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O Gilberto Braga da literatura brasileira
Tales Ab’ Saber é um dos novos intelectuais brasileiros de plantão. O sujeito está na Folha quase toda semana. Pelo que eu percebo, Ab’ Saber fala sobre qualquer coisa, de unha encravada ao neoconservadorismo da era Bush. Eu ia escrever um post sobre ele há duas semanas, quando o Mais! publicou uma entrevista a respeito do documentário que ele e Rubens Rewald fizeram sobre Telê Santana. O cabra é bom. Ele me lembrou alguns professores da ECA que só falavam merda, vomitando lugares comuns com a convicção de que eram geniais.
Dou alguns exemplos. Ao ser perguntado se o futebol é um esporte homofóbico, o psicanalista Ab’ Saber diz: “Do mesmo modo que o esporte é sublimação da agressividade humana direta na esfera da linguagem do corpo - e o futebol contém em si, transmutada como um objeto-sonho, a história da batalha épica e da vitória difícil e desejada na guerra-, me parece evidente que o futebol é também um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano. (...) Como o futebol pode degenerar rapidamente em pancadaria - porque em sua origem ele é violência transformada em jogo, civilização -, ele também tem que expulsar constantemente o homossexual de si, porque ele é o amor dos homens pelos homens, transformado em jogo e em razão eficaz e estética na forma do gol”.
Quer dizer que o o futebol “é o amor dos homens pelos homens”, “um campo sublimado da homossexualidade masculina, um destino cultural específico do aspecto bissexual do humano”? Um jogo, meu caro Ab’ Saber, é muitas vezes apenas um jogo. A viadagem me parece estar nos olhos de quem vê.
Outro trecho brilhante, mas cuja genialidade se deve em grande parte ao entrevistador, é o seguinte:
FOLHA - Por que, em contraste com os campeonatos de futebol masculinos, o futebol feminino no Brasil é, institucionalmente, um fracasso, mesmo a seleção nacional sendo uma das melhores do mundo. Você acha que, devido ao erro que cometeu, a bandeirinha Ana Paula Oliveira tenha sido "empurrada" para as funções a que o imaginário coletivo associa à imagem da mulher, ao aceitar posar nua para uma revista masculina?
AB' SABER - Acho que é isso. De boa fé, Ana Paula desejou ser uma mulher no forte mundo homoerótico dos homens. Ela não era homossexual, não desejava ser homem. Quando entrava em campo, como mulher, para fazer a função abstrata do trabalho de auxiliar, punha em risco a estrutura do pacto inconsciente do grande grupo dos homens -que amam um Pelé, que amam um Raí e um Romário, entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória. O grande grupo masculino só podia concebê-la como mulher no lugar em que ela terminou [na capa da revista "Playboy"], no lugar social objetificado das mulheres. O futebol segue não-contaminado, as mulheres seguem controladas. Creio que esse é também o problema do lugar difícil do futebol feminino entre nós.
Como se vê, é só merda. Para Ab’ Saber, Pelé, Raí e Romário não são craques, mas “entidades eróticas disfarçadas e elevadas à eficácia racional do gol e da vitória”. Ana Paula Oliveira posou nua não porque resolveu ganhar uma grana mostrando a xereca, mas porque os homens que gostam de futebol só podiam concebê-la no “lugar social objetificado das mulheres”.
Mas Ab’ Saber joga nas 11. Ontem, ele apareceu na Ilustrada falando sobre Gilberto Braga, o autor de Paraíso Tropical, uma das piores novelas de todos os tempos. Ab’ Saber afirma que “Braga é o ‘grande inventor moderno’ da novela, levando-o ‘até o limite extremo da sua forma’” – na cabeça do sujeito, provavelmente uma espécie de James Joyce. Mostrando que tem senso de proporção, ele compara “o salto qualitativo atingido pelo autor em Vale Tudo com o nível atingido por Machado de Assis em suas obras de maturidade”.E ele vai além: "Não foi por acaso, portanto, que ele deu o seu próprio salto mortal, como ocorreu com Machado de Assis cem anos antes no registro da alta literatura". Segundo ele, em "Vale Tudo", Gilberto Braga "passa a olhar o Brasil do ponto de vista radical de uma elite beneficiária da vida nacional estagnada, que opera com liberdade cínica e violência sistemática a sua relação com uma classe média ambígua ao extremo em relação à ordem de exploração e ao descompromisso do grande dinheiro por aqui".
É isso aí. O sujeito acha que dá para comparar Gilberto Braga e Machado de Assis. Quem disse que não há vida intelectual no Brasil?


