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No cinema

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Desde Platão, nunca se ouviu diálogos como estes


Vocês conhecem alguém bastante comum e solitário, vivendo melancolicamente seus encontros e desencontros numa metrópole fria e impessoal, onde as relações humanas se esgarçaram irremediavelmente? Bem, às vezes eu acho que isto não existe, que é uma invenção de ficcionistas, mas se vocês conhecem alguém assim façam-me o favor de mandar o mané tomar ali bem no meu meio do seu grande cu, antes que eu me esqueça. E podem dizer que foi o Arranhaponte quem mandou.

Ontem eu fui ver Medos privados em lugares públicos, último filme do Alain Resnais, e já saí do filme fervilhando de idéias para um post.

É interessante como o diretor ambienta o filme num lugar bonito e romântico (Paris), aí escolhe sets inteiramente desprovidos de qualquer charme e ainda assim, com sacadas elegantes de filmagem, consegue em alguns momentos extrair beleza da feiúra non-descript dos cenários. Por que esta opção?

Bem, no fundo eu acho que é porque pessoas comuns e solitárias supostamente vivem seus encontros e desencontros em ambientes feios e e sem qualquer gosto. Controlando engulhos, eu acrescentaria que é preciso despir a realidade de todo o falso brilho para turista e achar novas e verdadeiras pérolas de beleza no cotidiano comum das pessoas reais que vivem seus pequenos e desglamourizados dramas.

Só que é ruim de achar lugares realmente feios em Paris, pelo menos na parte central. Eu acho mais realista que parisienses ordinários desincumbam-se do seu dia a dia sem graça em ambientes relativamente charmosos, por uma pura questão de probabilidade. Em outras palavras, seria mais autêntico rodar este filme em Osasco.


Mas talvez seja mesmo importante ressaltar, por meio dos cenários, o quão comuns e desprovidas de qualquer appeal são aquelas vidas, com exceção de uma bizarrice ou outra (pra quem achar graça naquele tipo de bizarrice). E é aí que entra em questão o primeiro statement deste post. Legal, estas vidas são um saco, mas que tenho eu a ver com isso? Ah, mas é importante que a arte retrate a vida real do homem comum. Bem, para além do meu ceticismo quanto à veracidade da existência do homem comum, há o problema de que ele é muito chato. Em um momento de pretensão, eu diria que filmes como Medos privados em lugares públicos colocam em xeque a possibilidade de que a arte trate do homem comum. Pedras, por favor, pedras. E caprichem na mira.

E, finalmente, há os diálogos. E aqui eu fico na dúvida de verdade. Os diálogos de Medos privados em lugares públicos são uma das mais acabadas coleções de lugares-comuns, platitudes, frases truncadas e receitas de auto-ajuda que eu tenho ouvido nos últimos tempos. De vez em quando, uma bizarrice ou outra, como aquela em que um personagem faz uma espécie de comparação entre uma fita de vídeo, que pode ser apagada e regravada, e a vida. Ora dirão, se vamos fazer um filme sobre o homem comum, o dever do realismo impõe que os diálogos sejam banais. Correto, mas eu remeto de novo à conclusão tentativa do parágrafo acima. Agora, quanto à dúvida. Será que o diretor que nos impinge durante duas horas esta torrente de mediocridade verbal está rindo sorrateiramente das nossas expressões incomodadas de que “tem alguma intenção inteligente aqui, mas eu não consigo captar”? Será uma grande ironia desagradável, para desconstruir em nós espectadores a própria imagem do cineasta cabeça que alimentamos em relação a Resnais? Eu já vi o Arnaldo Jabor descrever em estado de êxtase uma performance glauberiana em que este grudou um melecão num microfone de um jornalista estrangeiro. A revolução toma os caminhos mais inesperados.

Esta é a minha estréia como crítico de cinema, e provavelmente o meu fim de carreira. Sinto que serei demitido

PS 1: Antes que me inscrevam à revelia em algum clube de detestadores de filme-cabeça devo dizer que já gostei muito de vários, até iranianos. E tem pelo menos um filme sobre pessoas comuns e solitárias, vivendo melancolicamente seus encontros e desencontros numa metrópole fria e impessoal, onde as relações humanas se esgarçaram irremediavelmente, que eu adorei: o Felicidade, de Todd Solonz.

PS 2: Na mesma sessão em que assisti a Medos privados em lugares públicos fui agredido por dois trailers de documentários nacional-populistas, aparentemente empapados da típica mistura de desleixo, auto-complacência e renúncia de antemão a qualquer originalidade – um sobre as raízes da Maria Bethânia e o outro sobre a saga dos três irmãos hemofílicos, Betinho, Henfil e o músico. Pensei com meus botões: será um ataque final do inimigo?



F. Arranhaponte at 01:56 PM | Comentários (1)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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