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O pintor ideal para o especialista preguiçoso
Eu fui ontem ao All of jazz. Cheguei relativamente cedo, e súbito tive uma revelação. O meu desejo juvenil de tocar bateria nunca poderia se realizar, mesmo se eu tivesse talento musical. Quando entrei no bar, o baterista montava o seu instrumento. Fiquei com preguiça apenas de observá-lo. É verdade: eu não poderia tocar bateria simplesmente porque a minha monumental preguiça me impediria de transportá-la, montá-la antes de cada show e depois desmontá-la. Pior ainda é com o vibrafone: a cada show de André Juarez, eu me admiro não apenas com a sua música, mas também com sua disposição para colocar em pé o instrumento.
A minha preguiça não se restringe ao esforço físico. Eu já planejei escrever um bildungsroman caudaloso, de pelo menos 700 páginas, mas só de pensar no projeto eu sinto um cansaço enorme. Será que eu posso transformar a idéia num conto de três páginas? Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou.
Mas os meus projetos literários não são sempre prejudicados pela preguiça. Os meus 3,5 leitores não precisam ficar temerosos: planejo há tempos um livro que terá como protagonista o sujeito mais preguiçoso do mundo. A mera menção de uma obra como A volta ao mundo em 80 dias lhe causará vertigens. Apreciador da história de arte, será um apaixonado pela pintura holandesa do século 17. No momento em que tiver de escolher entre Rembrandt e Vermeer como tema de sua tese de doutorado, não titubeará. Menos por gosto do que por preguiça, vai ficar com o segundo. Vermeer, além de grande pintor, tem um grande vantagem em relação a Rembrandt: pintou apenas trinta e poucos quadros. Se tudo seguir como o planejado, em 2020 ele estará nas livrarias.
Por tudo isso, leitor, aprecie cada post meu, se não com admiração, pelo menos com respeito: você acaba te der uma idéia de quanto me custa escrevê-lo. Dorival Caymmi é o meu pastor, e leseira não me faltará


