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Ruim com Ele, pior sem Ele

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Uma mão que faz falta


Eu sou um agnóstico que tende ao ateísmo em momentos deprê, e uma coisa que eu não consigo entender é a volúpia triunfalista de ateus como Richard Dawkins na defesa da não-existência de Deus. Eu acho que é preciso separar duas coisas nisso aí. Em primeiro lugar, a escrotidão das grandes religiões. Longe de mim querer aqui entrar num debate sobre se as grandes religiões são liquidamente escrotas ou não. Eu prefiro, for sake of the argument, supor que sejam. E, neste caso, eu entendo a fúria de um Dawkins contra o obscurantismo religioso que tantos males causou à humanidade e blá-blá-blá. Só que discutir a existência ou não de Deus, ou a existência ou não da vida após a morte, nada tem a ver com combater as escrotidões religiosas. Eu posso ser o inimigo número um das práticas religiosas tradicionais e ainda assim acreditar em Deus, ou na vida após a morte. E é aí que entra o que realmente estou querendo dizer. Me parece estranho alguém defender entusiasticamente que nada mais existe além da nossa vida terrena, e que daqui a 110 anos estarão extintas as subjetividades de todos nós, com seus amores, terrores, êxtases e as pequenas bobagens que são peculiarmente comoventes. Me parece um puta pensamento deprimente, ainda que seja verdade. É o tipo da situação em que, caso eu tivesse certeza de que é isso mesmo, ficaria caladinho, para não estragar o prazer dos outros em achar que há algum tipo de eternidade que justifica tudo o que está rolando. Me lembro de quando minha filha, aos dois anos de idade, fez um dos comentários mais pungentes que eu ouvi em toda a minha vida: “Papai, eu sei o que é morte, a gente vai para o Céu, fica um pouco lá e depois volta”. Eu jamais vou dizer que não é nada disso, nem mesmo quando ela tiver 50 anos

P.S: Um esclarecimento a posteriori: quando escrevi "daqui a 110 anos etc" quis me referir ao tempo necessário para que praticamente todos os seres humanos vivos agora estejam mortos. E é este fato que descrevi como "estarão extintas as subjetividades de todos nós". Ficou confuso, mas o mais grave é eu ter constatado, ao fazer este PS, que eu tinha escrito "daqui há 110 anos". Lept lept (som do látego descendo sobre minhas próprias costas)



F. Arranhaponte at 12:59 PM | Comentários (8)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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