da lua, um mundinho particular que é preenchido com minhas constantes opiniões e teorias sobre quase todas as coisas que acontecem no universo, menos aquilo que está excessivamente próximo de mim. A minha tendência a me alhear, por exemplo, das questões relativas ao condomínio do meu prédio, ao funcionamento do meu carro, à composição do meu guarda-roupas ou às fofocas não-sexuais (estas eu acho divertidas) do meu trabalho é avassaladora. Dá uma canseira tremenda, e tem sido para mim fonte de fortes dores-de-cabeça, me manter atualizado em relação às panelas e às rixas que se desenvolvem bem na frente dos meus olhos (e ao alcance dos meus ouvidos), nos ambientes sociais em que estou imerso. Porque na verdade eu fico muito mais imerso na minha mentezinha bolorenta do que na podridão medíocre que me cerca. Droga por droga, sou mais eu
P.S: Não levem a sério a auto-depreciação, é que estou de mau humor. Como vocês já devem ter percebido, normalmente me acho o máximo
agosto 22, 2007
Chavonomics II
Dialeticamente, para os bizarros freqüentadores do Torre que têm saco para ler posts como Chavonomics, um perfil da Venezuela como oil junkie
Dialeticamente, para os bizarros freqüentadores do Torre que têm saco para ler posts como Chavonomics, um perfil da Venezuela como oil junkie
agosto 21, 2007
Vem comigo, gracinha
Poucas vezes um movimento tão irrelevante provocou tantas polêmicas quanto o Cansei. Petistas debilóides vêem intenções golpistas na turma de João Dória Jr., enquanto opositores lunáticos enxergam no Cansei a possibilidade de uma reação da sociedade civil ao governo Lula. Como de costume por aqui, nenhum dos dois extremos está certo. Ser contra a corrupção e a violência são bandeiras mais do que justas, mas como é que pode ter credibilidade um movimento que, para começar, tem um nome ridículo como Cansei?
Os líderes do movimento não ajudam. Eu defendo até a morte o direito do João Dória Jr. se expressar e se indignar, mas não vou me furtar a ridicularizá-lo. E não dá para levar a sério um sujeito como o presidente da Philips, Paulo Zottolo. Ele não percebe nem mesmo que não se pode dizer numa entrevista o mesmo que se diz numa mesa de bar. Não me digam que ele está sendo injustamente ridicularizado – sacanear o Piauí é uma tentação a que eu mesmo não resisti, mas parece óbvio que não é a declaração mais adequada para um presidente de multinacional que pretende ser uma liderança da sociedade civil.
Mas há mais. O cartaz com Hebe Camargo, Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga parece ter sido feito de propósito para desmoralizar ainda mais o movimento. Hebe é uma malufista histórica, que gosta de criticar o Congresso e defender a pena de morte. Não são credenciais das melhores. Também não acredito que Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga confiram credibilidade ao negócio. . Se eu gostasse de teorias conspiratórias, diria que o Nizan Guanaes está a soldo do governo, agindo para destruir o Cansei por dentro.
Além das quatro cansadas, a lista de adesções de artistas e desportistas também é impressionante: há Adriana Lessa, Agnaldo Rayol, Moacyr Franco, Paulo Vilhena, Luana Piovani, Carlos Alberto de Nóbrega, Tom Cavalcante, Victor Fasano e Wanderléa. Ah, tem também o Goulart de Andrade. Imagino as massas sensibilizadas por essas adesões. O Goulart de Andrade diz vem comigo e milhões o seguem. O movimento, como se vê, não tem nada de golpista. É apenas ridículo
Poucas vezes um movimento tão irrelevante provocou tantas polêmicas quanto o Cansei. Petistas debilóides vêem intenções golpistas na turma de João Dória Jr., enquanto opositores lunáticos enxergam no Cansei a possibilidade de uma reação da sociedade civil ao governo Lula. Como de costume por aqui, nenhum dos dois extremos está certo. Ser contra a corrupção e a violência são bandeiras mais do que justas, mas como é que pode ter credibilidade um movimento que, para começar, tem um nome ridículo como Cansei?
Os líderes do movimento não ajudam. Eu defendo até a morte o direito do João Dória Jr. se expressar e se indignar, mas não vou me furtar a ridicularizá-lo. E não dá para levar a sério um sujeito como o presidente da Philips, Paulo Zottolo. Ele não percebe nem mesmo que não se pode dizer numa entrevista o mesmo que se diz numa mesa de bar. Não me digam que ele está sendo injustamente ridicularizado – sacanear o Piauí é uma tentação a que eu mesmo não resisti, mas parece óbvio que não é a declaração mais adequada para um presidente de multinacional que pretende ser uma liderança da sociedade civil.
Mas há mais. O cartaz com Hebe Camargo, Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga parece ter sido feito de propósito para desmoralizar ainda mais o movimento. Hebe é uma malufista histórica, que gosta de criticar o Congresso e defender a pena de morte. Não são credenciais das melhores. Também não acredito que Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga confiram credibilidade ao negócio. . Se eu gostasse de teorias conspiratórias, diria que o Nizan Guanaes está a soldo do governo, agindo para destruir o Cansei por dentro.
Além das quatro cansadas, a lista de adesções de artistas e desportistas também é impressionante: há Adriana Lessa, Agnaldo Rayol, Moacyr Franco, Paulo Vilhena, Luana Piovani, Carlos Alberto de Nóbrega, Tom Cavalcante, Victor Fasano e Wanderléa. Ah, tem também o Goulart de Andrade. Imagino as massas sensibilizadas por essas adesões. O Goulart de Andrade diz vem comigo e milhões o seguem. O movimento, como se vê, não tem nada de golpista. É apenas ridículo
agosto 17, 2007
Um furo de Paulo Henrique Gobineau

Os piauí são especialmente dotados para a natação
Sensacional, uma nova etnia acaba de ser descoberta no Brasil (como somos politicamente corretos, vamos evitar o uso da palavra raça). Vejam só, quentinho do site do Paulo Henrique Amorim:
O presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo, um dos líderes do movimento “Cansei”, disse ao jornal Valor: "Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".
Diante dessa manifestação explícita de racismo, o Conversa Afiada acaba de encaminhar o seguinte e-mail à Presidência da Philips mundial: "Does Philips consider itself a blatant racist corporation ?"
O que o Amorim não conta é que estudos de etno-antropologia conduzidos por equipes franco-canadenses mostraram que há grandes chances de que a etnia piauí descenda diretamente das capivaras, o que explica o nome do famoso parque com artefatos pré-históricos e pinturas rupestres

Os piauí são especialmente dotados para a natação
Sensacional, uma nova etnia acaba de ser descoberta no Brasil (como somos politicamente corretos, vamos evitar o uso da palavra raça). Vejam só, quentinho do site do Paulo Henrique Amorim:
O presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo, um dos líderes do movimento “Cansei”, disse ao jornal Valor: "Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".
Diante dessa manifestação explícita de racismo, o Conversa Afiada acaba de encaminhar o seguinte e-mail à Presidência da Philips mundial: "Does Philips consider itself a blatant racist corporation ?"
O que o Amorim não conta é que estudos de etno-antropologia conduzidos por equipes franco-canadenses mostraram que há grandes chances de que a etnia piauí descenda diretamente das capivaras, o que explica o nome do famoso parque com artefatos pré-históricos e pinturas rupestres
agosto 16, 2007
Da legitimidade do delenda CPMF
Se eu fosse do DEM ou do PSDB e quisesse justificar por que agora meu voto é radicalmente contra a CPMF, um imposto que eu mesmo havia criado (sendo DEM/PSDB) quando estava no poder, eu diria o seguinte:
Sim, eu criei a CPMF, mas num arcabouço programático* em que havia o ideal de um Estado sarado (isto é, magro porém eficaz). A CPMF era uma ferramenta para um ajuste fiscal indispensável à recuperação financeira do Estado, que foi feito pelo lado das receitas não por opção ideológica, mas sim pelas dificuldades institucionais e sociais de fazê-lo cortando despesas. Deu tudo errado, o Estado continuou embalofando mesmo nos dois governos FH, mas nunca houve como objetivo ideológico o embalofamento estatal.
Agora, o PT quer renovar a CPMF com o propósito não de garantir um indispensável ajuste fiscal, mas sim para tocar o seu programa de embalofamento do Estado, que faz parte explicitamente da ideologia do governo.
Sendo assim, como oposição, por sermos contra o embalofamento do Estado, fechamos questão contra a CPMF. Sem ela, não haverá nenhuma grande crise fiscal, mas Lula será obrigado a recolocar o Estado num spa. O dever da oposição é lutar por seus projetos, idéias, visão do mundo.
Bem, agora falando como eu mesmo, nem sei se apoiaria um posicionamento do DEM/PSDB deste tipo, mas se eles o tomassem, eu consideraria, sem sombra de dúvida, uma estratégia legítima e inspirada de Política (com letra maiúscula, desculpem a redundância)
* ok, arcabouço programático é foda, mas eu vou deixar assim mesmo
PS: Eu sei que os frouxos tucanos não estão 100% contra a CPMF
Se eu fosse do DEM ou do PSDB e quisesse justificar por que agora meu voto é radicalmente contra a CPMF, um imposto que eu mesmo havia criado (sendo DEM/PSDB) quando estava no poder, eu diria o seguinte:
Sim, eu criei a CPMF, mas num arcabouço programático* em que havia o ideal de um Estado sarado (isto é, magro porém eficaz). A CPMF era uma ferramenta para um ajuste fiscal indispensável à recuperação financeira do Estado, que foi feito pelo lado das receitas não por opção ideológica, mas sim pelas dificuldades institucionais e sociais de fazê-lo cortando despesas. Deu tudo errado, o Estado continuou embalofando mesmo nos dois governos FH, mas nunca houve como objetivo ideológico o embalofamento estatal.
Agora, o PT quer renovar a CPMF com o propósito não de garantir um indispensável ajuste fiscal, mas sim para tocar o seu programa de embalofamento do Estado, que faz parte explicitamente da ideologia do governo.
Sendo assim, como oposição, por sermos contra o embalofamento do Estado, fechamos questão contra a CPMF. Sem ela, não haverá nenhuma grande crise fiscal, mas Lula será obrigado a recolocar o Estado num spa. O dever da oposição é lutar por seus projetos, idéias, visão do mundo.
Bem, agora falando como eu mesmo, nem sei se apoiaria um posicionamento do DEM/PSDB deste tipo, mas se eles o tomassem, eu consideraria, sem sombra de dúvida, uma estratégia legítima e inspirada de Política (com letra maiúscula, desculpem a redundância)
* ok, arcabouço programático é foda, mas eu vou deixar assim mesmo
PS: Eu sei que os frouxos tucanos não estão 100% contra a CPMF
I left my heart in Teresina

Cabeça de cuia, ponto turístico de Teresina
O Brasil é um país de grandes polêmicas. A mais nova é sobre o Piauí. Para quem não sabe, o Piauí é um pedaço de terra que fica entre o Maranhão e o Ceará. O presidente da Philips, Paulo Zottolo, um dos idealizadores do “Cansei”, disse em entrevista ao Valor que “não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".
O governador do Piauí, Wellington Dias, reagiu imediatamente, enviando uma nota para Mônica Bergamo, colunista da Folha, para mostrar que o Piauí não só existe como é importante. Ela é tão boa que vale a pena ser citada na íntegra:
"Tenho certeza de que o capitalismo afasta o homem do ser humano. Que Deus dê a ele a oportunidade de conhecer o Piauí e os homens e mulheres que aqui vivem. Para se ter uma idéia, o Piauí tem 80% de suas florestas nativas preservadas e produz oxigênio para o Brasil e para o mundo. O Piauí, segundo estudos em andamento, tem uma das maiores bacias de gás e petróleo do país.
É do Piauí a melhor escola do Brasil, eleita dois anos consecutivos pelo Enem. O Piauí tem a melhor produtividade de soja, mel e algodão do país. Por coincidência, um piauiense, José Horácio de Freitas, foi diretor financeiro da Philips. Por ele e por todos os cidadãos piauienses deveríamos ter respeito. E faço a ele o convite para vir conhecer o Piauí."
Além de piauiense, Dias é petista, o que provavelmente explica sua visão sobre o capitalismo, um sistema tão cruel que “afasta o homem do ser humano”. Eu não sei exatamente o que isso quer dizer, mas boa coisa não é.
Mas a nota é interessante principalmente porque informa que o Piauí “produz oxigênio para o Brasil e para o mundo”. Eu sempre acreditei que o Piauí não produzia nada, mas descobri que estava errado. Pelo menos oxigênio o Estado produz – e até exporta.
É provável que os piauienses boicotem produtos da Philips. Zottolo deve estar preocupadíssimo. Há o risco de que a Philips venda cinco televisões a menos do que ela previa neste ano.
Eu já estive no Piauí. É o lugar mais quente em que eu já coloquei os pés. Eu não tinha vontade de fazer nada. Com aquele calor insuportável, o nível de desenvolvimento atingido pelo Piauí está mais do que bom. Não dá para esperar muito mais do que a produção de oxigênio

Cabeça de cuia, ponto turístico de Teresina
O Brasil é um país de grandes polêmicas. A mais nova é sobre o Piauí. Para quem não sabe, o Piauí é um pedaço de terra que fica entre o Maranhão e o Ceará. O presidente da Philips, Paulo Zottolo, um dos idealizadores do “Cansei”, disse em entrevista ao Valor que “não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".
O governador do Piauí, Wellington Dias, reagiu imediatamente, enviando uma nota para Mônica Bergamo, colunista da Folha, para mostrar que o Piauí não só existe como é importante. Ela é tão boa que vale a pena ser citada na íntegra:
"Tenho certeza de que o capitalismo afasta o homem do ser humano. Que Deus dê a ele a oportunidade de conhecer o Piauí e os homens e mulheres que aqui vivem. Para se ter uma idéia, o Piauí tem 80% de suas florestas nativas preservadas e produz oxigênio para o Brasil e para o mundo. O Piauí, segundo estudos em andamento, tem uma das maiores bacias de gás e petróleo do país.
É do Piauí a melhor escola do Brasil, eleita dois anos consecutivos pelo Enem. O Piauí tem a melhor produtividade de soja, mel e algodão do país. Por coincidência, um piauiense, José Horácio de Freitas, foi diretor financeiro da Philips. Por ele e por todos os cidadãos piauienses deveríamos ter respeito. E faço a ele o convite para vir conhecer o Piauí."
Além de piauiense, Dias é petista, o que provavelmente explica sua visão sobre o capitalismo, um sistema tão cruel que “afasta o homem do ser humano”. Eu não sei exatamente o que isso quer dizer, mas boa coisa não é.
Mas a nota é interessante principalmente porque informa que o Piauí “produz oxigênio para o Brasil e para o mundo”. Eu sempre acreditei que o Piauí não produzia nada, mas descobri que estava errado. Pelo menos oxigênio o Estado produz – e até exporta.
É provável que os piauienses boicotem produtos da Philips. Zottolo deve estar preocupadíssimo. Há o risco de que a Philips venda cinco televisões a menos do que ela previa neste ano.
Eu já estive no Piauí. É o lugar mais quente em que eu já coloquei os pés. Eu não tinha vontade de fazer nada. Com aquele calor insuportável, o nível de desenvolvimento atingido pelo Piauí está mais do que bom. Não dá para esperar muito mais do que a produção de oxigênio
Metáforas invadem o real
12:33 PERU:BOLSA CAI 4,6% COM TREMORES SÍSMICO LOCAL E FINANCEIRO EXTERNO
(num site de notícias financeiras)
12:33 PERU:BOLSA CAI 4,6% COM TREMORES SÍSMICO LOCAL E FINANCEIRO EXTERNO
(num site de notícias financeiras)
agosto 15, 2007
Hors concours

O Evandro de Castro Lima está morrendo de inveja
Se o Clóvis Bornay fosse um inseto, ele seria esse aí. Como disse o Sérgio Faria, é o inseto mais viado do planeta

O Evandro de Castro Lima está morrendo de inveja
Se o Clóvis Bornay fosse um inseto, ele seria esse aí. Como disse o Sérgio Faria, é o inseto mais viado do planeta
agosto 14, 2007
Saideira
Minhas filhas já estão deitadas e não sei por que cargas d’água estou explicando como Napoleão e Hitler foram derrotados pelo inverno russo.
Uma delas indaga: “Então é isso a guerra fria?”
Minhas filhas já estão deitadas e não sei por que cargas d’água estou explicando como Napoleão e Hitler foram derrotados pelo inverno russo.
Uma delas indaga: “Então é isso a guerra fria?”
Nada que é humano me é estranho
Revistas femininas ou de fofoca não são exatamente a minha leitura preferida, mas eu sempre acompanho com atenção as capas de tão respeitáveis publicações. Eu me amarro nas frases que aparecem como teaser para a entrevista com o personagem que aparece na capa. O pessoal que as escolhe é gênio.
Vejam o caso da capa da Criativa deste mês, que traz a intrépida Gabriela Duarte como estrela. Tentando fazer uma cara sexy, ela diz: “Quem inventou que luxúria é pecado? Acho uma delícia!” Que mulher lasciva, Gabriela! A probabilidade de que ela tenha dito a frase exatamente desse jeito, porém, é quase nula. Quem conhece um pouco esse meio sabe que há 99% de chance de que o jornalista a tenha inventado.
Outra frase brilhante é de Fernanda Machado, que está na capa de Marie Claire. Descubro que ela é a Joana, de Paraíso Tropical: “Cansei de ser boazinha. Quero mais é sofrer”. Como a Fernanda não tem jeito de masoquista, acredito que ela esteja se referindo à personagem da novela. Outra com pinta de que foi inventada. E, de qualquer modo, dá uma idéia de que como deve ser boa a entrevista. Se essa foi uma das coisas mais interessantes que ela disse – ou inventaram que ela disse -, imagine as piores.
A capa do Contigo traz Glória Pires. A frase da mulher de Orlando Moraes é quase um aforismo: “Sexo combina com casamento”. Aposto uma boa grana que foi obtida do seguinte modo:
Repórter: Sexo combina com casamento?
Glória Pires: Combina.
Mas o grande destaque das bancas é a capa da Quem, com Kadu Moliterno. A frase do Juba: “Nada abala a relação com meus filhos”. Ele se refere, é claro, ao fato de que descia o cacete na mulher, que o denunciou publicamente por tê-la espancado. Isso é que é relação sólida
Erremos: Eu tinha escrito que a Joana Machado era a Fernanda, de Paraíso Tropical. Ruy Goiaba, que transita entre o erudito e o popular com rara desenvoltura, mostrou que eu tinha trocado tudo: Fernanda Machado é a atriz, e Joana, a personagem da novela. O texto já foi corrigido
Revistas femininas ou de fofoca não são exatamente a minha leitura preferida, mas eu sempre acompanho com atenção as capas de tão respeitáveis publicações. Eu me amarro nas frases que aparecem como teaser para a entrevista com o personagem que aparece na capa. O pessoal que as escolhe é gênio.
Vejam o caso da capa da Criativa deste mês, que traz a intrépida Gabriela Duarte como estrela. Tentando fazer uma cara sexy, ela diz: “Quem inventou que luxúria é pecado? Acho uma delícia!” Que mulher lasciva, Gabriela! A probabilidade de que ela tenha dito a frase exatamente desse jeito, porém, é quase nula. Quem conhece um pouco esse meio sabe que há 99% de chance de que o jornalista a tenha inventado.
Outra frase brilhante é de Fernanda Machado, que está na capa de Marie Claire. Descubro que ela é a Joana, de Paraíso Tropical: “Cansei de ser boazinha. Quero mais é sofrer”. Como a Fernanda não tem jeito de masoquista, acredito que ela esteja se referindo à personagem da novela. Outra com pinta de que foi inventada. E, de qualquer modo, dá uma idéia de que como deve ser boa a entrevista. Se essa foi uma das coisas mais interessantes que ela disse – ou inventaram que ela disse -, imagine as piores.
A capa do Contigo traz Glória Pires. A frase da mulher de Orlando Moraes é quase um aforismo: “Sexo combina com casamento”. Aposto uma boa grana que foi obtida do seguinte modo:
Repórter: Sexo combina com casamento?
Glória Pires: Combina.
Mas o grande destaque das bancas é a capa da Quem, com Kadu Moliterno. A frase do Juba: “Nada abala a relação com meus filhos”. Ele se refere, é claro, ao fato de que descia o cacete na mulher, que o denunciou publicamente por tê-la espancado. Isso é que é relação sólida
Erremos: Eu tinha escrito que a Joana Machado era a Fernanda, de Paraíso Tropical. Ruy Goiaba, que transita entre o erudito e o popular com rara desenvoltura, mostrou que eu tinha trocado tudo: Fernanda Machado é a atriz, e Joana, a personagem da novela. O texto já foi corrigido
Rapidinha
Me veio o seguinte insaite, capenguérrimo, admito logo de saída. Uma economia cresce num ciclo com base no que fez direito no ciclo anterior. É uma aproximação extremamente forçada e esquemática da realidade mas, vão lá, tem talvez alguns respingos de utilidade cognitiva. E se aquilo for muito mais ou menos o que de fato é, eu diria que o governo Lula, a par de navegar um ciclo de crescimento e acertar aqui e acolá (Bolsa-Família, Pró-Uni, intenções anti-corporativas do Temporão), está basicamente despreparando o Brasil para o próximo ciclo de crescimento (inchamento salarial da máquina, perpetuação dos desequilíbrios da Previdência, reestatização, desmoralização das agências reguladoras, tentativa de enfraquecimento do BC, etc)
Me veio o seguinte insaite, capenguérrimo, admito logo de saída. Uma economia cresce num ciclo com base no que fez direito no ciclo anterior. É uma aproximação extremamente forçada e esquemática da realidade mas, vão lá, tem talvez alguns respingos de utilidade cognitiva. E se aquilo for muito mais ou menos o que de fato é, eu diria que o governo Lula, a par de navegar um ciclo de crescimento e acertar aqui e acolá (Bolsa-Família, Pró-Uni, intenções anti-corporativas do Temporão), está basicamente despreparando o Brasil para o próximo ciclo de crescimento (inchamento salarial da máquina, perpetuação dos desequilíbrios da Previdência, reestatização, desmoralização das agências reguladoras, tentativa de enfraquecimento do BC, etc)
agosto 11, 2007
Ruim com Ele, pior sem Ele

Uma mão que faz falta
Eu sou um agnóstico que tende ao ateísmo em momentos deprê, e uma coisa que eu não consigo entender é a volúpia triunfalista de ateus como Richard Dawkins na defesa da não-existência de Deus. Eu acho que é preciso separar duas coisas nisso aí. Em primeiro lugar, a escrotidão das grandes religiões. Longe de mim querer aqui entrar num debate sobre se as grandes religiões são liquidamente escrotas ou não. Eu prefiro, for sake of the argument, supor que sejam. E, neste caso, eu entendo a fúria de um Dawkins contra o obscurantismo religioso que tantos males causou à humanidade e blá-blá-blá. Só que discutir a existência ou não de Deus, ou a existência ou não da vida após a morte, nada tem a ver com combater as escrotidões religiosas. Eu posso ser o inimigo número um das práticas religiosas tradicionais e ainda assim acreditar em Deus, ou na vida após a morte. E é aí que entra o que realmente estou querendo dizer. Me parece estranho alguém defender entusiasticamente que nada mais existe além da nossa vida terrena, e que daqui a 110 anos estarão extintas as subjetividades de todos nós, com seus amores, terrores, êxtases e as pequenas bobagens que são peculiarmente comoventes. Me parece um puta pensamento deprimente, ainda que seja verdade. É o tipo da situação em que, caso eu tivesse certeza de que é isso mesmo, ficaria caladinho, para não estragar o prazer dos outros em achar que há algum tipo de eternidade que justifica tudo o que está rolando. Me lembro de quando minha filha, aos dois anos de idade, fez um dos comentários mais pungentes que eu ouvi em toda a minha vida: “Papai, eu sei o que é morte, a gente vai para o Céu, fica um pouco lá e depois volta”. Eu jamais vou dizer que não é nada disso, nem mesmo quando ela tiver 50 anos
P.S: Um esclarecimento a posteriori: quando escrevi "daqui a 110 anos etc" quis me referir ao tempo necessário para que praticamente todos os seres humanos vivos agora estejam mortos. E é este fato que descrevi como "estarão extintas as subjetividades de todos nós". Ficou confuso, mas o mais grave é eu ter constatado, ao fazer este PS, que eu tinha escrito "daqui há 110 anos". Lept lept (som do látego descendo sobre minhas próprias costas)

Uma mão que faz falta
Eu sou um agnóstico que tende ao ateísmo em momentos deprê, e uma coisa que eu não consigo entender é a volúpia triunfalista de ateus como Richard Dawkins na defesa da não-existência de Deus. Eu acho que é preciso separar duas coisas nisso aí. Em primeiro lugar, a escrotidão das grandes religiões. Longe de mim querer aqui entrar num debate sobre se as grandes religiões são liquidamente escrotas ou não. Eu prefiro, for sake of the argument, supor que sejam. E, neste caso, eu entendo a fúria de um Dawkins contra o obscurantismo religioso que tantos males causou à humanidade e blá-blá-blá. Só que discutir a existência ou não de Deus, ou a existência ou não da vida após a morte, nada tem a ver com combater as escrotidões religiosas. Eu posso ser o inimigo número um das práticas religiosas tradicionais e ainda assim acreditar em Deus, ou na vida após a morte. E é aí que entra o que realmente estou querendo dizer. Me parece estranho alguém defender entusiasticamente que nada mais existe além da nossa vida terrena, e que daqui a 110 anos estarão extintas as subjetividades de todos nós, com seus amores, terrores, êxtases e as pequenas bobagens que são peculiarmente comoventes. Me parece um puta pensamento deprimente, ainda que seja verdade. É o tipo da situação em que, caso eu tivesse certeza de que é isso mesmo, ficaria caladinho, para não estragar o prazer dos outros em achar que há algum tipo de eternidade que justifica tudo o que está rolando. Me lembro de quando minha filha, aos dois anos de idade, fez um dos comentários mais pungentes que eu ouvi em toda a minha vida: “Papai, eu sei o que é morte, a gente vai para o Céu, fica um pouco lá e depois volta”. Eu jamais vou dizer que não é nada disso, nem mesmo quando ela tiver 50 anos
P.S: Um esclarecimento a posteriori: quando escrevi "daqui a 110 anos etc" quis me referir ao tempo necessário para que praticamente todos os seres humanos vivos agora estejam mortos. E é este fato que descrevi como "estarão extintas as subjetividades de todos nós". Ficou confuso, mas o mais grave é eu ter constatado, ao fazer este PS, que eu tinha escrito "daqui há 110 anos". Lept lept (som do látego descendo sobre minhas próprias costas)
agosto 10, 2007
Não vale a tinta
Dois pugilistas limítrofes (parto do princípio que todo pugilista é limítrofe), habitantes de uma ilhota de merda, com um ditador ridículo e um sistema econômico irrevelante, enchem a cara de cachaça, catam umas putas de quinta, caem num conto de vigário de uns picaretas alemães de décima, acordam de ressaca, ficam desnorteados, e acabam voltando para as patroas com os rabos entre as pernas. E nossa imprensa e e os blogs à direita e à esquerda tratam como se fosse um novo caso Dreyfus
Dois pugilistas limítrofes (parto do princípio que todo pugilista é limítrofe), habitantes de uma ilhota de merda, com um ditador ridículo e um sistema econômico irrevelante, enchem a cara de cachaça, catam umas putas de quinta, caem num conto de vigário de uns picaretas alemães de décima, acordam de ressaca, ficam desnorteados, e acabam voltando para as patroas com os rabos entre as pernas. E nossa imprensa e e os blogs à direita e à esquerda tratam como se fosse um novo caso Dreyfus
Poor people are different
Os números sobre o nível de renda do brasileiro são públicos, mas grande parte das pessoas, principalmente os que se opõem ao governo Lula, não se dão conta deles quando fazem análises sobre o Brasil. Você, leitor, está muito mais no topo da pirâmide de rendimento do que provavelmente pensa. Na pesquisa publicada pela Folha sobre a popularidade do governo Lula aparece a informação de que apenas 7,5% da população tem renda familiar mensal superior a R$ 3,5 mil, enquanto 59,5% ganha até R$ 1.050. Não é a renda individual, veja bem. É a renda familiar.
Quem tem computador, acesso à Internet e freqüenta este blog muito provavelmente ganha bem mais do que isso. Segundo números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2004, apenas 2,8% dos brasileiros com mais de 10 anos ganham mais de 10 salários mínimos por mês. Atualmente, isso equivale a R$ 3,8 mil. Nesse caso, é a renda individual. Essa é apenas o rendimento do trabalho, mas acredito que o quadro não muda muito se forem incluídos rendimentos de aposentadorias e de aplicações financeiras – a moral da história continua a mesma: a maior parte dos brasileiros ganha muito pouco. Eu não estou dizendo que sua renda é nababesca; a questão é que, no Brasil, você ganha muito, mas muito mais do que a maior parte da população.
Por que escrevo tudo isso? Porque dinheiro faz diferença. Faz muita diferença. A percepção de quem tem renda familiar mensal de até R$ 1.050 é bem diferente da minha ou da sua, assim como a avaliação da situação política. Para os mais pobres, a combinação de aumento razoável da renda a partir de 2004 para cá com inflação baixa é uma bênção. Quem tem um padrão de renda razoável no Brasil não consegue mensurar adequadamente esses ganhos e muitas vezes fica inconformado com a popularidade de Lula.
Scott Fitgerald disse que “os ricos são diferentes do resto de nós”. Invertendo o sinal, eu diria que os muito pobres também são diferentes. Você pode preferir a resposta cínica de Hemingway a Fitzgerald – “É, eles têm mais dinheiro” (no caso da minha frase, menos), mas acho que o marido da dona Zelda é que estava certo. Excesso de dinheiro e escassez de dinheiro mudam as coisas – e é ingenuidade acreditar no contrário
Os números sobre o nível de renda do brasileiro são públicos, mas grande parte das pessoas, principalmente os que se opõem ao governo Lula, não se dão conta deles quando fazem análises sobre o Brasil. Você, leitor, está muito mais no topo da pirâmide de rendimento do que provavelmente pensa. Na pesquisa publicada pela Folha sobre a popularidade do governo Lula aparece a informação de que apenas 7,5% da população tem renda familiar mensal superior a R$ 3,5 mil, enquanto 59,5% ganha até R$ 1.050. Não é a renda individual, veja bem. É a renda familiar.
Quem tem computador, acesso à Internet e freqüenta este blog muito provavelmente ganha bem mais do que isso. Segundo números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2004, apenas 2,8% dos brasileiros com mais de 10 anos ganham mais de 10 salários mínimos por mês. Atualmente, isso equivale a R$ 3,8 mil. Nesse caso, é a renda individual. Essa é apenas o rendimento do trabalho, mas acredito que o quadro não muda muito se forem incluídos rendimentos de aposentadorias e de aplicações financeiras – a moral da história continua a mesma: a maior parte dos brasileiros ganha muito pouco. Eu não estou dizendo que sua renda é nababesca; a questão é que, no Brasil, você ganha muito, mas muito mais do que a maior parte da população.
Por que escrevo tudo isso? Porque dinheiro faz diferença. Faz muita diferença. A percepção de quem tem renda familiar mensal de até R$ 1.050 é bem diferente da minha ou da sua, assim como a avaliação da situação política. Para os mais pobres, a combinação de aumento razoável da renda a partir de 2004 para cá com inflação baixa é uma bênção. Quem tem um padrão de renda razoável no Brasil não consegue mensurar adequadamente esses ganhos e muitas vezes fica inconformado com a popularidade de Lula.
Scott Fitgerald disse que “os ricos são diferentes do resto de nós”. Invertendo o sinal, eu diria que os muito pobres também são diferentes. Você pode preferir a resposta cínica de Hemingway a Fitzgerald – “É, eles têm mais dinheiro” (no caso da minha frase, menos), mas acho que o marido da dona Zelda é que estava certo. Excesso de dinheiro e escassez de dinheiro mudam as coisas – e é ingenuidade acreditar no contrário
agosto 09, 2007
Chavonomics
Em nome da honestidade intelectual, que eu venho insistentemente chamando neste blog de "a mais brochante das virtudes", segue um relatório - com todos os sinais exteriores de seriedade - muito positivo sobre a economia venezuelana. Enjoy
PS: Fatos ocorridos algum tempo depois de eu escrever este post reduziram um pouco (mas não eliminaram totalmente) o crédito de seriedade que eu conferi aos autores
Em nome da honestidade intelectual, que eu venho insistentemente chamando neste blog de "a mais brochante das virtudes", segue um relatório - com todos os sinais exteriores de seriedade - muito positivo sobre a economia venezuelana. Enjoy
PS: Fatos ocorridos algum tempo depois de eu escrever este post reduziram um pouco (mas não eliminaram totalmente) o crédito de seriedade que eu conferi aos autores
Flagrantes da estupidez
Ligo para uma fonte. O telefonema cai direto na caixa postal. "Fulaninha não pode atender. Deixe seu recado depois do sinal". Antes do sinal, entra outra gravação: "O correio de voz teve prazer em atendê-lo". Eu fiquei feliz. Não achei que eu pudesse dar prazer ao correio de voz
Ligo para uma fonte. O telefonema cai direto na caixa postal. "Fulaninha não pode atender. Deixe seu recado depois do sinal". Antes do sinal, entra outra gravação: "O correio de voz teve prazer em atendê-lo". Eu fiquei feliz. Não achei que eu pudesse dar prazer ao correio de voz
agosto 06, 2007
Classe mérdia
No Blog do Alon, ele escreveu um destes típicos comentários sobre o movimento Cansei (que acho uma bosta), no qual o escriba afeta neutralidade mas não consegue deixar de passar a hostilidade de rigueur à classe média. Eu tentei comentar lá mas não consegui. Então vou jogar aqui estar mal-traçadas, sem maiores caprichos no texto, e só mesmo para não deixar passar o atual mote da masturbação sociológica sem eu dar o meu pitaco. Segue:
Em social-democracias maduras, o sujeito que banca a alta carga tributária se sente como participante de um grande esquema de seguro. Se eu tiver uma doença caríssima, se eu ficar inválido, se tudo der errado na minha vida e eu ficar dependente do Estado, ou, inversamente, se tudo der certo e eu tiver acesso às melhores vagas nas universidades mais difíceis, eu usarei mais intensamente aqueles serviços estatais que todos nós bancamos.
O cara contribui muito, não necessariamente vai se beneficiar de tudo, mas ele sabe que está lidando com um jogo de probabilidades, e que coletivamente vale a pena aquela sociedade ser acolhedora para os que se deram mal ou tiveram oportunidades especiais (que podem eventualmente incluí-lo).
Num país como o Brasil, vale este socialismo sanguessuga que você descreveu acima, Alon. Os ricos e influentes têm acesso aos subsídios do Estado e à engenharia tributária, os pobres têm as bolsas, e a classe média paga a conta e leva muito pouco: não usa a saúde e a educação pública (com exceção da Universidade gratuita, que ela tem que disputar com os ricos de verdade super bem preparados), e têm péssimas segurança, estradas, aeroportos e serviços públicos em geral.
É claro que isto é uma receita para envenenar de cinismo a democracia.
Os pobres tendem a desenvolver aquela postura passiva-agressiva rancorosa, lutando mais e mais agressivamente por benefícios estatais, de preferência à ascensão social no mercado de trabalho. Afinal, pra que chegar a pertencer a esta merda de classe média, tão vilipendiada por todos.
A classe média, naturalmente, desenvolve um misto de niilismo e disposição cínica para embarcar em qualquer esquema de rent-seeking que lhe garanta a ascensão à classe privilegiada dos ricos com acesso a subsídios e engenharia tributária. E é claro que o que ela mais odeia é pagar imposto, que, no caso dela, é mesmo fazer o papel completo de otário - paga e não recebe.
Os ricos, por sua vez, sabem que uma sociedade desta só pode caminhar na direção de um Estado cada vez mais gordo, não por incremento de funções, mas sim pelo caixa crescente para satisfazer a todas as clientelas. Os ricos vêem que vale a mais a pena seguir o caminho do rent-seeking do que do profit-seeking
No Blog do Alon, ele escreveu um destes típicos comentários sobre o movimento Cansei (que acho uma bosta), no qual o escriba afeta neutralidade mas não consegue deixar de passar a hostilidade de rigueur à classe média. Eu tentei comentar lá mas não consegui. Então vou jogar aqui estar mal-traçadas, sem maiores caprichos no texto, e só mesmo para não deixar passar o atual mote da masturbação sociológica sem eu dar o meu pitaco. Segue:
Em social-democracias maduras, o sujeito que banca a alta carga tributária se sente como participante de um grande esquema de seguro. Se eu tiver uma doença caríssima, se eu ficar inválido, se tudo der errado na minha vida e eu ficar dependente do Estado, ou, inversamente, se tudo der certo e eu tiver acesso às melhores vagas nas universidades mais difíceis, eu usarei mais intensamente aqueles serviços estatais que todos nós bancamos.
O cara contribui muito, não necessariamente vai se beneficiar de tudo, mas ele sabe que está lidando com um jogo de probabilidades, e que coletivamente vale a pena aquela sociedade ser acolhedora para os que se deram mal ou tiveram oportunidades especiais (que podem eventualmente incluí-lo).
Num país como o Brasil, vale este socialismo sanguessuga que você descreveu acima, Alon. Os ricos e influentes têm acesso aos subsídios do Estado e à engenharia tributária, os pobres têm as bolsas, e a classe média paga a conta e leva muito pouco: não usa a saúde e a educação pública (com exceção da Universidade gratuita, que ela tem que disputar com os ricos de verdade super bem preparados), e têm péssimas segurança, estradas, aeroportos e serviços públicos em geral.
É claro que isto é uma receita para envenenar de cinismo a democracia.
Os pobres tendem a desenvolver aquela postura passiva-agressiva rancorosa, lutando mais e mais agressivamente por benefícios estatais, de preferência à ascensão social no mercado de trabalho. Afinal, pra que chegar a pertencer a esta merda de classe média, tão vilipendiada por todos.
A classe média, naturalmente, desenvolve um misto de niilismo e disposição cínica para embarcar em qualquer esquema de rent-seeking que lhe garanta a ascensão à classe privilegiada dos ricos com acesso a subsídios e engenharia tributária. E é claro que o que ela mais odeia é pagar imposto, que, no caso dela, é mesmo fazer o papel completo de otário - paga e não recebe.
Os ricos, por sua vez, sabem que uma sociedade desta só pode caminhar na direção de um Estado cada vez mais gordo, não por incremento de funções, mas sim pelo caixa crescente para satisfazer a todas as clientelas. Os ricos vêem que vale a mais a pena seguir o caminho do rent-seeking do que do profit-seeking
agosto 05, 2007
Ode à preguiça

O pintor ideal para o especialista preguiçoso
Eu fui ontem ao All of jazz. Cheguei relativamente cedo, e súbito tive uma revelação. O meu desejo juvenil de tocar bateria nunca poderia se realizar, mesmo se eu tivesse talento musical. Quando entrei no bar, o baterista montava o seu instrumento. Fiquei com preguiça apenas de observá-lo. É verdade: eu não poderia tocar bateria simplesmente porque a minha monumental preguiça me impediria de transportá-la, montá-la antes de cada show e depois desmontá-la. Pior ainda é com o vibrafone: a cada show de André Juarez, eu me admiro não apenas com a sua música, mas também com sua disposição para colocar em pé o instrumento.
A minha preguiça não se restringe ao esforço físico. Eu já planejei escrever um bildungsroman caudaloso, de pelo menos 700 páginas, mas só de pensar no projeto eu sinto um cansaço enorme. Será que eu posso transformar a idéia num conto de três páginas? Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou.
Mas os meus projetos literários não são sempre prejudicados pela preguiça. Os meus 3,5 leitores não precisam ficar temerosos: planejo há tempos um livro que terá como protagonista o sujeito mais preguiçoso do mundo. A mera menção de uma obra como A volta ao mundo em 80 dias lhe causará vertigens. Apreciador da história de arte, será um apaixonado pela pintura holandesa do século 17. No momento em que tiver de escolher entre Rembrandt e Vermeer como tema de sua tese de doutorado, não titubeará. Menos por gosto do que por preguiça, vai ficar com o segundo. Vermeer, além de grande pintor, tem um grande vantagem em relação a Rembrandt: pintou apenas trinta e poucos quadros. Se tudo seguir como o planejado, em 2020 ele estará nas livrarias.
Por tudo isso, leitor, aprecie cada post meu, se não com admiração, pelo menos com respeito: você acaba te der uma idéia de quanto me custa escrevê-lo. Dorival Caymmi é o meu pastor, e leseira não me faltará

O pintor ideal para o especialista preguiçoso
Eu fui ontem ao All of jazz. Cheguei relativamente cedo, e súbito tive uma revelação. O meu desejo juvenil de tocar bateria nunca poderia se realizar, mesmo se eu tivesse talento musical. Quando entrei no bar, o baterista montava o seu instrumento. Fiquei com preguiça apenas de observá-lo. É verdade: eu não poderia tocar bateria simplesmente porque a minha monumental preguiça me impediria de transportá-la, montá-la antes de cada show e depois desmontá-la. Pior ainda é com o vibrafone: a cada show de André Juarez, eu me admiro não apenas com a sua música, mas também com sua disposição para colocar em pé o instrumento.
A minha preguiça não se restringe ao esforço físico. Eu já planejei escrever um bildungsroman caudaloso, de pelo menos 700 páginas, mas só de pensar no projeto eu sinto um cansaço enorme. Será que eu posso transformar a idéia num conto de três páginas? Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou.
Mas os meus projetos literários não são sempre prejudicados pela preguiça. Os meus 3,5 leitores não precisam ficar temerosos: planejo há tempos um livro que terá como protagonista o sujeito mais preguiçoso do mundo. A mera menção de uma obra como A volta ao mundo em 80 dias lhe causará vertigens. Apreciador da história de arte, será um apaixonado pela pintura holandesa do século 17. No momento em que tiver de escolher entre Rembrandt e Vermeer como tema de sua tese de doutorado, não titubeará. Menos por gosto do que por preguiça, vai ficar com o segundo. Vermeer, além de grande pintor, tem um grande vantagem em relação a Rembrandt: pintou apenas trinta e poucos quadros. Se tudo seguir como o planejado, em 2020 ele estará nas livrarias.
Por tudo isso, leitor, aprecie cada post meu, se não com admiração, pelo menos com respeito: você acaba te der uma idéia de quanto me custa escrevê-lo. Dorival Caymmi é o meu pastor, e leseira não me faltará
agosto 04, 2007
No cinema

Desde Platão, nunca se ouviu diálogos como estes
Vocês conhecem alguém bastante comum e solitário, vivendo melancolicamente seus encontros e desencontros numa metrópole fria e impessoal, onde as relações humanas se esgarçaram irremediavelmente? Bem, às vezes eu acho que isto não existe, que é uma invenção de ficcionistas, mas se vocês conhecem alguém assim façam-me o favor de mandar o mané tomar ali bem no meu meio do seu grande cu, antes que eu me esqueça. E podem dizer que foi o Arranhaponte quem mandou.
Ontem eu fui ver Medos privados em lugares públicos, último filme do Alain Resnais, e já saí do filme fervilhando de idéias para um post.
É interessante como o diretor ambienta o filme num lugar bonito e romântico (Paris), aí escolhe sets inteiramente desprovidos de qualquer charme e ainda assim, com sacadas elegantes de filmagem, consegue em alguns momentos extrair beleza da feiúra non-descript dos cenários. Por que esta opção?
Bem, no fundo eu acho que é porque pessoas comuns e solitárias supostamente vivem seus encontros e desencontros em ambientes feios e e sem qualquer gosto. Controlando engulhos, eu acrescentaria que é preciso despir a realidade de todo o falso brilho para turista e achar novas e verdadeiras pérolas de beleza no cotidiano comum das pessoas reais que vivem seus pequenos e desglamourizados dramas.
Só que é ruim de achar lugares realmente feios em Paris, pelo menos na parte central. Eu acho mais realista que parisienses ordinários desincumbam-se do seu dia a dia sem graça em ambientes relativamente charmosos, por uma pura questão de probabilidade. Em outras palavras, seria mais autêntico rodar este filme em Osasco.

Desde Platão, nunca se ouviu diálogos como estes
Vocês conhecem alguém bastante comum e solitário, vivendo melancolicamente seus encontros e desencontros numa metrópole fria e impessoal, onde as relações humanas se esgarçaram irremediavelmente? Bem, às vezes eu acho que isto não existe, que é uma invenção de ficcionistas, mas se vocês conhecem alguém assim façam-me o favor de mandar o mané tomar ali bem no meu meio do seu grande cu, antes que eu me esqueça. E podem dizer que foi o Arranhaponte quem mandou.
Ontem eu fui ver Medos privados em lugares públicos, último filme do Alain Resnais, e já saí do filme fervilhando de idéias para um post.
É interessante como o diretor ambienta o filme num lugar bonito e romântico (Paris), aí escolhe sets inteiramente desprovidos de qualquer charme e ainda assim, com sacadas elegantes de filmagem, consegue em alguns momentos extrair beleza da feiúra non-descript dos cenários. Por que esta opção?
Bem, no fundo eu acho que é porque pessoas comuns e solitárias supostamente vivem seus encontros e desencontros em ambientes feios e e sem qualquer gosto. Controlando engulhos, eu acrescentaria que é preciso despir a realidade de todo o falso brilho para turista e achar novas e verdadeiras pérolas de beleza no cotidiano comum das pessoas reais que vivem seus pequenos e desglamourizados dramas.
Só que é ruim de achar lugares realmente feios em Paris, pelo menos na parte central. Eu acho mais realista que parisienses ordinários desincumbam-se do seu dia a dia sem graça em ambientes relativamente charmosos, por uma pura questão de probabilidade. Em outras palavras, seria mais autêntico rodar este filme em Osasco.
Mas talvez seja mesmo importante ressaltar, por meio dos cenários, o quão comuns e desprovidas de qualquer appeal são aquelas vidas, com exceção de uma bizarrice ou outra (pra quem achar graça naquele tipo de bizarrice). E é aí que entra em questão o primeiro statement deste post. Legal, estas vidas são um saco, mas que tenho eu a ver com isso? Ah, mas é importante que a arte retrate a vida real do homem comum. Bem, para além do meu ceticismo quanto à veracidade da existência do homem comum, há o problema de que ele é muito chato. Em um momento de pretensão, eu diria que filmes como Medos privados em lugares públicos colocam em xeque a possibilidade de que a arte trate do homem comum. Pedras, por favor, pedras. E caprichem na mira.
E, finalmente, há os diálogos. E aqui eu fico na dúvida de verdade. Os diálogos de Medos privados em lugares públicos são uma das mais acabadas coleções de lugares-comuns, platitudes, frases truncadas e receitas de auto-ajuda que eu tenho ouvido nos últimos tempos. De vez em quando, uma bizarrice ou outra, como aquela em que um personagem faz uma espécie de comparação entre uma fita de vídeo, que pode ser apagada e regravada, e a vida. Ora dirão, se vamos fazer um filme sobre o homem comum, o dever do realismo impõe que os diálogos sejam banais. Correto, mas eu remeto de novo à conclusão tentativa do parágrafo acima. Agora, quanto à dúvida. Será que o diretor que nos impinge durante duas horas esta torrente de mediocridade verbal está rindo sorrateiramente das nossas expressões incomodadas de que “tem alguma intenção inteligente aqui, mas eu não consigo captar”? Será uma grande ironia desagradável, para desconstruir em nós espectadores a própria imagem do cineasta cabeça que alimentamos em relação a Resnais? Eu já vi o Arnaldo Jabor descrever em estado de êxtase uma performance glauberiana em que este grudou um melecão num microfone de um jornalista estrangeiro. A revolução toma os caminhos mais inesperados.
Esta é a minha estréia como crítico de cinema, e provavelmente o meu fim de carreira. Sinto que serei demitido
PS 1: Antes que me inscrevam à revelia em algum clube de detestadores de filme-cabeça devo dizer que já gostei muito de vários, até iranianos. E tem pelo menos um filme sobre pessoas comuns e solitárias, vivendo melancolicamente seus encontros e desencontros numa metrópole fria e impessoal, onde as relações humanas se esgarçaram irremediavelmente, que eu adorei: o Felicidade, de Todd Solonz.
PS 2: Na mesma sessão em que assisti a Medos privados em lugares públicos fui agredido por dois trailers de documentários nacional-populistas, aparentemente empapados da típica mistura de desleixo, auto-complacência e renúncia de antemão a qualquer originalidade – um sobre as raízes da Maria Bethânia e o outro sobre a saga dos três irmãos hemofílicos, Betinho, Henfil e o músico. Pensei com meus botões: será um ataque final do inimigo?



Bem, eu não queria fazer mais um post para comentar as bobagens econômicas que o Alon fala, investido do conhecimento profundo de quem já participou de reuniões com banqueiros quando trabalhava no UOL. Mas não dá para deixar passar em branco. Olhem só o que ele escreveu:
Ah, sim, tem também o argumento de que se o negócio era previsivelmente tão bom teria aparecido no leilão da Vale um monte de gente disposta a fazer um negócio não necessariamente tão bom assim, mas ainda bom, o que teria elevado o preço da ação. Se você acredita nisso, se você acredita que um leilão dessa magnitude rege-se pelas "leis do mercado", então você entende mesmo de capitalismo. Do capitalismo de ouvir falar.
Isso é mitologia esquerdista na sua pureza primordial. O Alon diz que um leilão não se rege pelas leis de mercado se for grande. Ele não explica por que, é claro, só insinua que o incauto provavelmente é um ingênuo (afinal, ele não esteve em reuniões com banqueiros, como o Alon) se não percebe o porquê.
Não há nenhuma razão pela qual um leilão grande deixe de ser regido pelas leis de mercado. Você pode leiloar uma laranja, a Mona Lisa ou a Microsoft, e você terá um leilão pelas leis do mercado.
A única insinuação a ser extraída do raciocínio do Alon é que o governo FHC propositalmente fez um leilão fajuto, de cartas marcadas, para voluntariamente perder bilhões de arrecadação com a venda da Vale (olha a lógica cristalina, um governo querendo perder arrecadação), provavelmente para receber uns trocados por fora.
A ingenuidade do Alon (se ingenuidade for) é imaginar que todos os tubarões do mundo que tinham interesse na Vale iam deixar impunemente que um leilão fosse realizado por 1/10 do valor sem que eles pudessem participar.
Enfim, é a velha lenga-lenga da esquerda de insistir que mercado não existe, ou melhor, só existe se for para leiloar um negócio bem pequenininho, digamos uma gravura do Di Cavalcanti. Na verdade, é que nem aquela posição do cara de esquerda que é a favor da privatização em princípio, mas contra todas as privatizações já realizadas desde que o mundo é mundo. Então mercado existe, a não ser em todos os casos possíveis e imagináveis em que ele disser que é um jogo de cartas marcadas (e ele sempre dirá quando isto for interessante à "causa")
Bem, mas para quem presta homenagem a Stálin, o besteirol sobre a Vale é até lucro