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setembro 30, 2007
A repressão é um humanismo
setembro 29, 2007
Turva reflexão num sábado nublado
As coisas quase sempre são mais sincréticas do que a nossa capacidade de pensá-las sincreticamente. Olhe no microscópio, e qualquer coisa está borrada com seu contrário e com mais uma porrada de coisinhas que não tinham nada que estar lá. A gente sai falando e defendendo um monte de coisas e sabe que não é bem assim, porque nunca é bem assim. Nada é bem assim. É um puta clichê, talvez o mais antigo, mas fora a morte, não há certezas. Isto é, fora a morte... e os impostos. Só nos resta, portanto, por puro heroísmo, combater a CPMF. Mas não vai dar certo
As coisas quase sempre são mais sincréticas do que a nossa capacidade de pensá-las sincreticamente. Olhe no microscópio, e qualquer coisa está borrada com seu contrário e com mais uma porrada de coisinhas que não tinham nada que estar lá. A gente sai falando e defendendo um monte de coisas e sabe que não é bem assim, porque nunca é bem assim. Nada é bem assim. É um puta clichê, talvez o mais antigo, mas fora a morte, não há certezas. Isto é, fora a morte... e os impostos. Só nos resta, portanto, por puro heroísmo, combater a CPMF. Mas não vai dar certo
setembro 28, 2007
Quão trouxas somos?
De um site de notícias financeiras:
14:50 MANTEGA: GOVERNO ADMITE DISCUTIR REDUÇÃO DA CPMF, MAS APÓS PRORROGAÇÃO
Ou seja:
RAPOSA ADMITE DISCUTIR DEVORAÇÃO DAS GALINHAS, MAS SÓ APÓS INVASÃO DO GALINHEIRO
De um site de notícias financeiras:
14:50 MANTEGA: GOVERNO ADMITE DISCUTIR REDUÇÃO DA CPMF, MAS APÓS PRORROGAÇÃO
Ou seja:
RAPOSA ADMITE DISCUTIR DEVORAÇÃO DAS GALINHAS, MAS SÓ APÓS INVASÃO DO GALINHEIRO
setembro 27, 2007
Indigência vocabular
Talvez seja um efeito colateral do envelhecimento, eu não sei direito. A questão é que eu tenho me incomodado cada vez mais com a pobreza vocabular da brava gente brasileira. A quantidade de gírias e expressões pobres aumenta numa velocidade exponencial. A indigência no uso da inculta e bela ataca não apenas o pessoal que tem o nível educacional do Lula. Muito sujeito que fez faculdade se expressa como se fosse garrafeiro. O gerundismo deixou, há muito tempo, de ser privilégio daqueles que trabalham com telemarketing.
Há algumas expressões que eu odeio especialmente: “véi”, por exemplo. O “tá ligado?”, usado no fim de cada frase, também é horrendo. E o que falar de “carai”? Eu também não suporto “caraca” – sorry, cariocas. “Sussa”, utilizado por gente de vinte e poucos anos que sabe comer com garfo e faca, dói nos meus ouvidos. Há cada vez mais gente que não consegue dizer uma frase se não a começar por “tipo”, ou "tipo assim". Outros usam "cê sabe" a torto e a direito.
Num futuro breve, ou seja, daqui a uns 15 minutos, o vocabulário médio do brasileiro se restringirá a 15 palavras
Talvez seja um efeito colateral do envelhecimento, eu não sei direito. A questão é que eu tenho me incomodado cada vez mais com a pobreza vocabular da brava gente brasileira. A quantidade de gírias e expressões pobres aumenta numa velocidade exponencial. A indigência no uso da inculta e bela ataca não apenas o pessoal que tem o nível educacional do Lula. Muito sujeito que fez faculdade se expressa como se fosse garrafeiro. O gerundismo deixou, há muito tempo, de ser privilégio daqueles que trabalham com telemarketing.
Há algumas expressões que eu odeio especialmente: “véi”, por exemplo. O “tá ligado?”, usado no fim de cada frase, também é horrendo. E o que falar de “carai”? Eu também não suporto “caraca” – sorry, cariocas. “Sussa”, utilizado por gente de vinte e poucos anos que sabe comer com garfo e faca, dói nos meus ouvidos. Há cada vez mais gente que não consegue dizer uma frase se não a começar por “tipo”, ou "tipo assim". Outros usam "cê sabe" a torto e a direito.
Num futuro breve, ou seja, daqui a uns 15 minutos, o vocabulário médio do brasileiro se restringirá a 15 palavras
setembro 24, 2007
A incrível e triste história do bom genocida e de seu fã desalmado
Defensores de genocidas me causam horror, mas também me provocam uma espécie de curiosidade mórbida. É por causa dessa combinação que eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. No momento,o meu fã de genocida preferido é o Alon. Na discussão sobre os livros didáticos do professor Mário Schmidt, ele produziu um dos argumentos mais divertidos que eu li: Schmidt pecou, mas por incluir em sua obra algumas críticas a Stálin e Mao. Alon ficou invocado:
“Eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente "progressistas". Virou moda nos últimos tempos o sujeito atacar personagens históricos relacionados à luta pelo socialismo para tirar uma espécie de alvará. "Eu sou legalzinho, vejam como eu ataco Stálin e Mao Tsetung. Como eu sou bonzinho, vocês não deveriam me criticar quando eu defendo que o socialismo é bacana."”
Alon não precisa de alvará. Ele não se preocupa em ser legalzinho. Os cerca de 90 milhões de mortos que podem ser pendurados na conta de Stálin e Mao não lhe interessam. “Entre erros e acertos, as experiências socialistas na Europa e na Ásia significaram e significam grandes avanços para a humanidade”, diz Alon.
Neste post, ele deixa claro mais uma vez que a perda de vidas humanas não é um assunto que lhe interessa, atacando Schmidt de novo porque o seu livro contém críticas à União Soviética. Alon lança mão de um estudo do Stanley Fischer para defender a pujança econômica da URSS nos anos 30, quando a produção industrial crescia mais de 10% ao ano. O curioso é que, no próprio trecho que ele escolheu, há uma referência explícita a milhões de mortes causadas pela política de coletivização agrícola compulsória:
“The consequences of collectivization were devastating. Millions died in the famine of 1933. (...) At the same time, industrial output was increasing by more than 10 per cent a year.”
No post, Alon ressalta que a produção industrial crescia mais de 10% ao ano, e silencia sobre as milhões de pessoas que morreram na coletivização. Mas por que eu me espanto? Ele não é legalzinho. Não vai perder tempo com detalhes.
Mais à frente, Alon dá a entender que a União Soviética fez o que o fez por falta de opção: “Certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram "maus".
É verdade. Stálin foi um sujeito mal compreendido. Era um cara batuta, que só fez o que fez forçado pelas circunstâncias históricas. Milhões de vidas se perderam, mas o que fazer? Sem esses contratempos, tudo indica que a União Soviética não teria se tornado uma potência industrial, o que, de acordo com o Alon, foi fundamental “para impedir que o país desaparecesse como nação independente” e pudesse resistir ao nazismo.
Esse argumento, aliás, me intriga. Todo mundo sabe da importância que a União Soviética teve na derrota do nazismo na Segunda Guerra. Mas e o pacto de não agressão entre Hitler e Stálin, que permitiu ao sujeito de bigodinho ridículo deitar e rolar na Europa por um bom tempo, sem ter que se preocupar muito com os soviéticos?
Isso, porém, é secundário na minha argumentação. O que me deixa horrorizado é a facilidade com que o Alon ignora milhões de mortos. Eu tenho horror a genocidas, de direita ou de esquerda. Para gente como o Alon, isso é bobagem. Há genocidas bons e genocidas maus. Basta que o assassino tenha apoiado a causa "certa"
Defensores de genocidas me causam horror, mas também me provocam uma espécie de curiosidade mórbida. É por causa dessa combinação que eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. No momento,o meu fã de genocida preferido é o Alon. Na discussão sobre os livros didáticos do professor Mário Schmidt, ele produziu um dos argumentos mais divertidos que eu li: Schmidt pecou, mas por incluir em sua obra algumas críticas a Stálin e Mao. Alon ficou invocado:
“Eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente "progressistas". Virou moda nos últimos tempos o sujeito atacar personagens históricos relacionados à luta pelo socialismo para tirar uma espécie de alvará. "Eu sou legalzinho, vejam como eu ataco Stálin e Mao Tsetung. Como eu sou bonzinho, vocês não deveriam me criticar quando eu defendo que o socialismo é bacana."”
Alon não precisa de alvará. Ele não se preocupa em ser legalzinho. Os cerca de 90 milhões de mortos que podem ser pendurados na conta de Stálin e Mao não lhe interessam. “Entre erros e acertos, as experiências socialistas na Europa e na Ásia significaram e significam grandes avanços para a humanidade”, diz Alon.
Neste post, ele deixa claro mais uma vez que a perda de vidas humanas não é um assunto que lhe interessa, atacando Schmidt de novo porque o seu livro contém críticas à União Soviética. Alon lança mão de um estudo do Stanley Fischer para defender a pujança econômica da URSS nos anos 30, quando a produção industrial crescia mais de 10% ao ano. O curioso é que, no próprio trecho que ele escolheu, há uma referência explícita a milhões de mortes causadas pela política de coletivização agrícola compulsória:
“The consequences of collectivization were devastating. Millions died in the famine of 1933. (...) At the same time, industrial output was increasing by more than 10 per cent a year.”
No post, Alon ressalta que a produção industrial crescia mais de 10% ao ano, e silencia sobre as milhões de pessoas que morreram na coletivização. Mas por que eu me espanto? Ele não é legalzinho. Não vai perder tempo com detalhes.
Mais à frente, Alon dá a entender que a União Soviética fez o que o fez por falta de opção: “Certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram "maus".
É verdade. Stálin foi um sujeito mal compreendido. Era um cara batuta, que só fez o que fez forçado pelas circunstâncias históricas. Milhões de vidas se perderam, mas o que fazer? Sem esses contratempos, tudo indica que a União Soviética não teria se tornado uma potência industrial, o que, de acordo com o Alon, foi fundamental “para impedir que o país desaparecesse como nação independente” e pudesse resistir ao nazismo.
Esse argumento, aliás, me intriga. Todo mundo sabe da importância que a União Soviética teve na derrota do nazismo na Segunda Guerra. Mas e o pacto de não agressão entre Hitler e Stálin, que permitiu ao sujeito de bigodinho ridículo deitar e rolar na Europa por um bom tempo, sem ter que se preocupar muito com os soviéticos?
Isso, porém, é secundário na minha argumentação. O que me deixa horrorizado é a facilidade com que o Alon ignora milhões de mortos. Eu tenho horror a genocidas, de direita ou de esquerda. Para gente como o Alon, isso é bobagem. Há genocidas bons e genocidas maus. Basta que o assassino tenha apoiado a causa "certa"
setembro 22, 2007
A grave questão dos livros didáticos II
Eu tentei, mas não consegui resistir a escrever alguma coisa sobre o livro Nova História Crítica – 8.ª Série, de Mário Schmidt, o Edward Gibbon brasileiro. O assunto tomou conta da mídia conservadora (e golpista) e dos blogs de esquerda, de direita e de centro nos últimos dias. Depois de muito ler e refletir, eu decidi que acho o seguinte sobre o tema:
O livro é obviamente um lixo. Além de tratar Mao como estadista e descrever dos motivos do fim da União Soviética de modo enviesado, equivocado e pobre, entre outros absurdos, a obra é muito, muito, muito mal escrita. Vejam este trecho sobre o Mao: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.” A complexidade estilística é parecida com às redações sobre as férias que eu escrevia quando tinha sete anos (pensando bem, eu escrevia melhor do que isso aos sete anos).
Mas Schimidt reservou o melhor de si para o livro Nova História Crítica do Brasil. Será difícil, até para ele mesmo, conseguir superar a já célebre frase sobre a princesa Isabel: "Diziam que ele era feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”. Pelo que eu li por aí, há uma corrente de escritores de livros didáticos que considera fundamental escrever numa linguagem pedestre. Como a maior parte dos adolescentes tem um vocabulário básico de 34 palavras, das quais metade são monossílabos e interjeições, então o negócio é escrever como debilóide. Eu sempre achei o contrário. Debilidade não se combate com mais debilidade.
É sério: qual é a dificuldade de gente de esquerda classificar de lixo uma obra que contém frases como essas? Alguém com um mínimo de bom senso acha que esse conteúdo e essa forma são apropriados para um livro didático? Dizer que o livro não serve nem para limpar a bunda não é virar olavete. Concordar em parte com o que diz o Reinaldo Azevedo não transforma ninguém num vendido para a direita hidrófoba.
Isso não quer dizer que eu leve a sério a conversa de lavagem cerebral ou de busca gramsciana pela hegemonia cultural, que estaria sendo empreendida pela esquerda, de modo silencioso, desde muito antes do governo Lula. Acho que o caso revela muito mais o descaso com que é tratada a Educação no país. O Ministério da Educação deveria ter um controle mais rigoroso sobre os livos que distribui, ainda que ele seja demandado por milhões de professores. Obras mal escritas, com uma visão de mundo simplista e distorcida, não deveriam receber o que é um tipo de chancela do Ministério da Educação. É claro que qualquer livro didático tem a obrigação de ser menos enviesado e doutrinário e muito mais bem escrito do que os de Schmidt. Mesmo assim, não acho que obras como essas vão construir uma multidão de socialistas acríticos nos próximos anos. A realidade é muito mais complexa do que isso, e os livros didáticos de Schmidt não são a única fonte de informação a que os alunos estão expostos. Ainda bem.
Com este texto, eu procurei fazer o que propôs o André Kenji neste post: uma discussão equilibrada sobre o assunto. Pode ser algo entediante para se fazer num blog, mas me pareceu algo necessário.
PS: Eu dedico este texto ao Jorge Nobre. Quem quiser entender por que basta ler este post dele
Eu tentei, mas não consegui resistir a escrever alguma coisa sobre o livro Nova História Crítica – 8.ª Série, de Mário Schmidt, o Edward Gibbon brasileiro. O assunto tomou conta da mídia conservadora (e golpista) e dos blogs de esquerda, de direita e de centro nos últimos dias. Depois de muito ler e refletir, eu decidi que acho o seguinte sobre o tema:
O livro é obviamente um lixo. Além de tratar Mao como estadista e descrever dos motivos do fim da União Soviética de modo enviesado, equivocado e pobre, entre outros absurdos, a obra é muito, muito, muito mal escrita. Vejam este trecho sobre o Mao: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.” A complexidade estilística é parecida com às redações sobre as férias que eu escrevia quando tinha sete anos (pensando bem, eu escrevia melhor do que isso aos sete anos).
Mas Schimidt reservou o melhor de si para o livro Nova História Crítica do Brasil. Será difícil, até para ele mesmo, conseguir superar a já célebre frase sobre a princesa Isabel: "Diziam que ele era feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”. Pelo que eu li por aí, há uma corrente de escritores de livros didáticos que considera fundamental escrever numa linguagem pedestre. Como a maior parte dos adolescentes tem um vocabulário básico de 34 palavras, das quais metade são monossílabos e interjeições, então o negócio é escrever como debilóide. Eu sempre achei o contrário. Debilidade não se combate com mais debilidade.
É sério: qual é a dificuldade de gente de esquerda classificar de lixo uma obra que contém frases como essas? Alguém com um mínimo de bom senso acha que esse conteúdo e essa forma são apropriados para um livro didático? Dizer que o livro não serve nem para limpar a bunda não é virar olavete. Concordar em parte com o que diz o Reinaldo Azevedo não transforma ninguém num vendido para a direita hidrófoba.
Isso não quer dizer que eu leve a sério a conversa de lavagem cerebral ou de busca gramsciana pela hegemonia cultural, que estaria sendo empreendida pela esquerda, de modo silencioso, desde muito antes do governo Lula. Acho que o caso revela muito mais o descaso com que é tratada a Educação no país. O Ministério da Educação deveria ter um controle mais rigoroso sobre os livos que distribui, ainda que ele seja demandado por milhões de professores. Obras mal escritas, com uma visão de mundo simplista e distorcida, não deveriam receber o que é um tipo de chancela do Ministério da Educação. É claro que qualquer livro didático tem a obrigação de ser menos enviesado e doutrinário e muito mais bem escrito do que os de Schmidt. Mesmo assim, não acho que obras como essas vão construir uma multidão de socialistas acríticos nos próximos anos. A realidade é muito mais complexa do que isso, e os livros didáticos de Schmidt não são a única fonte de informação a que os alunos estão expostos. Ainda bem.
Com este texto, eu procurei fazer o que propôs o André Kenji neste post: uma discussão equilibrada sobre o assunto. Pode ser algo entediante para se fazer num blog, mas me pareceu algo necessário.
PS: Eu dedico este texto ao Jorge Nobre. Quem quiser entender por que basta ler este post dele
setembro 20, 2007
A grave questão dos livros didáticos
E mostrando no angélico semblante
Co'o riso uma tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
E se torna entre alegre magoada,
Desta arte a Deusa a quem nenhuma iguala,
Mais mimosa que triste, ao Padre fala:
E mostrando no angélico semblante
Co'o riso uma tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
E se torna entre alegre magoada,
Desta arte a Deusa a quem nenhuma iguala,
Mais mimosa que triste, ao Padre fala:
Vou usar o método do Estadão. Quando pintar bloqueio postístico ou preguiça, trechos de Os Lusíadas. Eu queria escrever um longo post sobre a questão dos livros didáticos com doutrinação marxista de baixíssimo nível, em que eu iria misturar, juro, Arábia Saudita, Olavo de Carvalho, FHC, o inevitável e já de todo inagüentável Gramsci, Hugo Chávez, Carl Schmitt, Chitãozinho e Xororó, China e mais uma porrada de ingredientes. Mas aí bateu um torpor cósmico, kármico, quase que como um sinal divino de que ESTE ASSUNTO É A MAIOR ROUBADA.
Porque no fundo é o seguinte. Todo mundo no Brasil é de esquerda, com exceção de meia dúzia de blogueiros (tá, e mais uma centenas de comentadores de blogues). Então tá tudo dominado. A doutrinação vai continuar a comer solta. O que me resta é evitar a doutrinação das minhas filhas, e prepará-las para viver num ambiente em que todo mundo só pensa merda em termos políticos, só vota em políticos de merda, mas que, no mais, é mais ou menos igual a toda parte.
Eu tô achando que vale mais a pena me adaptar à hegemonia gramsciana do que escrever um post sobre o caso dos livros didáticos. Boa noite
setembro 19, 2007
Apelo à nação

A BBB da terceira idade
Para acabar com o bom mocismo do brasileiro e com a sua tendência de achar que tudo é divino maravilhoso, eu convoco os leitores deste blog a participar do movimento Pau no Cu da Dona Canô, o PCDC. Eu não agüento mais as reportagens enaltecendo os 100 anos da velhinha. Ok, parabéns, Dona Canô. Que a senhora viva mais 200 anos.
A questão é que o seu aniversário não me interessa. A senhora é famosa apenas por ser mãe de gente famosa. É uma BBB da terceira idade. Nunca disse nada inteligente, e ainda apoiou ACM a vida inteira. É uma velhinha fofinha, mas e daí? Eu não quero saber o que a senhora fez, faz ou vai fazer.
O brasileiro é sabidamente um povinho bunda. Grandes campanhas não nos interessam. Grandes temas apenas nos entediam. Uma cruzada mais modesta, como combater o culto a Dona Canô, talvez seja do que o Brasil precisa para sair do marasmo em que se encontra há mais de 500 anos
PS: Este texto foi escrito depois que eu li este post da Sarah. Ela também não entende por que Dona Canô é tão famosa, embora tenha uma visão mais benigna da velhinha. Mas nunca é tarde para mudar de idéia

A BBB da terceira idade
Para acabar com o bom mocismo do brasileiro e com a sua tendência de achar que tudo é divino maravilhoso, eu convoco os leitores deste blog a participar do movimento Pau no Cu da Dona Canô, o PCDC. Eu não agüento mais as reportagens enaltecendo os 100 anos da velhinha. Ok, parabéns, Dona Canô. Que a senhora viva mais 200 anos.
A questão é que o seu aniversário não me interessa. A senhora é famosa apenas por ser mãe de gente famosa. É uma BBB da terceira idade. Nunca disse nada inteligente, e ainda apoiou ACM a vida inteira. É uma velhinha fofinha, mas e daí? Eu não quero saber o que a senhora fez, faz ou vai fazer.
O brasileiro é sabidamente um povinho bunda. Grandes campanhas não nos interessam. Grandes temas apenas nos entediam. Uma cruzada mais modesta, como combater o culto a Dona Canô, talvez seja do que o Brasil precisa para sair do marasmo em que se encontra há mais de 500 anos
PS: Este texto foi escrito depois que eu li este post da Sarah. Ela também não entende por que Dona Canô é tão famosa, embora tenha uma visão mais benigna da velhinha. Mas nunca é tarde para mudar de idéia
setembro 13, 2007
Interatividade e o efeito Cafu
Cantor do Araketu joga bola em Itajubá. O meu gato tem olhos bicolores. Sete de setembro empolga Quixeramobim. Como me transformei na Siri do Ceará. Informações importantes, não? Todas elas constam da página VC no G1. O leitor manda notícias, fotos e vídeos e o G1 os divulga.
São as maravilhas da interatividade. É a velha crença de que as pessoas têm coisas interessantes para contar. Mas pode acreditar: não têm. A maior parte das pessoas é desinteressante e tem vida desinteressante, cujos pontos altos são ver o cantor do Araketu jogando bola ou assistir à parada no dia da pátria. Para quem mora em Itajubá ou Quixeramobim, é provável que a participação do cantor do Araketu numa pelada ou o desfile de sete de setembro sejam de fato o máximo de excitação, mas mesmo assim eu me admiro com a necessidade que os neguinhos têm de compartilhar essas experiências.
A minha turma da faculdade apelidou essa compulsão de efeito Cafu, por causa de um amigo de um amigo nosso. Num momento em que o jogador ainda não tinha sido nem campeão do mundo pelo São Paulo, o sujeito contava, todo feliz: “Eu fui para Mongaguá no fim de semana e o Cafu estava lá. Bom, na verdade eu não vi, mas me disseram que ele estava”
Cantor do Araketu joga bola em Itajubá. O meu gato tem olhos bicolores. Sete de setembro empolga Quixeramobim. Como me transformei na Siri do Ceará. Informações importantes, não? Todas elas constam da página VC no G1. O leitor manda notícias, fotos e vídeos e o G1 os divulga.
São as maravilhas da interatividade. É a velha crença de que as pessoas têm coisas interessantes para contar. Mas pode acreditar: não têm. A maior parte das pessoas é desinteressante e tem vida desinteressante, cujos pontos altos são ver o cantor do Araketu jogando bola ou assistir à parada no dia da pátria. Para quem mora em Itajubá ou Quixeramobim, é provável que a participação do cantor do Araketu numa pelada ou o desfile de sete de setembro sejam de fato o máximo de excitação, mas mesmo assim eu me admiro com a necessidade que os neguinhos têm de compartilhar essas experiências.
A minha turma da faculdade apelidou essa compulsão de efeito Cafu, por causa de um amigo de um amigo nosso. Num momento em que o jogador ainda não tinha sido nem campeão do mundo pelo São Paulo, o sujeito contava, todo feliz: “Eu fui para Mongaguá no fim de semana e o Cafu estava lá. Bom, na verdade eu não vi, mas me disseram que ele estava”
setembro 12, 2007
O Bem avançou
E vejam por quê
PS: Se eu quisesse fazer uma caricatura de argumentação grotesca, não conseguiria ir tão longe. E olha que dá até para defender a idéia sem chafurdar desse jeito (o que não quer dizer que eu concorde com este último aí, é claro)
E vejam por quê
PS: Se eu quisesse fazer uma caricatura de argumentação grotesca, não conseguiria ir tão longe. E olha que dá até para defender a idéia sem chafurdar desse jeito (o que não quer dizer que eu concorde com este último aí, é claro)
setembro 11, 2007
Refutabilidade

Anne Brontë antecipa Popper
It would have given him no little consolation to have known how disappointed she was to find him apparently so little moved, and to see that he was able to refrain from casting a single glance at her throughout both the services; though, she declared, it showed that he was thinking of her all the time, or his eyes would have fallen upon her, if it were only by chance: but if they had so chanced to fall, she would have affirmed it was because they could not resist the attraction.
Agnes Grey

Anne Brontë antecipa Popper
It would have given him no little consolation to have known how disappointed she was to find him apparently so little moved, and to see that he was able to refrain from casting a single glance at her throughout both the services; though, she declared, it showed that he was thinking of her all the time, or his eyes would have fallen upon her, if it were only by chance: but if they had so chanced to fall, she would have affirmed it was because they could not resist the attraction.
Agnes Grey
setembro 10, 2007
O seqüestro do nacionalismo

O discreto patriotismo da burguesia
Em 16 de fevereiro de 1996, Mário Henrique Simonsen recebeu a Ordem do Mérito Científico das mãos do então ministro da Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas, numa cerimônia na própria Fundação Getúlio Vargas, no Rio, onde o economista comandava a Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE). No dia seguinte, Simonsen foi internado no Hospital Procardíaco, depois de uma queda de pressão e de um princípio de desmaio.
A Ordem do Mérito foi o ato inicial do seu último ano de vida, já que ele faleceria em 9 de fevereiro de 1997, depois de longas internações que não puderam evitar o declínio terminal da sua já precária saúde. Eu citei a Ordem do Mérito, e não a primeira internação, porque as duas coisas têm tudo a ver, como me contou um professor da Fundação e pupilo de Simonsen. De acordo com o seu testemunho, Simonsen se emocionou muito com a condecoração, e aquilo foi a gota d’água que deu início à deterioração final.
Estou contando isto porque, desde que ouvi esta história, nunca deixei de matutar sobre o fato de que uma condecoração oficial – isto é, o reconhecimento pela, digamos, Pátria, aos serviços prestados – pudesse emocionar tanto um sujeito hiper-racional, cosmopolita e cético – eu diria até cínico – em relação às grandezas e às promessas do Brasil.

O discreto patriotismo da burguesia
Em 16 de fevereiro de 1996, Mário Henrique Simonsen recebeu a Ordem do Mérito Científico das mãos do então ministro da Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas, numa cerimônia na própria Fundação Getúlio Vargas, no Rio, onde o economista comandava a Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE). No dia seguinte, Simonsen foi internado no Hospital Procardíaco, depois de uma queda de pressão e de um princípio de desmaio.
A Ordem do Mérito foi o ato inicial do seu último ano de vida, já que ele faleceria em 9 de fevereiro de 1997, depois de longas internações que não puderam evitar o declínio terminal da sua já precária saúde. Eu citei a Ordem do Mérito, e não a primeira internação, porque as duas coisas têm tudo a ver, como me contou um professor da Fundação e pupilo de Simonsen. De acordo com o seu testemunho, Simonsen se emocionou muito com a condecoração, e aquilo foi a gota d’água que deu início à deterioração final.
Estou contando isto porque, desde que ouvi esta história, nunca deixei de matutar sobre o fato de que uma condecoração oficial – isto é, o reconhecimento pela, digamos, Pátria, aos serviços prestados – pudesse emocionar tanto um sujeito hiper-racional, cosmopolita e cético – eu diria até cínico – em relação às grandezas e às promessas do Brasil.
Simonsen era da estirpe de um Eugênio Gudin e de um Roberto Campos, que ririam com escárnio de 99% das festejadas celebrações do destino manifesto brasileiro de representar alguma coisa de grande e importante para a história da humanidade, aquela síndrome megalomaníaca bi-polar de sentimento de superioridade espezinhada e vingativa/inferioridade rancorosa e reclamona, que perpassa nossa intelectualidade desde a era Vargas.
Com a sua potente racionalidade, ele não achava que o Brasil fosse nada de mais nem nada de menos no campo do seu saber específico, que era a economia, e certamente não comungava do entusiasmo ufanista em relação ao nosso potencial cultural e artístico (o nosso social-realismo, com seus auto-proclamados “gênios”, os Niemeyeres e Portinaris da vida), preferindo se gratificar nas horas de lazer com música clássica, xadrez e divagações intelectuais inteiramente alheias à especificidade brasileira.
E, no entanto, Simonsen morreu, de certa forma, de amor à Pátria (refiro-me especificamente ao episódio descrito no início do texto). Eu volto e meia penso que o verdadeiro patriotismo é amar a Pátria independentemente de quaisquer méritos que ela tenha. É um sentimento moral de filiação ao lugar onde se nasceu, que as pessoas com nobreza de espírito exercem incondicionalmente com discreta e permanente diligência, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para melhorar aquele pedaço de território (ou idéia de pedaço de território) com aquele conjunto de pessoas, de onde o destino caprichosamente resolveu fazer a história pessoal de cada um brotar. Você pode ter nascido nos Estados Unidos ou em qualquer fim-de-mundo minúsculo e poeirento, onde alguma minoria desgraçada luta para não ser dissolvida na máquina de moer carne da história, e o verdadeiro patriotismo é basicamente a mesma coisa, consistindo numa ligação inquebrantável, silenciosa na maior parte das vezes, entre algum nível da sua felicidade e realização pessoal e o bem-estar daquele grupo de pessoas naquele lugar qualquer.
Eu acho que o verdadeiro patriotismo nada tem a ver com o elogio à Pátria, embora, obviamente, uma coisa não impeça a outra. Mas se você precisa achar sua Pátria grande, para ser patriota, então você não é de fato patriota. Me emocionam de verdade certas histórias que de vez em quando eu ouço de algum habitante do mundo rico que passou a infância num país paupérrimo da África ou da Ásia, e que mantém para o resto da vida, mesmo depois do retorno, aquele sentimento de pátria, uma ligação afetiva profunda e absolutamente imune às contingências com aquele lugar perdido, onde ele surgiu da inconsciência dos primórdios da vida para a apreensão humana da realidade – a fidelidade que temos ao que é primevo, a primeira casa, a primeira rua, os primeiros amigos, as primeiras sensações conscientes, as primeiras mini-aventuras existenciais da infância. Existe também a “segunda pátria”, aquele lugar ao qual as contingências da vida levam certas pessoas (raramente é uma escolha “de país”), e no qual também acontece um começo, onde se volta de alguma forma à estaca zero e se experimenta de novo as sensações primordiais do ser individual no contato com a tribo humana.
É esta fidelidade às origens, que não precisa ser celebrativa (e, pelo contrário, dá mais prova de fidelidade quando não é celebrativa), que para mim é o verdadeiro patriotismo, por mais precário, criticável ou mesmo horrível que, no nosso senso crítico de adultos, nos pareça aquele lugar no qual o destino decidiu situar o nosso primeiro (ou um segundo, no caso de imigrantes) encaixe. Este, acho eu, é o tipo de patriotismo que fez o Simonsen se emocionar com uma condecoração a ponto de comprometer definitivamente a sua saúde.
Nesse meu critério, o que às vezes se chama por aí de “elite cosmopolita e anti-nacional”, ou os odiadores profissionais do Brasil, como um Paulo Francis ou um Diogo Mainardi, são tão ou mais patriotas do que um Darcy Ribeiro ou um Gláuber Rocha, os marqueteiros da idéia da transcendental importância do borogodó brasileiro.
A necessidade de se achar o máximo, ou destinado ao máximo, transplantada ao plano coletivo e nacional, nada mais é do que o narcisismo tornado megalomania, ou, talvez ainda pior (na verdade, narcisismo megalomaníaco não parece tão mal), o narcisismo que se frustra no indivíduo e se transfere vicariamente para a tribo.
Mas o que eu queria escrever mesmo neste post, e acabei não fazendo, era sobre o que eu chamo de “seqüestro do nacionalismo” pela esquerda nacional-estatista. Era combater a idéia de que de um Celso Furtado tenha sido uma alma nobre transbordante de generoso sentimento nacional, enquanto um Roberto Campos seria um exemplo acabado de argentário vendilhão da Pátria, um cosmopolita ressequido sem qualquer amor à sua terra e à sua gente. Era combater a idéia de que estatismo e nacionalismo se identificam. Só que isto aqui já ficou longo demais, e acho que o post só tem a perder se eu continuar. Ficou tortuoso, mas acho que talvez tenha conseguido passar a idéia
PS: Sim, eu escrevi dezenas de vezes as palavras patriota e patriotismo sem um pingo de cinismo. Podem mandar me internar
setembro 08, 2007
Dois anos
Parece que foi ontem, mas o Torre de Marfim fez dois anos na segunda-feira. A data quase passou despercebida por nós, mas de repente eu me lembrei de que alguma coisa muito importante tinha ocorrido em setembro de 2005. Aproveitamos a pausa para os comerciais e agradecemos a todos os 3,5 leitores que nos acompanham nesta jornada. Em dois anos, nós já contamos a lenda do negrinho do pastoreio de um outro ponto de vista, atacamos vacas sagradas, denunciamos o preconceito contra a Viviane Araújo, fizemos o balanço definitivo sobre Paulo Francis, enunciamos teorias esdrúxulas, criticamos a intolerância muçulmana, desmascaramos o catastrofismo de Paul Krugman,
dissecamos o modelo chinês, mostramos que a tia Violeta é que estava certa, cantamos as glórias do Acre, fizemos o elogio a Philip Roth, homenageamos Barcelona, trouxemos Swift para a realidade brasileira, pensamos em soluções originais para a Amazônia, divulgamos a obra de Anacleto de Avignon, denunciamos o zuenirismo e também deixamos a esquerda perplexa e a direita indignada
Parece que foi ontem, mas o Torre de Marfim fez dois anos na segunda-feira. A data quase passou despercebida por nós, mas de repente eu me lembrei de que alguma coisa muito importante tinha ocorrido em setembro de 2005. Aproveitamos a pausa para os comerciais e agradecemos a todos os 3,5 leitores que nos acompanham nesta jornada. Em dois anos, nós já contamos a lenda do negrinho do pastoreio de um outro ponto de vista, atacamos vacas sagradas, denunciamos o preconceito contra a Viviane Araújo, fizemos o balanço definitivo sobre Paulo Francis, enunciamos teorias esdrúxulas, criticamos a intolerância muçulmana, desmascaramos o catastrofismo de Paul Krugman,
dissecamos o modelo chinês, mostramos que a tia Violeta é que estava certa, cantamos as glórias do Acre, fizemos o elogio a Philip Roth, homenageamos Barcelona, trouxemos Swift para a realidade brasileira, pensamos em soluções originais para a Amazônia, divulgamos a obra de Anacleto de Avignon, denunciamos o zuenirismo e também deixamos a esquerda perplexa e a direita indignada
setembro 07, 2007
Em nome do pai

Cabeça de crítico de cinema é um dos troços mais indecifráveis do universo, mas se há alguma coisa que fascina a categoria é a relação entre pai e filho. Se houver de algum modo a menção a esse tema, o cineasta pode ficar tranqüilo que a resenha será no mínimo simpática, mesmo se a obra for uma merda. Assisti ontem As leis de família, do argentino Daniel Burman. O filme é razoável, mas está longe de ser brilhante. Em muitos aspectos, é banal. Como trata da relação entre pai e filho, com suas incompreensões e dificuldades de comunicação, a Folha não vacilou e tascou quatro estrelas, a classificação máxima.
Há alguns meses assisti O passageiro, de Flávio R. Tambellini. Para começar, o diretor usa, entre o prenome e o sobrenome, uma inicial abreviada, o que sempre me irritou – é totalmente gratuito, eu sei, mas isso sempre me pareceu meio ridículo. De qualquer modo, não é isso o que realmente importa. A questão é que o filme é fraco. As interpretações são amadoras – o desempenho dos atores adolescentes torna qualquer figurante de Malhação um Laurence Olivier imberbe -, e o roteiro é frouxo. Mas isso não é problema: a relação conturbada entre pai e filho está presente, o que bastou para o filme ganhar críticas positivas.
O sucesso de Central do Brasil se deve em grande parte ao fato de tratar da busca do pai - aliás, de todas as possíveis abordagens da relação entre pai e filho, nenhuma tem mais apelo entre os críticos do que essa. Freud deve explicar. Por tudo isso, cineasta iniciante, se você quer ganhar uma resenha positiva, não deixe de enfiar o assunto em seu filme. É um passaporte para o elogio da crítica

Cabeça de crítico de cinema é um dos troços mais indecifráveis do universo, mas se há alguma coisa que fascina a categoria é a relação entre pai e filho. Se houver de algum modo a menção a esse tema, o cineasta pode ficar tranqüilo que a resenha será no mínimo simpática, mesmo se a obra for uma merda. Assisti ontem As leis de família, do argentino Daniel Burman. O filme é razoável, mas está longe de ser brilhante. Em muitos aspectos, é banal. Como trata da relação entre pai e filho, com suas incompreensões e dificuldades de comunicação, a Folha não vacilou e tascou quatro estrelas, a classificação máxima.
Há alguns meses assisti O passageiro, de Flávio R. Tambellini. Para começar, o diretor usa, entre o prenome e o sobrenome, uma inicial abreviada, o que sempre me irritou – é totalmente gratuito, eu sei, mas isso sempre me pareceu meio ridículo. De qualquer modo, não é isso o que realmente importa. A questão é que o filme é fraco. As interpretações são amadoras – o desempenho dos atores adolescentes torna qualquer figurante de Malhação um Laurence Olivier imberbe -, e o roteiro é frouxo. Mas isso não é problema: a relação conturbada entre pai e filho está presente, o que bastou para o filme ganhar críticas positivas.
O sucesso de Central do Brasil se deve em grande parte ao fato de tratar da busca do pai - aliás, de todas as possíveis abordagens da relação entre pai e filho, nenhuma tem mais apelo entre os críticos do que essa. Freud deve explicar. Por tudo isso, cineasta iniciante, se você quer ganhar uma resenha positiva, não deixe de enfiar o assunto em seu filme. É um passaporte para o elogio da crítica
E não se fala mais nisso
Prometo que não tento mais.
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is not disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved homes went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."
UMA ARTE
A arte de perder não é muito difícil;
tanta coisa intenciona se perder
que perdê-las não é grande sacrifício
Perca algo cada dia. Aceite o suplício
da chave que sumiu, a hora mal usada.
A arte de perder não é muito difícil
Mais longe, mais veloz, como exercício,
perca nomes, lugares e para onde
você iria. Nada disso é sacrifício
Da mãe perdi o relógio – e veja o vício –,
foi-se a última em três casas amadas
A arte de perder não é muito difícil
Duas lindas cidades perdi. E além disso,
alguns reinos, dois rios, um continente
Sinto falta, mas não foi um sacrifício
– Não devo ter mentido, em princípio,
ao perdê-la (a voz gaiata, um gesto amado)
Claro: perder não é arte tão difícill,
mas lembra às vezes (Guarde!) um precipício
Prometo que não tento mais.
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is not disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved homes went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."
UMA ARTE
A arte de perder não é muito difícil;
tanta coisa intenciona se perder
que perdê-las não é grande sacrifício
Perca algo cada dia. Aceite o suplício
da chave que sumiu, a hora mal usada.
A arte de perder não é muito difícil
Mais longe, mais veloz, como exercício,
perca nomes, lugares e para onde
você iria. Nada disso é sacrifício
Da mãe perdi o relógio – e veja o vício –,
foi-se a última em três casas amadas
A arte de perder não é muito difícil
Duas lindas cidades perdi. E além disso,
alguns reinos, dois rios, um continente
Sinto falta, mas não foi um sacrifício
– Não devo ter mentido, em princípio,
ao perdê-la (a voz gaiata, um gesto amado)
Claro: perder não é arte tão difícill,
mas lembra às vezes (Guarde!) um precipício
Feliz dia da Pátria para todos

Aliviando-se, ele liberou um brasil
Gira a roda aleatória. A consciência humana é o olho que olha o olho ("olhar que olha o olhar" seria mais certo, mas fica pretensioso - vamos de olho mesmo). E tem também o olho que olha o olho que olha o olho, o olho que olha o olho que olha o olho que olha o olho, e por aí vai. Uma das possíveis definições de inteligência é o número acumulado de olhos que olham olhos. Agora, a propósito da efeméride em tela, eu diria que o importante é reter no olho que olha o olho que olha etc (pode chamar de mente) que em terra de cego caolho é rei.
E sempre meio a propósito (se esforce, leitor, que você entenderá a minha propositividade), eu venho trabalhando numa grande teoria geral do desenvolvimento humano, em todas as suas dimensões, incluindo aquela mais comentada na mídia, que é a do desenvolvimento sócio-econômico. O meu método científico, porém, é curioso. Nada de dados empíricos, e tampouco qualquer raciocínio lógico a partir das premissas. Na verdade, todo o meu esforço (e bota esforço nisto) consiste em elaborar, over and over, formas mais sublimes e elegantes de enunciar a mesma premissa básica e única. Então aí vai mais uma tentativa:
"Subdesenvolvimento é déficit cognitivo"
Acho que ainda dá para dar umas retocadinhas, mas por enquanto deixo assim mesmo. E, para me divertir um pouco, passo a algumas digressões verbais, sem maior valor científico, e apenas para deleite retórico, upa na premissa básica:
O problema do governo Lula não é déficit fiscal nem em conta corrente, o problema é déficit cognitivo
Hu-hum, não me ocorreu mais nada. Rolou uma parada, tenho que ir. Relaxe e goze o dia da Pátria

Aliviando-se, ele liberou um brasil
Gira a roda aleatória. A consciência humana é o olho que olha o olho ("olhar que olha o olhar" seria mais certo, mas fica pretensioso - vamos de olho mesmo). E tem também o olho que olha o olho que olha o olho, o olho que olha o olho que olha o olho que olha o olho, e por aí vai. Uma das possíveis definições de inteligência é o número acumulado de olhos que olham olhos. Agora, a propósito da efeméride em tela, eu diria que o importante é reter no olho que olha o olho que olha etc (pode chamar de mente) que em terra de cego caolho é rei.
E sempre meio a propósito (se esforce, leitor, que você entenderá a minha propositividade), eu venho trabalhando numa grande teoria geral do desenvolvimento humano, em todas as suas dimensões, incluindo aquela mais comentada na mídia, que é a do desenvolvimento sócio-econômico. O meu método científico, porém, é curioso. Nada de dados empíricos, e tampouco qualquer raciocínio lógico a partir das premissas. Na verdade, todo o meu esforço (e bota esforço nisto) consiste em elaborar, over and over, formas mais sublimes e elegantes de enunciar a mesma premissa básica e única. Então aí vai mais uma tentativa:
"Subdesenvolvimento é déficit cognitivo"
Acho que ainda dá para dar umas retocadinhas, mas por enquanto deixo assim mesmo. E, para me divertir um pouco, passo a algumas digressões verbais, sem maior valor científico, e apenas para deleite retórico, upa na premissa básica:
O problema do governo Lula não é déficit fiscal nem em conta corrente, o problema é déficit cognitivo
Hu-hum, não me ocorreu mais nada. Rolou uma parada, tenho que ir. Relaxe e goze o dia da Pátria
setembro 04, 2007
A poesia no spam
Os e-mails de penis enlargement ficam cada vez mais criativos. Para convencer o pessoal a tentar a esticar o pau, vale tudo. Vejam a frase do último que eu recebi:
With a larger manhood you penetrate more sensitive areas of the woman, WOW
Não é bonito?
PS: Eu fiz este texto para manter o clima poético instaurado pelo Arranhaponte no post abaixo
Os e-mails de penis enlargement ficam cada vez mais criativos. Para convencer o pessoal a tentar a esticar o pau, vale tudo. Vejam a frase do último que eu recebi:
With a larger manhood you penetrate more sensitive areas of the woman, WOW
Não é bonito?
PS: Eu fiz este texto para manter o clima poético instaurado pelo Arranhaponte no post abaixo
setembro 03, 2007
A arte de perder o senso de ridículo
O Hermenauta, num post (não consegui linkar diretamente), contrapôs traduções de "One Art", de Elizabeth Bishop. Sem a mínima condição técnica de fazê-lo, eu decidi perpretar a minha. Tentei discretamente propô-la lá, mas ficou toda desengonçada na caixa de comentários. Como nada me restava a não ser guardar a minha quinquilharia para mim mesmo, e como depois de certa idade certos hormônios que regulam o pudor vão se enfraquecendo, decidi jogá-la aqui mesmo. Não adianta vocês massacrarem porque estou saindo esta madrugada mesmo para uma excursão de três meses ao Círculo Polar Ártico, e não estarei checando (como diz minha secretária) o blog.
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is not disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved homes went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."
As traduções estão depois do "continue lendo"
O Hermenauta, num post (não consegui linkar diretamente), contrapôs traduções de "One Art", de Elizabeth Bishop. Sem a mínima condição técnica de fazê-lo, eu decidi perpretar a minha. Tentei discretamente propô-la lá, mas ficou toda desengonçada na caixa de comentários. Como nada me restava a não ser guardar a minha quinquilharia para mim mesmo, e como depois de certa idade certos hormônios que regulam o pudor vão se enfraquecendo, decidi jogá-la aqui mesmo. Não adianta vocês massacrarem porque estou saindo esta madrugada mesmo para uma excursão de três meses ao Círculo Polar Ártico, e não estarei checando (como diz minha secretária) o blog.
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is not disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved homes went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."
As traduções estão depois do "continue lendo"
A do Paulo Henriques Britto (profissa)
A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério."
A do Neno Baggo (leitor lá do blog do Hermenauta)
Saber perder não é arte improvável;
há tanto do que nasce destinado
a tal fim que a perda resta aceitável.
Perca um tanto a cada dia, seja amável
com chaves perdidas, tempo esbanjado.
Saber perder não é arte improvável.
Tente-as esparsas, de modo incansável:
lugares, e nomes, e o planejado
destino. Sim, tudo é muito aceitável.
De um bem da Mamãe e - mais lastimável -
de três belas casas fui despojado.
Saber perder não é arte improvável.
Duas cidades, lindas. Infindável
reino que tive, dois rios, continente.
Sinto falta, mas é dor suportável.
- Mesmo perdendo-te (teu riso, o gesto
grácil) não terei mentido. É Evidente:
Saber perder não é arte improvável,
embora pareça (Guarde!) indomável."
E a minha (as duas últimas estrofes espicham, e quanto à rima de 'il' com 'el', paciência; hellôou, eu não sei fazer isto)
Bem, já que é pra brincar, uma nova versão (a anterior foi para baixo)
A arte de perder não é difícil;
são tantas coisas que querem se
perder, que perder não é terrível
Perca sempre. Aceite a temível
hora inútil, a chave sumida
A arte de perder não é difícil
Perca já, o mais veloz possível
lugares, nomes, o itinerário
improvável. Nada é tão terrível
Perdi o relógio da mãe, incrível
duas das três casas mais amadas
A arte de perder não é difícil
Perdi duas cidades, tão adoráveis,
alguns vastos reinos, dois rios, continente
Ausentes, eu os sinto, mas suportáveis
- Mesmo ao perdê-la (a voz gaiata, o gesto
adorado), sim, eu fui sincero. Claro que
não, a arte de perder não é assim, difícil,
embora pareça (Tome nota!) um sacrifício
Versão anterior
A arte de perder não é difícil;
são tantas coisas que querem se
perder, que perder não é horrível
Perca sempre. Aceite a temível
hora inútil, a chave sumida
A arte de perder não é difícil
Perca já, o mais veloz possível
lugares, nomes, itinerários
que se perdem. E não é horrível
Perdi o relógio da mãe, incrível
duas das três casas mais amadas
A arte de perder não é difícil
Perdi duas cidades, tão adoráveis,
alguns vastos reinos, dois rios, continente
Ausentes, eu os sinto, mas suportáveis
- Mesmo em perdê-la (a voz gaiata, o gesto
adorado), eu fui sim sincero. Claro que
não, a arte de perder não é assim, difícil,
embora pareça (Tome nota!) um sacrifício
setembro 02, 2007
Do baú aleatório: Caráter

Provado em tempos difíceis
Eu admiro o Joachim Fest, o biógrafo de Hitler, morto no ano passado. Não porque tenha lido muito dele, só li na verdade a tal biografia, e uma ou outra coisa na Internet. Mas a biografia do Hitler é magnífica, e tem uma frase famosa, que eu tentei encontrar outro dia e não consegui. É mais ou menos assim: "Mas nem todos os caminhos do espírito alemão levam a Auschwitz". Isso tem um pouco a cara do Fest, que, na geração dele (nasceu em 1926), foi aquele raro tipo de alemão até a última célula do dedo mindinho do pé no qual a tentação nazista não fez nem cosquinha. É verdade que ele era relativamente jovem, o que torna as coisas um pouco mais fáceis. E, como se verá adiante, ajuda ter o pai certo numa hora dessas.
Recentemente, eu esbarrei com isto aqui, que eu achei muito legal, e que fala das memórias do Fest, e de quebra senta uma porrada no Günter Grass. Segue abaixo o trecho que me provocou uma pequena epifania, na minha tradução sem-vergonha:
Na verdade, este livro é um grande tributo ao pai de Fest – um homem que pode verdadeiramente ser visto com um herói, e que se recusou em quaisquer circunstâncias a fazer qualquer tipo de compromisso com o regime criminoso dos nazistas. Uma noite as crianças entreouviram uma discussão entre seus pais. A mãe de Fest insistia para que o seu pai se tornasse finalmente um membro do Partido Nacional Socialista, para que pudesse arranjar um emprego de novo. “Afinal, as mentiras não são a única arma que as pessoas comuns têm na sua luta contra os poderosos?” O pai de Fest respondeu com grandeza e orgulho: “Nós não somos gente comum, não quando se trata de questões deste tipo”

Provado em tempos difíceis
Eu admiro o Joachim Fest, o biógrafo de Hitler, morto no ano passado. Não porque tenha lido muito dele, só li na verdade a tal biografia, e uma ou outra coisa na Internet. Mas a biografia do Hitler é magnífica, e tem uma frase famosa, que eu tentei encontrar outro dia e não consegui. É mais ou menos assim: "Mas nem todos os caminhos do espírito alemão levam a Auschwitz". Isso tem um pouco a cara do Fest, que, na geração dele (nasceu em 1926), foi aquele raro tipo de alemão até a última célula do dedo mindinho do pé no qual a tentação nazista não fez nem cosquinha. É verdade que ele era relativamente jovem, o que torna as coisas um pouco mais fáceis. E, como se verá adiante, ajuda ter o pai certo numa hora dessas.
Recentemente, eu esbarrei com isto aqui, que eu achei muito legal, e que fala das memórias do Fest, e de quebra senta uma porrada no Günter Grass. Segue abaixo o trecho que me provocou uma pequena epifania, na minha tradução sem-vergonha:
Na verdade, este livro é um grande tributo ao pai de Fest – um homem que pode verdadeiramente ser visto com um herói, e que se recusou em quaisquer circunstâncias a fazer qualquer tipo de compromisso com o regime criminoso dos nazistas. Uma noite as crianças entreouviram uma discussão entre seus pais. A mãe de Fest insistia para que o seu pai se tornasse finalmente um membro do Partido Nacional Socialista, para que pudesse arranjar um emprego de novo. “Afinal, as mentiras não são a única arma que as pessoas comuns têm na sua luta contra os poderosos?” O pai de Fest respondeu com grandeza e orgulho: “Nós não somos gente comum, não quando se trata de questões deste tipo”



É teimosia escrever sobre o caso dos dois meninos assassinados e dos vários abusados sexualmente por Ademir Oliveira do Rosário, mas eu sou teimoso e não desisto nunca. O episódio deixa clara mais uma vez a falência do sistema penal brasileiro - não que isso fosse necessário. O sujeito havia sido condenado por homicídio, roubo e atentado violento ao pudor, tinha problemas mentais e mesmo assim ganhou o direito de sair do hospital psiquiátrico para visitar a família nos fins de semana. A irmã de Rosário disse que ele não tem condições de ficar solto, mas dois psiquiatras avaliaram que a desinternação progressiva dele era possível e uma juíza autorizou esse procedimento.
Graças à crença na capacidade de recuperar quem é irrecuperável, o sistema penal brasileiro destruiu a vida de várias pessoas. Em nome de um pseudo-humanismo sem sentido, bandidos perigosos ou doentes mentais são soltos depois de cumprirem uma parcela irrisória de suas penas. A mídia tem feito bastante barulho sobre caso, mas deveria fazer ainda mais. Como as vítimas são pobres, os esquerdinhas de miolo mole não poderiam dizer que a cobertura intensa se deve ao fato de que os mortos são de classe média. O acusado também não é um menor de idade, o que impede que a discussão se concentre na necessidade ou não de se reduzir a maioridade penal. O caso é de uma clareza cristalina: um sujeito com histórico pesado de violência como Rosário não pode viver em sociedade. Não vai se regenerar. O ser humano é pior do que muita gente pensa.
O essencial é o seguinte: punição é fundamental para reduzir a criminalidade. O Arranhaponte escreveu este post há mais de um ano, e o diagnóstico continua irretocável. Se Rosário não tivesse problemas mentais e estivesse na prisão, e não num hospital psiquiátrico, ele também teria a possibilidade de voltar rapidamente a ameaçar a sociedade. Na prática, o nosso sistema penal considera que homicídio, estupro ou seqüestro são maus passos que qualquer um pode dar. Assassinos, estupradores ou seqüestradores, coitados, não merecem mais do que um tempinho atrás das grades, antes de obterem uma segunda chance. Em países que não são masoquistas, a primeira resposta para crimes como homicídio, estupro ou seqüestro é a punição, e punição dura. Matou? Vai ficar muito tempo em cana, meu amigo. Sem essa de poder sair no fim de semana para visitar a família. Ressocialização, nesses casos, é obviamente algo secundário. Além disso, penas duras, desde que efetivamente cumpridas, têm poder de dissuasão.
Ah, mas as cadeias e os hospitais psiquiátricos são horrendos no Brasil. É verdade. É necessário melhoras condições nos presídios e nas instituições penais para quem tem problemas mentais. Enquanto isso não ocorrer, qual é a opção? Soltar assassinos, estupradores e seqüestradores, sãos ou com problemas mentais, para que tenham uma “segunda chance”? Ah, mas parte da violência se deve à desigualdade de renda no Brasil. Acho que a desigualdade de fato ajuda a explicar a violência. Mas, mais uma vez, enquanto a desigualdade não diminuir, qual é a opção? Passar a mão na cabeça e deixar os criminosos soltos, para que possam voltar a matar, estuprar e seqüestrar?
E que fique claro: sou totalmente contra a pena de morte. Também não apóio idéias sem pé nem cabeça como a castração química de pedófilos. A defesa do combate rigoroso à criminalidade cabe perfeitamente no discurso humanista. A verdadeira barbárie é tornar vítima da sociedade desigual aqueles que, em casos de crimes como assassinato, estupro e seqüestro, são algozes