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No Blog do Alon, ele escreveu um destes típicos comentários sobre o movimento Cansei (que acho uma bosta), no qual o escriba afeta neutralidade mas não consegue deixar de passar a hostilidade de rigueur à classe média. Eu tentei comentar lá mas não consegui. Então vou jogar aqui estar mal-traçadas, sem maiores caprichos no texto, e só mesmo para não deixar passar o atual mote da masturbação sociológica sem eu dar o meu pitaco. Segue:
Em social-democracias maduras, o sujeito que banca a alta carga tributária se sente como participante de um grande esquema de seguro. Se eu tiver uma doença caríssima, se eu ficar inválido, se tudo der errado na minha vida e eu ficar dependente do Estado, ou, inversamente, se tudo der certo e eu tiver acesso às melhores vagas nas universidades mais difíceis, eu usarei mais intensamente aqueles serviços estatais que todos nós bancamos.
O cara contribui muito, não necessariamente vai se beneficiar de tudo, mas ele sabe que está lidando com um jogo de probabilidades, e que coletivamente vale a pena aquela sociedade ser acolhedora para os que se deram mal ou tiveram oportunidades especiais (que podem eventualmente incluí-lo).
Num país como o Brasil, vale este socialismo sanguessuga que você descreveu acima, Alon. Os ricos e influentes têm acesso aos subsídios do Estado e à engenharia tributária, os pobres têm as bolsas, e a classe média paga a conta e leva muito pouco: não usa a saúde e a educação pública (com exceção da Universidade gratuita, que ela tem que disputar com os ricos de verdade super bem preparados), e têm péssimas segurança, estradas, aeroportos e serviços públicos em geral.
É claro que isto é uma receita para envenenar de cinismo a democracia.
Os pobres tendem a desenvolver aquela postura passiva-agressiva rancorosa, lutando mais e mais agressivamente por benefícios estatais, de preferência à ascensão social no mercado de trabalho. Afinal, pra que chegar a pertencer a esta merda de classe média, tão vilipendiada por todos.
A classe média, naturalmente, desenvolve um misto de niilismo e disposição cínica para embarcar em qualquer esquema de rent-seeking que lhe garanta a ascensão à classe privilegiada dos ricos com acesso a subsídios e engenharia tributária. E é claro que o que ela mais odeia é pagar imposto, que, no caso dela, é mesmo fazer o papel completo de otário - paga e não recebe.
Os ricos, por sua vez, sabem que uma sociedade desta só pode caminhar na direção de um Estado cada vez mais gordo, não por incremento de funções, mas sim pelo caixa crescente para satisfazer a todas as clientelas. Os ricos vêem que vale a mais a pena seguir o caminho do rent-seeking do que do profit-seeking


